Arquivo mensais:outubro 2014

Não é só o Brasil

Por Marcelo Zero

As eleições no Brasil terão impacto decisivo nos rumos do país. Afinal, não se trata de uma eleição qualquer. Estão em disputa dois modelos muito distintos.

De um lado, o já velho e fracassado modelo neoliberal, ou mais apropriadamente paleoliberal, que tende a concentrar renda, a erodir as base do nosso incipiente Estado do Bem Estar, a privatizar patrimônio público e a privilegiar os interesses do grande capital, particularmente do capital financeiro desregulado, em detrimento da população. Foi assim no Brasil do PSDB e é assim em muitos países do mundo. Piketty e outros já o demostraram.

De outro lado, o modelo assentado na dinamização do mercado interno de massa, na eliminação da pobreza extrema, na redução das desigualdades e na ampliação das oportunidades, que vem mostrando notável êxito e protegendo a população dos efeitos da pior crise internacional desde 1929.

A depender do modelo escolhido, a situação interna do país sofrerá mudanças profundas. Se voltarmos ao paleoliberalismo e às medidas impopulares, haverá, com toda certeza, regressão social e a fragilização econômica que marcou o Brasil na década de 1990.

Mas as consequências não ficarão restritas ao Brasil. Haverá também consequências para a geopolítica regional e internacional.

Aécio já se comprometeu com a volta da política externa de alinhamento dos interesses do Brasil às potências tradicionais, os EUA, em particular. Seu plano regressivo inclui, entre outras diretrizes, a extinção da união aduaneira do Mercosul, a célere celebração de assimétricos acordos de livre comércio com as grandes potencia econômicas tradicionais e a revisão da cooperação Sul-Sul.

No plano regional, a decisão de extinguir a união aduaneira do Mercosul implica, na realidade, a extinção do bloco. O Mercosul se transformaria, como sempre quiseram os conservadores, em mera área de livre comércio, sem nenhum elemento estratégico e político. Com efeito, a redução do bloco a simples área de livre comércio inviabilizaria não apenas a negociação conjunta de acordos e a coordenação de políticas macroeconômicas, mas também a própria continuidade das instituições supranacionais do Mercosul, como seu Parlamento, e a constituição de um mercado comum com livre circulação de trabalhadores. Todo o esforço, feito pelos governos do PT, de aprofundar a integração e constituir um Mercosul social seria jogado no lixo.

Entretanto, o golpe mortal no Mercosul, afetaria também a Unasul, a Celac e todo o processo de integração da América do Sul e da América Latina. Frise-se que o programa do PSDB sequer cita essas instituições. Sem o Mercosul, que pretende criar um verdadeiro mercado comum na região, esses processos perdem consistência estratégica e tendem a tornar-se meros foros de discussão. A Unasul, em particular, que criou um embrião de uma política de defesa conjunta para América do Sul, perderá sua razão de ser.

Na realidade, a extinção do Mercosul significa a renúncia do Brasil de exercer uma liderança estratégica em sua própria região, deixando esse papel para os EUA, como fora em nosso passado recente. Significa também, implicitamente, a retomada do projeto assimétrico da Alca. Uma Alca que talvez venha a ser constituída por acordos bilaterais atomizados. Os EUA já têm esses acordos com o México, o Chile, a Colômbia e outros países.

Se o Brasil, como quer Aécio, firmar um acordo desse tipo, a tendência é que toda a América Latina ceda também. Teremos então uma Alca bilateralizada, mas não menos danosa aos interesses do Brasil e da região. Com efeito, esses acordos bilaterais contêm as mesmas cláusulas relativas a propriedade intelectual, serviços, compras governamentais, proteção de investimentos estrangeiros, etc., que estavam em negociação na Alca e que inviabilizam qualquer projeto autônomo de desenvolvimento.

Se implementados com os EUA ou com a União Europeia, acordos assimétricos com tais cláusulas chutarão a escada do nosso desenvolvimento. Talvez seja por isso que os porta-vozes do sistema financeiro dos países amis desenvolvidos, como a The Economist, torçam tanto pela vitória do PSDB.

Mas as consequências não ficarão apenas no plano regional.

O Brasil investiu muito, nos últimos 12 anos, na cooperação Sul-Sul, na diversificação de suas parcerias estratégicas e na articulação dos interesses dos países em desenvolvimento em todos os foros internacionais. Os resultados foram muito positivos, no campo econômico e comercial. Nos governos do PSDB, acumulamos um déficit comercial de US$ 8,6 bilhões. No governos do PT, multiplicamos nossas exportações e amealhamos um superávit de US$ 315 bilhões, que foi de grande importância para reverter a vulnerabilidade externa da nossa economia.

Porém, os resultados maiores dessas diretrizes foram políticos e estratégicos. O Brasil é hoje um ator internacional de primeira linha, ouvido com respeito nos foros mundiais, e que contribui ativamente para a constituição de um mundo menos assimétrico e mais afinado com o multilateralismo. Hoje, o Brasil projeta, com assertividade e firmeza muito maiores, seus autênticos interesses no plano internacional.

Essa maior projeção dos interesses nacionais no exterior advém do abandono da subalternidade da política externa anterior e se expressa em várias ações muito significativas, como na recente estruturação de mecanismos financeiros alternativos no âmbito dos BRICS e na articulação dos interesses dos países em desenvolvimento na OMC, instituição antes dominada pelos interesses das nações mais industrializadas.

Dessa forma, a maior projeção dos interesses do Brasil no plano externo tem impacto significativo e positivo na própria geopolítica mundial.

Ora, a volta ao status quo ante proposta por Aécio, a volta da política externa frágil de um país fragilizado, terá também um impacto significativo, porém negativo, na geoestratégia mundial. Os BRICS teriam um parceiro menos afinado com a ideia de um mundo mais equilibrado e mais submetido aos caprichos unilaterais da grande potência mundial. Da mesma forma, a OMC e outros foros mundiais perderiam um parceiro firme em sintonia com a luta por um mundo menos assimétrico e mais afeto ao multilateralismo. A ONU não teria mais uma voz importante que se insurge contra as intervenções unilaterais realizadas à margem do sistema de segurança coletiva e que tanta insegurança trazem ao planeta.

O mundo perderia esse Brasil independente e propositivo que todos aprenderam a respeitar e admirar.

Com a volta da política externa de alinhamento à grande potência mundial, o Brasil e, por consequência, a América do Sul e a América Latina, tenderiam a entrar profundamente, de novo, na órbita estratégica dos EUA, com todas as consequências econômicas, comerciais, políticas e mesmo sociais dessa decisão. A desconcentração do poder mundial sofreria uma reviravolta, os EUA recuperariam seu antigo quintal e nos transformaríamos todos num gigantesco México, país que pagou caro por sua inclusão subalterna à economia e à política dos EUA.

Só a título de ilustração, lembramos que, nos últimos 10 anos, a renda per capita do México cresceu a uma taxa de apenas 1,2% ao ano, um número muito inferior ao de outros países da América Latina, como o Brasil, Colômbia, Peru e Uruguai. Pode-se complementar essa informação com o fato de que, nos primeiros 10 anos deste século, o PIB per capita (PPP) do México cresceu apenas 12%, bem abaixo do que cresceu o do Brasil (28%). Na realidade, o México só superou, nesse cômputo, a frágil Guatemala, o país que menos cresceu em toda a América Latina, com base nesse parâmetro específico.

Assim, com a volta da inserção internacional subalterna, pagaríamos um preço econômico e social alto. O Brasil e sua população tenderiam a ficar mais frágeis, mais dependentes e mais pobres.

Mas não só o Brasil.

Bancada mais conservadora no Congresso poderá barrar reformas reivindicadas pelos movimentos sociais

Por Natália Fonteles | Via Adital

A população brasileira elegeu, no ultimo dia 05 de outubro, os senadores e deputados federais que atuarão no Congresso Nacional a partir de 1º de janeiro de 2015, data do inicio da nova legislatura. Os resultados eleitorais mostram que o número de partidos aumentará de 22 para 28 na Câmara dos Deputados, com nova composição do Congresso Nacional apresentando um aumento significativo de representantes da ala conservadora.

O quadro de candidaturas mostra que o PT (Partido dos Trabalhadores), PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) e PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) possuem as maiores bancadas da Câmara e aponta que os parlamentares conservadores avançaram nessas últimas eleições. A bancada do PSDB, por exemplo, ganhou 11 cadeiras na Câmara dos Deputados, passando de 44 para 55, um crescimento significativo de 25%. Já o PT perdeu 20% dos deputados na bancada, passando de 88 para 70.

Nesse contexto da nova formação de bancadas partidárias, com uma representativa presença conservadora no Congresso, surge um questionamento sobre se o resultado da eleição dos representantes da Câmara e do Senado refletiu ou não as manifestações ocorridas em junho de 2013, movimento popular que saiu às ruas de todo o país para reivindicar uma variada agenda de reformas e demandas sociais. Em entrevista ao programa Expressão Nacional, da TV Câmara, José Antônio Moroni, diretor do Instituto de Estudo Econômicos e Sociais (Inesc), afirma que as manifestações foram válidas, porém, por terem abrangido muitas reivindicações, perderam o foco.

Ele avalia que: “em relação às eleições, parece que junho de 2013 não aconteceu. As manifestações tiveram pouco impacto no processo eleitoral. Isso porque, ou nosso sistema político é tão rígido que é impermeável a qualquer tipo de manifestação popular, ou porque foi um momento conjuntural que não tinha uma agenda política clara e não foi capaz de tensionar o sistema político”.

A maioria dos candidatos que defendiam reformas sociais e democráticas não foi eleita, a bancada está mais conservadora. Dessa forma, Moroni teme que as grandes reformas sejam engessadas mais uma vez e aponta que as mobilizações e pressões populares na política serão ainda mais essenciais para o avanço nas pautas sociais.

Para o cientista político Marco Aurélio Nogueira, também durante o programa de TV, a manutenção de PT, PMDB e PSDB com as maiores bancadas talvez não altere o atual jogo político. “Também é preciso ver qual vai ser o real poder de fogo dessas bancadas específicas e mais conservadoras. Até o fim do atual governo, muitas dessas bancadas conservadoras estiveram na base governista, cuja gestão é considerada progressista. Então, pode ser que essas bancadas flutuem um pouco em função da agenda que o Congresso terá de examinar”, afirmou Nogueira.

Os resultados das eleições podem ainda sofrer alterações, caso candidatos com o registro atualmente negado pela Justiça eleitoral consigam reverter as decisões judiciais.

Confira a lista completa dos eleitos aqui.

Perfil dos eleitos

Cerca de 80% (411 candidatos) dos eleitos neste domingo para deputado federal têm nível superior;

Dos 513 deputados eleitos, apenas cinco (1%) sequer terminaram o ensino fundamental;

Dos eleitos, somente 23 candidatos (4,5%) são considerados jovens, com idade até 29 anos;

No grupo com idade entre 30 e 59 anos, o número sobe para 278 representantes eleitos, correspondendo a 73,5%, o maior índice das faixas etárias;

Acima dos 60 anos, a Câmara receberá 112 parlamentares, correspondendo a 22%;

Nascido em 1930, o deputado mais idoso eleito é Bonifácio de Andrada (PSDB-Minas Gerais). Aos 84 anos, ele vai cumprir o seu nono mandato consecutivo na Câmara. Já o deputado mais jovem será Uldurico Junior (Partido Trabalhista Cristão – PTC _ Bahia), de 22 anos. Agricultor, ele foi o parlamentar eleito com menos votos na Bahia;

De acordo com o registro de ocupações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 44 candidatos são advogados; 42 empresários; e 29 médicos;

Dos eleitos, 198 assumirão pela primeira vez o cargo de deputado. Outros 25, que não participaram da legislatura atual, mas já tiveram mandato em algum momento, retornarão à casa;

Esses 223 deputados correspondem a uma renovação de 43,5%;

Com a reeleição, o deputado Miro Teixeira (Partido Republicado da Ordem Social – Pros – Rio de Janeiro) se tornará, na próxima legislatura (2015-2019), o parlamentar com maior número de mandatos na Câmara, 11 no total. O parlamentar começou a carreira como deputado federal em 1971. Desde então, só deixou de estar no legislativo federal de 1983 a 1987.

O governo acerta na política de preços da Petrobras?

Via Brasil Debate

O governo tem sido duramente criticado por manter o preço da gasolina abaixo das cotações do derivado do petróleo no mercado internacional.

É conhecido o fato de que a Petrobras tem como política estabelecer o preço dos seus produtos de acordo com a tendência de longo prazo dos preços do petróleo e derivados no mercado internacional.

O gráfico abaixo ilustra tal preço (em reais) e o IPA-DI de derivados do petróleo, captando os preços brasileiros.

Dois aspectos são notáveis. O primeiro é que os preços dos derivados no Brasil têm seguido rigorosamente, desde 2003, a tendência do preço (convertido para reais) do petróleo no mercado internacional.

Em alguns momentos, como de julho de 2004 a setembro de 2008, os preços internos cresceram menos do que os preços em real do petróleo, com um breve interregno em meados de 2006.

Isso significa que naquele momento havia defasagem no preço dos combustíveis, ou seja, que a Petrobras deveria cobrar mais caro pela gasolina e demais derivados se quisesse maximizar seu lucro momentâneo.

Em outros, como após a crise de 2008, o preço do combustível não caiu tanto quanto o preço do combustível fóssil no mercado internacional. De fato, de setembro de 2008 até meados de 2013, os preços poderiam ter sido menores se a Petrobras vinculasse os reajustes do combustível aos preços externos.

Como há movimento para os dois lados, de desalinhamento para mais e para menos, o lucro da estatal não é prejudicado no longo prazo, pois os movimentos tendem a se compensar.

O segundo aspecto é que, atuando dessa forma, a empresa consegue reduzir substancialmente a volatilidade dos preços de combustível no País, sem prejudicar seu lucro de longo prazo.

Isso contribui para uma menor variabilidade da taxa de inflação, bem como para a redução das incertezas de setores ligados ao transporte.

De fato, o Valor Econômico do dia 15/10/2014 noticia, na capa do jornal impresso, que a queda recente dos preços do petróleo no mercado internacional (ver gráfico abaixo) puseram fim à defasagem da gasolina. A situação não está mais desfavorável à Petrobras.

Portanto, as recorrentes críticas à defasagem no preço dos derivados do petróleo no Brasil não fazem sentido quando consideramos que a política de preços da Petrobras é de longo prazo.

Tal crítica só se justificaria se observasse que a empresa está se desviando da trajetória de longo prazo dos preços internacionais consistentemente. E não é este o caso.

Bancos públicos impediram país de ir à bancarrota, diz Lula

Via Plantão Brasil

Ex-presidente observa papel ‘extraordinário’ de BB, Caixa e BNDES para equilíbrio do mercado, pós 2008. Para professor da Unicamp, ‘visão estreita’ de proposta de Aécio para o setor é preocupante.

Os candidatos à presidência da República que disputam o segundo turno, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), têm propostas antagônicas para a condução da economia no país. O papel dos bancos públicos é um exemplo. O governo Dilma Rousseff fala em dar continuidade à política de mantê-los como instrumento estrutural da economia e a metas de crescimento do país. Enquanto a redução da importância das instituições financeiras sob controle do Estado é defendida pelo economista Armínio Fraga, porta-voz da área econômica do candidato Aécio Neves.

Em entrevista à edição de outubro da Revista do Brasil, que circula nesta semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou que os governos do PSDB queriam privatizar os bancos. No entanto, destacou que essas instituições foram essenciais no enfrentamento da crise de 2008. “Quando estourou a crise em 2008, numa conversa que tive por telefone com o presidente Obama, comecei a mostrar que seria importante que nos Estados Unidos tivesse um sistema financeiro mais ou menos igual ao nosso, que temos bancos públicos fortes, e temos bancos privados fortes. O Banco do Brasil, a Caixa, o BNDES não deixaram este país entrar na bancarrota. Eles querem acabar com eles. Na nossa visão de Estado, os bancos públicos têm um papel extraordinário de equilíbrio no mercado financeiro”, enfatiza Lula.

Lula se refere a uma declaração recente do “candidato a ministro da Fazenda”, Armínio Fraga, de que “essa área precisa de uma correção de rumo” e que “vai chegar (num eventual governo Aécio) num ponto em que talvez eles (os bancos públicos) não tenham tantas funções. Não sei muito bem o que vai sobrar no final da linha, talvez não muito”, conclui.

As diferenças de desempenho dos bancos mencionados entre os anos de governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e os de Lula e Dilma ilustram essas visões distintas. No último ano de FHC, o volume de crédito movimentado por BB e Caixa chegava a R$ 130 bilhões, com queda de 69% nas operações da Caixa e de 6% nas do BB em relação ao seu primeiro ano de governo. No balanços de 2013, somente os dois maiores bancos públicos somaram pouco mais de R$ 1 trilhão em crédito, tendo o BB aumentado em 499% o seu volume e a Caixa, em 1.157%, em relação ao final do governo FHC. Isso sem comprometer o retorno de dividendos ao seu principal controlador, o Estado: os lucros somados do BB e da Caixa saltaram de R$ 6,7 bilhões em 2002 para R$ 22,5 bilhões em 2013. Todos esses valores são atualizados pelo IPCA do período.

Do sistema

Para o economista André Biancarelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, essa sinalização de Armínio Fraga é preocupante: “Delegar as tarefas do financiamento do desenvolvimento às forças de mercado nunca deu certo no Brasil, nem em lugar nenhum do mundo, desenvolvido ou em desenvolvimento”, alertou, em entrevista a Marilu Cabañas na Rádio Brasil Atual.

O professor afirma que “tanto do ponto de vista do crescimento quanto das transformações que aconteceram na economia brasileira, que são ainda insuficientes, é impossível separar isso da atuação do BNDES, da Caixa Federal, do BB e todos os fundos constitucionais de direcionamento de crédito”.

Biancarelli destaca que sem a exigibilidade de que um percentual dos depósitos em caderneta de poupança, em bancos públicos ou privados, seja destinado ao financiamento da habitação, tendo a Caixa como principal organizadora desse sistema, seria muito difícil pensar em um programa do tamanho do Minha Casa, Minha Vida. Ele assinala, ainda, a importância da atuação dos bancos públicos para o financiamento da agricultura familiar, ao assumir riscos que fogem da lógica do capital privado, situação semelhante no financiamento a longo prazo para grandes obras de infraestrutura.

“É impossível pensar em um programa de infraestrutura, do tamanho que o Brasil precisa, sem a atuação do BNDES. Em todos os exemplos, o caráter público, o caráter não guiado pela lógica de ganho de curto prazo, que é a característica do setor privado, é fundamental”, ressalta.

O professor lembra que os bancos públicos foram importantes na estratégia de redução de juros: “Os bancos privados resistiram e o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal foram utilizados como instrumentos de concorrência de política financeira, e obrigaram os banqueiros a reduzir os juros, à margem de lucratividade.”

André Biancarelli considera Armínio Fraga portador de “qualidades como economista, mas um representante do sistema financeiro privado, não esconde de ninguém. São esses os interesses que ele representa”.

Datafolha: Dilma ultrapassa Aécio pela primeira vez no 2º turno

Via Pragmatismo Político

Dilma Rousseff ultrapassa Aécio Neves pela primeira vez, revela pesquisa Datafolha para a eleição presidencial. A atual presidente tem 52% dos votos válidos, contra 48% do candidato tucano.

O instituto Datafolha divulgou nesta segunda-feira (20) a sua mais nova pesquisa para a disputa do segundo turno da eleição presidencial. De acordo com o levantamento, Dilma Rousseff (PT) aparece com 46% e Aécio Neves (PSDB) tem 43% dos votos totais. Brancos e nulos são 5% e 6% estão indecisos.

Em votos válidos, quando são descartados brancos, nulos e indecisos, Dilma está com 52% e Aécio soma 48%. Em relação ao levantamento anterior, a atual presidente cresceu três pontos percentuais, enquanto o candidato tucano oscilou dois pontos para baixo. O procedimento dos votos válidos é o mesmo utilizado pela Justiça Eleitoral para divulgar o resultado oficial da eleição.

Essa é a primeira vez que a candidata petista aparece à frente do presidenciável tucano em um levantamento do Datafolha neste segundo turno.

REJEIÇÃO

Também pela primeira vez, Aécio Neves aparece na condição de candidato mais rejeitado pelos eleitores. O tucano tem 40% de rejeição, contra 39% de Dilma.

VOTO CERTO

Em relação à taxa de convicção, 45% (eram 42%) afirmam que votariam com certeza em Dilma Rousseff; os eleitores que garantem voto certo em Aécio Neves são 41% (eram 42%).

AVALIAÇÃO DE GOVERNO

O governo Dilma é considerado bom/ótimo por 42%, um crescimento de dois pontos em comparação ao último levantamento. Os que consideram o governo regular são 37% e os que desaprovam são 20%.

O Datafolha ouviu 4.389 eleitores no dias 20 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.

O pré-sal na mira dos apoiadores de Aécio

Via Jornal GGN

Petroleiras Americanas apoiando Aécio Neves, que promete mudar a Lei de Partilha. Vitória de Neves, ganhos da Shell e Halliburton.

A perspectiva de uma mudança de regime no Brasil está fazendo a Petróleo Brasileiro SA (PETR4) o estoque mais valioso de petróleo do mundo. E também está abrindo as portas para empresas estrangeiras explorarem mais as grandes riquezas energética do país.Políticas que deixaram a estatal Petrobras, com 139.000 milhões dólares em dívida e projetos no exterior caros, frearam empresas como a Royal Dutch Shell Plc (RDSA) e Halliburton Co. (HAL) de expandir no país.

O candidato da oposição Aécio Neves prometeleiloar licenças de exploração com mais freqüência, aumentar os preços dos combustíveis e facilitar o processo legal e burocrático para as Petroleiras estrangeiras.Neves, cujo partido PSDB abriu o Petróleo para as Petroleiras estrangeiros no final dos anos 90, surpreendeu os analistas ao ficar em segundo lugar na votação 05 de outubro e forçar um segundo turno eleitoral.Frustração entre as empresas de petróleo e seus investidores com o Presidente Dilma Rousseff , tem crescido desde que assumiu o cargo em 2011. No mês passado, um grupo de lobby do petróleo disse que a indústria enfrenta dificuldades e alguns Petrobras (PBR) fornecedores podem deixar o Brasil.

Neves atacou a administração de Dilma e contratou um consultor da indústria e um funcionário envolvido nas privatizações na década de 1990, para redigir o seu programa de energia.

“Se Neves ganhar, ele vai abrir aos investidores estrangeiros”, disse Robbert van Batenburg, diretor de estratégia de mercado na corretora Newedge EUA LLC, em entrevista por telefone de Nova Iorque:”Essas restrições às importações e barreiras comerciais não nos ajudam. Se ele ganhar, ele vai reverter todas as restrições “- A Atração do PréSal

Neves, ex-governador do estado de Minas Gerais, se comprometeu a fazer mais leilões de direitos de exploração. Ele também está pensando em mudar a legislação que obriga a Petrobras, a maior produtora em águas mais profundas do que 1000 pés, a manter um mínimo de 30 por cento em todos os projetos na região chamada de pré-sal.Rousseff e Neves estão empatados nas pesquisas eleitorais e há menos de duas semanas da eleição em 26 de outubro. As últimas pesquisas mostram que essa corrida presidencial é a mais contestada em mais de uma década.A Petrobras subiu 9,1 por cento desde que Neves ganhou um lugar no segundo turno, enquanto as outras grandes produtoras caíram. Nos últimos quatro anos, o estoque perdeu 32 % de valor em termos de dólares, e teve o pior desempenho entre os principais concorrentes.A exigência de que a Petrobras seja a operadora em cada nova descoberta no pré-sal, uma formação sob uma camada de sal no subsolo marinho, devem ser revistos para estimular a concorrência, Elena Landau, que aconselha Neves em matéria de energia, disse em uma entrevista ontem no Rio de Janeiro, que mudanças precisam da aprovação do Congresso.

-Operadora Única

“Quando você tem a Petrobras como operadora única, você está limitando a capacidade”, disse Landau, que foi apelidada de “Dama de Ferro das Privatizações” pela imprensa brasileira depois de seu envolvimento nas privatizações de empresas públicas durante a década de 1990 no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso . “Isso restringe a concorrência.”Petrobras não quis comentar sobre como uma vitória Neves teria impacto na empresa e da indústria.

As regras existentes no momento maximizam a participação do país no setor, mas também atraem as empresas estrangeiras, disse Aloizio Mercadante, coordenador da campanha de Dilma Rousseff, por e-mail.”Queremos que a Petrobras continue sendo a única operadora, sendo capaz de desenvolver pesquisas altamente científicas e de inovar, e participar de toda a cadeia industrial de gás e petróleo”, disse Mercadante em resposta às perguntas da Bloomberg sobre a área do pré-sal.

-Não Valorizadas

“As empresas estrangeiras não são muito valorizados por este governo, como se elas fossem irrelevante”, disse ela.Dilma mostra que durante a sua administração mais de 500.000 barris por dia na área do pré-sal já estão sendo produzidos, e disse ter protegido os preços de combustível aos consumidores da volatilidade dos mercados internacionais de petróleo. Ela prevê grande lucro que proporcionará o financiamento de programas sociais para reduzir a pobreza na nação mais populosa. da América Latina.A eliminação dos subsídios aos combustíveis que custaram Petrobras pelo menos 60 bilhões de reais no primeiro mandato de Dilma Rousseff aumentariam o lucro da empresa e sua capacidade de comprar bens e serviços de fornecedores como a Halliburton, de acordo com o Instituto Brasileiro de Petróleo, ou IBP, um grupo que faz lobby para a indústria.

-Trabalhadores Perdem

Em meados de 2010, Halliburton Chief Executive Officer David Lesar disse que a receita do Brasil cresceu quase 30 por cento, a empresa investiu em infraestrutura. Em janeiro, ele disse que as empresas de serviços foram “à procura de alívio”, depois que as atividades de perfuração caíram abaixo das expectativas.Halliburton não quis comentar sobre o impacto de uma possível vitória de Neves nas urnas.”Os produtos de classe mundial e serviços convenientes também precisam ser competitivo em preço”, disse vice-presidente da Shell para novos negócios nas Américas Jorge Santos Silva, durante uma conferência de petróleo offshore no mês passado. “Um dos maiores desafios que a indústria enfrenta é como ajudar os fornecedores locais e desenvolver produtos e serviços”, disse ele.A Shell está sempre disposta a trabalhar com representantes do governo em que atua e prefere não comentar sobre eleições, ele disse em uma resposta por e-mail.O Brasil está perdendo trabalhadores qualificados de petróleo para outros países por causa de cancelamentos ou atrasos do projeto, Paulo Cesar Martins, o chefe da associação Abespetro de empresas de serviços offshore de petróleo, disse na mesma conferência.As companhias petrolíferas precisam ter leilões com frequência para manterem a equipe e os investimentos no Brasil, disse ele. O número de sondas de perfuração operados por outras empresas que não são da Petrobras caíram de 17 para 3, em 2010, ele disse.

-Deus é brasileiro

Cardoso, o ex-presidente, quebrou o monopólio da Petrobras na exploração e produção de petróleo em 1997 e criou os primeiros leilões de exploração a serem leiloados sob um modelo de concessão em 1999. O Brasil realizava leilões todo ano, até o ano de 2008.O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que os depósitos maciços eram prova de que “Deus é brasileiro” e decidiu que a Petrobras seria responsável por todos os projetos futuros na região.

Lula suspendeu licenças offshore para manter reservas de petróleo recém-descobertas do Brasil sob o controle do governo por meio da Petrobras, e o Brasil ficou sem oferecer nenhum leilão aberto na área no Présal até 2013.Em 2007, Lula e Dilma, ministra da Energia e depois chefe de gabinete, começou a planejar a legislação para permitir que o governo, por meio da Petrobras, mantivessem o controle do ritmo de desenvolvimento. Sabendo que custaria centenas de bilhões de dólares para desenvolver a região do pré-sal, eles ainda queriam empresas estrangeiras para ajudar a produção de finanças como sócios minoritários, mas sem entregar à eles o poder de definir orçamentos ou decidir onde perfurar.

-Um Líder

A legislação resultante foi algo nunca antes visto na indústria. As empresas petrolíferas são livres para formar consórcios e lances contra a Petrobras. Se eles vencerem, eles precisam convidar o ex-rival para se juntar ao grupo, com uma participação de 30 por cento e conceder-lhe o controle sobre as decisões do dia-a-dia. Nenhuma empresa entrou no leilão contra a Petrobras, quando o Brasil colocou o modelo à prova. Ela leiloou os direitos para produzir a Libra, um campo com valor equivalente as atuais reservas provadas brasileiras, e apenas um grupo liderado pela Petrobras colocou uma oferta.”O Monopólio” do produtor estatal sobre o pré-sal precisa ser revisto, Adriano Pires, o consultor e co-autor do plano de Petróleo de Aécio Neves, que não tem posição na campanha dele, disse em uma entrevista por telefone do Rio.”A Petrobras não pode ser um instrumento de uso político”, disse Pires. “Muita coisa vai ter que mudar.”

Ditadura econômica, o grande tabu das eleições?

Por Guilherme Boulos | Via Outras Palavras

Sem reverter políticas que submetem sociedade às finanças, Brasil permanecerá paralisado. Mas tema não entra em debate, por estranhas razões.

Quem diria! Mal se passaram seis anos da crise em que as políticas neoliberais afundaram o mundo e eles já estão aí com todo o vigor. A aposta na mão invisível do mercado e na desregulamentação das finanças quase levou a maior economia do mundo ao colapso em 2008. Os Estados Unidos, a Europa e a economia mundial pagam o preço até hoje.

Não demorou, porém, para que os intelectuais da banca superassem a vergonha e o descrédito, saíssem do armário e recuperassem a autoconfiança para defender a mesma rota do fracasso. Abstraíram 2008 e reaparecem de cara lavada para apresentar as mudanças necessárias na economia brasileira.

Já foi dito que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Neste caso até os personagens são os mesmos. Vejam vocês, Armínio Fraga! As últimas três campanhas presidenciais do PSDB o esconderam a sete chaves, assim como a FHC. Dizem que há lugares do país que quando seu nome é citado as pessoas correm para bater três vezes na madeira. Dá azar. Incrível, mas Aécio Neves teve a coragem de reabilitá-lo.

Aquele que quando foi presidente do Banco Central elevou a taxa de juros de 25% para 45%! O homem do arrocho e dos banqueiros. Que foi diretor do fundo de investimento de George Soros, símbolo da especulação financeira mundial.

E é o mesmo velho Armínio. Diz agora que os salários subiram muito ultimamente e que a redução de juros nos anos anteriores foi “preocupante”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, esta semana, deixou claro que gostaria de rever as regras do seguro-desemprego, aumentar a idade mínima para aposentadoria e dificultar a concessão de pensões.

Tudo em nome do combate à inflação. Só deixa de dizer que ao fim de sua gestão no Banco Central, no governo FHC, a inflação era de 12,5% ao ano, quase o dobro da atual, que ele julga fora de controle. E isso com juros estrondosos.

Sorte tem o país que o candidato que o anunciou como futuro ministro da Fazenda está praticamente fora do páreo eleitoral.

Mas, como diz o povo mais acostumado a sofrer, desgraça pouca é bobagem. A queda de Aécio foi acompanhada da subida meteórica de Marina Silva. E Marina, talvez no afã de atrair o mercado para seu projeto, tinha já erigido como conselheiro econômico ninguém menos que Eduardo Giannetti da Fonseca. Economista da nata do neoliberalismo brasileiro.

Giannetti tem distribuído por aí a mesma cantilena que arruinou os trabalhadores no Brasil, produzindo desemprego, arrocho salarial e recessão econômica na década de 90. O discurso de Marina é da nova política, mas começa mal ao recorrer à velha economia.

Também em entrevista à Folha, no ano passado, Gianetti sistematizou sua listinha de desejos: autonomia do Banco Central, readequar a Petrobrás e os bancos públicos nos “critérios de mercado”, desatrelar o reajuste das aposentarias ao salário mínimo e por aí vai. O modelo de seus sonhos, disse ele, é o segundo mandato de FHC e o primeiro de Lula (o mandato mais conservador dos governos petistas). Cita como referência as “heroicas” privatizações e a desregulamentação de capitais por FHC.

Sua obsessão – agora repetida por Marina – é fortalecer o dito tripé macroeconômico. Austeridade fiscal, aumento do superávit primário e livre câmbio. Não é preciso ser economista nem ter sobrenome europeu para saber que isso implica cortes de investimentos e de gastos sociais do Estado. Austeridade fiscal é um nome elegante para dizer corte no orçamento público. Superávit primário é um termo técnico para se referir à reserva de recursos para pagar juros da dívida aos banqueiros – o que, por sua vez, implica cortes orçamentários.

Marina terá que se decidir. Ou quer manter e ampliar políticas sociais e investimentos públicos, ou quer fazer cortes. Do ponto de vista lógico, tentar conciliar os dois é tão impossível quanto empenhar-se em desenhar um círculo quadrado. Simplesmente não dá. Marina deve a todos esta resposta. Ou está com Giannetti ou está com Chico Mendes.

A reabilitação dos neoliberais, ao que parece, não foi apenas um apelo desesperado do PSDB, mas uma tendência do debate econômico nestas eleições. Não deixa de ser, de algum modo, a volta dos que não foram. Já que os governos petistas – Dilma inclusive – conservaram importantes aspectos neoliberais em sua política econômica. Não por acaso os lucros bancários foram recordes. O pré-sal foi concedido à exploração privada, assim como aeroportos e rodovias.

Mas tragicamente o discurso da mudança entre os principais candidatos não critica esse conservadorismo. Ao contrário, diz que ele foi insuficiente e volta-se contra as limitadas iniciativas de enfrentá-lo. A titubeante redução dos juros básicos, o uso de bancos públicos para baratear o crédito, a atuação das estatais na indução de investimentos e os gastos com assistência social, que não chegam a 4% do orçamento Federal.

A crítica é feita pelo viés conservador. E deixa claro que o debate econômico no Brasil ainda é pautado pelo interesse do mercado financeiro. Enquanto for assim teremos de conviver com o eterno retorno dos neoliberais.