Por Rennan Martins | Brasília, 28/10/2014
A coisa mais absurda que tenho visto é a leitura das Jornadas de Junho como uma demanda conservadora, um sinal de que a juventude sinalizava o desejo de eleger para o executivo alguém à direita de Dilma. Isso é uma tentativa de apropriação do significado ainda não totalmente desvendado do evento.
Façamos uma revisão dos acontecimentos a fim de entender que a pauta de junho de 2013 era essencialmente progressista, só tendo sido manobrada posteriormente pela imprensa.
A prefeitura de São Paulo havia aumentado de R$ 3,00 para R$ 3,20 a tarifa do transporte público na cidade. Isso levou o Movimento Passe Livre às ruas para deter esta medida e pedir a estatização do serviço e a tarifa zero.
O que se observou em seguida foi a polícia de Alckmin agir com a brutalidade habitual. Em conjunto, tentou-se pintar o quadro do movimento como de vândalos, rebeldes sem causa, tanto o é que o crápula do Jabor desprezou o movimento e disse que era “só por vinte centavos”.
A tentativa de desmoralizar o MPL e creditar a eles a culpa pela repressão deu errado por conta da contra-narrativa feita pela mídia alternativa da internet. As transmissões em streaming, relatos e fotos deixaram óbvio que a PM estava descendo o cacete nos manifestantes.
E foi ao reparar tamanha brutalidade estatal que a juventude de outras localidades solidarizou-se com os paulistas. Fomos às ruas indignados com a violência gratuita das forças de “segurança”. Fato ilustrativo disso é que aqui em Brasília falava-se em “revolta do vinagre”. O vinagre, por sua vez, servia pra respirar entre o lacrimogêneo. Os vidros do produto estavam sendo confiscados pela polícia, como se isso fosse “subversivo”.
Após o alastre irresistível dessa indignação e a esquerda nas ruas demandando melhorias no transporte público e o fim da violência da PM, a grande mídia notou que não havia mais como esconder os acontecimentos. Resolveram então se aproveitar do quadro.
Nossa imprensa é historicamente ligada as forças mais conservadoras do país. A Globo, Folha, Estadão e cia se criaram nas asas da ditadura. E o que fizeram foi retratar as manifestações como uma juventude indignada “contra a corrupção” e a”roubalheira”. O objetivo era esvaziar a pauta real, factível e transformar o evento numa “festa cívica” e”patriótica”, algo como os Caras Pintadas.
Não existe ninguém abertamente favorável a corrupção, o que existe é gente que só é contra ela no discurso, sem nada propor para coibi-la. Esses são os oportunistas. Quem é honestamente contra a corrupção sabe que ela é sistêmica e quer medidas práticas para combatê-la, como por exemplo o fim do financiamento de campanhas políticas por empresas.
Dessa forma, um movimento que era abertamente de esquerda, que exigia a estatização do transporte público e depois protestava contra a violência policial, tornou-se algo vazio, e foi somente aí que o anti-petismo entrou em cena.
É simplesmente impossível conceber que o MPL e a massa que se levantou contra a repressão desmedida queria eleger um partidário do governador responsável pela polícia mais assassina do país.
As Jornadas de Junho, originalmente, clamavam por melhorias nos serviços públicos, por infraestrutura, por acesso à cidade. Isso não tem ligação alguma com os partidários do PSDB que gritaram “Viva a PM!” na revolução da Lacoste conclamada pelo príncipe FHC nos últimos dias.
Ninguém consciente foi às ruas ano passado querendo um neocoronel no Palácio do Planalto.


Ótima análise dos protestos de 2013, coincide com o que eu achava. De fato, houve uma tentativa de “UDNização” dos protestos, tentativa que no final das contas foi bem sucedida na medida em que a popularidade do governo Dilma desceu ralo abaixo. Aliás, o Governo Federal não soube administrar a crise de junho do ano passado, o que quase custou a sua reeleição, e ele não teve energia para atacar politicamente a oposição tucana que procurou se aproveitar dos acontecimentos.
Fico muito agradecido pelo reconhecimento e feliz por ter conseguido captar o “espírito” da questão. De fato, Dilma se distanciou dos movimentos sociais e estes agora foram fundamentais para reelegê-la. Espero que isso sirva de lição e o canal de diálogo seja reaberto e aprofundado.