Arquivo mensais:setembro 2014

Haddad faz trabalho de Alckmin

Via SpressoSP

Diante da crise hídrica, o prefeito decidiu abrir poços artesianos emergenciais para garantir o abastecimento de equipamentos municipais – tarefa que é de responsabilidade do governo do estado

Graças à falta de planejamento da Sabesp e do governo estadual, que não construíram novos reservatórios para garantir abastecimento em períodos de escassez, o estado de São Paulo corre o iminente risco de ficar sem água. O prefeito da capital, Fernando Haddad (PT), no entanto, optou por não esperar mais um plano de captação de Alckmin e nem por São Pedro, e decidiu perfurar poços artesianos por toda a cidade para casos de emergência. A ideia é que a possível falta de água não afete equipamentos públicos essenciais, como creches e hospitais.

A Secretaria de Coordenação vai contratar uma empresa para perfurar poços em cada uma das 31 subprefeituras da cidade através de um modelo mais rápido. “São para casos de emergência. Com esse modelo, conseguimos fazer um poço em 20 dias”, explica o engenheiro José Carlos Masi, assessor técnico de obras e serviços da secretaria. Cada poço custa em média R$15 mil.

As subprefeituras realizaram um levantamento dos locais onde poderiam ser perfurados os poços, mas eles não serão construídos imediatamente. “Foi o prefeito quem nos pediu esse levantamento em função dessa crise de estiagem. A ideia é não precisar usar, mas precisamos ter uma alternativa nas mãos caso seja necessário”, afirmou o engenheiro. “Assim que a subprefeitura comprovar a necessidade de um poço, acionamos a empresa contratada, que ficará encarregada de obter a licença ambiental, a outorga e construir o poço”, finalizou.

Para construir os poços, é necessário uma autorização do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e uma licença da Companhia Ambiental de São Paulo (Cetesb), órgãos do governo estadual.

O novo “consenso de Washington”

Por Rogerio Studart | Via Brasil Econômico

Solução que foi proposta para melhorar a produtividade e a competitividade das economias da América Latina e do Caribe a região seria adotar mais “políticas de desenvolvimento produtivo”

Um recente estudo, “Rethinking Productive Development: Sound Policies and Institutions for Economic Transformation”, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostra que a produtividade e a competitividade das economias da América Latina e do Caribe têm caído de forma preocupante . Isto não é novidade. O que surpreende é a solução proposta: a região deveria adotar mais “políticas de desenvolvimento produtivo”. Ou seja, as políticas industriais voltam a ser parte de um “novo consenso de Washington”. Mas, no mundo em que vivemos, o que quer dizer isto? E o Brasil com isto?

Vamos retroceder um pouco no tempo. Nos anos 80 e até recentemente, passaram a prevalecer dois consensos nas instituições financeiras internacionais: por um lado as políticas industriais na América Latina nos anos 70 e 80 haviam fracassado “rotundamente”; e, por outro, a melhor política econômica para a região seria aquela que promovia estabilidade macroeconômica, reformas microeconômicas, e o menor intervencionismo possível. Quando comparavam os nossos problemas com o sucesso de economias do Sudeste Asiático, ressaltavam papel das medidas liberalizantes destas ultimas — e quase nada se dizia das políticas industriais. Quando “ocorreu” a China, por exemplo, apesar do ativíssimo papel do Estado chinês no financiamento e direcionamento do investimento, só se mencionavam as políticas de abertura comercial e atração do investimento estrangeiro.

Com os anos, esse discurso tornou-se cada vez menos crível. Por um lado, economistas que estudaram profundamente os “milagres asiáticos” — como Alice Amsden, Dani Rodrik e HaJoon Chang, só para citar alguns — passaram a ganhar reputação ao desmentir a visão conservadora desses milagres. Esses autores mostraram, de forma conclusiva, que nem a Coreia do Sul, nem muito menos a China, para citar dois casos de êxito indiscutíveis, devem seu sucesso a fórmulas ortodoxas, mas a políticas industriais voltadas a criar uma base produtiva e exportadora que aproveitou amplamente a abertura comercial oferecida pelos Estados Unidos e outros países da OCDE, por razões estritamente geopolíticas. Esse “sacrilégio intelectual” desse grupo heterodoxo sequer poupou o supostamente liberal Chile pós-Pinochet: apresentaram evidências de que a política industrial naquele país foi fundamental para consolidar no mercado global setores exportadores de delícias chilenas (vinhos, salmões e outros frutos do mar) e setores intensivos em tecnologia — o que permitiu uma saudável diversificação do aparato produtivo chileno para além da indústria extrativa (especialmente cobre).

Antes da crise de 2008, o ressurgimento do debate em Washington sobre as políticas industriais já havia sido iniciado. Interessantemente, Robert Zoellick, anterior presidente do Banco Mundial, e conhecido por sua visão republicana liberal, escolheu como economista chefe Jutin Yufi Lin — um chinês, profundamente convicto sobre a centralidade das políticas industriais no desenvolvimento econômico. É verdade que, como pude observar, as resistências internas às ideias de Lin foram grandes. Mas isso não impediu a proliferação de artigos e textos produzidos no Banco Mundial favoráveis a um papel mais ativo do Estado para promover o “desenvolvimento produtivo”, e enfrentar a crise mundial de produção (que agora é uma crise de emprego). Se muitos países em desenvolvimento ainda se sentiram cautelosos frente a esse novo consenso de Washington, as economias desenvolvidas não mostraram nenhuma timidez em acompanhar a nova onda — o que se comprava pelo número de programas de “apoio à reestruturação produtiva”, incluindo fortes componentes de financiamento direto (subsidiado) introduzidos pelas economias da OCDE (como já comentei em outros artigos nesta coluna).

Nesse contexto, é significativo, mas não surpreendente, que o BID tenha aderido fortemente ao “novo consenso de Washington”, abandonando os já ultrapassados preconceitos em relação à política industrial. A abordagem é, entretanto, cautelosa, apesar de apontar para a necessidade urgente de avançar com “políticas de desenvolvimento produtivo” para romper com um circulo vicioso, prevalecente na região, de baixa produtividade, baixa competitividade e baixo crescimento. Como compatibilizar a cautela com o sentido de urgência? Segundo o documento, através de políticas que alavanquem as vantagens comparativas das economias regionais — e resistir a políticas abrangentes que sufoquem o livre funcionamento das forças de mercado.

É impossível ler esse documento sem pensar no debate atual no Brasil. Afinal, temos uma economia continental, comercialmente aberta e que passou por um processo acelerado de consolidação da classe mádia, não acompanhado pelo crescimento da sua produtividade e oferta doméstica (especialmente no setor manufatureiro). Em suma, temos um mercado doméstico altamente atrativo, com um setor produtivo doméstico vulnerável. Precisamos intensificar e, simultaneamente, aumentar a eficiência das nossas políticas de desenvolvimento produtivo e de atração de investimento privado, nacional e estrangeiro. E, para isso, necessitamos de um debate, isento de preconceitos, envolvendo setor privado, governo e academia. Neste ano, o calor eleitoral impede esse tipo de debate. Oxalá ele ocorra já no começo do próximo ano. É urgente.

Ataques de EUA e aliados contra Estado Islâmico deixam pelo menos 50 mortos na Síria

Via Opera Mundi

Obama resolveu bombardear também a Síria, no combate ao EI.

Aviões da coalizão internacional liderada por Washington atingiram mais de 40 posições dos jihadistas; EUA dizem não ter havido comunicação “em nível militar” com Damasco

Pelo menos cinquenta pessoas morreram nesta terça-feira (23/09) após serem atingidas pelos bombardeios da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos na Síria. Os ataques direcionados contra posições do EI (Estado Islâmico) aconteceram nas províncias de Al Raqqah – local de maior concentracão dos jihadistas -, Deir ez Zor, Al Hasaka e Aleppo, informou o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

De acordo com informações da Agência Efe, as vítimas são em sua maioria membros da Frente al Nusra, braço da Al Qaeda na Síria. Os EUA, no entanto, anunciaram que a ofensiva internacional teria como alvo apenas o EI, sem nomear a Frente al Nusra.

Em discurso na manhã desta terça-feira em Washington, o presidente Barack Obama disse que o fato de vários países terem participado da operação – citando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Bahrein e Catar – “deixa claro que essa não é uma batalha [contra o EI] somente dos EUA”.

Segundo Obama, mais de 40 países ofereceram ajuda contra o Estado Islâmico em ações que vão desde o treinamento de equipes em solo até o corte de fontes de financiamento dos jihadistas.

De acordo com o jornal português Público, o governo sírio foi informado sobre a operação por meio do representante do país nas Nações Unidas. Além disso, Damasco confirmou hoje que apoia e “está pronto para cooperar com qualquer esforço internacional” contra os jihadistas, desde que a “soberania nacional e as resoluções internacionais sejam respeitadas”.

Porém, nesta manhã, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Jen Psaki, afirmou, no entanto, que não houve comunicação “em nível militar”. “Não coordenamos nossas ações com o governo sírio. Não demos notificações prévias aos sírios em nível militar, ou demos nenhuma indicação da nossa programação em alvos específicos. O secretário Kerry não mandou uma carta para o regime sírio”, disse.

Até o momento, não há informações oficiais se algum combatente do EI morreu ou ficou ferido nos ataques. Segundo o Observatório Sírio, 50 posições do EI foram alvos dos bombardeios de EUA e coalizão.

A imprensa europeia destacou que a operação iniciada na noite de ontem (22) é mais ampla e complexa que a feita em agosto no Iraque. Segundo a AFP, os aviões norte-americanos também atacaram um segundo grupo jihadista, o Khorosan – composto por veteranos da Al-Qaeda.

(*) Com informações de Efe, AFP, Público, El Pais

Moradia não é caso de polícia

Por Raquel Rolnik | Via Blog da Raquel Rolnik

Na última terça-feira(16), mais uma vez a cidade de São Paulo presenciou cenas absurdas de violência. Mais uma vez – já que esta não foi a primeira – a reintegração de posse de um edifício que, abandonado há anos, havia sido ocupado por famílias sem teto foi executada pela Polícia Militar. Desta vez, foi o prédio do Hotel Aquarius, na Avenida São João, centro da cidade.

Crianças gritando, mulheres tentando se proteger de pauladas, gás lacrimogênio, gente sangrando… cenas de guerra. Mas… guerra de quem contra quem? As cenas que testemunhamos esta semana simplesmente indicam que está tudo errado!

Senão vejamos: seria possível argumentar que a Polícia Militar estava simplesmente executando a ordem judicial para desocupar o prédio. E que só saíram na porrada porque os moradores não quiseram deixar o imóvel pacificamente. Mas, vamos examinar ponto por ponto estas afirmações.

Em primeiro lugar: por que será que mais de 200 famílias ocuparam este – e pelo menos mais uma centena de prédios ou terrenos vazios em São Paulo? Resposta: por que não têm NENHUMA outra alternativa de moradia! Estamos vivendo uma situação de enorme alta nos preços dos imóveis e dos aluguéis, muito superior ao crescimento da renda da população, mesmo considerando o aumento das ofertas de emprego nos últimos anos. E simplesmente o que existe de política habitacional hoje na cidade para uma situação de emergência como esta é: NADA.

Como disse uma moradora à imprensa, depois da reintegração de posse, “os móveis vão para o depósito, e as pessoas pra rua”. Provavelmente, vão para outra ocupação como esta, já que até o mercado de aluguéis de barraco de favela está inflacionado!

Em segundo lugar: o juiz que decretou a reintegração de posse do prédio – e terceirizou “o serviço” para a Polícia Militar –, além de checar se o edifício realmente pertencia aos proprietários que o estavam requisitando de volta, deveria checar também alguns trechos da Constituição Brasileira, do Estatuto das Cidades e do Plano Diretor, que afirmam, com todas as letras, que imóveis vazios ou subutilizados que não estejam cumprindo sua função social estão sujeitos a sanções. Na nossa Constituição, que o juiz esquece de ler, a propriedade, além de constituir um patrimônio de seu dono, tem uma responsabilidade pública em relação à sociedade.

Este mesmo juiz também deveria saber que, no nosso país, as pessoas têm direitos e, assim como o proprietário tem direito de reivindicar de volta seu prédio, as crianças e as mulheres, os idosos e os mais vulneráveis têm o direito de ser protegidos. Isso significa que não se pode simplesmente decretar que as pessoas têm que cair fora do imóvel, sem também encaminhar, de alguma forma, a proteção para quem vai ficar vulnerável por esta situação.

Trocando em miúdos: há formas e formas de executar reintegrações de posse. A pior delas é deixar nas mãos da Polícia Militar, sem mediadores, sem que organismos de proteção dos direitos sejam acionados e respeitados, participando ativamente, e sem alternativas imediatas. Uma coisa é devolver o imóvel ao proprietário, outra, é o destino das famílias. O encaminhamento das famílias é uma questão social, não um caso de polícia.

O prédio da São João é apenas um entre as centenas de prédios vazios ou subutilizados há anos, às vezes, décadas, que poderiam ser transformados em habitação de interesse social. Mas os programas habitacionais de que dispomos hoje são totalmente inadequados para viabilizar a reforma e reabilitação destes prédios, a fim de atender famílias de tão baixa renda. Como se baseiam na aquisição da propriedade, a conta não fecha jamais…

Recentemente, estive no Uruguai para participar de um evento a convite da Federação Uruguaia de Cooperativas de Moradia (FUCVAM), e pude conhecer de perto uma iniciativa interessante desenvolvida pela Prefeitura de Montevidéu. A prefeitura tem uma carteira de imóveis, inclusive no centro histórico, que são disponibilizados para a Federação, que por sua vez os repassa para cooperativas reformarem ou construírem moradias populares.

Estes imóveis não se tornam propriedade individual de ninguém, são propriedade das cooperativas. Os moradores pagam a estas cotas mensais para cobrir parte dos custos da reforma ou construção e, posteriormente, da manutenção. As famílias moram nestes imóveis com usufruto permanente. Se alguma quiser se mudar, outra família, também cooperativada, também do mesmo extrato de renda, ocupará o seu lugar.

Hoje, em São Paulo, mais de 30 prédios ocupados na região central estão com processos de reintegração de posse em curso. Se não quisermos ver a repetição destas cenas lamentáveis, é urgente mudar os procedimentos de reintegração. Mas é urgente também avançarmos numa política de moradia capaz de oferecer alternativas.

Raquel é urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Noam Chomsky: “A era digital não muda a missão da imprensa livre”

Por Noam Chomsky | Via Diário Liberdade

Tech News Pedia/Reprodução

México – La Jornada – [Tradução do Diário Liberdade] A era digital não muda o essencial, a missão da mídia comprometida e independente, sobretudo em momentos em que se requer uma cidadania consciente e comprometida para responder aos sistemas de poder que levam o mundo à fronteira de um desastre apocalíptico, comentou Noam Chomsky em entrevista com “La Jornada”.

Apesar do sombrio panorama que pinta a conjuntura atual, Chomsky assinala que alguns raios de luz de esperança para o mundo provêm de mudanças históricas na América Latina.

Chomsky, o intelectual vivo mais citado no planeta e um dos 10 mais citados na história, é um feroz crítico do modelo neoliberal, das políticas imperiais dos Estados Unidos e de Israel contra o povo palestino, assim como do uso e abuso da comunicação e da imprensa.

No âmbito acadêmico, Chomsky não só é considerado o pai da linguística moderna, se não que como professor emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts também tem se destacado por suas contribuições à filosofia e às ciências sociais.

Profundamente convencido que dizer a verdade diante do poder é obrigação moral, Chomsky desnuda o imperador todos os dias e ainda é, com seus 85 anos, um dos poucos intelectuais confiáveis e respeitados pelas novas gerações, apesar de que está virtualmente vetado pelos meios massivos tradicionais em seu país e em outros. Portanto, é um homem perigoso para o poder, e por isso segue sendo uma voz vital para o presente e o futuro.

Chomsky, colaborador de “La Jornada” durante vários anos, ofereceu suas reflexões sobre aspectos da conjuntura em uma entrevista com o motivo do aniversario deste periódico.

Como percebe o que alguns chamam mudanças revolucionárias no panorama da mídia com o surgimento do mundo digital, e que, segundo argumentam alguns, prometeu democratizar o jornalismo e abrir uma era de comunicação informação massiva? Alguma coisa mudou?

Claro que existem mudanças, mas acredito que o fundamental permanece igual. A internet sem dúvida oferece uma oportunidade de acesso a uma rica variedade de informação e análise, como a produção deste tipo de material, com maior facilidade que antes. Também oferece oportunidades para a diversão, a distração, a formação de pessoas cultas, o pensamento descuidado, navegar sem propósito claro e muio mais. Uma boa biblioteca pode oferecer uma oportunidade para que alguém se converta em um biólogo criativo ou um leitor sensível da grande literatura, ou para perder o tempo. Depende de como alguém escolhe usar o que está disponível. Os resultados [da nova era digital] são mistos.

“Para organizadores e ativistas, a internet tem sido uma ferramenta indispensável. Porem aqui requer-se também una nota de cautela. Um dos observadores mais astutos e informados do tumulto no mundo árabe, Patrick Cockburn, escreve que durante os levantamentos da primavera árabe, membros da intelectualidade e [frequentemente] pareciam viver e pensar dentro da câmara de ecos da Internet. Poucos expressaram ideias praticas sobre como ir adiante ou, poderíamos agregar, aprestaram suficiente atenção às realidades políticas, de classe ou militares. Os resultados aí estão a vista, e essas lições podem ser generalizadas.”

Qual deveria ser o papel da mídia progressista neste contexto?

Todos permanecemos dependentes das reportagens diretas de jornalistas valentes e honestos, os que fazem seu trabalho com integridade. Nenhuma tecnologia vai mudar isso. O papel da mídia progressista é o mesmo de sempre: tentar buscar a verdade em assuntos de importância, romper a onda de propaganda e engano que está enraizada nos sistemas de poder e oferecer os meios para que as pessoas possam avançar nas lutas por liberdade, justiça e até a sobrevivência frente às ameaças sinistras.

Você insiste em abordar os efeitos devastadores das políticas do governo dos Estados Unidos e do mundo empresarial, as quais se manifestam em guerras e injustiças sociais e econômicas, e mais recentemente advertiu que isto está chegando a um ponto em que estamos pondo em risco a sobrevivência mesma da civilização. Para aqueles que observam os Estados Unidos e a América Latina neste momento, quais são os desafios mais básicos que enfrentam hoje em dia? Onde percebe o melhor potencial para uma resposta diante desses desafios?

As ameaças são muito reais. A ameaça de destruição por uma guerra nuclear está sempre presente, e o histórico é atemorizante. O mesmo é certo, talvez ainda com mais prominência, acerca das ameaças de uma catástrofe ambiental. Pela primeira vez na historia humana estamos frente às possibilidades de destruir as condições de uma sobrevivência decente, e os sistemas de poder estão nos levando a esse precipício.

No entanto, existem sinais alentadores, em grande medida na América Latina, já que o que tem ocorrido em anos recentes tem um significado verdadeiramente histórico. Pela primeira vez em 500 anos, países da América Latina tem dado passos muito sérios em direção à integracão e à independência do poder imperial estrangeiro (no século passado representado principalmente pelos Estados Unidos).

As mudanças, que são espetaculares, revelam-se de várias maneiras. Não faz muito tempo, América Latina era o “quintal” de Washington. Os países faziam o que lhes ordenava, ou, se saíam desta línha, eram submetidos a golpes militares, terror assassinato e destruição. Porém agora, em conferências hemisféricas, Estados Unidos e Canadá estão virtualmente ilhados.

Um estudo recente dos programas de rendição extraordinária da Agencia Central de Inteligencia (CIA), um das formas mais selvagens e covardes de tortura, encontrou colaboradores em grande parte del mundo, incluída Europa, porém havia uma exceçãoi: a América Latina. Isto é duplamente notável: primeiro, por conta da subordinação histórica da região a Washington, e segundo, porque durante esse periodo [de subordinação] a região era um dos centros de tortura do mundo.

Por outro lado, segundo o Tratado de Tlatelolco, América Latina é uma das poucas regiões do mundo com uma zona livre de armas nucleares.

Em outra área, com comunidades indígenas frequentemente como líderes, vários países latinoamericanos tem dado passos significativos para reconhecer os dereitos da natureza e buscar economias sustentáveis que freiem a precipitação para um desastre ambiental.

Tudo isto é dramático e promissor, ainda que não sem falhas e com problemas sérios.

Os desafios que enfrentamos hoje são imensos. O maior potencial [para uma resposta] é uma cidadanía ativa e comprometida. Não existe muito tempo para perder.

O que te faz rir hoje em dia?

Na cultura judia que cresci, existe um conceito de risada através de lágrimas. Lamentavelmente, o mundo oferece muitas oportunidades para esta prática.

Porém existem muitos raios de luz, e amplas razões para esperar que um mundo melhor é possível, como o Foro Social Mundial e seus ramos nos recordam continuamente. E não é acidental que suas raízes são latino-americanas.

Danilo Gentili é mais que um rematado idiota, é um covarde

Por Nirlando Beirão | Via Carta Capital

Não satisfeito, ele se une a gente como Roger, que se vangloria de um QI à altura do Everest e escora sua sabedoria no exílio passado na América, onde deve ter feito estágio na Ku Klux Klan

Luciana humilha o escorpião, perdão, anfitrião

Acabou A Grande Família, depois de 13 anos quase ininterruptos, e acabou em grande estilo, com artimanha de metalinguagem, o último capítulo brincando de ficção em dobro. Deixa saudade. Vai embora, na Globo, a longeva família suburbana e fica, no SBT, a molecagem subintelectual de The Noite. Danilo Gentili é um rematado idiota e, não satisfeito, ainda se cerca de sumidades anedóticas como aquele Roger, sempre um Ultraje.

Gentili construiu sua, hum, notoriedade graças ao episódio que este colunista testemunhou: a suposta agressão por parte de guarda-costas de Sarney, durante a comemoração da vitória de Dilma Rousseff em 2010, num hotel de Brasília. Na verdade, foi o varapau vira-latas que, no acotovelo da multidão, se arremessou sobre o ex-presidente, com aquela grosseria que caracteriza o padrão Pânico de provocação e desrespeito. Já o Roger vangloria-se de um QI à altura do Everest, que ele prefere sonegar à tevê, e escora sua sapiência nos anos de autoexílio na América, onde, a julgar pelo que diz, deve ter cumprido um proveitoso estágio na Ku Klux Klan.

Bastaram 20 minutos, nesta semana, para que ruíssem estrepitosamente o arcabouço ideológico e a fraude ética que sustentam todo aquele esforçado exercício de gracinhas e de torpezas. Luciana Genro, candidata do PSOL à Presidência, aceitou submeter-se ao risco mais do que previsível do deboche. Atrevida, a moça. Sua firmeza desarmou os engraçadinhos. Sua sinceridade levou-a a recomendar ao, bem, entrevistador: “Se tu estudar um pouquinho…”

As redes sociais extrapolaram o episódio, mas na verdade Luciana disse-o sem agressividade. O, vá lá, anfitrião, em resposta humilhada, postou uma montagem relacionando a candidata ao ídolo dele, Adolf Hitler. Mostrou que, além de idiota, é um covarde.

Marina, o cavalo de Troia

A procissão do cavalo de Troia, de Giovanni Domeni

Por Rennan Martins | Brasília, 22/09/2014

A Grécia Antiga e seus diversos poetas, com destaque para o lendário Homero, nos brindou com a história da Guerra de Troia. Nela, os gregos iniciam uma guerra de uma década após o príncipe de Troia, Páris, sequestrar Helena, a mais bela mulher do mundo e esposa de Menelau.

Esta peleja só teve fim após os gregos – cansados de cercar Troia e suas muralhas por tantos anos – resolverem usar de uma trapaça para invadir a cidade. Construiu-se um imenso cavalo de madeira, oco, que foi deixado as portas dos troianos. Estes, ao avistarem somente o cavalo e nenhuma tropa inimiga, julgaram ter ganho a guerra e um regalo. Festejaram então a vitória, e guardaram no interior de suas muralhas o presente de grego. A noite chegou e a cidade que dormia foi destruída e incendiada pelos soldados gregos que estavam no interior do cavalo, o de Troia.

Saindo da Grécia e adentrando o Brasil, tivemos o histórico mês de junho do ano passado, episódio em que voltamos às ruas com diversas demandas e uma clara insatisfação com o sistema de representação política, desgastado e distante das vontades da população. Desta conjuntura emergiu Marina Silva, candidata que alega estar comprometida com a nova política.

Marina, com sua origem e história adquiriu uma aura de predestinação e invadiu o imaginário popular com a imagem da pureza que renovaria o cenário político brasileiro, condenado pelos vícios e mazelas de nossa república.

Porém, quando comparamos sua agenda, alianças e compromissos firmados, não é difícil enxergar a pessebista como um cavalo de Troia. Explico.

A candidata aparenta possuir compromisso com o social e o aprofundamento da inclusão que ocorridos nos últimos anos. No entanto, sua plataforma político-econômica é demasiado ortodoxa, o que dificulta sobremaneira ao Estado intervir no sentido de combater a desigualdade que ainda assola o país.

Exemplo claro da contradição citada é a proposta de minguar a atuação dos bancos públicos. O setor financeiro privado – cada vez mais acostumado a benesses e avesso a riscos – terá realmente vontade de substituir os bancos públicos no financiamento aos programas de habitação e da agricultura familiar? Certamente que não.

Outro ponto que sinaliza retrocesso é a política externa. Nos últimos anos priorizamos a integração regional, a solidariedade latino-americana e o enfrentamento aos abusos cometidos pelas potências, como no caso em que nossa presidente teceu duras críticas aos Estados Unidos pela espionagem massiva que praticam, e quando subimos o tom contra Israel, criticando o massacre na Faixa de Gaza. Marina, em entrevista a Associated Press publicada no último dia 18, deixou claro que pretende reconfigurar a inserção brasileira no cenário internacional, fazendo-nos voltar a antiga subserviência aos norte-americanos e a cumplicidade as destruidoras intervenções militares da OTAN.

No campo dos direitos civis, o Brasil instituiu o casamento igualitário por decisão do judiciário e caminha agora para transformar a medida em lei. Marina chegou a defendê-lo, mas, após quatro tweets furiosos do patético e obcecado pastor Malafaia, voltou atrás. Com isso demonstrou ser influenciada demais pelo conservadorismo rançoso, sem mencionar a falta de pulso para liderança.

A pessebista empunhava a bandeira da revisão da lei da anistia, considerando que crimes contra a humanidade não prescrevem. De olho no apoio dos militares, mudou de ideia e assumiu mais este compromisso questionável.

Um dos principais destaques do discurso do novo de Marina eram as críticas as atuais alianças do governo com o PMDB de Sarney e Renan e a recusa a receber financiamento de setores como da indústria de arma e de bebidas. Não mais. Márcio França, coordenador financeiro de campanha, abriu os cofres dizendo: “Pode vir dinheiro da indústria de armas, de bebidas, do que for”. Beto Albuquerque, vice-presidente da chapa, tratou de avisar que “ninguém governa sem o PMDB”.

Esse estranho comportamento lhe rendeu diversas críticas internas. Adriano Benayon, doutor em economia e filiado ao PSB, já avisou que a candidata não terá seu voto. O líder da Rede Sustentabilidade no Pará, Charles Alcântara lhe retirou o apoio após perceber o quão liberais eram suas propostas econômicas. Gustavo Cantañon, professor de filosofia da UFJF, se indignou com as contradições e alianças de Marina e desfiliou do PSB publicando carta bombástica.

A história nos ensina que muitos políticos de raízes populares traem sua base social, e que os elitistas jamais o fazem. E é justamente por ser essa metamorfose ambulante com perigosa queda para o reacionarismo que passei a referir-me a Marina Silva como cavalo de Troia.