Por Gustavo Santos | Rio de Janeiro, 23/11/2004
A morte do professor Celso Furtado simbolizou o fim de uma era do desenvolvimento. Uma era que ele soube traduzir mais do que ninguém. Somos de uma geração que via a desigualdade e a pobreza como fatalidade. Não era assim que Celso Furtado via. Aliás, ele e sua geração de economistas não apenas viam, também participavam do processo político. E devemos a eles parte de nossa prosperidade e dos serviços públicos que ainda nos restam, principalmente nós que nascemos na chamada classe média.
Nasci em 1975, sou filho do milagre. Por favor, não me confundam com “filhote da ditadura”, como Brizola genialmente batizou um de nossos ex-presidentes. Sou filho do milagre, pois como disse meu avô certa vez para minha mãe: “vocês terão uma vida melhor que a nossa e seus filhos terão uma vida melhor do que a suas”. Essa era a mais pura “verdade”. Meus avós iam à escola descalços, estudaram, mas nenhum deles fez curso superior. Lutaram e construíram famílias numerosas, respectivamente 8 e 9 filhos, bem típico dos anos 40 e 50.
Meus pais nasceram nos anos 40. Mais ou menos à época em que Celso Furtado escreveu seu primeiro livro ‘Contos da vida expedicionária – deNápoles a Paris’ e sua tese de doutorado *L’economie coloniale bresilienne*. A vida era muito difícil, raramente comemorava-se o aniversário dos filhos como é feito hoje. Certa vez, ouvi essa história: uma de minhas tias, provavelmente estimulada pela convivência de amigas mais abastadas, resolveu insistir com minha vó para que lhe desse um presente de aniversário. De tanto insistir minha avó ficou comovida, e tirou do contado dinheiro reservado para o arroz, farinha e feijão um montante para satisfazer o luxo de minha tia. O dinheiro ia fazer falta, mas valeu à pena, pois ela ficou muito contente em ganhar um pequeno saco de biscoito *cream cracker* comprado a granel no armazém da esquina. Mas esse “luxo”, para uma família operária de 9 filhos, só foi possível graças à prosperidade econômica e à mudança cultural dos anos 50, pois imagino, que 20 ou 30 anos antes, se minha avó resolvesse ter esse mesmo capricho levaria um “chega pra lá” de minha bisavó: “aniversário?!, deixa de inventá moda, quer levar um cascudo?!
Quando digo que esse “luxo” só foi possível *graças à pujança econômica* dos anos 50, não quero dizer que meus avós não eram lutadores.
As duas famílias criaram no conjunto 17 filhos e deram a todos o necessário, casa, comida, roupa (ainda que essa geralmente não era individual, mas coletiva), escola e amor. Eram guerreiros, como muitas outras famílias brasileiras, todavia, devem um pouco de sua relativa segurança financeira à grande oferta de empregos, aos salários elevados e as leis trabalhistas vigentes entre os anos 40 a 60.
A prosperidade econômica e o otimismo foram particularmente fortes no governo JK, cuja política econômica foi baseada no planejamento do plano de metas cuja metodologia e idealização se baseou na iniciativa e nos estudos recém criados por Celso Furtado no BNDES e na CEPAL durante o governo democrático de Getúlio Vargas e na época da campanha presidencial. No governo JK, Furtado criou ainda a SUDENE com o objetivo de tirar o nordeste do atraso econômico e social. A esperança e a fé no futuro àquela época pode ser percebida pelo livro 10º livro de economia política de Celso Furtado: ‘A pré-revolução brasileira’.
Furtado, aliás, sempre teve grande preocupação com a má distribuição de renda no Brasil, como se pode depreender de seu 12º livro:
‘Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina’. No Brasil vivemos uma espécie de sistema de castas, apesar de não tão rígido como na Índia.
Existem os empregos de classe alta, os empregos de classe média, os empregos da classe operária e os subempregos dos marginalizados. As diferenças de remuneração entre essas “castas” é talvez a maior do mundo, e certamente muito maior do que na Índia.
Entre classe alta e média há alguma mobilidade, assim como entre classe operária e os marginalizados, mas entre a classe operária e a classe média, a mobilidade é limitada. Se o cidadão não encontrar a chave para essa mobilidade terá que se contentar com a indecente diferença salarial que existe entre um advogado estabelecido e um profissional qualificado como um carpinteiro, ou, pior, entre um dentista e um profissional desqualificado como um funcionário de comércio popular. A chave do portão que divide essas classes se chama universidade ou pequena empresa bem sucedida. Eventualmente podemos dizer que existem outras chaves como o político, o artista ou o esportista bem sucedido, mas essas são ainda mais difíceis.
Para os liberais, o desempregado é um vagabundo e o pobre não se esforça o suficiente para sair de sua situação. Mas isso não é uma verdade, pois a ascensão social é um rígido funil. Por mais que lutem, as vagas para o outro lado não aumentam significativamente por iniciativa própria.
Pode-se passar no vestibular por mérito próprio, mas nem todo mundo pode ter “mérito próprio” suficiente, pois o número de vagas não aumenta. Por mais que aumente o “mérito próprio” de todos, muitos não conseguirão tirar do fundo de sua alma e de sua luta “mérito próprio” suficiente, pois mais “mérito” não significa mais vagas.
Com as microempresas acontece um evento semelhante ao vestibular. As vagas como empresários bem sucedidos no ramo de bares na periferia, restaurantes de PF, vendedores ambulante, dono de serralheria, caminhoneiro autônomo e carreteiro são limitadas. Mesmo que o número de ofertantes desses serviços aumente, a demanda não aumentará significativamente. O mesmo poderia não acontecer, se esses microempresários vindo das classes operárias e marginalizadas conhecessem de computação ou alguma tecnologia avançada desde criancinhas e criassem uma *Microsoft*, ou seja, inventando seu próprio emprego. Se tivéssemos um monte de geniosinhos obsessivos, bem alimentados, e com tempo e acesso a todo o conhecimento que anseiam adquirir, pode ser que o número de vagas entre microempresários bem sucedidos não fosse tão limitada. Mas isso não é uma realidade, nem aqui e nem mesmo nos EUA. Não é qualquer um que nasce com desejo e capacidade para ser um megaempresário inovador, mas mesmo entre os que nascem, são poucos que tem essa oportunidade. Na falta de melhores oportunidades, parte de nossos mais talentosos empreendedores vindos das classes menos favorecidas acabam criando empresas como a Fenandinho Beira Mar S/A. Cobrar que um desempregado seja um microempresário inovador bem sucedido é uma extrema injustiça e autoritarismo. Precisamos respeitar os desejos e os talentos das pessoas, considerando principalmente as limitações que lhes são impostas.
Resumindo, o funil é rígido e por mais que se esforcem poucos podem atravessar. Mas entre os anos 40 e 1980 a boca do funil foi muito alargada.
Não apenas o funil foi alargado, como também a renda e as oportunidades de emprego dentro das diversas “castas” foram significativamente ampliadas.
Posso dizer que meus avós pertenciam à classe operária, eles melhoraram de vida durante os anos 40 e 50, graças não apenas à própria luta, mas também aqueles “anos dourados”.
Com meus pais foi diferente, eles atravessaram o funil. Foi difícil, lutaram muito, trabalharam enquanto estudaram mas conseguiram. Meu pai consertava estofamentos, depois foi torneiro mecânico e acabou entrando na universidade, graças a muita garra. Mas entrou nela com a idade que tenho quando estou terminando meu doutorado. E, apesar das dificuldades iniciais, pôde aproveitar de oportunidades que não seriam imagináveis para meu avô. A farta oferta de empregos no período dava segurança aos jovens para sonhar um pouco mais, diferentemente de hoje, quando o desemprego assustador leva todos a buscar apenas a segurança financeira mínima, deixando guardado seus sonhos.
Quando meu pai saiu da universidade, em pleno milagre, ultrapassado o funil, pôde desfrutar da incrível fartura de empregos disponível aos integrantes da “casta média”. Podia-se dar ao luxo de adquirir apartamento, carro e mobiliar a casa com poucos meses de salário. Além de dar aos filhos todo o conforto, educação e cultura, que um legítimo herdeiro da “casta média” “mereceria”. “Os filhos teriam mais conforto e cultura que os pais” e se Deus quisesse, mais democracia.
A ditadura era terrível, era manchada de sangue e havia exilado nossas melhores cabeças como do professor e ex-ministro do planejamento de João Goulart, Celso Furtado, que naqueles terríveis 20 anos escreveu 15 livros e outro tanto de artigos e ensaios. Dizem que havia dez mil exilados compulsórios e voluntários. Todavia, a esperança e o sonho, o sonho colorido, tropical e solidário imaginado pelos modernistas e plantado sob ferro e sabedoria com Getúlio, com alegria e coragem por JK e com ciência e fé por Furtado resistia bravamente. Havia retrocessos, mas também avanços.
O desenvolvimento era uma questão de tempo. Coragem e esperança não faltavam, nem a um lado nem a outro, nem à esquerda nem à direita. As primeiras décadas do pós-guerra foram um período muito romântico no resto do mundo, mas aqui foram ainda mais.
Podemos dizer que esperança e o sonho permaneceram vivos até a eleição de Tancredo. Anistia, diretas já, Henfil, tudo correspondia ao sonho. Nem a dura recessão do início dos anos 80, a primeira em muitas décadas, infringiu um abalo severo em nosso simbolismo. Com as esperanças renovadas Furtado escreveu no primeiro ano da Nova República ‘A fantasia organizada’. Depois houve a morte de Tancredo, o fracasso do plano cruzado, a inércia do governo Sarney. Inércia que não foi acompanhada por Celso Furtado, que mesmo insatisfeito com a condução da política econômica, manteve a disciplina e fez uma gestão corajosa no Ministério da Cultura.
Mas que não foi capaz de impedir o fracasso econômico do governo.
Até aí, tudo bem, a gente esperaria a nossa vez. As diretas ainda não haviam chegado… No entanto, com as diretas, veio o que o Professor Carlos Lessa chama de Fernandeca. Separado pelo feliz interregno de Itamar, que renovou-nos a esperança, vivemos entre os 2 anos de Collor de Mello e os 8 anos de Henrique Cardoso, um triste e constante balde de água fria. Como lembrou o Professor Lessa, podemos fazer uma analogia desse período com aqueles terríveis anos de miséria que assolavam o Egito de tempos em tempos, como se fosse uma prolongada praga de gafanhotos (ou fernanhotos) que se abateu sobre nós. Mas o professor Furtado não se abateu. Escreveu nessa época seu 34º livro, ‘O longo amanhecer’, de um total de 36 livros de economia política.
A fernandeca foi a década de mais baixo crescimento e maior taxa de média de desemprego em toda nossa história. E isso não aconteceu sob forte protestos da sociedade brasileira, o que não deixou de espantar Celso Furtado: *”Como explicar que uma economia com a vitalidade da brasileira, que nos primeiros três quartos do século XX beneficiou-se de um ritmo de crescimento superado apenas pelo do Japão, tenha se conformado com uma taxa de decrescimento no decorrer deste último decênio?[2]” Como se não bastasse deixar a economia brasileira doente, os Fernandos se aproveitavam para pisotear e humilhar o enfermo, a propaganda governamental ou semi-oficial se encarregou de desqualificar e desmoralizar os maiores símbolos de nosso orgulho. Primeiramente desqualificaram o sucesso de nossa história recente, a política de substituição de importações, de industrialização induzida pelo governo e muito bem descrita por Furtado, Tavares, Lessa, entre outros. Essa história que deu oportunidade para meus avós, meus pais e para mim. Como disse, sou filho da parte boa do milagre e neto da política econômica do Getúlio e JK. Essa história para mim é gloriosa, é uma história de luta, de esperança e de sonho. Eles não poderiam ter desqualificado o que temos de melhor. Atacaram nossos símbolos, nosso orgulho.
Nos anos 90 a Petrobrás virou “petrosauro”, o sistema elétrico mais limpo e barato do mundo virou “ultrapassado”, o Proálcool virou *rentseeking* de usineiros, as estatais que nos deram uma fartura de aço, minérios, metais, celulose, petroquímicos, adubos, aviões e, principalmente, desenvolvimento, viraram paquidermes. O que vinha de fora, o que era importado era o único padrão, as expressões inglesas passaram a ser adotadas em um ritmo nunca visto, as recomendações que vinham do FMI e do banco mundial eram a única regra. Um dos Fernandos chegou a até a sugerir que Chico Buarque era um “artista menor” (?!!!). Passaram de todos os limites!!
Assim, crise econômica, mediocridade política, subserviência geopolítica e cultural, propaganda neoliberal e imposição de pensamento único com interrupção do debate e monopólios da mídia, durante a fernandeca, matou nossos sonhos e nossas esperanças… “Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e que esperávamos ser” (Celso Furtado)
Até que surgiu a luz no fim do túnel, não é uma luz tão recente, tem 24 anos, data da fundação do PT. Mas é uma luz que não parou de brilhar até as eleições presidenciais de 2003. Fundado a partir dos movimentos sindicais da segunda metade dos anos 70, o PT teve o Lula como fundador e estrela maior.
Lula ultrapassou sozinho todas as castas. Da marginalidade ao operariado, de operário a presidente. O Lula, metalúrgico, sindicalista e político também é um filho do milagre. Sua ida para São Paulo com a família, sua formação como torneiro mecânico no Senai e seu progresso social possivelmente também são netos do progresso econômico e social dos períodos Getúlio e JK.
A esperança venceu o medo nas eleições. É hora de vencer o medo no governo. Precisamos voltar ao ponto de onde paramos, voltarmos à esperança de um Brasil justo, igualitário, e cheio de alegria; alegria tropical, mestiça e autêntica. Um Brasil dos sonhos do professor Celso Furtado.
Será que todas as crianças nas ruas, e favelas e nas plantações puderam comemorar seu aniversário no ano de 2004? É hora do nosso povo voltar a sonhar em receber presentes de aniversário e até em coisas maiores, como no passado:
*”Tínhamos a idéia de que, se o país conseguisse atingir um certo grau de desenvolvimento industrial, de desenvolvimento econômico propriamente dito, a um certo nível de desenvolvimento ganharia autonomia. Daria um salto enorme que significa sair de uma economia de dependência econômica para uma autêntica independência. Era nada menos do que isso que estava em jogo. E eu escrevei sobre isso, e disse que estávamos nas vésperas de dar esse salto. Foi nos anos 50, quando houve o debate sobre Brasília etc. Na verdade, houve uma tomada de consciência de um lado e de outro, o Brasil viveu o seu período mais intenso de construção política, de renovação do pensamento. Para mim, a história do Brasil tem um período extraordinariamente significativo, esse período que vai do fim do primeiro governo Vargas até o começo da ditadura militar, cerca de 20 anos. Foi uma ebulição política na qual todas as idéias vieram a debate, descobrimos tudo, tudo veio à tona, e foi um entusiasmo muito grande. Pelo Brasil afora, fui paraninfo de dezenas de turmas de estudantes…Era uma coisa muito empolgante, o país se industrializando, se transformando, incorporando massas de população à sociedade moderna” (Celso Furtado,dezembro de 2002; Caros Amigos, fevereiro).*
Inclusive minha família e a do Presidente. Infelizmente…
*”Isso tudo veio abaixo. E não veio abaixo porque a economia brasileira deixou de crescer, ao contrário, houve anos em que o Brasil cresceu mais ainda, mas veio abaixo porque mudou o estilo de desenvolvimento, e desapareceram as forças sociais que estavam presentes antes. Antes de 64 houve uma enorme confrontação de forças sociais, era aquele caldeirão, que causou tanto medo na grande burguesia e nos americanos… Passaram-se trinta anos sem se poder pensar propriamente, ou sem poder participar de movimentos, a juventude mais agressiva e corajosa foi perseguida.
Desmantelou-se o processo de construção do Brasil. E aquele ganho formidável alcançado no período anterior se perdeu. E o pior é que não foi possível abrir um debate sobre nada importante, porque toda a imprensa já estava controlada, tudo aferrolhoado, a juventude estava desmobilizada, era outro país” (idem).*
Temos que ter novas esperanças e começar a sonhar de verdade, sonhar em escancarar o funil, chegou nossa hora, professor?
*” Se o Brasil partir da identificação dos problemas sociais, conseguirá criar um tipo de opinião pública como essa que se manifestou agora na eleição de Lula. De tudo isso, o mais importante é a diferença que há nesse movimento de hoje em dia, que é de raiz popular, de raiz social, partiu para a investigação dos problemas sociais e não dos problemas econômicos.
Portanto, acho que se ganha uma parte da batalha se for priorizado o problema social. Isso eu compreendo que é um pouco a estratégia de Lula.
Colocando o problema social, ele vai criar um tipo de opinião pública cada vez mais democrática, de raiz popular, e essa opinião pública de raiz democrática é que vai permitir consolidar esse próximo momento, e você vai ter finalmente a transformação do Brasil partindo do social e não do econômico” (idem).*
Estamos rezando…Até agora não vimos nada. Mas talvez seja porque Celso Furtado, no alto de sua longa e nobre experiência conseguia ver além da vigente cortina de mediocridade e desesperança: *”Em um futuro que, imagino, não será muito remoto, parecerá simples devaneio de intelectual ocioso a referência ao que está ocorrendo na América Latina neste final de era marcado pelo fundamentalismo mercantil.” *(Celso Furtado, 2004)
Professor, esperamos que esteja certo. Mas se não for dessa vez, pedimos força para sabermos carregar sua bandeira nas próximas oportunidades. Suas esperanças não morrerão. Seu sonho, nosso sonho, ainda será realidade.