Arquivo mensais:outubro 2014

No segundo turno, a disputa será política

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

O único ponto previsível dessa campanha foi a imprevisibilidade.

As ondas se deram entre quatro públicos distintos:

Um segmento centro-esquerda, representado pela candidatura Dilma, que vota nela por convicção..

Um segmento neoliberal, em torno de Aécio, também por convicção.

Os inconformados – os que não conseguem se ver representados em nenhum candidato.

Os indignados, que acreditam que toda política é corrupta e são fundamentalmente antipetistas.

Movimento 1 – a mídia e a construção da corrupção.

O primeiro divisor de água da campanha, transformando o antipetismo na maior força da oposição. Esse sentimento cresceu exponencialmente com a cobertura intensiva do julgamento do mensalão, com o episódio Paulo Roberto Costa e com Pasadeña – que Dilma jogou, de graça, no caldeirão das suspeitas. A grande vitória da mídia foi ter pregado no PT a máscara da corrupção.

Movimento 2 – a busca do sonho.

No início da campanha, Dilma Rousseff representava o establishment. Eduardo Campos e Aécio Neves não representavam nada – por absoluto desconhecimento junto ao eleitor.

A tragédia de Eduardo Campos empurrou os inconformados para Marina Silva, que acabou soçobrando, não por falta de tempo, mas por excesso. Só quando acabou o sonho Marina, aparentemente parte dos inconformados passou a olhar e a descobrir Aécio.

Movimento 3 – o início da politização.

A campanha permitiu, pela primeira vez, que Dilma exercitasse (ao menos no discurso) um início de politização – de explicar um projeto de governo, em vez de enumerar obras -, assim como Aécio Neves.

O segundo turno

Nos últimos debates, Aécio descontraiu e recuperou a imagem do “moço de família” que não havia conseguido no início. Por outro lado, deixará de ser novidade. Haverá quase um mês para que sejam expostas suas vísceras e as diferenças programáticas com Dilma.

Na outra ponta, a visibilidade do horário gratuito reduziu a rejeição a Dilma. Sua arma estará no discurso político, na explicitação das diferenças programáticas.

Nos últimos tempos, a própria Dilma melhorou o discurso, tornando-o mais redondo e substituindo a evocação de projetos pontuais por uma visão mais politizada e abrangente do modelo político que representa.

Aécio cavalgou a última onda dos inconformados. Continuará com os indignados e provavelmente irá ganhar o apoio de parte do eleitorado de Marina. As mágoas de campanha dificultarão a passagem dos eleitores de Marina para Dilma.

Por outro lado a explicitação dos princípios político-econômicos de Aécio farão os inconformados pensar duas vezes antes de pular para seu barco. E, apesar de Aécio não ter a face macilenta e tenebrosa de José Serra, a perspectiva de se jogar fora um projeto de país em que acreditam deverá mobilizar as forças que hoje em dia apoiam Dilma sem entusiasmo.

O desempate programático

Aguardem baixarias dos grupos de mídia e nas redes sociais, menos na campanha propriamente dita. Se Aécio resolver apelar pelas denúncias, ambos os candidatos serão soterrados por um caminhão de denúncias recíprocas.

A partir de agora, o embate será eminentemente programático.

Dilma conseguirá crescer se expuser de forma clara o que o país poderá perder com o abandono das bandeiras social-desenvolvimentistas por um candidato neoliberal.

De seu lado, Aécio explorará o que o país terá a ganhar com a condução mais competente da macroeconomia. Essa ofensiva em cima do ponto mais vulnerável do governo Dilma a obrigará a atitudes firmes para mostrar que efetivamente o segundo governo será composto por ideias novas.

Antes de demonstrar que a política econômica irá mudar, Dilma terá que convencer os recalcitrantes que ELA mudou.

Assim como ninguém esclarecido acreditará que Aécio ganhará sensibilidade social com a campanha, poucos estão acreditando que a pedagogia da campanha mudará o temperamento e o estilo de Dilma.

Ambos terão enormes desafios para reduzir o ceticismo. Terão que explicitar projetos e programas – e serem confrontados com sua história.

Os modelos em jogo

Assim como nas democracias maduras da Europa, há dois modelos em jogo. Um trabalhista ou socialdemocrata, representado por Dilma; outro neoliberal, representado por Aécio.

Ambos estão calçados em diferenças programáticas significativas.

O socialdemocrata – ou desenvolvimentista apud Dilma -, pressupõe prioridade para a construção do estado do bem estar social e para as políticas econômicas proativas. É mais sensível aos pleitos das minorias (está-se falando do governo como um todo, não especificamente da postura pessoal de Dilma) e para o combate à miséria. Menos sensível para a melhoria do ambiente econômico e para reformas institucionais, embora ambos os objetivos nao sejam conflitantes entre si. Aceita a iniciativa privada mas sem abrir mão do protagonismo da presidência. O erro é muito mais na forma autoritária, que no conteúdo. Muitas vezes é descuidado com a gestão macroeconômica.

O neoliberal concede toda prioridade à melhoria do ambiente econômico. É insensível em relação às políticas sociais – com exceção dos períodos eleitorais – e aos reclamos da sociedade como um todo e a formas de coordenação da economia, como as políticas industriais. E mais sensibilidade para a gestão macroeconômica e para a responsabilidade fiscal.

Essas diferenças explodem em dois ambientes preferenciais.

Orçamento

O desenvolvimento de Dilma utilizou o orçamento arbitrariamente, mas tendo como foco o social e o desenvolvimentismo. Avançou muito no combate à miséria mas contaminou o ambiente econômico com sua imprevisibilidade. A melhoria depende apenas da vontade pessoal, não de dogmas ideológicos.

O neoliberalismo de FHC – que está na matriz de Aécio – entrega todo o ouro ao mercado. O ajuste fiscal proposto visa ganhar espaço para o Banco Central praticar políticas de juros sem restrição fiscal. E julga que, abrindo tudo ao mercado e à economia internacional, o progresso virá por si só. Está firmemente amarrado aos princípios ideológicos do neoliberalismo.

Emprego

Dilma preservou o emprego ainda que à custa de sacrificar o ambiente econômico (não por relação direta com o emprego, mas pela pouca eficácia da área econômica). O ajuste de Aécio-Armínio, por mais que negue, é fundamentalmente recessivo e, sem ter que prestar contas aos eleitores, tratará o pleno emprego como ameaça à estabilidade de preços.

O que queremos ser quando crescer

O terceiro campo é dentro da ideia “o que queremos ser quando crescer”.

O último capítulo do meu livro “Os Cabeças de Planilha” foi uma longa entrevista com FHC. Ele não tinha a menor ideia sobre mecanismos de desenvolvimento, papel das pequenas e micro empresas, da inovação, das políticas sociais, da diplomacia, criação de redes econômicas, arranjos produtivos etc. Sua única proposta era turbinar os grandes grupos financeiros, julgando que eles trariam a reboque a modernização do país.

Dilma sabe como crescer. Sua vulnerabilidade está no seu método centralizador de governar.

Os fatores político-midiáticos

Dois episódios poderão influir com maior ou menor intensidade na campanha:

Os escândalos de Paulo Roberto Costa e Yousseff.

Há um acordo de delação premiada. E a informação de que o sigilo dos relatos é protegido por lei. Mas como a lei – ora, a lei -, os vazamentos continuarão sendo praticados, com direito a cada revista colocar o que quiser no texto – e atribuir a fontes anônimas.

O caso da água em São Paulo.

Nos próximos dias a Sabesp terá que encarar, finalmente, a crise de água. Dependendo da abrangência do rodízio, poderá colocar em xeque as promessas de campanha do PSDB.

A imprensa e a Petrobras no segundo turno

Por Rennan Martins | Brasília, 06/10/2014

Deixo registrado o que está por vir em termos de imprensa nesse segundo turno. Nos próximos dias a Veja fará alguma “denúncia” envolvendo a Petrobras, dirão que tiveram acesso a alguns documentos e/ou gravações, escreverão muitas especulações em cima da corrupção que está sendo investigada pela PF. Não darão uma prova sequer aos leitores.

Em seguida, Jornal Nacional e correlatos reverberarão a matéria da revista Veja. Curiosamente os políticos envolvidos serão só do governo. Tucanos, democratas e a fins são incorruptíveis no mundo mágico de nossa imprensa.

Esse bombardeio será ensurdecedor a ponto da maioria da população nem querer saber se houve provas, julgamento ou algo do tipo. Muitos pedirão a cabeça dos envolvidos. Tentarão de todo jeito emplacar o “Fora Corrupção!” no imaginário da população, no objetivo dos votos debandarem para Aécio Neves, o valoroso.

Não importa se o PSDB é o partido com mais barrados pela lei da Ficha Limpa, não se ouvirá falar do escândalo do metrô que já desviou mais de R$ 500 milhões do erário no Tucanistão, quer dizer, São Paulo. Nem mesmo o fato de Aécio ser réu num processo no qual sumiram a bagatela de R$ 4,6 bilhões da saúde mineira é relevante. A imagem que pintarão dele é a de incorruptível, cruzado da justiça.

Dando certo, os articulistas de aluguel entram em cena. Senhores como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Ricardo Noblat usarão de suas penas pra propaganda privatista. Segundo a mídia – a mesma que apoiou a ditadura e que sonega milhões – a solução pro problema será vender nossa mais valiosa empresa pras petroleiras internacionais.

A difamação e calúnia da Globo, Folha, Veja e cia já é prática antiga. A imprensa brasileira serve a interesses que estão muito longe de ser os do bem público.

No caso da Globo, desde antes da ditadura já se tentava denegrir a Petrobras, usando de todo e qualquer artifício pra desmoralizá-la. Neste artigo compreende-se bem o modus operandi dessa organização. Sugiro darem uma olhada.

Dirigente do PT diz que falta de reformas política e da comunicação explicam eleições

Por Sarah Fernandes | Via RBA

Para Valter Pomar, PT tem dificuldade de angariar votos da juventude trabalhadora por falta de educação política. São Paulo é cenário crítico que pode inviabilizar projetos do partido no longo prazo

Para Pomar, a disputa com Aécio no segundo turno é melhor para o PT do que uma disputa com Marina

São Paulo – Apesar de acreditar na reeleição de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno, o integrante da Executiva Nacional do PT Valter Pomar, dirigente da Articulação de Esquerda, avalia que o partido não tem mais conseguido conquistar os votos da juventude trabalhadora, uma parcela da população que historicamente guinaria para a esquerda. A leitura é de que esse descolamento é explicado por falta de educação política e de uma mídia mais democrática. Por isso, ele considera que o PT não pode mais esperar para fazer a reforma do sistema político, nem para democratizar a comunicação.

“Nestes últimos anos a burguesia girou para a direita, mas na classe trabalhadora, que é maioria, não houve um giro total para a esquerda. Se essa nova geração que entrou no mercado de trabalho agora, devido às políticas do PT, tivesse acesso a uma mídia e uma educação mais democrática teria virado para a esquerda. Como isso não ocorreu, o que prevalece é a ideologia dominante, de uma guinada conservadora”, disse. “O partido vai ter que fazer um esforço redobrado de sindicalização e de mudanças nos currículos educacionais. Vamos ter que fazer nos próximos quatro anos o que não fizemos nos últimos 12.”

Mais do que isso: será fundamental fazer a reforma política e concretizar um processo de redemocratização da mídia, bandeiras históricas da esquerda, que não avançaram nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva e no governo de Dilma. “No médio prazo conseguimos gerenciar, mas, se isso não for tratado, virará um problema incontornável”, diz.

“A gente deveria ter feito esforço maior pela reforma política e deveria ter implementado a democratização da mídia. Dava para ter caminhado muito nessas duas áreas mesmo sem o Congresso Nacional aprovar. Temos que fazer isso se não a possibilidade de derrota em 2018 será grande. E teremos que fazer com uma situação menos favorável”, diz. “O fato de não termos feito a reforma política e a democratização da mídia criou uma contradição: a gente continua ganhando a eleição presidencial, mas naquele terreno onde os defeitos da estrutura são mais evidentes, que é no Congresso, a gente começa a ter queda.”

No pleito eleitoral decidido ontem (5), parlamentares conservadores avançaram de maneira representativa no Legislativo Federal. Bancada do PSDB na Câmara ganhou 11 cadeiras, passando de 44 para 55, um crescimento de 25%. Já a bancada do PT perdeu 20% dos seus deputados, passando de 88 para 70. Apesar disso, a ala petista ainda continua sendo a maior.

No Senado, que renovou um terço da Casa, cinco dos novos 27 parlamentares são do PMDB. O PSDB e o PDT têm quatro cada, o PSB elegeu três, mesmo número do DEM, enquanto PT, PTB e PSD conseguiram eleger dois cada. PR e PP fizeram um. A maior bancada a partir de 2015 será a do PMDB, com 19. Em seguida ficam o PT, com 13, e o PSDB, com 10.

Na leitura de Pomar, entre 1994 e 2002 houve um avanço considerável do PT nas eleições para o Congresso e para os governos estaduais. De 2003 a 2010 houve um período de equilíbrio, no qual a bancada federal se manteve, com alguma flutuação, além da presidência da República. “Batemos no teto e quando isso acontece em algum momento você cai.”

Pomar não acredita que um Legislativo mais conservador vá favorecer o candidato à presidência pelo PSDB, Aécio Neves, em um segundo turno. “Ele já foi favorecido nesta votação de ontem, mas não a ponto de ele ganhar as eleições. Tem uma diferença entre o que é conservadorismo político e ideológico e o que é conservadorismo econômico e social.”

“Em termos morais o eleitorado é mais conservador, em principal sobre temas como corrupção. Mas em termos sociais e econômicos ele é mais progressista. As pessoas querem mais salário e mais emprego, que é a nossa pauta”, continua. “Tanto que Aécio e Marina Silva (PSB) foram obrigados a dizer que eram favoráveis ao Bolsa Família. E eles estavam se dirigindo ao eleitorado deles.”

Dentro do esperado

Para Pomar, a disputa com Aécio no segundo turno é melhor para o PT do que uma disputa com Marina. “Desde a eleição de 2012 tínhamos claro que a eleição de 2014 ia ser resolvida no segundo turno e em uma disputa duríssima. Para nós não é surpresa. Mas imaginamos que seria ainda mais duro se fôssemos para o segundo turno com uma candidatura aliada à base do governo.”

“Para mim é melhor que a disputa seja contra o Aécio porque não teremos margem para confusão. Não tem chance das pessoas se iludirem com as propostas de Aécio: ele é um playboy, representante do capital e dos setores da elite. É jogo claro, o que não significa jogo fácil. São dois projetos distintos para o país, que vão se enfrentar pela sétima vez desde 1989”, disse.

O ex-dirigente nacional do PT rechaça a ideia que os votos de Marina irão automaticamente para Aécio. “Ele aproveitou o desmonte da Marina para angariar para si parte do eleitorado que oscilava. Os votos da Marina vão se dividir. O eleitorado dela é composto de vários segmentos: uma parte vem desde 2010, que é de gente que não é tucana mas está insatisfeita com o PT; tem uma parte que ela agregou nessa reta final, que é de gente de direita que viu nela uma chance de derrotar o PT e voltou para o Aécio; e tem uma parte que é progressista e quer mudança.”

São Paulo freia

O avanço conservador em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, não será um empecilho para a vitória de Dilma no segundo turno na opinião de Pomar. Os paulistas elegeram Geraldo Alckmin (PSDB) para governador no primeiro turno, José Serra (PSDB) para senador e levaram para Câmara Federal os deputados federais Celso Russomano (PRB) e Pastor Marco Feliciano (PSC) e o estadual Coronel Telhada (PSDB) na lista dos três mais votados. Na disputa presidencial, Aécio obteve 4,2 milhões de votos a mais que Dilma no principal colégio eleitoral.

“O quadro de São Paulo é muito grave, mas não define a eleição presidencial. Tem um quadro no país interior que nos permite ganhar, mas é preocupante porque revela uma cristalização do voto no PSDB no estado. Tem uma parte do eleitorado aqui que sabe que o governo Alckmin é ruim, mas vota para derrotar o PT”, diz. “Tem que ser feito um trabalho político São Paulo. Vamos ganhar eleição em âmbito nacional mesmo que aqui não consigamos reverter. Mas vamos ter que fazer estudo político para derrotar esse Tucanistão.”

Em São Paulo, a situação tende a ser mais crítica para o PT também porque no estado se concentra uma grande parte da classe trabalhadora que entrou há pouco no mercado de trabalho e tem desconfiança em relação ao partido. “Isso não será decisivo. Vamos ganhar sem desmontar essa equação, mas no médio prazo temos que desmontar porque senão São Paulo será um freio para as mudanças sociais que queremos para o país.”

Na opinião de Pomar, três fatores foram decisivos para endurecer o pleito eleitoral para o PT, que foram aprofundados nas reivindicações de junho de 2013. O primeiro deles é que cresceu o setor da juventude trabalhadora que não tem identidade no voto com Dilma e Lula e que olha o partido com dúvida. “Não é gente de direita, é gente que deveria votar no PT, mas que ao longo de 2013 e 2014 foram se distanciando ou nem chegaram a estar junto, porque começaram a ter vida política agora e não tem memória da classe trabalhadora.”

O segundo fator é que se aprofundou o antipetismo nas camadas médias, uma parcela da população que esteve presente nas manifestações de junho de 2013 e no movimento Não Vai Ter Copa. “É uma mistura de mau humor com ódio de classe, que tem a ver com o fato de que nos nossos governos a classe trabalhadora melhorou de vida e tirou deles o status, que entendem como fundamental. Os pobres estão no aeroporto, eles odeiam isso e opõe a culta no PT.”

Outro fator chave é que o grande capital, representado pelo empresariado, reforçou sua posição anti-PT e anti-Dilma, por conta da política econômica defendida e adotada pelo governo. “O capitalismo aqui é muito dependente dos salários baixos e do desemprego alto e a desigualdade social do país os fortalece. Nós fomos contra isso”, conclui Pomar.

Resumo das eleições: Ganhamos muito, perdemos bastante

Por Emerson César | Via Dragão Urbano

O saldo eleitoral da disputa presidencial corroborou com as previsões que já havíamos discutido em outras oportunidades, que Aécio e não Marina iria para o 2º turno contra Dilma Rousseff. O 2º turno nunca foi uma surpresa para o PT, a surpresa deve ter ficado por conta da discrepância entre os votos de Aécio e Marina, uma vez que as pesquisas indicavam uma disputa mais acirrada entre os dois. Ao que parece, as notórias e sistemáticas contradições da candidata da “nova política” minaram toda sua popularidade conquistada pelo marketing post mortem de Eduardo Campos. Comemoremos que a sonegadora do Itaú, os latifundiários desmatadores do PSB, os fascistas do Clube Militar e o fundamentalismo de Malafaia et carterva ficaram de fora do 2º turno! E comemoremos também que Dilma ainda é a candidata que os brasileiros mais confiam!

Ao analisar o desempenho de cada presidenciável por Estado, notamos claramente que os Estados nos quais as políticas econômicas e sociais do PT e de Dilma mais tiveram impacto e trouxeram incontáveis melhorias para a vida dos mais pobres (ou para aqueles que deixaram de ser), foram justamente os que lhe presentearam com mais votos. Os 12 anos do PT combatendo a fome, a desigualdade social, redistribuindo a renda e dando mais oportunidades aos pobres do Brasil inteiro, mais especialmente aos do norte e nordeste, deixaram naquele povo uma justificada gratidão que ainda perdurará por muitas eleições. Já Aécio obteve maioria nos tradicionais redutos da elite, não por acaso, poleiros dos tucanos como São Paulo. Nada de novo no front.

De verdadeiramente novo é a queda da dinastia tucana em Minas Gerais, com a derrota retumbante de “Chilique da Veiga” ao cargo de Governador. Uma grande vitória do povo mineiro, e uma grande derrota que este mesmo povo tenha elegido o incompetente e mau caráter do ex-governador Anastasia ao Senado Federal. Lamentável e revoltante. Tanto quanto a vitória do líder da privataria tucana, José “Alstom” Serra como Senador pelo Estado de São Paulo, uma vez que como opção os paulistas poderiam ter votado no honesto, competente e comprometido Eduardo Suplicy. Ninguém pode me recriminar quando digo que São Paulo é o Estado brasileiro com maior número de analfabetos políticos. Sem tomar banho devido ao descaso do PSDB com o abastecimento de água, os paulistas foram as urnas no último domingo reeleger no 1º turno o Governador que quebrou a Santa Casa, quebrou a USP, aumentou a violência no Estado e ainda por cima foi um dos denunciados no mega escândalo de corrupção do “Trensalão Tucano”. Um diagnóstico político dos paulistas? Insanidade!

No Rio de Janeiro, contudo, comemoremos que os combativos Marcelo Freixo e Jean Wyllys tenham se elegidos Deputado Estadual e Federal, respectivamente! Grandes vitórias para os fluminenses e para povo brasileiro! Infelizmente, o Rio ainda consagrou nessas eleições o fascista, homofóbico e reacionário do Jair Bolsonaro como o deputado federal mais bem votado do Estado. Mais uma prova de como somos contraditórios e, ao passo que caminhamos rumo ao progresso, também arrastamos fardos de farda que nos prendem ao atraso e a demência política. Já a disputa para Governador naquele Estado chega a ser desesperadora tendo em vista os candidatos que irão disputar o 2º turno, ainda que o calhorda do Garotinho tenha ficado de fora. Penso que qualquer um que vencer essa eleição imputará uma pesada derrota ao povo do Rio de Janeiro.

Ainda que o resultado das urnas tenha gerado uma vasta gama de análises e considerações sobre os rumos da política nacional, encerrarei por ora minhas observações para ouvir/ler as suas. E você, o que achou dessas eleições e do que elas ainda irão nos proporcionar nesse 2º turno?

PS: Parabéns a candidata Luciana Genro pelo expressivo desempenho (mais de 1,5 milhão de votos) em sua primeira disputa presidencial!

 

Abstenção, brancos e nulos são 29% dos votos; eleitor tem descrença no candidato

Via Agência Brasil

Com 99,99% das urnas apuradas, um percentual que representa 142.820.810 eleitores, as eleições de 2014 tiveram 90,36% de votos válidos. Os números foram computados até as 1h30 desta segunda-feira (6). Brancos e nulos somaram 9,64% dos votos totais, e os eleitores que não compareceram às urnas somaram 27.698.199, o que significa 19,39% do total.

Os percentuais relativos aos votos que não entram nas contas dos votos válidos aumentaram nas três modalidades. No primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, quando o país tinha 135 milhões de eleitores, 18,12% deles não votaram. Em 2002, a abstenção atingiu 17,74% e em 2006, 16,75%.

A percentagem de votos em branco, neste ano, também cresceu. Em 2010, eles foram 3,13% do total; em 2006, 2,73%; e em 2002, 3,03%. Neste ano, os votos em branco representam 3,84%. Já os votos nulos, que vinham caindo nas três eleições anteriores, tendo registrado 7,35% em 2002; 5,68% em 2006; e 5,51% em 2010, tiveram um ligeiro aumento neste ano, atingindo 5,8%. Com isso, abstenções, brancos e nulos somam 29%.

Considerado o típico voto de protesto, o voto nulo tem o mesmo efeito do voto em branco por não entrar nas contas na hora de bater o martelo sobre quem está eleito. Embora não se possa dizer se esses percentuais crescentes revelam desinteresse por parte da população em relação à política, já que o voto é obrigatório, uma pesquisa do Instituto Data Popular, feita antes das eleições, mostrou que há um alto grau de desconfiança, por parte do eleitorado brasileiro, em relação à classe política.

Foram entrevistadas 15.652 pessoas, em 159 municípios, e 73% delas disseram não confiar nos candidatos que postulam um cargo eletivo neste ano. Segundo o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles, registrou-se que o brasileiro não confia até mesmo nos candidatos que escolhe e os deputados estaduais lideram o ranking. “Se a gente olhar a escala, os [candidatos] em quem os eleitores menos confiam são os deputados estaduais [82%]”, disse Meirelles. Em seguida, aparecem os candidatos a deputado federal, com 75% de desconfiança; os postulantes ao Senado, 65%; os que concorrem ao cargo de governador, com 40%; e os candidatos à Presidência da República, com 30% de desconfiança.

Meirelles disse que os entrevistados foram convidados a responder se concordavam ou não com frases apresentadas pelos pesquisadores. Entre eles, 65% disseram, por exemplo, concordar com a seguinte frase: “Os políticos são todos iguais”. Segundo o presidente do Data Popular, parte das respostas evidencia uma desconfiança em relação à classe política e “parte é um desconhecimento real da proposta do candidato”. Para a maioria dos eleitores, o voto é dado ao candidato que parece ser “o menos pior”.

O entendimento geral decorrente da pesquisa, indicou Meirelles, é que “a classe política está afastada da realidade cotidiana das pessoas”.

“Não queremos fantasmas do passado”

Por Rodrigo Vianna | Via Escrevinhador

“Não queremos os fantasmas do passado:a recessão e o arrocho. O povo não quer mais aqueles que chamavam aposentado de vagabundo. Não quer mais racionamento de energia, nem aqueles que se ajoelhavam para o FMI” (Dilma, abrindo a disputa com Aécio Neves: FHC x Lula).

O primeiro balanço a se fazer da eleição é o institucional. E esse é bastante contraditório. O PT (Dilma) termina o primeiro turno com cerca de 5 pontos a menos do que conquistou em 2010: teve quase 47% dos votos há quatro anos; e agora ficou com cerca de 42%. Aécio teve os mesmos 33% de Serra em 2010 (parte do eleitorado tucano, que ensaiou uma revoada em direção a Marina depois da morte de Eduardo, voltou para o ninho original). Já Marina teve 21% agora – contra 19% em 2010.

Fora isso, o PSOL praticamente dobrou a votação. Luciana Genro colheu algum resultado pela coragem de enfrentar temas dos quais o PT foge. Mas é um crescimento ainda residual, que mal chega à casa de 2% dos votos.

Na disputa efetiva pelo poder, a conta para o segundo turno, de saída, é a seguinte…

- Aécio (segundo as pesquisas, que até agora erraram demais) deve ficar com ao menos 60% dos votos de Marina. Ou seja, dos 21% de Marina, 13% devem seguir para o tucano – são os votos marineiros do Sul e Sudeste, principalmente. Ele também deve garantir mais cerca de 2% dos nanicos conservadores(Pastor Everaldo e Levy Fidelix). Resumo/Aécio: 33% do primeiro turno + 13% de Marina + 2% dos nanicos = 48%.

- Dilma, que teve quase 42%, deve herdar pouco mais de um terço dos votos de Marina (especialmente os votos do Nordeste e Norte), além de capturar boa parte do eleitorado que votou no PSOL. Resumo/Dilma: 42% do primeiro turno + 8% de Marina + 2% da esquerda = 52%.

Essa é minha aposta inicial: 52% a 48%. O segundo turno será duríssimo. E a distância pode encurtar ainda mais, já que Dilma terá contra si a oposição cerrada da mídia e o discurso de ódio que avança em São Paulo, Brasília e outras cidades brasileiras.

“Um quadro venezuelano de disputa”, foi assim que resumi o cenário para um colega jornalista. Ele riu, e concordou.

Venezuelano não só pela disputa apertada. Mas pelo grau de conflagração verbal e política. Dilma deu uma pista do que será essa disputa, no discurso aqui em Brasília – neste domingo à noite. Agradeceu centrais sindicais, partidos, exaltou a figura de Lula e a militância. Depois, atacou: “não queremos os fantasmas do passado, a recessão e o arrocho. O povo não quer mais aqueles que chamavam aposentado de vagabundo. Não quer mais racionamento de energia, nem aqueles que se ajoelhavam para o FMI”.

Dilma não citou FHC. Mas tá na cara que a estratégia petista será comparar: FHC x Lula. Qual projeto beneficiou mais gente no Brasil?

Estamos diante de uma situação curiosa, e perigosa. O PT, que ao longo de 12 anos apostou em ganhar terreno sem politização e sem confronto aberto, agora será obrigado ao confronto. É uma questão de sobrevivência. Ou Dilma parte para o confronto, ou perde. O eleitorado aceitará essa estratégia, para a qual não vem sendo preparado nos últimos anos?

O PT terá que arriscar. A redução da bancada na Câmara (o PT recuou para 70 deputados, e o PCdoB perdeu um terço dos parlamentares) dá uma pista de que a falta de apetite para o combate simbólico está custando caro demais para a esquerda.

A direita avança: na sociedade, nas telas da TV e do rádio, no discurso do ódio, e agora também no Parlamento. A despolitização cobra seu preço. A água bate no pescoço. É confrontar ou morrer.

Aliás, mesmo que Dilma consiga vencer (a batalha será duríssima, repito), sofrerá muito no Senado (Serra, Tasso Jereissati, Aloysio, Alvaro Dias, Caiado, Lasier da RBS, Ana Amélia – o núcleo duro e ideológico da direita se reorganiza por ali) e na Câmara – (onde vai imperar a absoluta dispersão de bancadas). Uma direita tacanha, moralista, que mistura hipocrisia religiosa com arreganhos facistas, avança na mesma velocidade em que a esquerda vira o demônio a se eliminar.

Tempos difíceis nos aguardam.

Mas há resultados contraditórios também para a oposição. Aécio chegou – sim – com força para o segundo turno, mas perdeu Minas. Um baque considerável. Pela primeira vez, o PT elegeu um governador no Sudeste.

O PT ganhou também Bahia, Piauí, e deve vencer no Ceará – em aliança com os irmãos Gomes (Cid e Ciro); o PCdoB venceu no Maranhão.

O núcleo mais atucanado do PMDB (Geddel foi derrotado na Bahia, e Henrique Alves vai suar no segundo turno no Rio Grande do Norte) perdeu força.

Mas, então, quem ganhou? O conservadorismo difuso, a geleia geral da fisiologia.

Junho de 2013 e a tal “nova” Política terminaram nessa miscelânea de Bolsonaros, Malafaias, Russomanos… Por enquanto, é a direita que colhe os melhores resultados do “desencanto” com a Política (desencanto? Com Pezão no Rio e Alckmin em São Paulo?).

O PSOL conseguiu ampliar a bancada de 3 para 5 deputados (incluindo gente muito boa: Ivan Valente de São Paulo, Edmilson Rodrigues do Pará e Jean Willis do Rio). Mas é pouco, pouquíssimo.

De um lado, o país mostrou maturidade ao levar ao segundo turno dois projetos de verdade (PT x PSDB). De outro, deu força para o conservadorismo congressual. Ganhe quem ganhar, o quadro será de paralisia, com dificuldades imensas para governar a partir de 2015.

A mídia, o mercado e as apostas do imperialismo contra Dilma

Por Umberto Martins | Via Vermelho

O jornal britânico Financial Times voltou a criticar a presidenta Dilma Rousseff em editorial publicado nesta quinta-feira (2), no qual intima a chefe do Estado brasileiro a mudar os rumos da política econômica, levando em conta a reação e os desejos do mercado, que segundo os oráculos de plantão demanda ajuste fiscal e rigor total na aplicação do tripé neoliberal (juros altos, câmbio flutuante e superávit fiscal primário).

Como já é de praxe, a grande mídia, burguesa e golpista, destacou os comentários do diário europeu (que dias atrás identificou um “preocupante aumento do socialismo venezuelano” no Brasil) de forma acrítica e subalterna. Mas a verdade que precisa ser reiteradamente observada é que o Financial Times traduz, através de editoriais e artigos, a ideologia e os interesses dos grandes capitalistas estrangeiros ou, em outras palavras, daquilo que conhecemos como imperialismo. Interesses que são francamente contrários aos da classe trabalhadora em todo o mundo e aos do povo brasileiro no caso em tela.

Bordão reacionário

O bordão que o jornal alardeia contra Dilma não é novo e vem sendo repetido pelos candidatos das forças conservadoras e neoliberais à exaustão. A receita desta gente, repudiada por Dilma, é a mesma que está sendo aplicada na Europa sob a batuta do Fundo Monetário Internacional. Significa estagnação da economia, desemprego em massa, redução de salários, corte de direitos e desmantelamento do chamado Estado de Bem Estar Social. É o que a direita, encarnando os desejos da oligarquia financeira, quer impor a qualquer preço por aqui.

Mas para dourar a pílula o diário dos rentistas ingleses se arvora também o papel de intérprete autorizado das manifestações massivas realizadas em junho de 2013, que afinal também sinalizaram a necessidade de mudança. “Dilma não pode ignorar o que os mercados e milhões de brasileiros querem: mudança”, proclama o editorial. Trata-se de uma meia verdade.

Não se pode negar que o povo brasileiro quer mudanças, em sintonia com as demandas dos movimentos sociais e os protestos de junho do ano passado. A sociedade reclama maiores investimentos públicos em saúde, educação, transporte e segurança. Mas isto, notemos, é precisamente o oposto do que a oligarquia financeira, nacional e estrangeira, quer nos impor. Já a voz do mercado, apresentado pela mídia burguesa como uma divindade abstrata que paira acima dos mortais, expressa a opinião e sentimentos de rentistas e especuladores do mercado de capitais.

Assim como a juventude, os movimentos sociais também lutam por mudanças na política econômica, mas em sentido contrário ao do projeto neoliberal, ou seja, querem o fim do tripé neoliberal: a redução substancial das taxas de juros, o controle do câmbio e taxação das remessas de lucros ao exterior, a ampliação dos gastos e investimentos públicos, focando principalmente as demandas de junho, de forma a ampliar a rede de bem estar e seguridade social. Propugnam igualmente o aprofundamento da política de redistribuição da renda nacional, o fortalecimento do mercado interno, o desenvolvimento com democracia, soberania e valorização do trabalho.

O ajuste fiscal que as forças conservadoras e o imperialismo querem impor ao Brasil, temperado com a radicalização do tripé neoliberal, requer cortes dramáticos das despesas públicas em detrimento da saúde, da educação, da mobilidade urbana, dos investimentos em infraestrutura, do emprego e do desenvolvimento da economia. Não é o que eles dizem, mas é a realidade. Os comentários do Financial Times mostram que o imperialismo não está ausente do pleito de outubro, aposta suas fichas em Aécio ou Marina e já não esconde o desconforto com a hipótese de reeleição da presidenta Dilma, a cada dia mais provável. O povo brasileiro sabe que seus interesses serão melhor bem servidos por Dilma do que pelas candidaturas alinhadas ao neoliberalismo, que felizmente parecem fadadas a um novo fracasso nas urnas.

*Umberto Martins é jornalista e assessor da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)