Arquivo mensais:setembro 2014

Além de desertificação, São Paulo tem água de subsolo contaminada

Por Júlio Ottoboni | Via Envolverde

Região Sudeste sofre severa estiagem, decorrente de desmatamento na Amazônia, e pior, reservas de aquíferos subterrâneos enfrentam poluição. Foto: UN Photo/Martine Perret

São Paulo e parte dos Estados do Sul e Sudeste do país podem entrar tanto num ciclo de desertificação como de extermínio de suas reservas hídricas existentes no subsolo. A influência das queimadas e do desmatamento amazônico no ciclo das chuvas nas porções mais ao sul do país alarma tanto os cientistas tanto quanto aos níveis de contaminação das águas potáveis existentes.

Com o volume de águas de superfície em diminuição considerável, as reservas subterrâneas estão em boa parte comprometidas. Seja por contaminação por esgoto, pesticidas ou mesmo pela falta de potabilidade. Há estudos sobre o uso a exaustão desses recursos em regiões onde o aquífero tem uma distribuição demasiadamente irregular. Desde 1998, pesquisadores da USP e outras entidades alertam para a exploração demasiada e sem critérios das águas subterrâneas, principalmente na agricultura.

No trecho paulista, o Aquífero Guarani é explorado por mais de 1000 poços e isso ocorre numa faixa no sentido sudoeste-nordeste. Já a área de recarga ocupa cerca de 17.000 Km², onde se encontram a maior parte dos poços e grande parte dos problemas de contaminação.

Há 13 anos um grupo de cientistas do Centro de Pesquisas de Água Subterrânea (Cepas) do Instituto de Geociências da USP pesquisa quanto a presença de Nitrato nas águas subterrâneas. Os estudos mostram uma crescente contaminação por esgoto urbano em diversas cidades paulistas. Esse elemento químico surge em processos de decomposição bacteriológica de matéria orgânica presente nos dejetos.

“Em locais onde não há saneamento, a contaminação ocorre pelas fossas sépticas e negras, já nas áreas com redes de esgoto o problema são os vazamentos. As redes são antigas e não passam por manutenção periódica. A presença do nitrato em áreas urbanas com rede de esgoto não era esperada de forma tão intensa”, afirma o professor da USP Ricardo Hirata.

O nitrato é cancerígeno e pode desenvolver diversas doenças, principalmente síndromes em crianças. São Paulo tem uma grande dependência da água subterrânea. Segundo a pesquisa da USP, cerca de 75% das cidades paulistas têm o abastecimento público total ou parcial feito por águas de aquíferos.

“No Estado de São Paulo, quase 60% dos poços tubulares são ilegais, ou seja, não têm controle por parte do estado, com possibilidades de terem problemas de qualidade de suas águas. Isso significa que a população pode estar ingerindo água degradada por nitrato ou outros contaminantes e não saber”, alerta o professor da USP.

Além do problema da recarga, dificultado pela falta de chuvas, descontaminar a água com nitrato é algo caro e algumas situações inviável. Para agravar o quadro, há uma redução drástica da água de subsolo em diversas regiões. A supressão das matas ciliares que recobrem as bacias tem forte impacto sobre a qualidade da água, encarecendo em cerca de 100 vezes o seu tratamento.

O alerta para as péssimas condições das águas, tanto de superfície como de subsolo, foi feito também pelo pesquisador José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia (IIE). Segundo ele, em áreas com floresta contígua a cursos d’água que estão protegida, com algumas gotas de cloro por litro se tem água para consumo humano.

“Já em locais com vegetação degradada é preciso usar coagulantes, corretores de pH, flúor, oxidantes, desinfetantes, algicidas e substâncias para remover o gosto e o odor. Todo o serviço de filtragem prestado pela floresta precisa ser substituído por um sistema artificial e o custo passa de R$ 2 a R$ 3 a cada mil metros cúbicos para R$ 200 a R$ 300. Essa conta precisa ser relacionada com os custos do desmatamento”, afirmou.

Quando a cobertura vegetal na bacia hidrográfica é adequada existe uma quantidade maior de água, por processos naturais, essa retorna para a atmosfera e favorece a precipitação. O escoamento da água das chuvas é mais lento, favorecendo a recarga e minimiza a erosão. Os A vegetação funciona como um filtro natural e ajuda a infiltrar a água no solo.

“Em solos desnudos, o processo de drenagem da água da chuva ocorre de forma muito mais rápida e há uma perda considerável da superfície do solo, que tem como destino os corpos d’água. Essa matéria orgânica em suspensão altera completamente as características químicas da água, tanto a de superfície como a subterrânea”, explicou Tundisi.

* Júlio Ottoboni é jornalista diplomado e pós-graduado em jornalismo científico.

Governo do PR perde controle sobre presídios e já enfrenta 21 rebeliões em 12 meses

Por Eduardo Mira | Via Requião PMDB

Mesmo sem construir nenhum presídio em 4 anos, Richa agora promete 20 novas penitenciárias.

A rebelião na Penitenciária Estadual de Piraquara II (PEP II), que iniciou na sexta-feira e durou pouco mais de 25 horas, contribuiu para mais um recorde negativo do atual governo do Paraná. Nos últimos doze meses, foram registrados 21 motins e rebeliões, sendo o episódio mais grave o da Penitenciária de Cascavel, que vitimou cinco presos e feriu outros 25. A situação revela a perda de controle do Governo Richa sobre o sistema prisional do Estado.

Para o senador Roberto Requião, candidato ao governo do Paraná pela Coligação Paraná com Governo (PMDB/PV/PPL), o problema penitenciário seria uma prova do “descaso do governo atual com a segurança pública”.

“O que está acontecendo é resultado da má gestão. O governo tirou os presos da delegacia e colocou-os em penitenciárias, que se tornaram ainda mais superlotadas. Isso gerou uma bomba-relógio que está explodindo agora”, avaliou o senador.

Requião afirmou também que, quando foi governador, mesmo sem ter dinheiro do governo federal, construiu 12 presídios. “Em quatro anos, Richa não construiu nenhum”, completou. Para ele, a tragédia era anunciada, já que faz seis meses que alguns radialistas de Cascavel vêm denunciando as péssimas condições da penitenciária, com comida de baixa qualidade e poucos carcereiros para cuidar dos presos.

RICHA NÃO CONSTRUIU NENHUM PRESÍDIO

Mesmo depois de anunciar R$ 160 milhões em recursos federais para a modernização do sistema prisional, o governador Beto Richa deixou a desejar na administração penal do Paraná. Foram quatro anos sem construir nem ampliar sequer um presídio no estado desde que assumiu.

Ainda assim, Richa está prometendo a ampliação e construção de 20 unidades prisionais para acabar com a lotação das delegacias no interior do Estado. O governador, que não abriu sequer uma vaga carcerária, agora promete 6.670 novas vagas no sistema prisional paranaense em um eventual segundo mandato.

Requião assumiu o Paraná com 6.529 vagas no sistema prisional em 2003 e aumentou esse número para 15.904 em 2010, o que representa um crescimento de 144%, com investimentos que ultrapassaram os R$ 90 milhões. Além das 12 penitenciárias estaduais, em 2006 foi inaugurada em Catanduvas a primeira Penitenciária Federal de Segurança Máxima, com R$ 20 milhões oriundos de recursos federais.

Além de construir novas unidades, o Governo Requião promoveu reformas que possibilitaram a abertura de 1.234 novas vagas na Penitenciária Feminina de Piraquara, Penitenciária Industrial de Cascavel, Penitenciária Estadual de Piraquara, Colônia Penal Agrícola, Alojamento Parque Agrícola de Piraquara e Complexo Médico Penal.

O Governo também eliminou a terceirização das penitenciárias e o número de agentes penitenciários contratados passou de R$ 1.246 em 2003 para R$ 2.388 em 2010, ano em que o salário pago pelo Paraná aos agentes era o maior do país: R$ 2.550,65.

Gustavo Castañon: Marina, a candidata da mudança, do retrocesso

Por Gustavo Cantañon | Via QTMD

Há um sentimento de mudança no ar. 12 anos de governo do PT desgastaram o partido na opinião pública. É natural. As contradições inevitáveis do exercício do poder, a relação com um congresso fisiológico, os interesses contrariados, os acordos inerentes à democracia, os escândalos. É mesmo surpreendente que chegue ao cabo desse período ainda como o partido de um quarto dos brasileiros e tendo o voto de metade deles.

Nesse cenário, surge a candidatura de Marina Silva, que encarna, sem sombra de dúvidas, a mudança, como provarei com os links abaixo. A começar pela mudança do cenário eleitoral. Depois de um suspeito desastre de avião (que alguns acreditam se tratar de um assassinato), Marina assumiu o lugar de Eduardo Campos como a candidata do PSB à presidência.

O compromisso de Marina com a mudança não é recente. Ele já se deixava sentir quando ela mudou de religião há poucos anos, abandonando o catolicismo de opção pelos pobres e abraçando o fundamentalismo da Assembleia de Deus, que tem entre seus quadros Silas Malafaia e Marcos Feliciano, e acredita que discursos inflamados e emissões vocais desordenadas são manifestações do próprio Espírito de Deus.

Depois Marina mais uma vez mudou quando saiu do PT por ter sido preterida na disputa interna do partido pela candidatura à presidência. Desde então ela iniciou um processo de mudança de crenças políticas que a tornou uma opção para os grandes meios de comunicação, os bancos e a classe média alta.

Primeiro mudou-se para o PV, ganhou apoio do Itaú, finalmente concorreu à presidência, perdeu, mas não desanimou. Tentou mudar o então partido assumindo-lhe o controle, mas como não conseguiu, mudou de novo e tentou criar a Rede. Também não conseguiu apoio suficiente para criar um novo partido,e então mudou-se, de novo, para o PSB. A ecologista aproveitou a mudança e mudou-se para um apartamento em São Paulo de um fazendeiro do DEM.

Num golpe de sorte, mudou de ideia na última hora e não embarcou com Eduardo no jato que o matou. Logo depois da tragédia, Marina mudou do papel de vice para o de viúva, declarando ter sido consolada da morte de Campos pela própria esposa dele. Com a má repercussão da declaração, ela mudou de postura e apareceu sorridente em seu velório posando para fotos ao lado de seu caixão.

E a mudança não parou mais. Mudou o CNPJ da campanha para não ser responsabilizada pelas irregularidades do jato fantasma de sua campanha nem indenizar as famílias atingidas pela tragédia. A pacifista mudou seu compromisso da “Rede” que proibia os candidatos pela legenda de receber doações de indústrias de agrotóxicos, de armas e de bebidas, e compôs chapa com o deputado federal Beto Albuquerque, político integrante da “bancada da bala”, financiada pela indústria bélica. Ele também é financiado por fabricantes de bebidas e agrotóxicos.

E mais mudança veio com um programa de governo que contrariava toda a sua história. Prometeu ao Brasil a volta da gestão econômica do PSDB. Mudou sua posição contrária à independência do Banco Central para garantir o apoio dos bancos brasileiros. Mais do que isso, prometeu mudar a legislação trabalhista promovendo a terceirização em massa, e prometeu acabar com a obrigatoriedade de função social de parte do crédito bancário, enterrando o crédito imobiliário. Mas isso não era mudança suficiente. Depois de quatro twittes ameaçadores de Silas Malafaia mudou a mudança do programa e se declarou contra o casamento gay.

Depois de um editorial do Globo, também mudou a sua posição sobre o pré-sal, que prometera abandonar, e depois, mudou a posição sobre a energia nuclear. Depois de uma vida de batalha contra os transgênicos, Marina, pressionada pelo agronegócio, também mudou e abandonou seus compromissos ecológicos.

Mudou também sobre a transparência política. O ministro Palocci caiu por não revelar os nomes das empresas que contrataram seus serviços antes do governo. Mas ela hoje, candidata, se nega a dizer a origem de 1.6 milhões de seus rendimentos, e declarou um patrimônio de somente 135 mil reais ao TSE. Uma senadora da República.

Finalmente, há três dias Marina mudou sua opinião sobre a tortura, que antes considerava crime imprescritível, e passou a ser contrária a revisão da lei de anistia. Ontem, ganhou o apoio do Clube Militar. Marina muda tanto que acabou por declarar seu programa de governo todo em processo de revisão. Isso é realmente novo na política. Ela é a primeira candidata da história do Brasil que descumpre seu programa de governo antes de chegar ao poder.

Por tudo isso, não restam dúvidas que Marina é a candidata da mudança. Ela muda sem parar. Essa é sua “Nova Política”, uma mudança nova a cada dia. Não é possível acompanhar a labilidade de seu caráter ou de sua mente. Ou ela mente. Não importa. O que importa é que Marina representa a mudança, a mudança de um Brasil aberto e tolerante para um Brasil refém da intolerância fundamentalista, de um Brasil voltado para sanar a dívida com seu povo humilde para um Brasil escravo de seus bancos, de um Brasil democrático para um Brasil mergulhado em crise institucional.

Por isso eu mudei também. Entrego essa semana meu pedido de desfiliação do PSB e cerro fileiras contra essa terrível mudança que ameaça nosso país. Não é possível submeter o Brasil a essa catástrofe. Marina Silva é uma alma em liquidação. Qualquer um pode exigir que ela mude uma posição por um punhado de votos. Mas aproveitem logo. Essa promoção é por tempo limitado.

*Gustavo Arja Castañon é doutor em psicologia e professor de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com o “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Non abbiate paura“.

O fascismo transnacional e o demônio russo

Por Andrés Piqueras* | Via Público.es

Na atual dramática conjuntura mundial, enfrentamos dois processos de enorme gravidade. Por um lado, a Segunda Grande Crise do capitalismo, que se arrasta em altos e baixos desde os anos 70, sem sinalizar uma reativação do capital produtivo – razão que levou o sistema a empreender essa louca deriva financeira. Por outro, assistimos o colapso da hegemonia econômica dos Estados Unidos e o consequente declínio do dólar como moeda de câmbio internacional.

Diante disso, a hegemonia mundial enfrenta e dá ao mundo duas possibilidades: 1) ou uma coordenação com as potências asiáticas no sentido de encontrar uma moeda internacional na qual participem diferentes moedas nacionais, baseada no ouro ou numa fonte de energia como o petróleo, ou 2) declarar guerra a grande parte do mundo para manter a liderança norte-americana com base no poderio militar.

A primeira opção é bastante remota, pois supõe não só a ilusão de conduzir as relações internacionais com base na cooperação, mas também uma desvinculação financeira da geração de capital fictício, que se torna cada vez mais difícil por conta da dinâmica financeira do modelo de capitalismo que vivemos. Desta forma, o colapso econômico se aproxima dos poderes transnacionais e da potência mundial que os sustenta, assim como dos Estados subordinados a ela, caso da União Europeia. As autoridades passam a encarar a opção militar cada vez mais como “necessária”.

Vejamos. Em todo lugar que esses poderes interviram, trouxeram a destruição e deixaram o caos. O Grande Plano para a Ásia Central e Ocidental, como também para grande parte da África, consiste em subjugar os Estados não dóceis, de maneira a não deixar resquícios de institucionalidade central que possa controlar o território, a população e os recursos. Terras inteiras são arrasadas nas mãos dos “senhores da guerra”, restando como principal poder local a Al Qaeda ou alguma de suas ramificações. Territórios barbarizados e sem poder estatal (Iraque, Afeganistão, Líbia, Somália, Congo, República Dominicana…). Em quase todos estes o “islamismo radical” se torna mais forte, dada a destruição das sociedades civis. Esta é a manifestação mais palpável do fascismo transnacional, que foi possibilitado e incentivado pelas potências “ocidentais” ou alguns de seus “aliados” diretos, como Israel ou os países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita (sobre isto, leiam o magnífico livro de Gilles Kepel, LaYihad: expansión y declive del islamismo), certamente a Arábia Saudita continua financiando o Estado Islâmico (a respeito disso, acompanhem os artigos de Nazanín Armanian), enquanto que seus amigos “ocidentais” dizem agora que estão combatendo-os.

Os EUA então, descobrem “de repente” a maldade do Estado Islâmico (exibindo todo tipo de imagens e notícias) e a necessidade de reordenar estrategicamente a geopolítica local. O apoio aos iraquianos de etnia curda busca compartimentar o Iraque em pequenos Estados dependentes (semelhante ao que fizeram na Iugoslávia), enquanto os bombardeios norte-americanos seletivos acontecem justamente nas zonas dos oleodutos e fontes petroleiras, para que nenhum grupo armado lhes tome a exclusividade da usurpação. Também pretendem legitimar uma séria de bombardeios à Síria, atacando finalmente o exército sírio diretamente, dado que seus exércitos privados e os milhares de mercenários treinados e financiados por não bastam para a missão. Estes fascistas transnacionais absorveram há muito a verdadeira oposição síria, e levam a cabo o mesmo que sempre fez o fascismo: ser o elemento de choque do capital contra as forças populares, o cavalo de batalha da destruição social.

Por isso que a Síria é hoje um dos lugares chave onde se decide o destino da luta contra a destruição fascista, que também deseja desmantelar o Estado sírio (e com isso, destruir também os oleodutos que vem desde a Ásia Central até o Mediterrâneo, controlados pela Rússia). Caída a Síria, Israel se veria praticamente como o único Estado local (além das barbaras monarquias do Golfo, aliadas). É o projeto do Grande Israel dono da Ásia Ocidental.

Outro lugar vital onde se batalha contra o fascismo transnacional é a Ucrânia. Ainda que nossos doutrinadores da grande mídia insistam em pintar a imagem de russos malvados, a verdade é que na Ucrânia empreendeu-se um golpe de Estado contra um presidente eleito democraticamente,  golpe este financiado pelos EUA, com o apoio das organizações nazis locais. Eis que os EUA traiu novamente a Europa, a despeito dos mais de 60 milhões de mortos, preço pago para acabar com o nazismo. Essa é a cortesia dos “país da Liberdade”.

Com a intervenção na Ucrânia, Washington trata de separar a Europa da Rússia, assim como se põe militarmente as portas de Moscou. Este quadro, por sua vez, torna a Europa isolada do mundo asiático e ancorada aos países anglo-saxões decadentes. Uma integração ou coordenação com a Rússia, como sabe muito bem a classe capitalista alemã, poderia proporcionar a Europa a energia que tanto necessita, e também uma via aos mercados asiáticos, assim como segurança militar (os europeus não necessitariam destes enormes gastos militares propostos pelos EUA.).

Isto sem mencionar a própria Ucrânia, onde o Tratado de Livre Comércio com a Europa, o qual Yanukóvich se negou a assinar por um mínimo de dignidade, terminará de liquidar uma economia em coma: plantações de primavera devastadas, cultivos de vegetais arruinados, quase total falta de crédito, graves problemas com o gás, inflação dos combustíveis. Nada tem ajudado economicamente a Junta de Kiev, apesar das promessas do FMI e da UE. A condição imposta é a de que “tenha o controle de todo o território”. É muito provável que vejamos autênticos levantes populares por lá, consequências deste panorama.

Rússia, em seu turno, aguenta como pode. E ainda que seja por interesses particulares, também combate o fascismo transnacional na Europa (fascismo ocidental – cristão) e na Ásia (fascismo oriental – islâmico). Moscou se encontra tendo de frear suas vitórias na Ucrânia e na Síria, para colaborar com o que resta do Estado do Iraque no combate ao fascismo islâmico (oportuno lembrar neste ponto do Afeganistão, antes, quando aliado a URSS, e o atual, depois da intervenção do “Ocidente”).

Não estamos falando aqui de uma relação dos “bons contra os maus”, mas sim de questões geoestratégicas integradas. Enquanto a economia norte-americana vem perdendo dominância e necessitando de recursos alheios, Rússia e China juntas detém a maior parte dos recursos do mundo e suas economias possuem melhores perspectivas de futuro. É por essa razão que alguns estão interessados na guerra e outros não. E o quadro é justamente o oposto do retratado pelos meios de comunicação de massas.

Rússia e China não param de estabelecer entre si diferentes acordos e convênios, assim como expandem suas redes nos grandes mercados asiáticos, construindo assim o principal núcleo econômico do mundo. A Organização de Cooperação de Shangai é só um exemplo desta integração.

Na Europa, é cada vez mais certo que se não mudarmos radicalmente os rumos políticos e econômicos, rapidamente sofreremos outro cataclismo financeiro, e desta vez os Estados já consumiram todas os “extintores” de dinheiro que tinham para apagar o fogo (transferindo nosso dinheiro ao mundo financeiro-bancário e, por consequência, ao Grande Capital).

Os grandes falcões dos EUA estão dispostos a levar uma guerra devastadora a Europa. Possuem sua lógica e motivos. Porém, quanto aos líderes europeus, porque precisam seguir nesse aterrorizante jogo suicida?

Frente ao fascismo transnacional que recruta as populações, onde está o internacionalismo dos povos?

*Professor de Sociologia da Universidad Jaume I de Castellón.

Tradução: Rennan Martins

União Europeia, um modelo de capitalismo dependente

Por Daniel Vaz de Carvalho | Via Resistir

Quando Marx nota que “o comércio livre é a forma de uns países enriquecerem à custa de outros” ele sublinha que o comércio livre é o meio de que se serve o capital para destruir os entraves nacionais e constituir-se ao nível da economia mundial. [1]

Podemos imaginar que os historiadores no futuro se interrogarão verdadeiramente espantados como foi possível tanta irracionalidade, tanta insanidade na gestão das economias. É certo que “os poderosos têm sempre admiradores imbecis que se esforçam por se lhes assemelhar pelos lados maus”. [2] O imperialismo, os países dominantes, também vivem disto…

A anunciada e mais que prevista crise foi sempre negada pela troika nacional até ao limite quando se tratou de impor a austeridade, culpabilizando as vítimas da mesma. Devido às políticas da UE, Portugal encontrava-se fragilizado, com um aparelho produtivo depauperado pelas importações e privatizações. Entre 2000 e 2011 os défices da BC acumulados atingiram um total de 194 100 M€, uma média anual de 16 200 M€. Desde a entrada para o euro em 2000, os défices do Estado acumulados atingiram 118 200 M€, Estado pagou de juros 69 500 M€, porém a dívida pública passou de 61 500 para mais de 221 000 M€.

Mais de metade do aumento da dívida correspondeu a pagamento de juros: 54% entre 2000 e 2009. A partir daqui a dívida disparou: com a “ajuda” da troika passou de 94% do PIB em 2010 para 134% e o défice, em termos reais, pode atingir este ano 10% do PIB! [3]

Com o euro a indústria regrediu 15 pontos percentuais, o PIB ao nível de 2000, consumo privado ao nível de 2001; investimento ao nível de 1988. Eis o resultado da ação dos partidos autoproclamados de “responsáveis” e do “arco da governação” que nos conduziram a um retrocesso económico e civilizacional só imaginável num país sujeito a…um pacto de agressão.

Não deixa de ser espantoso ver a ginástica mental que a clientela neoliberal faz para justificar “os cortes” e a austeridade deixando intocável o grande capital. Apresentadores televisivos (salvo raras exceções) pressurosos a interromper quem contrarie os dogmas neoliberais, escutam aleivosias com o ar dos provincianos de antanho de visita “à capital”…

A graçola ignara vai ao ponto de se dizer que para resolver os problemas da Segurança Social seria necessário pôr a trabalhar pessoas com 80 anos. Isto num país em que o desemprego jovem, apesar da emigração em larga escala, atinge em termos reais atinge 500 mil jovens e 400 mil encontram-se em situação de precariedade. (comunicado da CGTP de 05-08-2014)

Os tratados da UE e o euro são o culminar de um processo de relações de capitalismo dominado face a um centro dominante, em que são estabelecidos processos de troca desigual, devido aos desequilíbrios da estrutura produtiva, diferenças de produtividade e transferências de capitais, rendimentos e juros.

Segundo relatórios do B de P o saldo dos movimentos de juros de privados, dividendos, lucros e transferências com a UE, atingiu de 2000 a 2013 um valor negativo de cerca de 11 000 M€, uma média anual de 766 M€, porém de 2007 a 2013, atingiu 1 430 M€. A estes valores somam-se os juros pagos pelo Estado: entre 2000 e 2013 uma média anual de 4 964 M€ ano, agravada nos anos da troika para 7 130 M€. Só em juros da dívida pública Portugal pagará em três anos e meio o que vai receber líquido da UE em sete, cerca de 26 000 M€ no quadro de apoio 2014-2017!

A UE foi estabelecida de forma a criar a base necessária ao domínio e à exploração da “periferia” por um “centro”, ampliando as desigualdades entre Estados e proporcionando uma repartição internacional de mais-valia da forma mais favorável aos países dominantes.

A adesão ao euro foi propagandeada pela troika interna como um novo “el dorado”; falências e desemprego foram considerados vantajosos: tratava-se da “destruição criadora” que iria permitir a convergência real. Os partidos da troika propagandeavam que o que era obsoleto na indústria e agricultura daria lugar ao “novo e dinâmico”. Os portugueses teriam salários e pensões iguais aos de outros países. Foi a mentira mil vezes repetida…muitos acreditaram, hoje abstêm-se e dizem mal de “os políticos”.

Os tratados da UE e do euro representaram estagnação e empobrecimento, provisoriamente mascarado pelo endividamento do Estado, empresas e famílias. Desde a sua introdução o euro, já de si valorizado em relação à moeda nacional, valorizou-se mais de 30% relativamente ao dólar, enquanto a economia portuguesa – evidentemente – estagnava ou regredia. Será possível um país desenvolver-se, sobreviver mesmo, ancorado a uma moeda deste tipo? Para não contrariar o dogma neoliberal da “moeda neutra” os propagandistas do neoliberalismo atribuem os problemas às prestações sociais.

O que se verifica é a distorção da estrutura produtiva por atividades exportadoras de baixo valor acrescentado (pelo baixo nível tecnológico ou pelos processos de sub e sobrefaturação das transnacionais) mas também pelo crescimento desproporcionado das atividades terciárias e das não transacionáveis. Desta forma a integração dos países “periféricos” da UE, entre os quais Portugal, é uma mera falácia que se faz num processo de “desenvolvimento do subdesenvolvimento” (Samir Amim, referindo-se ao neocolonialismo).

Os países ditos periféricos da UE estão assim submetidos a uma terapia neoliberal tal como o FMI e Banco Mundial aplicam aos países siubdesenvolvidos. “Os credores privados e seus representantes conseguiram impor condições aos governos. Pressionam para que sejam postas em prática políticas brutais de ajustamento que se traduzem pela redução das despesas públicas e redução do poder de compra da população. Isto conduz as economias a uma situação de recessão permanente”. [4]

A irracional (para não dizer criminosa) adesão ao euro e ao Tratado Orçamental, visa a destruição do poder estatal e eliminar das Constituições o que de alguma forma possa interferir com os objetivos do país dominante. A UE constitui-se assim um espaço de domínio económico que se procura impor como domínio político a favor do país dominante. Esta a natureza da “integração”.

Os “europeístas” defendem um governo europeu, ou seja, um imperialismo dirigido pelo “centro”, e nesse centro pelo mais forte, a Alemanha, que o vai gerir (como já o faz) em função dos seus exclusivos interesses, mas também das suas muitas fragilidades.

Portugal torna-se, assim, um país de capitalismo dominado (contrariamente ao que prescreve a Constituição) por um centro decadente, em crise, eivado de interesses contraditórios. Mas este centro está ele próprio dependente dos EUA e das suas aspirações a império global. [5] Dizer que tudo isto é benéfico para o país coloca o raciocínio ao nível das superstições medievais. É como se Erasmo ou Espinosa nunca tivessem existido.

As políticas da UE significam: sejam vocês mais pobres para a Alemanha (não o povo alemão) ficar cada vez mais rica e poderosa. A Alemanha impõe aos outros o que ela própria não conseguiu no passado apesar do seu potencial e em condições muito favoráveis. Mesmo agora só o vai conseguindo e mal pelas condições que impõe aos demais e pelo euro, a frágil moeda do seu frágil imperialismo.

Este imperialismo procura constituir-se nos domínios económico, político e militar. Os pés de barro desta construção tentam ser disfarçados com tratados irrealistas, absurdos, que se impõem apenas pela propaganda, pela mistificação e ameaças políticas, isto é, pela chantagem.

Os países dependentes ficam despojados do seu excedente, pelas privatizações, pelos juros, pela livre transferência de capitais, pelo domínio das transnacionais. O controlo do comércio, a regulação financeira, os contratos públicos, até os OE estão já sob o domínio das burocracias de Bruxelas e de Frankfurt. A vontade popular é sucessivamente rejeitada – caso dos referendos sobre tratados europeus – ou iludida por políticos ao serviço dos oligarcas.

O funcionamento da UE reflete os interesses das oligarquias dos diversos países e suas clientelas com vistas à acrescida exploração dos trabalhadores. Nos países dependentes a oligarquia caracteriza-se por perder as referências nacionais (veja-se onde têm as sedes os seus grupos económicos e onde colocam os lucros). Tornam-se “correias de transmissão” dos centros imperialistas para conservar um certo domínio político e económico no país e partilhar os seus recursos. Uma “correia de transmissão” sem a qual a ação externa seria ineficaz ou não rentável. [6] Os governos ao seu serviço falam então em “ganhar a confiança dos mercados”. Como se as oligarquias não se estabelecessem na antítese do teoricamente livre mercado liberal.

Não compreender que o imperialismo é estrutural do modo de produção capitalista é imaginar um capitalismo “bom”, altruísta (!) nas relações entre Estados e sem contradições; é não entender que os países dominantes procuram sempre resolver as suas próprias contradições à custa dos países dominados. No estádio monopolista o modo de funcionamento do modo de produção capitalista é o imperialismo, que exprime de acordo com a tese leninista a lei do desigual desenvolvimento capitalista à escala mundial. [7]

Os problemas dos países periféricos têm de ser entendidos em termos de economia política, isto é, como se cria e se distribui o valor. Portanto, também o papel de cada país nas relações de troca internacionais e o seu posicionamento perante o sistema imperialista. A social-democracia/socialismo reformista subverte a noção de capitalismo dependente e de relações imperialistas com a de “nossos parceiros”. Eis como qualificam a agiotagem e o neocolonialismo instituído.

Pelo endividamento, banqueiros e grandes capitalistas pilham sem escrúpulos o bem comum, enquanto os partidos da troika e seus propagandistas fazem campanha para o pagamento da dívida “até ao último cêntimo”, no dizer do sr. José Seguro em “consenso” com o PSD e CDS.

Pela austeridade são impostos sacrifícios em benefício da especulação financeira. É este o mecanismo do enriquecimento pelo empobrecimento geral. Os países estão reféns dos juros, perdem a sua soberania e submetem-se a constrangimentos a troco de promessas que a vida permanentemente nega, num espaço político e económico decadente e afetado por uma crise crónica.

As privatizações permitem aos monopólios obter um sobrelucro garantido politicamente – não pelo mercado! – para contrariar a baixa tendencial da taxa de lucro, acentuada pela crise. O risco capitalista do grande capital é desta forma transferido para as MPME e para os contribuintes, em última análise para o povo.

O excedente económico criado no país é livremente transferido para paraísos fiscais, vigorando o argumento que “se assim não fosse os mais ricos mudar-se-iam para a Suíça, Dubai, Nova Iorque, etc.” Que sociedade e que “eficiência” é esta que se torna prisioneira da ganância dos “mais ricos”?

As opções do governo PSD-CDS são claras: recusou uma posição comum sobre o tratamento das dívidas dos Estados, mesmo com governos de orientações idênticas, pois isso beliscaria as intenções do governo alemão. O secretário de Estado Bruno Maçães foi na altura qualificado em Atenas de “o alemão”.

Estão ainda na memória as imagens de subserviência do ministro Vítor Gaspar perante o ministro das finanças alemão. O ultra direitista deputado do CDS no PE, Nuno Melo afirmava em entrevista à RDP: “deve haver uma discriminação positiva para os países que cumprem as regras quanto ao défice e os que são incumpridores, relapsos.” Alinhava assim com as intenções do governo alemão, exprimia a sua “solidariedade” com os interesses da agiotagem internacional. “Solidariedade” que, bem podemos dizer, sai da pele do povo português e nos condena ao atraso permanente.

A libertação dos países dependentes depende da consciencialização e da luta dos seus povos, mas não só. A solidariedade internacional, a ligação aos povos e aos países com problemas comuns é essencial, as lutas do proletariado nos países dominantes são também fundamentais.

O desenvolvimento exige que seja retomada a plena soberania do país, incluindo a monetária, orientando os seus recursos para o desenvolvimento industrial e tecnológico, na base de planos de curto, médio e longo prazo. Só saindo do colete-de-forças imposto pelos tratados da UE e do euro será possível o país entrar numa via de desenvolvimento económico e social.

Referências:

[1] Christian Palloix, A economia Mundial Capitalista, Vol. II, p. 24 ,Ed. Estampa

[2] Guy Breton, autor de Histoires d’ Amour de L’Histoire de France, acerca da corte de Henrique III.

[3] Devido a despesas de recapitalização financeira ,BES, BPN crédito, dívidas de EP’s a privatizar, etc. (Relatório da UTAO agosto 2014)

[4] www.legrandsoir.info/…

[5] Ver “Obama subjuga a Europa: Sanções aprofundam a recessão”, resistir.info/petras/petras_23ago14_p.html

[6] Christian Palloix, obra citada, Vol. II, p. 282.

[7] Christian Palloix, obra citada, Vol. I, p. 64.

O “desenvolvimentismo” insustentável de Marina Silva, por Eduardo Fagnani

Por Eduardo Fagnani | Via Jornal GGN

De Plataforma Politica Social

A esquizofrenia do programa de Governo de Marina Silva (2) é patente. Nele, procura-se conciliar objetivos radicalmente antagônicos. Um daqueles objetivos seria combinar um suposto “desenvolvimentismo” com o incontestável ultraconservadorismo macroeconômico. O papel aceita tudo, mas os projetos são ideologicamente conflitantes, e a conta não fecha.

A polaridade conservadora é conhecida: Banco Central independente e “tripé” macroeconômico puro-sangue. A pretensa polaridade ‘desenvolvimentista’ aparece, por exemplo, no objetivo de “criar o ambiente necessário a um novo ciclo de desenvolvimento” (Eixo 2), no qual “nenhum programa de governo faria sentido se não estiver ancorado no ‘bem-estar da população’”. Dessa forma, “as políticas sociais são o motor de uma visão de justiça e redução das desigualdades, pela garantia de acesso universal e digno a bens e serviços públicos relevantes, direito inalienável de cada cidadão” (Eixo 4).

A entrevista concedida por Marina Silva ao jornal Valor Econômico (11/9/2014) (3) revisita esse poço de contradições. A candidata desautoriza seu principal assessor econômico, e afirma que fará concomitantemente aumento do gasto social e ajuste fiscal. “Com certeza o que Giannetti estava dizendo é que essas coisas acontecerão juntas”. O assessor pelo menos foi honesto: avisou que priorizaria o ajuste macroeconômico. (4)

Essa decisão decorre de uma “conta que precisa ser feita antes”, não considerada pelos seus adversários do PT e do PSDB: “é a conta negativa de não fazer as escolhas de investir na saúde, educação, segurança, transporte digno, qualidade de vida e serviços que os brasileiros estão cobrando (…). Como é que alguém reivindica governar para deixar tudo como está? Nós estamos fazendo uma escolha”.

No caso da educação, compromete-se com a aplicação de 10% de recursos e com a antecipação da meta de universalizar a educação de tempo integral. Também se compromete com as mudanças na regra do “fator previdenciário”: “não vamos nos conformar com a ideia de que os aposentados deverão ser punidos”.

O espaço fiscal para cumprir os ambiciosos objetivos sociais previstos no programa de governo (estimados em mais de R$ 140 bilhões) viria do “combate à corrupção”, da melhoria na “eficiência do gasto público” e (pasmem!) da redução da taxa de juros: “a redução de um ponto percentual nos juros, na taxa Selic, significa cerca de R$ 25 bilhões. Este dinheiro circulando na economia alimenta o processo que nos ajuda a ir criando o espaço fiscal para os investimentos” (sic).

A ampliação do espaço fiscal também seria fruto de “políticas macroeconômicas que façam com que o Brasil possa crescer”. O crescimento proporcionaria a “ampliação do orçamento (necessária) para que possamos fazer os investimentos”. Além disso, o crescimento reativará a competitividade da indústria nacional, hoje “reduzida a pó”. Como crescer? Para Marina é muito simples: basta a “credibilidade” da “nova” política econômica.

Segundo a candidata, o baixo crescimento atual deriva do descrédito do governo que “não fez a lição de casa”: “Quando as demais economias do mundo começam a se recuperar do tsunami com que foram assoladas (…) o Brasil vive o tsunami de não ter feito o dever de casa”.

Observe-se que sua visão contradiz as conclusões do recém-divulgado relatório “Governança Global e Policy Space para o Desenvolvimento” (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – Unctad), segundo as quais a recuperação da economia global continua fraca, seis anos após o início da crise internacional de 2008. Para 2014, a UNCTAD prevê que o crescimento dos países desenvolvidos e dos países da América Latina deve ser em torno de 1,8% e 2%, respectivamente. (5)

Não sobra pedra sobre pedra desse pretenso viés “desenvolvimentista”, quando a entrevista passa a tratar da ultra ortodoxa gestão do “tripé macroeconômico” (meta de inflação, superávit primário e câmbio flutuante), a cargo dos “homens de bem” que estarão à frente do Banco Central Independente (austeridade monetária) e do Conselho de Responsabilidade Fiscal (austeridade fiscal).

Segundo a candidata, a autonomia do Banco Central (BC) serve “para recuperar credibilidade, para que o país volte a ter investimentos, volte a crescer”. No seu governo, o BC estaria “a serviço da sociedade para ajudar a controlar a inflação, preservar o emprego e investimentos”. O Estado não deve “governar apenas para os fortes” e sim “com justiça para todos” – é Marina Silva, taxativa.

Essa visão bipolar parece um caso típico de “autoengano” que já foi tema até de livro, (6) que aborda as “mentiras que contamos a nós mesmos”. Segundo o autor, “mentimos para nós o tempo todo” e “só levamos realmente a sério os argumentos que sustentam nossas crenças”. Para superar esse estado de alma, é preciso analisar os caminhos que nos levam até ele. Seguindo a risca as recomendações do autor, vamos aos fatos.

Em entrevista concedida em meados de 2014, Eduardo Campos, então candidato a presidência pelo PSB anunciou seus planos de reduzir a meta de inflação para 4% (em 2016) e 3,5% (2018) (7). Para cumprir esse propósito seria dada autonomia legal ao BC.

Após a morte de Campos, Marina Silva falou do “peso da responsabilidade” e demonstrou vontade de levar adiante o projeto construído por ele. Claro, elementar, que manter a inflação num patamar inferior ao atual (única missão do BC independente) requer juros básicos nas alturas (único instrumento de política monetária do BC independente). O poder econômico agradece pelos lucros especulativos com títulos do Tesouro Nacional.

Juros básicos altos (já chegaram a 44% nos anos de 1990) trarão recessão, desemprego, e redução das receitas governamentais. Com câmbio flutuante, o Real será valorizado e comprometerá a competitividade da indústria. A elevação dos juros ampliará novamente a dívida pública liquida como proporção do PIB (caiu de 60% para 33%, entre 2002 e 2014). A meta de superávit primário terá forçosamente de ser ampliada, para pagar parcela dos encargos financeiros, restringindo as possibilidades do gasto social. Serão necessárias novas reformas liberalizantes para suprimir direitos sociais universais (previdência, saúde, educação, mobilidade etc.).

Mas os meandros do “autoengano” levam à absurda suposição de que superávit primário seria obtido, pasmem, pela redução dos juros (“fazendo uma política de redução de juros, cria-se um processo virtuoso na economia”). O ajuste fiscal também seria possível pela adoção de outras “políticas combinadas” com o objetivo de ampliar a “eficiência do gasto público”, combater o “inchamento da máquina pública”, estimular “um novo modelo de gestão” e “reduzir ministérios” com base em “critérios altamente rigorosos, sem prejuízo dos serviços e daquilo que a sociedade espera do Estado”. Para esclarecer os eleitores, seria oportuno que a candidata apresentasse estimativa da economia que adviria dessas medidas (em proporção do PIB).

A autonomia legal do BC fortalecerá o poder econômico em detrimento da política, da democracia e dos esforços para um projeto de desenvolvimento com justiça social. Como afirmou André Singer, trata-se de uma ação deliberada do poder econômico “de subtrair a soberania popular do centro da política que é a política econômica”. Em outras palavras, a democracia deixa de ter ação sobre o núcleo da política econômica.

Sequer nos EUA, meca do liberalismo econômico, o Federal Reserve Bank tem como única missão manter a inflação dentro da meta. Um dos seus propósitos é atuar para influenciar “as condições monetárias e de crédito na economia em busca do emprego máximo, preços estáveis e taxas de juros de longo-termo moderadas”. Um olho no gato, outro no peixe. Marina faz diferente: quer dar autonomia legal ao gato.

Não há nada mais velho e ultrapassado que a “nova” economia defendida pela candidata. Baseia-se no enganoso “culto da austeridade”, remédio clássico seguido no Brasil dos anos de 1990 e que está sendo aplicado na Europa desde 2008 com resultados catastróficos (na opinião de Paul Krugman, crítico insuspeito). (8)

Mas o ímpeto “social-desenvolvimentista” tem inúmeros outros capítulos. Um deles é a Reforma Tributária. A candidata promete mandar, “no primeiro mês do governo, uma proposta de reforma tributária para o Congresso com base no princípio da justiça tributária, transparência e simplificação”.

Mas ninguém explica como sairá da “sinuca de bico” quanto à governabilidade, na qual está enredada. Foi o que lhe perguntou a jornalista que a entrevistava: “se não fizer alianças tradicionais, ficará na minoria e corre o risco de crises constantes; se formar maioria, não abandona a promessa de nova política e decepcionará eleitores?”.

Para Marina, a saída é simples. Basta deixar o “terreno da opção” e adentrar no “terreno da escolha”. Na opção, “pega-se o que já existe e o que é mais vantajoso para você”. No caminho “da escolha”, “escolhe-se o que ainda não existe e você trabalha para construir”. Assim, a governabilidade requer apenas esforços para “renovar os procedimentos na política e contribuir para renovar a política”. Nesse sentido, pretende “instituir um governo com base em um programa e não em um cheque em branco, que depois buscará governabilidade com base na distribuição de pedaços do Estado”.

E a candidata Marina Silva arremata a entrevista com uma confissão: “Eu sou uma mulher de fé, e a Bíblia é um livro que marca profundamente a minha história. Sou movida a fé e a determinação”. Que Deus nos abençoe!

Referências:

(1) Economista, doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professor do IE-UNICAMP e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT) desta instituição, coordenador da rede Plataforma Política Social – Agenda para o Desenvolvimento (www.plataformapolicasocial.com).

(2) http://marinasilva.org.br/programa/

(3) https://www.evernote.com/shard/s161/sh/a34c1e35-9a0e-4ba7-a5ec-5d0f98262163/ec71254650b5657633bfdf5f7c029c84

(4) http://www.valor.com.br/brasil/3686278/programa-de-marina-sera-cumprido-quando-conta-fiscal-permitir#ixzz3ClbYOG1d

(5) http://www.valor.com.br/internacional/3690494/onu-relatorio-aponta-crescimento-global-de-25-3-em-2014#ixzz3D1OWWASv

(6) Eduardo Giannetti. Autoengano, São Paulo: Cia da Letras, 1997.

(7) http://www1.folha.uol.com.br/poder/poderepolitica/2014/05/1447935-eduardo-campos-fala-em-meta-de-inflacao-de-3.shtml

(8) http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2FOs-resultados-catastroficos-do-choque-de-gestao-na-Europa%2F6%2F31648

Eleições no Brasil: Marina Silva e a CIA-EUA é ‘caso’ antigo

Por Nil Nikandrov | Via Strategic Culture e O Empastelador

Marina Silva é atual candidata do Partido Socialista à presidência do Brasil. Em meados dos anos 1980s, ela já atraíra a atenção da CIA, quando frequentava a Universidade do Acre. Naquele momento, estudava marxismo e tornara-se membro do Partido Comunista Revolucionário, clandestino. Durou pouco aquele ‘compromisso’: ela rapidamente se transferiu para a ‘proteção do meio ambiente’ na Região Amazônica. Os serviços especiais dos EUA sempre tiveram interesse muito especial naquela parte do continente, na esperança de construírem meios para controlar a área no caso de emergência geopolítica. A CIA fez contato com Marina Silva. Não por acaso, em 1985 ela alistou-se no Partido dos Trabalhadores (PT), o que lhe abriu novas possibilidades de crescimento político.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o senado brasileiro, com fama de ativista apaixonada a favor da proteção ao meio ambiente. Foi quando começaram a circular informações sobre laços entre Marina Silva e a CIA. Em 1996, ela recebeu o Goldman Environmental Prize.[1] E recebeu inúmeras outras importantes condecorações: é praxe, quando se trata de ‘candidatos’ que a CIA tem interesse em promover, que o ‘candidato’ seja coberto de medalhas e condecorações.

Marina Silva serviu como ministra do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até que, interessada em ‘voos mais altos’, e preterida, ela abandonou o Partido dos Trabalhadores e mudou-se para o Partido Verde, de início dedicada a protestar contra políticas ambientais apoiadas pelo PT. Foi realmente um choque, na política brasileira, que a ex-ministra tenha mudado tão completamente de lado, depois de quase 30 anos de atividade a favor do Partido dos Trabalhadores.

Nas eleições de 2010, a candidata da CIA obteve quase 20 milhões de votos, como candidata do Partido Verde; na sequência, para as eleições de 2014, aceitou lugar na chapa de Campos, como vice-presidenta, quando fracassaram seus esforços para criar seu ‘não partido’, mas ‘rede’, chamada “Sustentabilidade”. Dilma Rousseff, candidata do PT contra a qual se alinhavam já em 2010 todas as demais candidaturas, trazia planos para dar continuação às políticas independentes do presidente Lula. Nada disso interessava a Washington em 2010, como tampouco interessa hoje, em 2014.

Daquele momento até hoje, as relações entre Brasil e EUA só fizeram piorar, resultado do escândalo da espionagem & escutas clandestinas. A Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a presidenta Dilma Rousseff e membros de seu gabinete. A presidente brasileira chegou a cancelar visita oficial que faria aos EUA, como sinal de protes. Os EUA jamais apresentaram pedido de desculpas ou comprometeram-se a pôr fim às atividades de espionagem. A presidenta Dilma, então, agiu: denunciou as atividades da Agência de Segurança Nacional e da CIA dos EUA na América Latina e tomou medidas para aumentar a segurança nas comunicações e controle sobre representantes dos EUA ativos no Brasil. Obama não gostou.

As eleições presidenciais no Brasil estão marcadas para 5 de outubro. E Washington está decidida a fazer de Dilma Rousseff presidenta de mandato único. Não há dúvida alguma de que os serviços especiais já iniciaram campanha para livrar-se da atual governante brasileira. Começaram a agir com movimentos de protesto ditos ‘espontâneos’, que encheram algumas ruas e foram amplamente ‘repercutidos’ na imprensa, nos quais os ‘manifestantes’ pedem mudanças (aparentemente, qualquer uma, desde que implique ‘mudança de regime’) e o fim das “velhas políticas” [de fato, nenhuma política é ou algum dia será ‘mais velha’ que o golpismo orquestrado pela CIA no Brasil e em toda a América Latina (NTs)]. Ouviram-se grupos de jovens em protestos contra a propaganda e os símbolos dos partidos políticos, especialmente do PT.

Não se sabe até hoje de onde surgiram os recursos com os quais Marina Silva começou a organizar sua ‘rede’ Sustentabilidade. A nova ‘organização’ visava a substituir os partidos tradicionais, que a candidata declarou ‘velhos’. Tendo obtido 19 milhões de votos, o que lhe valeu o 3º lugar nas eleições passadas, ela contudo não conseguiu cumprir todas as exigências legais para criar oficialmente sua nova ‘rede’. Até que a tragédia que matou Eduardo Campos e seis outras pessoas, perto de São Paulo, mês passado, deu a Marina Silva uma surpreendente segunda chance para tentar chegar à presidência do Brasil. Para conseguir ser a primeira mulher mestiça a chegar à presidência do Brasil, terá de derrotar a primeira mulher que chegou lá antes dela, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, PT; além o candidato Aécio Neves do PSDB, partido pró-business, que hoje amarga um 3º lugar nas pesquisas. A Casa Branca tem-se sentido frustrada.

Dia 13 de agosto, a campanha eleitoral presidencial no Brasil foi lançada em área de incerteza, quando um jato que conduzia o candidato do partido socialista, Eduardo Campos, tombou sobre bairro residencial próximo de São Paulo. Morreram o candidato e seis outras pessoas, passageiros e da tripulação, no acidente que pode ter acontecido por causa do mau tempo, quando o Cessna preparava-se para pousar. As mortes geraram uma onda de comoção nacional, que provavelmente evoluirá para especulações sobre o efeito que terão nas eleições do próximo 5 de outubro. A presidenta Rousseff declarou três dias de luto oficial por Campos, ex-ministro do governo do presidente Lula. A aeronave passara por manutenção técnica regular e nenhum problema foi detectado. De estranho, só, que o gravador de vozes da cabine do avião não estava operando, o que gerou suspeitas. O gravador operara normalmente e gravara várias conversações na cabine, mas nada gravou no dia da tragédia. O avião já passara por vários proprietários (empresários norte-americanos e brasileiros, representantes de empresas de reputação duvidosa), antes de chegar à campanha dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva.

Para alguns comentaristas brasileiros, há forte probabilidade de que tenha havido um atentado, que resultou no assassinato de Eduardo Campos. Antes da tragédia, o avião foi usado pela agência antidrogas dos EUA, Drug Enforcement Administration (DEA). Enviados de antigos proprietários do avião tiveram acesso ao local do acidente, sob os mais diferentes pretextos. Difícil não conjecturar se teria havido agentes dos EUA por trás da tragédia. Mas ainda não se sabe exatamente sequer o que aconteceu. Saber quem fez, se algo foi feito, demorará ainda mais.

O avião decolou do Rio de Janeiro, onde opera uma estação da CIA, em território do consulado dos EUA. Não há dúvidas de que aquele escritório é usado pela Agência. Talvez os serviços especiais do Brasil devessem dar atenção especial a personagens que rapidamente deixaram o país, imediatamente depois da tragédia em Santos. A morte de Eduardo Campos teve efeito instantâneo sobre a candidatura do Partido Socialista: Eduardo Campos jamais passara dos 9-10% de preferência nas pesquisas, mas Marina Silva rapidamente surgiu com 34-35%, na votação em primeiro turno. Agora, se prevê que a eleição seja levada para o segundo turno.

O principal problema de Marina Silva é que é sempre difícil entender quais seriam suas reais intenções e projetos. É uma espécie de ‘imprecisão’ que se observa constantemente no discurso de candidatos promovidos pelos EUA. Marina Silva mudou de lado, sempre muito dramaticamente, inúmeras vezes. Ao unir-se a Eduardo Campos, por exemplo, a candidata várias vezes se manifestou a favor de manter bem longe do Brasil as ideias de Chavez (Hugo Chavez – falecido presidente da Venezuela, conhecido pelas convicções socialistas e políticas de esquerda). Mas ela serviu ao governo do presidente Lula, conhecido e muito respeitado defensor do chavismo. (…)

De fato, ao tempo em que a campanha avança e as eleições aproximam-se, Marina Silva vai-se tornando cada vez mais neoliberal. Já disse que não vê sentido em fazer dos BRICS um centro de poder multipolar, nem em apressar a implementação de medidas já decididas dentro do bloco, como criar um banco de desenvolvimento, um fundo de reserva, etc. Já manifestou ‘dúvidas’ sobre o Conselho Sul-americano de Defesa, e diz, em discussões com assessores íntimos, que quer dar menos atenção ao Mercosul e à Unasul (União das Nações Sul-americanas, união intergovernamental em que se integram duas uniões aduaneiras, o Mercosul e a Comunidade de Nações Andinas, como parte do processo de integração sul-americana). Para Marina Silva, mais importante é desenvolver relações bilaterais com os EUA.

Fato é que os brasileiros estão já habituados a quase 20 anos de progresso social no país, com os governos do presidente Lula e da presidenta Rousseff. A população é ouvida, as reformas acontecem, o que foi prometido está sendo construído, o Brasil vive tempos de estabilidade e de avanços.

Se Marina Silva chegar à presidência (George Soros, magnata norte-americano, investidor e filantropo, tem alimentado a campanha dela com quantidade significativa de fundos), deve-se contar com o fim de vários programas sociais e políticos, o que pode vir a gerar grave descontentamento popular. Há quem diga que os escritórios dos EUA no Brasil estão repletos de agentes dos serviços especiais, encarregados de ‘gerar’ ‘protestos’ naquele país.

[1] Sobre o prêmio, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Goldman_Environmental_Prize . Além de Marina Silva, outro brasileiro recebeu esse prêmio, um “Carlos Alberto Ricardo”, fundador da ONG “Instituto Socioambiental”, em 1992, como se lê em http://en.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Ricardo [NTs].

* Nil Nikandrov é jornalista, russo, trabalha em Moscou e cobre questões de política latino-americana; é conhecido crítico da devastação que governos neoliberais promoveram em economias nacionais por todo o planeta. É autor da primeira biografia de Hugo Chávez em russo (NTs, com informações de http://www.4thmedia.org/category/nil-nikandrov/).

Tradução: Vila Vudu