Arquivo mensais:setembro 2014

Obama subjuga a Europa: Sanções aprofundam a recessão

Por James Petras | Via Resistir

A Administração Obama pressionou activamente a Europa para impor duras sanções à Rússia a fim de defender a violenta tomada do poder (“mudança de regime”) na Ucrânia. A Inglaterra, França, Alemanha e o resto dos regimes europeus cederam às exigências de Washington. A Rússia respondeu impondo sanções recíprocas, especialmente nos bens agro-alimentares, estabelecendo parcerias comerciais alternativas e aumentando o comércio com a China, Irão, América Latina e África.

As políticas de sanções ocorrem numa altura em que as economias da Europa estão em crise económica profunda, exacerbando a estagnação a longo prazo e a recessão crónica. Este documento identifica e analisa a crise e como as sanções conduzidas pelos EUA estão a fracturar a União Europeia. Em segundo lugar, analisaremos como as politicas imperiais militaristas de Washington estão a minar a Europa economicamente e a desestabilizar o resto de mundo militarmente. Em terceiro, discutiremos como os líderes europeus são aguilhoados por Washington, dizendo isto brutalmente, através de um agressivo “processo de subjugação”, para entregarem a sua soberania económica e como a capitulação perante o projecto dos EUA na Ucrânia levará ao seu declínio e decadência a longo prazo. Finalmente, discutiremos as perspectivas a longo prazo para uma economia mundial realinhada em que os conflitos militares podem resultar em mudanças de grande escala.

Da estagnação à recessão, das sanções à depressão

Por toda a Europa, sem excepção, a recessão espreita as economias. Os países dominantes, Alemanha, França e Itália estão afundados na recessão, severamente exacerbada pelas sanções contra a Rússia ditadas por Washington. Da Finlândia, passando pelos Estados Bálticos até à Europa Central e do Sul, a “recuperação” da Zona Euro está “kaput”! A “tripla maldição” do desinvestimento capitalista, das sanções económicas e das guerras provocou um aprofundamento da crise económica.

Alemanha: Um regime “lambe botas” assusta o sector industrial e o financeiro

A confiança no mercado financeiro alemão está em colapso devido ao apoio da chanceler Merkel ás sanções contra a Rússia e a resposta em reciprocidade do presidente Putin. Várias centenas de milhares de postos de trabalho na indústria alemã estão em risco; as importações de petróleo e gás natural russo estão em perigo; investimentos em grande escala e a longo prazo, bem como exportações lucrativas, estão em jogo. Estes receios e incertezas conduziram a um declínio do investimento e a um sem precedentes crescimento negativo de 0,2% na economia alemã no segundo trimestre de 2014. As ondas de recessão na Alemanha espalham-se através da Europa – afectando sobretudo a Polónia, a República Checa, a Hungria e a Europa do Sul.

A servil capitulação de Merkel ao comando do presidente dos EUA para sancionar um dos maiores parceiros comerciais da Alemanha, pode prejudicar seriamente o seu futuro económico. As exportações industriais para a Rússia ascendem a 36 mil milhões de euros; há €20 mil milhões de investimentos e mais de 400 mil trabalhadores alemães estão empregados em empresas que exportam para a Rússia… Joe Kaeser, presidente da Siemens, argumentou explicitamente que “as tensões políticas põem sérios riscos para o crescimento da Europa neste ano e no próximo”. As vendas em alguns sectores caíram 15% desde Junho de 2014. A economia alemã já enfrentava a estagnação mesmo antes do golpe de Kiev… exportadores de máquinas estão especialmente preocupados acerca da perda do mercado russo porque outros mercados estão em declínio. Exemplo: as vendas para o Brasil caíram cerca de 20%.

Além disto, os agricultores alemães sofrerão perdas. As exportações carne e seus produtos montam a €276 milhões anuais ou 21% das suas exportações para fora da UE. Os exportadores de lacticínios facturam €160 milhões no comércio com a Rússia, 14% do total para fora da UE.

Merkel conscientemente sacrificou a indústria, a agricultura e o emprego ao submeter-se às políticas de Obama “subjugação dos seus aliados europeus”. Por outro lado as sanções contra a Rússia não têm praticamente impacto sobre os interesses económicos dos EUA. Só os europeus sentirão o golpe. O apoio de Merkel ao golpe dos EUA-NATO em Kiev e o assalto militar em curso contra os democratas anti golpe no Leste da Ucrânia está a levar a um ressuscitar das políticas de confronto da Guerra Fria para com a Rússia, constrangem a maioria dos produtores e exportadores alemães, bem como a população alemã.

Itália: Crise capitalista e sanções

A Itália é atingida por uma profunda recessão que dura há meia década e continua em 2014. O PIB caiu 0,2% no segundo trimestre, ficando ao nível de 2000! As sanções contra a Rússia custarão à Itália mais de 1 000 M€ em exportações perdidas, que vão refletir-se sobretudo no Norte da Itália, provocando a ira dos conservadores da Liga do Norte. As grandes empresas de energia com elevados investimentos na Rússia, enfrentam ainda maiores perdas. Agricultores, da Toscânia à Sicília, estão a sofrer grandes perdas nas suas exportações. Por outras palavras, com as sanções a economia italiana, cronicamente doente, perdeu qualquer hipótese de recuperação e previsivelmente passará da recessão para a depressão.

França: Do crescimento zero à recessão

A França entrou num período de perpétua recessão. O desemprego excede os 11%, o subemprego excede 20%. O PIB paira em níveis de recessão entre os zero e 0,5%. A austeridade, envolvendo cortes nos programas sociais em larga escala, isenções e benefícios nos impostos para o capital, desgastou as despesas de consumo sem aumentar o investimento. As sanções de Obama contra a Rússia prejudicarão ainda mais os exportadores franceses, em particular o seu sector agrícola e os fabricantes de armamento [NR] . O híper-militarista-socialista presidente Hollande exacerbou os problemas da balança de pagamentos enviando o exército e a força aérea para intervirem em três continentes. Isto levou a que 82% dos eleitores escolhessem partidos alternativos, impulsionando o partido nacionalista de direita, a Frente Nacional, para o primeiro lugar.

As traseiras da Europa: Espanha, Grécia e Portugal

Profundamente mergulhados numa depressão que dura há uma década, com desemprego que anda nos 26% na Espanha e na Grécia e 16% em Portugal, a reciprocidade das sanções da Rússia relativamente às exportações agrícolas atingem severamente os seus sectores agroalimentares, levando a que montanhas de tomates, uvas e outros produtos estejam a apodrecer nos campos. Toneladas de produtos do Sul da Europa acabarão sob a forma de composto fertilizante. Dezenas de milhares de agricultores enfrentam os maiores problemas e muitos serão forçados à falência devido às imposições de Washington.

Os agricultores espanhóis estão expostos a perder 158 M€ pelas sanções contra os seus frutos frescos e nozes, 22% do total das suas exportações para fora da UE; os agricultores gregos perderão 107 M€, 41% do total das suas exportações para fora da UE. Os exportadores de carne espanhóis perderão 111 M€ ou 13% do total das suas exportações para fora da UE.

A UE, pelo seu lado oferece magras compensações – esperando que milhares de agricultores duramente pressionados se submetam às exigências de Obama. Enquanto a Rússia estabelece mercados alternativos na América Latina, a UE enviou emissários à América Latina, pedindo aos governos para rejeitarem os negócios de milhares de milhões de dólares com a Rússia e conformarem-se com as sanções dos EUA e UE. Até agora todos os países latino-americanos rejeitaram a ofensiva de sedução da UE. O Presidente do Equador, Rafael Correa, ripostou escarnecendo da UE: “Nós não temos de pedir permissão a ninguém para exportar para países amigos. Tanto quanto sei a América Latina não faz parte da UE.” O Egipto e a Turquia estão a preparar-se para substituir os agricultores da UE e dos EUA nas suas exportações para a Rússia.

Hungria, Bulgária, Polónia, Lituânia, Dinamarca e Holanda

O Presidente da Hungria Viktor Orban está furioso com as sanções e ameaça romper as fileiras se Budapest se confrontar com perdas em exportações e a ameaça energética ao seu país, energeticamente dependente da Rússia. O Presidente da Bulgária sucumbiu às pressões de Bruxelas e denunciou um contrato de 40 mil milhões de dólares para um gasoduto, assinado entre a Rússia e empresas búlgaras, precipitando uma enorme crise bancária e o colapso do segundo maior banco – Corbank. Os depósitos de milhares de búlgaros foram congelados ou simplesmente desapareceram. Quando Bruxelas pressiona os búlgaros, eles deixam falir os seus próprios bancos.

A Finlândia, em tempos o “menino bonito” dos ideólogos da “Terceira Via”, está há muito em depressão. A economia afundou-se ao longo de quatro anos consecutivos e mesmo os otimistas do regime estimam que precisará de 10 anos para recuperar-se. O primeiro-ministro finlandês, Alex Stubs, um ideólogo do “free-market”, é um firme defensor das sanções contra a Rússia embora estas reduzam drasticamente as exportações de produtos alimentares (lacticínios, carne, peixe, etc). Stubbs defende a sua catastrófica capitulação à tomada de poder da NATO em Kiev proclamando que “os nossos princípios (sic) não estão à venda, acreditamos nas instituições internacionais, acreditamos no império da lei”. A Finlândia, sob o seu Presidente, “escravo da lei”, perderá pelo menos 253 M€ este ano, 68% das suas exportações para países fora da UE. Por outras palavras, esta marionete política sacrifica o bem-estar de centenas de milhares de produtores finlandeses para apoiar o regime imposto pela NATO em Kiev, que está a enviar unidades de neonazis para matar civis e combatentes da resistência ucraniana.

As exportações agrícolas da Polónia para a Rússia colapsaram, levando Varsóvia a pedir a Washington e a Bruxelas subsídios de emergência e implorar aos exportadores de maçãs americanos para comerem maçãs polacas. Os produtores polacos de flores perderão 317 M€ em vendas, 61% das suas exportações para países fora da UE. Os exportadores de carne, perderão 162 M€, 20% das suas exportações para países fora da UE. Os produtores de lacticínios perderão 142 M€, 32% das suas exportações para países fora da UE.

Os polacos que assumiram a mais reacionária postura “russofóbica” e estão profundamente implicados na organização e treino dos gangs neofascistas que derrubaram o governo eleito da Ucrânia, estão agora a empurrar carros pelas ruas de Varsóvia com maçãs e salsichas, em vez de fornecerem as prateleiras dos supermercados da Rússia – gemendo para que os nova-iorquinos renunciem às maçãs de outros Estados e suportem as perdas.

A Lituânia perderá 308 M€ na exportação de frutos frescos para a Rússia ou 81% das suas exportações para países fora da UE, os produtores de lacticínios perderão 161 M€ em vendas, 74% das suas exportações para países fora da UE. A Dinamarca e a Holanda perderão mais de 800M€ em exportações agrícolas para a Rússia, agravando a sua recessão.

Conclusão

O sempre persuasivo reacionário de Washington, Presidente Obama, pressionou os líderes da UE a afundarem ainda mais as suas economias na recessão, para que ele pudesse lançar uma nova Guerra-fria contra a Rússia. Os EUA enterram-se em confrontos militares no Iraque, Ucrânia e Síria. Obama parece ter perdido o controlo sobre os programas de ajuda militar que estão no caos. Os aliados sionistas de Netanyahu no Congresso conseguiram fazer o bypass à casa Branca e ao Departamento de Estado e aprovar embarques adicionais de armas do Pentágono para Israel, minando qualquer iniciativa da Administração sobre o genocídio em curso em Gaza.

O Japão juntou-se às sanções contra a Rússia exacerbando a sua própria crise económica. Em 2014 o Japão vive a pior contração desde 2009, com uma queda de 7,1% no segundo trimestre. O crescentemente impopular primeiro-ministro Abe está comprometido com o rearmamento militar. Vários políticos japoneses visitam o santuário de Yasukuni, o templo militarista que honra os criminosos de guerra, despertando as horríveis memórias das vítimas do imperialismo japonês. Há, de forma crescente, confrontações com a China sobre alguns rochedos no Sul do Mar da China. À medida que as manobras militares de Obama na Ásia aumentam, a economia japonesa afunda-se.

Nenhum país europeu pode beneficiar do apoio ao regime falido de Kiev. A moeda da Ucrânia está em queda livre – classificando-se abaixo do papel higiénico. As suas maiores indústrias, totalmente dependentes do comércio com a Rússia, estão em bancarrota ou foram bombardeadas pelo regime golpista da NATO em Kiev. As exportações agrícolas estão devastadas. Entretanto, as famílias ucranianas foram aconselhadas a cortarem madeira ou escavarem o seu próprio carvão antecipando um inverno totalmente sem gás russo dado que os oligarcas em Kiev têm sido incapazes de pagar a monstruosa dívida energética.

Pelo seu firme apoio ao regime de Kiev, em bancarrota, dirigido por um oligarca bilionário, por apoiar os “princípios” tão louvados pelo Presidente finlandês, um milhão de agricultores europeus enterrarão as suas maçãs, irão vazar leite pelas ruas e esvaziar as suas uvas, laranjas e tomates em pilhas para apodrecer. É por isto que os seus líderes, Obama, Cameron, Merkel e Hollande podem apoiar os seus verdadeiros “princípios” de expansão territorial, extensão de operações militares para as fronteiras da Rússia e posicionar-se como guerreiros enquanto destroem a economia produtiva dos seus países levando à falência agricultores e industriais e mais milhões de trabalhadores para o desemprego, agravando os custos e angústias da recessão.

A Ucrânia junta-se à lista de países, Líbia, Egipto, Síria, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Somália, Iémen, que Washington e a NATO têm “salvo” (parafraseando um general americano)… sendo destruídos.

Uma vez mais a construção do império militar conduzido pelos EUA, ilude o desenvolvimento económico. Guerras destrutivas e sanções destroem mercados viáveis e empobrecem sectores inteiros da economia. Impor sanções a países estrangeiros convida à retaliação – o efeito boomerang aniquila a produção no próprio país. Á medida que o comércio mundial se afunda, a estagnação torna-se endémica, as recessões aprofundam-se e a recuperação permanece uma quimera distante. A imprensa financeira, o Wall Street Journal e o Financial Times, que foram megafones pára os senhores da guerra ocidentais, já não publicam hinos ao mercado livre, mas sim trechos ácidos clamando por guerra e sanções…que fecham mercados e destroem a confiança dos investidores.

Encostados à parede por Obama, os lambedores de botas europeus levam as suas economias à bancarrota, passando a pedir esmola.

A Itália enfrenta a realidade de uma década de estagnação. A economia de Portugal está arruinada e arrasta-se. A indústria de máquinas da Alemanha pára. Os “princípios” da Finlândia sentem os efeitos boomerang. A Inglaterra está convertida numa cidade-estado de lavagem de dinheiro na qual um terço das crianças vive na pobreza. A Polónia consome-se a si própria, embriagando-se com material de guerra e maçãs podres.

Num mundo submetido à doutrina de Washington da guerra permanente, a Europa afasta-se da única via que a poderia manter fora de uma crise permanente: a coexistência pacífica. Os ultra de Washington e os lambe botas da Europa escolheram as sanções em vez de comércio e a destruição em vez de prosperidade. Estão a pagar um preço: instabilidade interna, deslocação dos mercados para países emergentes e a ascensão do caos como “way of life” na Europa Ocidental.

[NR] Em 03/Set/12 Hollande sucumbiu às pressões dos EUA/NATO e suspendeu a entrega do primeiro dos dois navios porta helicópteros Mistral encomendados em 2011 pela Rússia ao preço de US$1,6 mil milhões.

O original encontra-se em petras.lahaine.org/?p=1999 . Tradução de DVC.

[*] Professor aposentado (Emérito) de Sociologia da Universidade de Binghamton, Nova York, e professor adjunto da Universidade de Saint Mary, Halifax, Nova Escócia, Canadá.

 

Plano para Desistir do Brasil II ou A Reforma sem Reforma e sem Povo

Por Marcelo Zero

O ponto nevrálgico da candidatura Marina Silva tange à crítica à “velha política” e à necessidade da implementação de uma “nova política”, da qual ele se julga portadora privilegiada por uma espécie de direito divino.

Assim sendo, era de se esperar que, no plano divulgado recentemente, houvesse uma proposta concreta e exequível de mudança do nosso sistema de representação política.

Contudo, a leitura atenta do plano revela que não há proposta efetiva alguma para tal mudança. Aparentemente, a proposta parecer ser a de que a nova política surja por geração espontânea ou caia como maná do céu.

No campo da reforma política, o texto do plano começa com o diagnóstico da situação atual. Assim afirma-se que “as instituições políticas estão envelhecidas e tomadas de práticas de clientelismo, nepotismo, populismo e outras formas de patrimonialismo e de perpetuação no poder a qualquer custo. Sob o pretexto de buscar condições estáveis para a governabilidade e a gestão da máquina pública, desde a redemocratização o presidencialismo de coalizão esconde uma lógica viciosa de acordos de bastidores e distribuição de cargos e vantagens. Pratica-se o loteamento do Estado em troca de apoio parlamentar e tempo de propaganda eleitoral”.

Aí há um claro erro de diagnóstico. A governabilidade, e o consequente “presidencialismo de coalizão” que dela surge, não é um mero “pretexto” para a prática do fisiologismo e do loteamento do Estado, mas um dado da realidade e uma consequência inevitável de um quadro de extrema fragmentação e fragilização dos partidos políticos.

Nesse quadro atual, o governante eleito se vê forçado a formar coalizões para poder tocar o seu programa e sobreviver politicamente. A distribuição de cargos e as práticas condenáveis que isso acarreta são meras consequências dessa necessidade fundamental. Não se trata, portanto, de uma questão moral, que pode ser resolvida com a união dos homens de bem contra os agentes da “velha política”, como a candidatura Marina parece propor. Se eleita, Marina será também forçada a formar tais coalizões, com distribuição de cargos e tudo mais.

Mas, coerentemente com essa visão moralista e maniqueísta da política, tão a gosto do neoudenismo conservador que reina no país, o plano da candidatura Marina afirma que “o primeiro passo de uma reforma implica exigir comportamento republicano de todos os agentes políticos e dos demais ocupantes de cargos públicos. O presidente da República não pode ser mero distribuidor de recursos públicos. Deve ser um representante da vontade popular. As instituições públicas não podem se afastar dos princípios constitucionais de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.

Que alívio! Estamos salvos! O primeiro e fundamental passo para a reforma política consiste simplesmente em “exigir comportamento republicano dos agentes públicos”. Pena que ninguém tenha pensado nisso antes.

Entretanto, o plano prossegue reconhecendo que “para além da busca de melhor qualidade individual e ética do governante, é preciso desfazer uma série de nós antidemocráticos. Um deles é a falta de isonomia, transparência e controle na competição entre os partidos políticos, notadamente em razão dos modos de financiamento de campanhas. A crise política atual é, em boa parte, uma crise dos instrumentos de mediação entre eleitos e eleitores, principalmente os partidos”.

Sim, o Brasil tem, de fato, uma série de nós “antidemocráticos”. Sim, há uma crise nos partidos e na representação partidária. Não há novidade nenhuma nessas afirmações vagas. A questão é como desatá-los.

O texto do plano sugere que a via fundamental para o que ele denomina de “democratizar a democracia” é aumentar os mecanismos de democracia participativa, o que é outra obviedade que não produzirá resultado algum, se não for calcada em propostas concretas e exequíveis.

O plano mantém esse diapasão diáfano e moralista quando afirma que “o caminho certamente é o diálogo, que se efetiva em espaços concretos de articulação entre Estado e sociedade civil. Processos de debate, entendimento e deliberação política são essenciais para compreender e absorver novas linguagens quando se mostrarem legítimas. Os canais existentes devem ser fortalecidos, mas novos instrumentos precisam ser desenvolvidos, mediante o uso de tecnologias da informação e comunicação, para que o cidadão participe mais ativamente das decisões. Como verdadeiros aplicativos (sic) para a democracia colaborativa, esses instrumentos permitirão que se formem redes capazes de promover a convergência na diversidade e desenvolver consciência política e valores democráticos”.

O caminho é, assim, o caminho dado pelos homens de bem que se unem em redes digitais expandidas e criam, dessa forma, novos instrumentos para a implantação de uma democracia colaborativa e para a promoção dos valores democráticos.

Nesse ponto, a candidatura Marina revela o desconhecimento que tem sobre o que são realmente as redes. Elas não são, como as suas propostas deixam entrever, um objetivo em si, mas somente instrumentos, formas de organização que existem em todos os setores da atividade humana, cujos conteúdos e objetivos são dados por sociedades e grupos. Por conseguinte, as redes não são uma solução, mas apenas instrumentos para soluções previamente definidas.

A questão essencial é: quem são os atores sociais e políticos que promoverão a reforma política?

Parece claro que não serão os eleitos pelo sistema que se pretende reformar. Mas também é evidente que tais atores não serão, como insinua o plano, os homens e cidadãos de bem articulados em redes digitais.

Na realidade, o único ator viável para a promoção dessa reforma tão profunda e importante é o povo brasileiro como um todo. Por isso, a presidenta Dilma propôs a reforma política com ampla participação popular, mediante a convocação de um plebiscito.

O plano da candidatura Marina simplesmente ignora essa proposta concreta e viável e insiste num discurso vazio e dúbio, que não apresenta nada de específico, mas que promete o suposto nirvana da política em redes.

Mas além de não propor nada de concreto, o plano, ao propor a mudança da política simplesmente e fundamentalmente com novos mecanismos de democracia participativa, desconsidera a importância do fortalecimento dos mecanismos da democracia representativa. Com efeito, tão ou mais importante que propor novas formas de democracia direta, é fortalecer as instituições democráticas existentes. O plano da candidatura, entretanto, não avança nessas questões, o que é algo preocupante para futuro da democracia brasileira.

O cerne de uma proposta viável de reforma política é o fortalecimento do sistema de representação e das instituições democráticas, não a sua impossível e inviável substituição por uma democracia direta e digital.

Apesar desse discurso vago, que não avança em medidas específicas e concretas, o plano tem, destacado do texto principal, um “Box” com algumas “medidas de impacto”, claramente definidas às pressas, com o intuito de marketing de ter algo a apresentar, além do texto cuidadosamente escorregadio.

São elas:

Propor a unificação do calendário geral das eleições, o fim da reeleição e a adoção do mandato de cinco anos.

Ora, a população é hoje consultada a cada dois anos. Com essa proposta, a população só será consultada, em eleições efetivas, a cada 5 anos. Ressalte-se que não há menção a um possível referendo revogatório. Evidentemente, isso em nada aprimorará a democracia brasileira. Uma medida como essa só se justificaria em nome de contenção de despesas. Será essa a motivação?

• Propor a adoção de novos critérios (quais?) na definição da ordem dos eleitos para cargos proporcionais buscando aproximação da Verdade Eleitoral (sic), conceito segundo o qual os candidatos mais votados são os eleitos.

O que significa isso exatamente? Se for a implantação do voto distrital, ela é altamente questionável. Nos países em que há o voto distrital, há uma tendência a formação de um bipartidarismo que alija forças políticas menos expressivas. Para quem quer “democratizar a democracia”, não parece uma medida adequada.

• Propor a inscrição de candidaturas avulsas aos cargos proporcionais mediante atendimento de requisitos a definir (muito conveniente).

Trata-se de medida que tende a enfraquecer os partidos. Parece que a candidatura Marina não gosta muito de partidos.

• Propor a redefinição da distribuição do tempo de propaganda eleitoral gratuita com base em novos critérios visando a melhorar a representatividade da sociedade brasileira nos parlamentos.

Os desiguais serão tratados igualmente? Os partidos terão o mesmo tempo de propaganda, independentemente de sua representação na Câmara dos Deputados? Como será feita essa redefinição? Com base em quais critérios? Ninguém sabe.

• Permitir a convocação de plebiscitos e referendos pelo povo e facilitar a iniciativa popular de leis, mediante redução das assinaturas necessárias e da possibilidade de registro de assinaturas eletrônicas.

Isso o PT já propõe há muito tempo.

• Propor o fortalecimento dos mecanismos de transparência nas doações para campanhas eleitorais.

Como? Quais mecanismos? Isso pode ser somente um eufemismo para manter a doação de empresas privadas às campanhas. O PSB, em seu programa anterior era contrário ao financiamento público de campanhas, como propõe o PT. Será essa a proposta?

Em resumo, o plano da candidatura Marina não avança nenhuma medida nova, clara e concreta sobre tema tão relevante. Restringe-se a platitudes e a propostas vagas e dúbias.

Desse modo, ele deixa no ar, como convém a uma candidatura tão etérea, as respostas para as questões principais que envolvem uma reforma política concreta e viável.

A candidatura é favorável ou não à reforma política com participação popular? É a favor ou não de um plebiscito para sua convocação? Voto distrital, sistema misto ou proporcional? Fim ou não das coligações nas eleições proporcionais? Financiamento público ou privado das campanhas? Lista fechada, lista aberta ou sistema belga? Referendo revogatório ou não? Que novos mecanismos de democracia participativa implantar? Como?

Essas e outras questões vitais não são respondidas.

Assim sendo, o plano da candidatura Marina comete a dúbia façanha de prometer uma reforma política máxima sem apresentar uma mínima proposta concreta.

Parece que as propostas só serão acessíveis a quem ingressar nas redes dos homens de bem. É uma reforma para iniciados. Uma reforma sem povo.

O “Eleitor Difuso”: esta é a discussão relevante a equacionar, por Esfinge

Por Esfinge | Via Jornal GGN

Insisto que decifrar Marina, analisá-la, etc. é menos importante e relevante do que decifrar, entender e conscientizar seus eleitores do golpe que estarão propiciando.

Tirem ela e Aécio do páreo e coloquem o Tiririca e ele crescerá da noite para o dia. Não o coloquem e crescerá um outro qualquer (ex. um pastor). Tire todos e me coloquem e eu chegarei a mais de 20% da noite pro dia, sem nunca ninguém ter ouvido algo de mim.

Os fatos relevantes nesta eleição são:

1) A demonização do “petismo” (foco em Brasil e seu povo), ajudada pela nefasta consolidação miRdiático-circense do dito “mensalão” e intenso e permanente denuncismo de “escândalos” de um só partido, ainda que sejam meras insinuações de meras caronas ou uso de influência, abafando s verdadeiros roubos bilionários que os opositores praticam desde sempre, com o apoio da míRdia.

2) A depreciação dos “petistas” para que seus argumentos sejam de pronto desprezados. Eu, que não sou sequer petista (mas sou brasileirista e, portanto, Dilmista) em conversa com parente (ex diretor de multinacional), ao mencionar o preço de venda do controle da Vale, tive a seguinte reação: “Iiiiih, vc é petista!”… refutou o valor (~R$3,5 bi) como “propaganda do PT” e … encerrou a conversa!

3) A demonização da política, que faz com que os inexperientes politicamente e os que cuidam de manter sua suada prosperidade fiquem “fartos” de “tudo isso que está aí”, sem sequer perceber que os promotores desta farsa são também seus protagonistas.

4) A mistura dos problemas do país, causados por séculos de domínio destes que hoje fazem oposição, em um só saco, escondendo que o governo federal não é o único ou direto responsável por “tudo isto que está aí”. Na saúde, na educação, na infra, na industria, no saneamento, na competitividade, etc. Escondem que os principais estados da federação são governados por eles, alguns há muito (ex: SP). Que há milhares de municípios idem. Que há outros poderes (ir)responsáveis, como o Judiciário e o Legislativo (nem vou falar da imprensa), onde estão muitas das causas e culpas. A maioria até há muito aparelhada contra este próprio governo que é quase que o ÚNICO A TRABALHAR (embora não perfeitamente) pelo país e seu povo!

5) Dos itens anteriores, aliada a uma posição e comunicação por demais “republicana” de Dilma, ficou fácil elevar suas taxas de rejeição com este povo de visão “difusa”, que pensa que vai mudar “tudo isso que está aí” apenas ajudando na sua consolidação e não na verdadeira mudança QUE ESTÁ EM CURSO!

Alguns falam que este seria um “discurso do medo”, uma “visão apocalíptica”.

Ora colegas, quaisquer 4 anos de destruição conservadora (já somam cerca de 5 séculos) causa estragos como os que quase aleijaram o país nos tempos fernandistas, destruindo décadas de árduo esforço em alguns anos de blitzkrieg neoliberal.

Pode ser Apocalipse para algumas gerações, como a minha, já na sétima década, já que cresci num país do futuro, que nunca chegou. Em 4 anos de arrocho (que alguns dizem: “se errarmos, “paciência”…), alguns ficarão milionários e milhões de dramas pessoais e familiares ocorrerão, muitos irreversivelmente (crime, doença, desesperança, pobreza). Não, não será o fim do país. Mas provavelmente de uma geração, como foi a minha. E tenho filhos!

Pessoal, este é o trabalho árduo e urgente a ser feito.

Mostrar-lhes o risco (deles próprios também) do tal voto “sei lá, meu, acho que é por ali”…

Mãozaóbra!

‘Reforma política irá solidificar e ampliar conquistas sociais dos negros no Brasil’

Via RBA

Diretor da Educafro diz que plebiscito é essencial para ampliar participação de negros na política. Hoje, só 9,8% do Congresso Nacional são ocupados por pretos ou pardos

Cotas em universidades federais e concursos públicos são principais conquistas dos negros nos últimos anos

São Paulo – O plebiscito popular para a realização de uma Constituinte exclusiva que defina reformas no sistema político brasileiro representa, na visão do diretor-executivo da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), Frei David Raimundo, um instrumento essencial para consolidar as conquistas sociais da população negra. Ele acredita que, por meio de uma Assembleia Constituinte, a política de cotas raciais nas universidades públicas, estabelecida em 2012, e também nos concursos federais, sancionada neste ano, será solidificada e ampliada.

“Seja quem for o presidente da República, essa política não pode ser mexida mais, a não ser que se volte a discuti-la na Câmara dos Deputados e no Senado, e que se mude as leis. Mas isso seria uma afronta a nós, negros. Portanto, a Constituinte vai consolidar essas conquistas e ampliar tantas outras”, defende.

A população brasileira é hoje composta por maioria negra. Na última amostragem feita pelo IBGE, em 2010, 50,7% dos brasileiros se declararam pretos ou pardos. No entanto, segundo o diretor da Educafro, essas pessoas ainda estão, em grande parte, excluídas de cargos políticos no Congresso Nacional. Somente 9,8% dos senadores e deputados brasileiros são pretos ou pardos, de acordo com estudo realizado pela ONG Transparência Brasil, em 2013. Na Câmara dos Deputados, a parcela corresponde a 10,7%, só 55 dos 513 deputados são negros. Já no Senado, o número é ainda menor: são três pretos (3,7%), em 81 parlamentares.

Para o diretor da Educafro, os dados alarmantes são evidências de que o sistema político atual é profundamente viciado e mantido por “amarras negativas” criadas pelo sistema financeiro. Por isso, faz-se necessária uma reforma política que altere a forma de governo e estimule e assegure a participação popular. “Se o seu deputado, o seu senador e até o seu candidato à presidência, não for a favor de uma Constituinte do sistema político, dificilmente ele vai ajudar o país a ser melhor em seu mandato”, argumenta Frei Raimundo.

Ouça a entrevista de Frei David Raimundo à Rádio Brasil Atual.

Requião domina as redes sociais

Via Blog Wilson Vieira

Faz meses que acompanhamos o comportamento dos candidatos ao governo do Paraná nas redes sociais. O monitoramento de comentários no ambiente virtual — blogs, sites, compartilhamentos no Facebook e Twitter, etc. — não é induzido nem considera a ação de trolls.

De 103 mil comentários coletados no mês de agosto, o senador Roberto Requião (PMDB) foi mencionado positivamente por 52,23%, o governador Beto Richa (PSDB) teve 29,11% de menções positivas e a senadora Gleisi Hoffmann (PT) foi citada positivamente 18,66%.

Em julho, diante de 76 mil comentários coletados, as menções positivas eram 55,45% para Requião, 26,73% para Richa e 17,82% para Gleisi.

Ainda no mês de julho, Richa foi mencionado negativamente por 75,66%, Requião por 12,96% e Gleisi por 11,38%.

Em agosto, as menções negativas aos candidatos foram as seguintes: Richa 71,94%, Requião 24,15% e 03,91%.

O estudo não é pesquisa de opinião e nem reflete o índice de intenção de votos para o Palácio Iguaçu. A compilação de comentários nas redes sociais contou com sofisticado software israelense, o que permitiu a eliminação de IP’s repetidos e menções originadas em robôs.

Em resumo, ao contrário de Gleisi e “titanic” kinder ovo Richa, Requião domina as redes sociais de verdade!

Com conteúdo do Blog do Esmael

Rússia: A “histeria militar da OTAN” mina qualquer esperança de paz na Ucrânia

Por Jon Queally | Via Commom Dreams e Rede Castor Photo

Sergei Ordzhonikidze, Vice-Secretário Geral da Câmara Pública da Rússia

Em resposta a ameaças da OTAN, de que expandirá suas capacidades militares na direção leste, a Rússia reagiu ontem, 3ª-feira (2/9/2014), dizendo que tais movimentos só provocarão uma recalibração das forças militares da Federação Russa.

A reação, que mobilizou o alto comando militar russo, veio pouco antes de reunião de cúpula da OTAN, marcada para essa semana e depois de fala do Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, de que uma força “avançada” de 4 mil soldados e de “resposta rápida” seria posicionada no leste da Europa.

O Vice-Secretário Geral da Câmara Pública, Sergei Ordzhonikidze, disse à agência estatal de notícias que os planos de Rasmussen não passam de “histeria militar” e implicam trair promessas históricas. Disse que, diante disso, só restava à Rússia a alternativa de tomar medidas recíprocas, também pelo seu lado.

Quando tropas da OTAN se aproximarem de nossas fronteiras, é claro que teremos um plano implantado, disse Ordzhonikidze. Há ameaça real, se temos tropas estacionadas junto às nossas fronteiras. Lembro do compromisso da OTAN, de que não expandiria o território do bloco na direção leste… Agora, só nós resta impedir, seja como for, essa expansão da OTAN.

Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen

Rasmussen começou a falar da “expansão” da OTAN para o leste exatamente na semana passada, em entrevista convocada com jornais europeus. Aquelas “novidades” viraram manchete exatamente quando o Presidente Vladimir Putin da Rússia e Petro Poroshenko da Ucrânia, estavam reunidos em Minsk, Bielorrússia, para a primeira reunião presidencial para começar a discutir uma saída para a terrível crise na Ucrânia. A “oportunidade midiática” escolhida a dedo por Rasmussen e o “ocidente” não passou despercebida pelo Ministro Sergei Lavrov, das Relações Exteriores da Federação Russa.

Fato muito interessante – disse Lavrov na 3ª-feira (2/9/2014), em entrevista ao vivo transmitida pela TV – é que essa iniciativa da OTAN apareça imediatamente depois da reunião em Minsk, quando começou o processo do Grupo de Contato que tenta chegar a um acordo aceitável para todos, na atual crise da Ucrânia.

Lavrov classificou as declarações de EUA e a fala de Rasmussen sobre expansão da OTAN como esforço consciente para minar até esses primeiros frágeis esforços em direção à paz entre rebeldes ucranianos no leste e o governo em Kiev.

É muito lamentável que esse ânimo para reforçar as posições do “partido da guerra” seja tão empenhadamente estimulado por Washington e outras capitais europeias, e cada vez mais frequentemente também por Bruxelas e pelos quartéis generais da OTAN, de onde sai o Secretário-Geral, com notícias que absolutamente ele não é autoridade competente para distribuir – disse Lavrov.

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Federação Russa

Em comentários separados, o Vice-Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Mikhail Popov, disse a RIA Novosti que, em resposta ao ímpeto expansionista da OTAN, já há planos em preparação para modificar a doutrina militar da Rússia.

Esses planos − disse ele − foram desencadeados por fatores geopolíticos, inclusive essa movimentação da OTAN próxima das fronteiras russas e a situação na Ucrânia.

(…)

Tradução: Vila Vudu

Ibope: onda Marina começa a refluir?

Por Rodrigo Vianna | Via Revista Fórum

O IBOPE divulgado nesta quarta-feira consolida em números um movimento (ainda sutil) que foi sentido primeiro nas redes sociais: a fase do deslumbre com Marina Silva já passou, e ela agora é vista com alguma desconfiança.

Foi o que escrevi aqui: no último fim-de-semana, pela primeira vez, Marina virou alvo nas redes. Foi questionada duramente. Apanhou como nunca. E segue a apanhar. São movimentos perceptíveis por aqueles que fazem monitoramente das redes: “Começa a surgir um movimento de retirada de apoio a Marina em meios intelectuais. Algo que não pode ser medido em votos. Mas significa que a candidata – submetida a um escrutínio mais duro – não é uma rainha previamente escolhida por deus.”

Pelo IBOPE, Dilma tem 37% (subiu 3 pontos), Marina 33% (subiu 4 pontos) e Aécio se arrasta com 15% (perdeu exatamente os 4 pontos que Marina ganhou).

Tudo indica que há uma transfusão de votos de Aécio para Marina (especialmente em São Paulo), mas que Marina não avança no voto duro petista. Sobre isso, leia a análise (sempre ponderada e correta) de José Roberto de Toledo, no Estadão: “onda Marina bate em Dilma e não avança”.

Há ainda outros dois dados a indicar que Marina (apesar de ainda muito forte, especialmente em São Paulo, onde virou a candidata do conservadorismo mais tacanho) não é uma candidata imbatível:

- a vantagem no segundo turno era de nove pontos há uma semana (45% Marina x 36% Dilma); e agora é de sete pontos (46% Marina x 39% Dilma);

- a avaliação do governo Dilma voltou a melhorar (num sinal de que a campanha na TV funciona para, ao menos, recuperar aquele eleitor tradicional do lulismo, que estava sob o bombardeio midiático – e agora percebe que o governo não acabou e tem bons resultados a mostrar).

Mais que isso: o PSDB percebeu que precisa fazer a disputa com Marina. Ainda que de forma moderada. Um economista tucano disse hoje no Estadão que o programa de Marina é “inviável”. E aí não se trata de proselitismo. O economista fez as contas e mostrou que as promessas de Marina custariam 150 bilhões de reais, e são incompatíveis com o programa de “ajuste fiscal” que Marina também promete.

Ou seja, fica evidente que Marina é inconsistente: quer ser tucana e petista ao mesmo tempo. De um lado, promete “ajuste” e se curva aos banqueiros; mas não abre mão do “social”, que é a marca do lulismo. Não dá. Vai ter que escolher um lado. No segundo turno, Marina será levada para o lado do tucanato. E aí tudo ficará claro.

Além disso, Aécio voltou a dizer que Marina é “uma aventura” para o país.

Tudo isso (mais as concessões de Marina aos pastores obcecados com as preferências sexuais alheias) gera uma situação em que Dilma pode, lentamente, se recuperar.

Está claro que Dilma deve mirar para o eleitorado mais pobre que migrou para Marina nas últimas semanas. É o eleitorado que sabe como foram ruins os anos FHC. Um eleitorado que está inclinado para Marina; mas não decidido. Não se engane: o antipetismo estridente dos marinistas de facebook não se confunde com o eleitor de Marina de baixa renda. Que gosta de Lula, e pode votar em Dilma.

Por isso, não tem conversa: Dilma precisa deixar claro que Marina significa a volta dos anos FHC na economia. Precisa ir pro debate aberto, com Lula na rua e o combate nas redes.

Tudo isso pode levar Dilma para o segundo turno numa situação um pouco mais cômoda: Dilma 40%, Marina 30%, Aécio 15%. Se esse quadro se consolidar, teremos um segundo turno onde o povão fará sua escolha entre o certo (que precisa ser ajustado e melhorado) e o duvidoso (ou a “aventura”, como diz Aécio).

Ah, e se um marinista reclamar que o PT está usando “tática do medo”, seria bom lembrar ao sujeito que ele deve votar sem medo e sem ilusão: vote sem medo em Marina e tenha certeza que você terá de volta os tempos de FHC (desemprego, quebradeira de empresas, faculdade e avião só pra rico).

Lembre-se: sem medo!

O resto é blá-blá-blá de quem já foi ambientalista de esquerda, e hoje virou a cara do que há de mais conservador no Brasil.

Atualização

No DataFolha, Marina parou de subir. Primeiro turno: Dilma 35%, Marina 34% e Aécio 14%.

Mais importante é que, no segundo turno, a diferença que era de 10 pontos caiu para sete: Marina 48%, Dilma 41%.

Marina é favorita, mas a eleição está em aberto.