Arquivo mensais:outubro 2014

O eterno déjà-vu dos programas liberais

Por Bruno Conti | Via Brasil Debate

Ao longo de 12 anos, o diagnóstico que fazem para o País é o mesmo, assim como as políticas propostas são as mesmas. Uma coerência quase religiosa em torno do ideário do liberalismo econômico, que revela certo desapego em relação à análise concreta de uma realidade em transformação

Ler o programa econômico dos candidatos à Presidência não é exatamente uma tarefa prazerosa. De toda forma, em meio a esses calhamaços repletos de palavras bonitas e vãs, existem propostas importantes, reveladoras da maneira como o candidato pensa o Brasil e de suas estratégias.

Para perceber como os candidatos do PSDB pensam o País desde o início do século até hoje, resolvi ler os programas de suas últimas quatro candidaturas presidenciais. Não sei nem se isso é motivo de espanto, mas os programas revelam que eles continuam enxergando um mesmo Brasil – como se estivéssemos congelados no tempo – e propondo as mesmas coisas ano após ano, eleição após eleição.

Em 2002, o programa do candidato José Serra bradava pela manutenção do tripé macroeconômico; defendia um “choque de eficiência na administração pública”; dizia que a legislação trabalhista deveria se adaptar às “novas tendências da economia e do mercado de trabalho”, dando liberdade para negociações entre trabalhadores e empresas; fazia um apelo ao empreendedorismo. No campo externo, prometia a implementação da ALCA, a Área de Livre Comércio das Américas.

Quatro anos depois, em 2006, o programa de Geraldo Alckmin, ironicamente fazendo ode ao período 1930-80, dizia ser necessário retomar as bases do crescimento.

Para tanto, a receita seria: o ajuste das contas públicas, já que “o Estado é grande e ineficiente”; a modernização da legislação trabalhista; e o aprofundamento da abertura ao comércio exterior, para impor a “disciplina do mercado”. Para a política externa, dizia que os BRICS “não são aliados naturais” e propunha novamente a ALCA.

Passam-se mais quatro anos e, em 2010, José Serra propõe de novo uma “gestão fiscal eficiente”, com austeridade e a criação de um Conselho de Gestão Fiscal. No setor externo, defende menos conivência com a China e os países sul-americanos e acordos preferenciais com os grandes mercados (leia-se EUA).

Outros quatro anos se seguem e, em 2014, Aécio Neves, em suas diretrizes, defende austeridade fiscal, “Estado eficiente”, reformas micro, incentivo ao empreendedorismo, aprofundamento da abertura comercial etc. Afirma, inclusive, que serão “lançadas as bases para um acordo preferencial com os Estados Unidos” – ou seja, até mesmo a ALCA, reiteradas vezes rejeitada nas ruas pelo povo brasileiro, continua a fazer parte da receita.

Não bastasse essa repetição quadrienal do programa econômico do PSDB e, na atual eleição, ele se desdobra em dois! A candidatura Marina Silva – como repetidamente indicado por seus assessores – tem elevadíssima convergência com o programa econômico de Aécio: reforço do tripé macro; austeridade nos gastos públicos, com a criação de um Conselho Fiscal; flexibilização do mercado de trabalho e estímulo ao empreendedorismo.

A diferença é que o programa de Marina é menos despudorado que o dos tucanos, radicalizando os argumentos liberais e propondo um Banco Central independente e o fim dos empréstimos compulsórios.

É impressionante como ao longo de 12 anos e quatro eleições o diagnóstico que eles fazem para o País é exatamente o mesmo e as políticas propostas são exatamente as mesmas.

Alguns dirão que isso se trata de coerência. Concordo em parte. Por um lado, trata-se de uma coerência quase religiosa em torno ao ideário do liberalismo econômico. Por outro lado, revela certo desapego em relação à análise concreta de uma realidade em transformação.

Será que nada mudou de 2002 a 2014?

No cenário internacional, esse período inclui uma fase de elevado dinamismo econômico, uma crise de dimensões globais e o esforço de todos os países do mundo por enfrentar as consequências dessa crise – na Europa, a propósito, a tentativa de enfrentá-la por meio da austeridade fiscal, regra de ouro dos programas supracitados, tem se revelado desastrosa.

No Brasil, algumas coisas também aconteceram. À maioria da população brasileira os números são desnecessários, já que ela percebe, a despeito dos inúmeros problemas que ainda enfrenta, que sua vida melhorou nos últimos 12 anos.

Àqueles que precisam de números, eles mostram, por exemplo, que a dívida líquida do setor público era de 60,4% do PIB em 2002 e de 35% do PIB em 2014. Em 2002, a taxa de desemprego era de 11,7% do PIB e em 2014 está em torno de 5%. Em 2002, a taxa de pobreza era de 34,4%, tendo caído para menos da metade em 2014.

Esses números são evidentemente restritos e as análises não podem parar aí. De toda forma, eles levantam algumas questões: por que o mantra da austeridade, se as contas públicas estão controladas? Por que a obsessão pela flexibilização do mercado de trabalho, se os empregos estão sendo criados? E assim por diante.

Marina e Aécio criticam o programa de Dilma por seu pretenso caráter retrógado. Colocando-se como os arautos da modernidade, dizem que a coordenação estatal da economia é algo do passado, devendo ser substituída pelo ágil Estado (Mínimo) do século 21.

O que não percebem é que o século 21 já está a pleno vapor, com todos os seus conflitos e transformações e eles continuam com o mesmo discurso.

Discurso, aliás, que não retrocede apenas a 2002, mas aos anos 1980, com Thatcher e Reagan; aos anos 1970, com a ditadura Pinochet; e até mesmo ao século 19, na Inglaterra. Se já é estranho ver um mesmo receituário repetido ao longo de mais de uma década no Brasil, mais estranho ainda é vê-lo reiteradamente proposto em países e períodos tão distintos.

A pergunta inevitável é: o que têm a ver o Chile de 1973, os EUA de 1981 e o Brasil de 2014? Bem pouco. Mas, para eles, não importa. O receituário liberal será obstinadamente proposto a qualquer país do mundo e em qualquer momento histórico. Por quê? Porque favorece alguns interesses e classes sociais, em detrimento de outros.

A despeito da sensação de déjà-vu que sempre provoca, esse receituário será reapresentado nas eleições de 2018, 2022 e enquanto houver capitalismo. Cabe, portanto, à população brasileira rejeitá-lo novamente – nas urnas e nas ruas – a cada vez que ele se colocar.

Bruno De Conti é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON/Unicamp)

Sem censurar Requião, Beto Richa sai derrotado do debate da RPC

Via Requião PMDB

CBN/Reprodução

Além de apresentar propostas de governo, senador Roberto Requião fez críticas à atual administração; Beto tentava se defender pedindo direitos de resposta, mas não conseguiu.

O debate da RPC teve as características que todos esperavam: apresentação de propostas, discussão sobre a situação do estado e também críticas à atual administração. O senador Roberto Requião, candidato ao governo do Paraná pela coligação Paraná Com Governo (PMDB/PV/PPL), mostrou a diferença entre fazer e falar que vai fazer.

“Construí 12 presídios, acabei com a privatização de penitenciárias e abri concurso publico para agentes penitenciários. Eu me escandalizo com as 22 rebeliões em 12 meses e com uma recente denúncia do presidente dos agentes penitenciários”, disse.

Requião ainda complementou que o Richa “recebeu R$ 136 milhões do governo federal para construir seis novas penitenciarias e reformar mais 14. E não fez porque não entregou os projetos adequados. O que temos é inexperiência, incompetência e um apagão de gestão.”, revelou.

Como solução, Requião apontou que “precisamos mexer no código penal, viabilizando penas alternativas para esvaziar os presídios”, apontou.

Só no primeiro bloco, Beto Richa pediu dois direitos de resposta. Mas ambos foram negados pela assessoria jurídica da emissora de TV. No intervalo, Richa ficou nervoso. Gritou para quem quisesse ouvir: “O TRE (Tribunal Regional Eleitoral) me dá direito de resposta no horário eleitoral e aqui vocês não me dão”.

Esse episódio que não foi ao ar retrata uma das principais estratégias das campanhas de Beto Richa: força jurídica atuando nos bastidores das eleições. Richa disse no debate que sua assessoria conseguiu 73 direitos de resposta durante essa campanha eleitoral. Dá um por dia, em média. Isso porque as críticas à sua gestão são flagrantes, diante da situação do estado.

Na campanha ao governo de 2010, Richa travou uma batalha contra os institutos de pesquisa. Para barrar a revelação de que Osmar ganhava a preferência do eleitorado, Richa conseguiu impedir que fossem divulgadas as últimas pesquisas eleitorais na véspera da eleição.

Relação com a Assembleia – O assunto foi sorteado e o escolhido para fazer a pergunta foi Roberto Requião. Ele não titubeou e disparou: “Richa, como você conseguiu adquirir a maioria da Assembleia Legislativa, adquirir alguns deputados e também Orlando Pessuti?”, questionou. Requião ainda complementou: Como você coloca o Pessuti no programa pra me dizer sob encomenda aquelas barbaridades? Que hipocrisia! Você não tem ideia o que acontece no governo. Você delega para um grupo de secretários”, disse.

Outras questões – Requião ainda debateu questões referentes ao auxílio-moradia de juízes e promotores públicos, geração de emprego e renda, investimentos em Educação, financiamento de campanha, pedágio e agricultura familiar, entre outros.

“Mantive as tarifas de água e luz mais baratas do Brasil por sete anos. Me comprometo a acabar com a Substituição Tributária, que que está quebrando as empresas e o estado todo”, finalizou.

Com o terror racional podemos dialogar?

Por Reginaldo Mattar Nasser | Via Opera Mundi

Enquanto analistas disseminam o temor e o repúdio a grupos islâmicos, governos matam centenas de civis em ofensivas no Oriente Médio

Do alto de sua sabedoria e de seu “realismo humanista”, experientes jornalistas, analistas internacionais, professores e diplomatas brasileiros estão em estado de indignação após o discurso da presidenta Dilma Rousseff na ONU.

Tudo isso porque a presidenta condenou o uso da força por parte dos EUA como meio de resolução de conflitos armados que acontecem, atualmente, na Síria e no Iraque, ao mesmo tempo em que solicitou o diálogo com a comunidade internacional e apelou para o uso do direito e das instituições internacionais como instrumentos mais adequados para a paz. Os “indignados” dizem ser favoráveis ao diálogo e apoiam a utilização do direito internacional, mas ressalvam que isso não serve para esses “fanáticos islâmicos”. Segundo um experiente jornalista brasileiro, “nem à força esse tipo de fanáticos se dobra”. Se eu entendi corretamente, o jornalista quer dizer que eles não são passiveis de dissuasão. Bem, neste caso sou obrigado a concluir que é preciso eliminá-los. É isso mesmo?

No mesmo veiculo de comunicação, um diplomata igualmente sábio e experiente condena as “banalidades piedosas” de nossa diplomacia em relação a esses “fanáticos” e “psicopatas”. Estamos diante de verdadeiros humanistas, que valorizam os direitos humanos, a Justiça e a igualdade; mas não são ingênuos e colocam ressalvas em relação àqueles que seriam dignos desses valores. Do alto de sua sabedoria, compartilhada com aqueles que usam a força, julgam que têm autoridade moral para qualificar quem merece e quem não merece ser agraciado para o diálogo ou, no que dá no mesmo, quem merece e quem não merece morrer. Os gregos chamavam isso de Hybris.

Vou aceitar, provisoriamente, a “argumentação” dos “realistas humanistas”. Em que se sustenta sua afirmação de que não podemos dialogar com esses “insurgentes islâmicos” (creio ser mais apropriada a utilização do termo insurgente, amplamente utilizado nos estudos de conflitos internacionais)? Por que praticam atos de terror? Sim, assassinaram jornalistas, mataram civis e combatentes e, com certeza, não prezam pela democracia e os direitos humanos. Até aqui de pleno acordo. Mas o Brasil não mantém estreitas relações diplomáticas com Estados que ocupam território de outros, que torturam e que, em conflitos armados, matam por volta de 80% de civis, sendo 30% crianças? O Brasil não mantém “relações carnais” com o país que, segundo a Opinion Research Business, foi responsável pela morte de 1,2 milhão de iraquianos? Isso mesmo, mais de um milhão de mortos! Será que temos que aceitar uma das frases mais cínicas e, infelizmente, verdadeiras? “A morte de alguns é uma tragédia, já a morte de milhares é um problema de estatística! (frase atribuída a Stalin)”.

A não ser que faça diferença para esses humanistas se o terror é praticado de forma racional e lógica por máquinas de guerra altamente sofisticadas, como os drones, ou se é praticado por agentes irracionais que fazem uso de facas e espadas.

Mas essas máquinas de guerra racionais, embora se autoproclamem “democráticas”, não têm prestado informações sobre as pessoas que estão morrendo em decorrência dos bombardeios na Síria e no Iraque. Entretanto, investigações independentes começam a revelar que os alvos estratégicos não foram tão precisos e dezenas de civis já foram mortos. O que vão dizer nossos “realistas humanistas”? Que essas mortes são decorrentes de efeitos colaterais? Nossos ciosos democratas aceitam, sem nenhuma dúvida, a justificativa de que os “fanáticos” ameaçam a maior potência militar de todos os tempos e que só restaria a esta se defender. Sim, não é piada! Foi essa a justificativa. A Al Qaeda era a maior ameaça existencial aos EUA, mas aí apareceu o ISIS ou EI (siglas referentes ao grupo Estado Islâmico) ou alguma coisa jihadista que é pior ainda. Mas eis que, desde o início de setembro, ficamos sabendo que existe um grupo chamado “The Khorasan”. Anunciado pela mídia como a mais perigosa ameaça de todos os tempos. Mas, pasmem. Segundo recente investigação conduzida pelos jornalistas Glenn Greenwald e Murtaza Hussain, esse grupo é uma grande farsa! Mas uma vez que essa invenção serviu aos propósitos dos EUA, que era o de justificar o início da campanha de bombardeio na Síria, a narrativa Khorasan simplesmente se evaporou tão rapidamente como se materializou.

Em reportagem publicada no The Nation, Lee Fang detalha como analistas de televisão, incluindo generais da reserva e ex-funcionários do Departamento de Segurança Interna, têm aparecido constantemente na mídia fazendo pregação para que os EUA ataquem os insurgentes na Siria. Detalhe: todos eles têm laços empregatícios com empresas militares que prestam serviços para o pentágono.

Greenwald e Hussain têm toda razão. O que aconteceu é tudo muito familiar. A administração Obama precisava de uma justificativa legal para bombardear outro país, e nada melhor do que usar, ad nauseam, as emoções dos vídeos de decapitação promovidos pelos insurgentes. Depois plantaram na mídia a promoção do EI como pior do que a Al Qaeda e, depois, um grupo pior ainda e que poderia lançar ataques mais coordenados e maiores do que os realizados no dia 11 de Setembro. Nenhum desses humanistas tem dúvida em relação a isso, correto?

A depender da valiosa contribuição desses experientes humanistas, a campanha de terror dos EUA no Oriente Médio pode-se dar como vitoriosa, mas cuidado: de acordo com a mitologia grega, onde há Hybris (arrogância, prepotência) há sempre a Nemesis (punição, castigo) que pode tardar, mas não falha.

O samba de uma nota só do Banco Central

Por Luís Nassif | Via Jornal GGN

O Brasilianas.org de 2a feira passada, pela TV Brasil, trouxe uma discussão sobre a independência do Banco Central. Participaram Roberto Troster – ex-economista chefe da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) -, José Ricardo da Costa e Silva – conselheiro do Sindicato dos Funcionários do Banco Central – e André Biancarelli – do Instituto de Economia da Unicamp.

O debate demonstrou alguns pontos da atual ideologia do BC, especialmente a ideia fixa no sistema de metas inflacionárias.

Como lembrou Troster, o conjunto de atribuições do BC é muito mais amplo do que ele chama de “coponização” – o foco recorrente no Copom (Comitê de Política Monetária) e nas discussões sobre metas inflacionárias.

Cabe ao Bacen zelar pela solidez do sistema financeiro, pela melhoria dos canais de crédito, pela desconcentração bancária, por uma estratégia de realocação da poupança privada, saindo do curto prazo para o longo.

Nas últimas décadas, o BC abriu mão de qualquer veleidade estrutural.

Há um mercado de títulos que remonta os períodos de hiperinflação. Nos últimos anos ensaiaram-se algumas tentativas de mercados de títulos privados para financiamento de investimento. Há toda uma poupança empoçada, não avançando para prazos mais longos devido à forma como o BC administra os juros de curto prazo.

Aparentemente, nada disso sensibiliza a diretoria do BC.

Mesmo no corpo técnico, o que dá status não são os grandes temas estruturantes, as discussões sobre o papel do BC em uma economia em profundas transformações, mas o mergulho em análises recorrentes sobre o sistema de metas inflacionárias.

No debate, admitiu-se que a correlação entre BC independente e baixa inflação só vale para países desenvolvidos, com moedas conversíveis e que há tempos convivem com baixa inflação. O que obviamente não é o caso do Brasil.

Mesmo defensores intransigentes do modelo de metas inflacionárias, como Costa e Silva, aceitam que a única relação de causalidade entre o aumento da taxa de juros e a inflação é a apreciação cambial – a valorização do real, com todas as implicações negativas sobre a produção interna. E admitem que as atas do Copom jamais explicitam essas metas cambiais.

No combate à inflação, o fator expectativa é central. Se uma empresa julga que haverá inflação, aumenta seus preços – e a inflação não acontece – poderá perder participação no mercado. Do mesmo modo, se negocia seus preços sem reajuste e ocorre um aumento da inflação, corre o risco de perder rentabilidade.

Por isso, além de choques de oferta ou demanda, o efeito-manada é um dos fatores de estímulo à inflação.

O sistema de metas permite essa coordenação, a um preço extremamente elevado. De um lado, demole a política fiscal e não define limites fiscais para a atuação do BC.

Hoje em dia, há uma razoável concatenação entre as expectativas do mercado e do BC em relação à inflação futura. Os relatórios são minuciosos, assim como as projeções dos diversos preços.

Houvesse um estadista à frente do BC, à esta altura do campeonato os quadros técnicos do banco estariam debruçados em formas alternativas de coordenar as expectativas sem comprometer o câmbio e o orçamento.

Mas, infelizmente, o banco é dominado pelo pensamento burocrático.

Economia vinculada à energia

Por Marcus Eduardo de Oliveira | Via Adital

Vazamentos de petróleo, um dos símbolos de como a economia pode agredir fortemente a biosfera.

Leonardo Boff, em “A Opção-Terra”, nos adverte que “no momento atual, se parássemos tudo em nosso processo de produção e de consumo, a Terra precisaria de cerca de mil anos até recuperar-se das chagas que lhe temos infligido”.

Talvez esse seja um dos argumentos mais plausíveis para evidenciar que, diante do modelo de produção e consumo que ocupa as decisões econômicas das principais economias no momento, não há mais capacidade de continuar aumentando a produção física das economias.

A Terra não suporta mais essa agressão; 60% dos serviços ecossistêmicos estão completamente esgotados, causando essas chagas sobre o meio ambiente, em especial, uma poluição sem o menor controle que tem dizimado milhões de vidas humanas todos os anos.

A causa principal dessas chagas, portanto, está no modelo econômico que expande a qualquer preço a capacidade de produção econômica. Esse fato, por sua vez, se vincula ao principal dogma das ciências econômicas, vale dizer, à ideia de que a atividade econômica tem que crescer continuamente, para propiciar a todos uma vida boa e farta. Essa é a ideia corrente do mito do crescimento contínuo.

A questão que mais se aflora em torno disso é que os tomadores de decisão econômica parecem esquecer que a atividade humana se desenrola dentro da ecosfera terrestre. Esquecem, ademais, que a atividade econômica consome energia e que não há capacidade ilimitada desse recurso.

Por isso é importante não perder de vista que a economia está vinculada à energia. Este vínculo abre a possibilidade de aprofundar e ampliar os estudos e os conceitos econômicos, vinculando a economia à ecologia e à termodinâmica, temas, por sinal, esquecidos do “receituário” da economia tradicional, dita neoclássica.

É por isso que os economistas tradicionais apresentam certas dificuldades em aceitar – parece mesmo que esquecem e ignoram – a relação existente entre a economia e a ecologia, como se a atividade econômica funcionasse no vazio, e não dentro do meio ambiente, como se essa atividade econômica somente produzisse mercadorias, e não uma poluição como resultado final.

Os economistas tradicionais esquecem e ignoram ainda o fato que a queima de petróleo, de carvão mineral e de florestas, está introduzindo mais de 30 bilhões de toneladas por ano de gás carbônico na atmosfera (85% originado dos combustíveis fósseis).

A queima de combustíveis fósseis produz também monóxido de carbono, óxidos de enxofre, óxidos de nitrogênio e outros gases, além de poeiras, vapores e partículas de combustível mal queimado. Estes gases e resíduos são os responsáveis pela famosa poluição das grandes cidades (hoje são mais de 20 cidades no mundo com mais de 10 milhões de habitantes ante duas nos anos 1960) e das áreas industriais.

A poluição, entretanto, não fica permanentemente no ar. É levada pelas chuvas e acaba contaminando mais a água e o solo do que o ar, diz Francisco F.A. Fonseca, em “O Mundo em Crise – Economia, Ecologia e Energia”.

A gravidade dessa poluição, que aumenta à medida que as economias crescem e as megacidades avançam no processo de industrialização, tem dizimado quase 2,0 milhões de pessoas todos os anos ao redor do mundo, em especial na Ásia, que concentra as cidades mais poluídas do mundo.

Os dados sobre isso são assustadores: somente na China há 16 das 20 cidades mais poluídas do planeta, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A cada aproximação do inverno (dezembro-março), o céu de várias cidades chinesas, sobretudo no norte do país, é tomado pelos mog, vale dizer, uma combinação de nevoeiro com fumaça poluente.

Em outubro de 2013, Harbin, cidade de 10,6 milhões de habitantes, teve de paralisar suas atividades por causa de níveis de poluição superiores ao recorde do ano (registrado em Pequim), que reduziram a visibilidade local a menos de 10 metros.

Os números que mostram esse drama, segundo estudos divulgados pelo Greenpeace são: 260 mil crianças chinesas morreram prematuramente em 2011 por causa da poluição atmosférica,

320 mil crianças e 61 mil adultos sofriam de asma em 2011 por causa do problema poluição, 32 mil mortes prematuras adicionais ocorrerão por ano quando 570 novas usinas a carvão entrarem em funcionamento.

Não é mais possível ignorar que a economia está vinculada à ecologia e que o crescimento econômico, em escala mundial, traz, como subproduto, o drama da poluição e do esgotamento constante dos principais serviços ecossistêmicos dos quais à vida humana tanto necessita.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia na FAC-FITO e no UNIFIEO, em São Paulo. prof.marcuseduardo@bol.com.br

EUA anunciam primeira infecção por ebola contraída em território americano

Por Leandra Felipe | Via Agência Brasil

Os Estados Unidos anunciaram hoje (30) o primeiro caso de infecção por ebola diagnosticado em território americano. De acordo com um comunicado do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgado hoje à tarde em Atlanta, Georgia, o paciente – cuja identidade não foi divulgada – é do sexo masculino e está internado em um Hospital em Dallas, Texas.

Em uma entrevista coletiva, o diretor do CDC, Thomas Frieden, disse que a pessoa infectada está em tratamento e “estritamente isolada” desde que surgiram os primeiros sintomas da doença. Segundo ele, o paciente voltou de uma viagem à Libéria (África) no dia 19 de setembro e chegou aos Estados Unidos um dia depois. Os exames feitos após a internação (e o surgimento dos sintomas) confirmaram a contaminação por ebola.

O diretor do CDC garantiu que não há motivo para “pânico” ou preocupação, porque o paciente foi isolado assim que surgiram os primeiros sintomas da doença. A fase infecciosa do ebola começa após o surgimento dos sintomas, como febre, vômito e dores de cabeça.

Em agosto, a Agência Brasil entrevistou a médica brasileira Denise Cardo, diretora da Divisão de Controle de Infecção Hospitalar do CDC que disse, na época, que nenhum país do Continente Americano tinha casos diagnosticados de ebola. Os três casos tratados anteriormente nos Estados Unidos foram diagnosticados na África e trazidos para tratamento no país.

Denise afirmou que o risco de contaminação fora da África não estava descartado devido à mobilidade humana. No caso dos Estados Unidos, o país mantém uma campanha de alerta para viajantes que viajam ou regressam do Oeste africano, especialmente dos países mais atingidos: Guiné, Libéria e Serra Leoa.

Segundo as últimas estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), os números indicam que mais de 6,5 mil pessoas podem estar infectadas nos três países mais afetados. O atual surto é considerado pela ONU como uma “ameaça global” e o organismo avalia serem necessários U$10 bi para combater a doença.