Arquivo mensais:setembro 2014

Dilma: Combatemos corrupção não com palavras, mas com ações concretas

Via Portal Vermelho

“Em um ambiente eleitoral, como o que vivemos, alguns candidatos tentam passar a ideia de que acabar com a corrupção depende apenas da vontade de um super-homem ou de uma super-mulher que estejam acima do bem e do mal. A experiência prova que isso nunca da certo”, enfatizou a presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição, em seu programa de TV desta terça-feira (9).

“Estamos combatendo a corrupção não com palavras vazias, como tantos outros, mas com medidas concretas”, completou Dilma, destacando que setores reacionários que disputam o governo tentam passar a ideia de que quanto mais a corrupção aparece, mais se tem a impressão de que ela cresce. E quando não se noticiam casos de corrupção, a impressão é de que ela não existe.

“Se nada se investiga é claro que nada de descobre. A demagogia cria a falsa impressão de que tudo piora”, advertiu a presidenta mostrando que, diferente de governos anteriores, ela e Lula ampliaram os mecanismos de combate à corrupção, fortalecendo a Polícia Federal e dando mais autonomia ao Ministério Público, além da aprovação de leis de combate à impunidade.

Autonomia do Banco Central

O programa também demonstrou que existem outras formas mais sutis de desviar a riqueza do povo brasileiro para beneficiar interesses de poucos. “Dar autonomia jurídica ao Banco Central é privilegiar os interesses de poucos em prejuízo dos que mais precisam”, reforçou o programa citando a proposta da candidata Marina Silva e apontando como tal medida pode afetar diretamente a vida do trabalhador.

Dilma concluiu dizendo: “Doa a quem doer é assim que vou continuar trabalhando porque tenho as mãos limpas e exijo de todos o mesmo respeito com o dinheiro público”.

Da redação do Portal Vermelho

As pesquisas eleitorais como elas são e a mídia como ela é

Por Lalo Leal | Via RBA

A história não autoriza a descrer totalmente das pesquisas, mas ressalta a importância de se ter muito cuidado, principalmente, com a forma como a pesquisa é “tratada” pelo veículo que a encomenda

Datafolha de 1998 dava conservador Francisco Rossi à frente de Marta e estimulou voto útil em Covas

Pesquisas de intenção de voto não mudam apenas os humores de candidatos e eleitores. Elas são cada vez mais importantes para o direcionamento das doações dirigidas às diferentes campanhas. O dinheiro corre com mais facilidade para os cofres dos que aparecem com mais chances de vitória. Prestam-se também para influenciar eleitores indecisos ou determinados a mudar o voto na última hora, deixando de lado a escolha inicial e optando por outra, não tanto de sua predileção, mas capaz de evitar o sucesso do maior adversário, criando o chamado “voto útil”. Sem falar na desmobilização de militantes antes do fim do pleito ao verem seu candidato desabando nas pesquisas.

Em 1985, nas eleições municipais em São Paulo, o candidato Fernando Henrique Cardoso sentou na cadeira de prefeito antes da hora, confiando na pesquisa do Datafolha. Nas urnas, a vitória foi de Jânio Quadros, que não perdeu a oportunidade de usar seus dotes teatrais, desinfetando o trono antes de ocupá-lo.

Danosa, no entanto, para o jogo democrático, foi o papel da pesquisa e o seu uso pela mídia nas eleições de 1998 para o governo de São Paulo. Dois dias antes da eleição do primeiro turno, o Datafolha divulgou pesquisa apontando Paulo Maluf, com 31% dos votos, seguido de Francisco Rossi com 18%; Mário Covas, candidato à reeleição, com 17%; Marta Suplicy, com 15%, e Orestes Quércia, com 6%. Na véspera da votação, a imprensa tratou a eleição como se a decisão se limitasse a saber quem entre Covas e Rossi enfrentaria Maluf. E o temor da ida ao segundo turno de dois candidatos conservadores, Maluf e Rossi, levou um grande contingente de eleitores de Marta a optar por Covas, realizando o “voto útil”. Abertas as urnas, sentiram-se enganados. Covas ficou a apenas 0,9% de votos à frente de Marta e ela superou Rossi em 5,39%. Sem a influência do Datafolha e, sobretudo, da forma como a pesquisa foi “trabalhada”, Marta e não Covas (tampouco Rossi) teria disputado o segundo turno com Maluf.

São lembranças que não autorizam a descrer totalmente das pesquisas, mas ressaltam a importância de se ter com elas muito cuidado, principalmente sabendo-se de como são usadas pela mídia. Neste ano, por exemplo, a Rede Globo considerou os 3% das intenções de voto do Pastor Everaldo suficientes para levá-lo à bancada do Jornal Nacional para uma exposição de 15 minutos. O objetivo era claro: ainda com Eduardo Campos na disputa, a tendência seria a eleição se encerrar no primeiro turno com a vitória de Dilma Rousseff. Uma pequena ascensão do pastor evitaria isso, e o Jornal Nacional estava ali, à disposição, para dar o empurrão necessário.

Tarefa oposicionista que o principal noticioso da Rede Globo realiza não apenas durante o período eleitoral, embora seu protagonismo cresça nessas épocas. Sempre se soube disso, mas agora os dados são mais concretos. Nas eleições de 2002 e 2006, um trabalho de fôlego da pesquisadora Flora Neves, da Universidade Federal de Londrina, analisou 199 edições do Jornal Nacional, constatando a manipulação do noticiário.

Um exemplo: em 2006, entre início no horário eleitoral obrigatório e o primeiro turno das eleições o JN levou ao ar 68,57% de notícias positivas para o candidato Geraldo Alckmin, 61,76% para Heloísa Helena, 52,94% para Cristovam Buarque e 16,43% para Lula. A íntegra está no livro Telejornalismo e Poder nas Eleições Presidenciais, da Summus Editorial, 2008.

Em 2014 a história se repete, e quem nos prova isso é o site Manchetômetro, importante realização do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Seus pesquisadores acompanham desde o início do ano as manchetes dos três jornalões brasileiros (Folha, Globo e Estado) e as do Jornal Nacional. O alinhamento dos quatro veículos em oposição ao governo fica evidente. O Manchetômetro constatou que entre 1º de janeiro e 22 de agosto o JN dedicou quase uma hora e meia do seu tempo para apresentar notícias negativas em relação a Dilma. Sobre Aécio foram quatro minutos.

A capa do ‘Correio Braziliense’

Por Venício A. de Lima | Via Observatório da Imprensa

A foto abaixo (11,8 x 19,6 cm, na edição original) está na primeira página da edição de segunda-feira (8/9) do Correio Braziliense (ver aqui). É de autoria do fotógrafo Daniel Ferreira, que trabalha para o Correio e para a D.A. Press, ambos do grupo dos Diários Associados.

Estando na capa, por óbvio, trata-se de uma escolha e é de responsabilidade dos editores do jornal.

Observe o leitor(a) que a foto coloca deliberadamente o rosto da presidente da República, Dilma Rousseff, na mira de uma metralhadora do carro blindado do Exército Brasileiro, que desfila na parada de 7 de setembro, em Brasília.

Qual a mensagem implícita/explícita na foto?

É normalmente aceito como sendo de Confúcio, filósofo chinês que viveu no século V antes de Cristo, a conhecida frase “uma imagem vale mais que mil palavras”. Os que vivemos no mundo contemporâneo sabemos que a afirmação de Confúcio permanece atualíssima, vinte e cinco séculos depois, nestes tempos marcados por imagens de todos os tipos, do cinema, da televisão, das fotos popularizadas digitalmente nas redes da internet.

O que estaria o Correio Braziliense sugerindo a seus leitores(as) com a foto publicada na capa do jornal?

Nela está a maior autoridade da República brasileira, no palanque oficial, rodeada de outras autoridades constituídas, assistindo ao desfile da data símbolo da pátria brasileira: o 7 de setembro, dia de nossa independência.

A foto foi cuidadosamente selecionada, entre centenas de outras disponíveis. É, portanto, legítimo concluir que havia, sim, uma intenção orientando a escolha.

O jornalista que fez a edição da foto para o Correio Braziliense (e respondeu a meu e-mail sobre as razões da escolha) a considerou excelente e a melhor ilustração para o noticiário político do dia.

Credibilidade da democracia

Para além da partidarização inequívoca da grande mídia brasileira e diante de exemplos sucessivos, parece que ela não está sendo capaz de fazer uma distinção fundamental, sobretudo agora, em tempos de campanha eleitoral: a distinção entre o ritual dos cargos públicos, os símbolos nacionais, a institucionalidade da política, dos políticos, dos ocupantes dos mais elevados cargos públicos da democracia representativa brasileira; e sua opinião/posição (dela, grande mídia) em relação a esses eventuais ocupantes.

As consequências dessa “não-distinção” podem ser trágicas para a própria democracia. Ao se desrespeitar reiteradamente eventuais ocupantes de altos cargos públicos, inclusive em fotos com insinuações inconfessáveis, esse desrespeito é transferido para as instituições e a credibilidade da própria democracia. Como mostrou há décadas a professora Maria do Carmo Campello de Souza, “o teor exclusivamente denunciatório de grande parte das informações [dos meios de comunicação] acaba por estabelecer junto à sociedade (…) uma ligação direta e extremamente nefasta entre a desmoralização da atual conjuntura e a substância mesma dos regimes democráticos”.

No atual nível de partidarização da grande mídia brasileira, não há solução de curto prazo para que se desfaça esta confusão nefasta. A cobertura adversa e a desqualificação da politica e dos políticos é sua pauta preferencial. Resta torcer para que a democracia representativa brasileira sobreviva a uma grande mídia que, apesar de se apresentar como sua principal defensora, corrói, cotidiana e reiteradamente, seus fundamentos mais caros.

A ver.

***

Venício A. Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador de Para Garantir o Direito à Comunicação – A Lei Argentina, o Relatório Leveson e o HGL da União Europeia, Perseu Abramo/Maurício Grabois, 2014; entre outros livros

“As empresas não votam, mas são elas que elegem”. Entrevista especial com Gil Castello Branco

Via IHU

“É preciso que um conjunto de medidas aconteça para que se possa moralizar as eleições brasileiras”, diz o secretário-geral da ONG Contas Abertas.

O ciclo eleitoral completo, com base nas últimas eleições presidenciais e municipais, demonstra que o valor gasto nas campanhas políticas gira em torno de 10 bilhões de reais, diz Gil Castello Branco à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

“As eleições não só são caras, como estão cada vez mais caras, fazendo com que o poder econômico se torne, a cada eleição, mais significativo”, pontua. Para ele, o financiamento privado de campanha revela que “os empresários, cada vez mais, não doam, mas investem, ou seja, repassam recursos com a expectativa de ganhos futuros. Não é apenas por espírito democrático que eles fazem doações, inclusive, a candidatos adversários. Eles doam apenas com o intuito de manter uma boa relação com qualquer um dos candidatos que seja eleito”.

Segundo ele, essa relação de interesse pode ser vista no processo eleitoral deste ano, “quando o maior dos financiadores, o grupo JBS, conforme demonstra a primeira prestação de contas do dia 6 de agosto, investiu 53 milhões de reais em diversos candidatos, em diversos estados, inclusive em estados onde a empresa tem interesses comerciais. O grupo doou 5 milhões de reais para a candidatura da presidente Dilma, 5 milhões para a candidatura do candidato Aécio Neves e menos de 1 milhão de reais para o PSB, inclusive em diversas candidaturas”.

Na entrevista a seguir, Castello Branco comenta as alternativas ao atual financiamento de campanha e enfatiza a necessidade de cumprir a legislação de 1965, que determina limites para o financiamento. “Poderíamos ter, efetivamente, em primeiro lugar, um limite para a campanha, como a legislação prevê desde 1965; precisaríamos ter a transparência plena para que houvesse uma comparação entre as candidaturas; ter melhor uso do fundo partidário; e um melhor uso do horário eleitoral gratuito, para que então conseguíssemos realmente ampliar as doações individuais. Todos esses fatores deveriam fazer parte de uma reforma eleitoral, como também é absolutamente injusto, como hoje acontece, que parlamentares que estão em exercício de mandato, como é o caso de deputados, senadores, governadores e até da presidente da República, nesta situação atual, poderem concorrer enquanto exercem o mandato”.

Gil Castello Branco é economista, fundador e secretário-geral da Associação Contas Abertas, que acompanha a execução orçamentária e financeira da União, fomentando a transparência, o acesso à informação e o controle social. A ONG, fundada em 9 de dezembro de 2005 – Dia Internacional de Combate à Corrupção – recebeu prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (2008), o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa (2007), o Prêmio Transparência e Fiscalização Pública (concedido pela Mesa Diretora e Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados), além de ter sido finalista do prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo (2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quanta custa uma eleição para presidente no Brasil hoje?

Gil Castelo Branco. Uol/Reprodução

Gil Castello Branco – Esse custo é sempre difícil de ter à mão porque, veja só, os nossos candidatos anunciaram que vão gastar cerca 72 bilhões de reais. Esse valor é absurdo, equivaleria a quase três Copas do Mundo, considerando as obras com aeroportos, os estádios, as obras de mobilidade urbana e a segurança pública.

Estou presumindo que vamos ficar, neste ano, em algo próximo a 7 bilhões de reais. No caso específico dos 11 candidatos à Presidência da República, eles anunciaram que poderão gastar até 917 milhões de reais. No entanto, na primeira prestação de contas, o volume total de gastos dos 11 candidatos foi de 31 milhões. Então, na realidade esse valor anunciado é absolutamente irreal.

Fizemos uma avaliação de que o Ciclo Eleitoral Completo, incluindo campanhas federais, estaduais e municipais, custa aproximadamente 10 bilhões de reais. Essa é a soma do que foi efetivamente gasto — e declarado —, mais o horário eleitoral gratuito, que na verdade não é gratuito, pois as emissoras de comunicação recebem uma isenção fiscal correspondente ao que eles ganhariam comercialmente naquele horário. Então, em 2014, por exemplo, se somarmos o fundo partidário com o horário eleitoral gratuito, quer dizer, o que efetivamente já saiu do orçamento da União e aquilo que vai deixar de entrar no horário eleitoral gratuito, chega a quase 1 bilhão de reais.

Então, as eleições não só são caras, como estão cada vez mais caras, fazendo com que o poder econômico se torne, a cada eleição, mais significativo. Costumo dizer que as empresas não votam, mas são elas que elegem.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a evolução histórica do financiamento das campanhas eleitorais no Brasil. Por que se gasta cada vez mais e o que isso demonstra do jeito de fazer política no Brasil?

Gil Castello Branco – Quanto mais competitiva a eleição — e essa certamente será uma eleição muito disputada até o final do segundo turno —, mais cara ela se torna. Outra situação muito evidente é que os empresários, cada vez mais, não doam, mas investem, ou seja, repassam recursos com a expectativa de ganhos futuros. Não é apenas por espírito democrático que eles fazem doações, inclusive, a candidatos adversários. Eles doam apenas com o intuito de manter uma boa relação com qualquer um dos candidatos que seja eleito.

Vemos isso claramente nas eleições deste ano, por exemplo, quando o maior dos financiadores, o grupo JBS, conforme demonstra a primeira prestação de contas do dia 6 de agosto, investiu 53 milhões de reais em diversos candidatos, em diversos estados, inclusive em estados onde a empresa tem interesses comerciais. O grupo doou 5 milhões de reais para a candidatura da presidente Dilma, 5 milhões para a candidatura do candidato Aécio Neves e menos de 1 milhão de reais para o PSB, inclusive em diversas candidaturas. Estou curioso para ver o que vai acontecer nessa segunda prestação de contas, porque com o crescimento da candidata Marina, quero ver se o JBS vai acompanhar também esse crescimento e ampliar as doações que tinha feito ao PSB.

Por outro lado, também são feitas doações, inclusive por pessoas físicas, de valores absolutamente incompatíveis com a realidade. Por exemplo, nas eleições passadas teve uma pessoa doando 3 milhões de reais. Trata-se de um financiador de campanhas que tem imóveis e shoppings de luxo em São Paulo, ou seja, a pessoa atua nessa área, mas não doou como empresa, doou como empresário, como pessoa física. Desses 3 milhões de reais, 1 milhão e 800 mil foram para a candidatura do PT e aproximadamente outro milhão para a candidatura adversária.

Um estudo realizado por um instituto americano aponta que para cada 1 real doado, a empresa acaba recebendo cerca de 8 reais em contratos com o governo. É claro que essa é uma média e não se pode dizer que isso vai acontecer com todas as empresas. De todo modo, o que o acontece no Brasil é exatamente isso: empreiteiras, empresas do setor financeiro e empresas do ramo da alimentação doam para ter algum retorno.

A decisão que já foi tomada pelo Supremo Tribunal Federal — que já é coletiva, embora ainda não tenha sido adotada porque o ministro Gilmar Mendes pediu vistas e acabou impedindo que a decisão valesse para essa eleição — vai proibir o financiamento de empresas para as futuras campanhas, e realmente espero que isso aconteça, porque cada vez mais vemos que o Congresso Nacional está ficando povoado de empresários, até porque eles começam a perceber que, ao invés de financiar terceiros, podem financiar a si mesmos. Então, nós vemos uma enorme quantidade de empresários e de ruralistas que certamente não espelham toda a sociedade brasileira.

IHU On-Line – A Ação Direta de Inconstitucionalidade do Supremo Tribunal Federal, que pretende tornar ilegal a doação de empresas privadas a partidos e candidatos, pode ter uma repercussão negativa no sentido de favorecer doações ilegais? Nesse sentido, como deveria ocorrer o financiamento de campanha?

Gil Castello Branco – É preciso que um conjunto de medidas aconteça para que se possa moralizar as eleições brasileiras. A transparência é o principal antídoto contra a corrupção, então essas doações deveriam ser absolutamente claras. Nesta eleição isso era prometido, mas não está acontecendo. Continuam existindo as chamadas “doações ocultas”: empresas e pessoas físicas doam para os comitês, doam para os partidos e quando os partidos repassam os recursos aos candidatos, eles não estão fazendo o que o Tribunal de Contas do Estado – TCE previa, que era colocar claramente o CNPJ ou CPF do doador original. Quer dizer, essa triangulação doador, comitê ou partido ou candidato, era para que quando o dinheiro chegasse ao candidato, aparecesse o CNPJ ou CPF do doador. Isso não está acontecendo em todas as situações. Então, continuam ocorrendo doações ocultas.

Desde 1965 são previstos limites para as campanhas, limites esses que seriam fixados pelo Poder Legislativo. Poderíamos, por exemplo, ter limites nacionais para candidaturas nacionais, ter limites estaduais, municipais nas eleições estaduais e municipais compatíveis inclusive com o PIB do estado, da região. Essa medida poderia ser adotada para diminuir o valor da campanha. Então, veja, temos uma sequência de movimentos, de operações na legislação que poderiam garantir o limite das campanhas. Nesse sentido, poderíamos ter eleições mais baratas, eleições com absoluta transparência, ou seja, todas as doações claramente identificadas na internet.

Então, se dois candidatos estão disputando as eleições e eles têm limites idênticos fixados pelo tribunal, e se naturalmente um deles está tendo uma campanha abundante e extremamente visível, certamente o outro candidato seria o primeiro a denunciá-lo. Se tivéssemos os limites e essa transparência plena, evidentemente a chance de a irregularidade acontecer, inclusive nas doações de caixa dois, seria menor.

Outra questão relevante é melhor utilizar os recursos do fundo partidário e do horário eleitoral gratuito, porque podemos ver ao longo do ano um desfile antecipado de candidatos, inclusive nos horários nobres da televisão. Há até situações irritantes de vermos uma mesma propaganda ser repetida três ou quatro vezes sequencialmente. Esse é um gasto desnecessário.

Outra situação complicada é a comprovação de que o fundo partidário chegou a ser utilizado para pagar os advogados de alguns dos réus do mensalão; isso não foi admitido pelo PT, mas chegou a ser admitido pelo PR. Então é uma situação absolutamente irregular, porque são recursos orçamentários financiando advogados para defender réus condenados. Poderíamos imaginar uma situação de melhor uso desse fundo para que ele se tornasse até mais educativo e menos publicitário. Além disso, poderíamos ter também, se o brasileiro passasse a acreditar mais na política — mediante a reforma que mais cedo ou mais tarde terá de acontecer, porque não pode um país conviver com 32 partidos —, doações individuais em montantes muito superiores ao que acontece atualmente.

Resumindo, poderíamos ter, efetivamente, em primeiro lugar, um limite para a campanha, como a legislação prevê desde 1965; precisaríamos ter a transparência plena para que houvesse uma comparação entre as candidaturas; ter melhor uso do fundo partidário; e um melhor uso do horário eleitoral gratuito, para que então conseguíssemos realmente ampliar as doações individuais. Todos esses fatores deveriam fazer parte de uma reforma eleitoral, como também é absolutamente injusto, como hoje acontece, que parlamentares que estão em exercício de mandato, como é o caso de deputados, senadores, governadores e até da presidente da República, nesta situação atual, poderem concorrer enquanto exercem o mandato. Deputados e senadores, por exemplo, têm verbas indenizatórias, eles não vão a Brasília atualmente, mas recebem as verbas indenizatórias, quer dizer, estão podendo gastar com combustível, com aluguéis de escritórios em seus estados, com a divulgação da atividade parlamentar, e evidentemente isso se confunde com a campanha. Então, é absolutamente injusto que alguém concorra no exercício do mandato contra os demais que não têm esse privilégio. Portanto, isso também deveria ser objeto de uma alteração, porque hoje esse fator torna absolutamente injustas as eleições.

Se isso tudo acontecesse, poderia até ser necessária alguma complementação pública para as eleições. No entanto, certamente o melhor uso do fundo partidário e do horário eleitoral gratuito poderia diminuir essa possibilidade de a União ter de contribuir com algum recurso a mais. De qualquer forma, o ganho que teríamos de afastar as empresas desses processos seria muito grande, porque de fato as empresas estão elegendo os governantes e elas elegem com a perspectiva de depois obter um retorno financeiro.

IHU On-Line – Nesse caso não haveria necessidade de ter financiamento público?

Gil Castello Branco – Nós podemos racionalizar o uso do fundo partidário, porque este é um recurso que já sai do fundo da União para os partidos. Então, este ano serão gastos aproximadamente 300 milhões só de fundo partidário. Nós temos também a isenção fiscal do horário eleitoral gratuito, aquela propaganda que fica passando na televisão, que poderia ser também melhor utilizado. Então, se nós melhor utilizarmos, anualmente, esses recursos do fundo partidário e do horário eleitoral gratuito, isso já seria uma perspectiva de não precisar gastar aquele valor absurdo que hoje as empresas doam. Outra medida seria diminuir o valor das campanhas.

Então, quando a decisão do Supremo estiver plenamente vigente, não necessariamente teremos de fazer uma conta simples de dizer quantas empresas hoje bancam a campanha e a partir de agora o Estado vai ter de bancar esse valor. Não, isso tudo deveria estar embutido numa ampla alteração da legislação para que pudéssemos ter o fim das doações das empresas privadas, mas não com esse valor inteiro sendo absorvido pelo cidadão, absorvido pelo financiamento público.

IHU On-Line – No atual cenário, Dilma lidera o ranking dos arrecadadores de campanha, seguida do candidato ao governo do MS, Delcídio Amaral, de Aécio e dos candidatos ao governo do Rio de Janeiro, Luiz Pezão, e de São Paulo, Alckmin. Como o senhor avalia esse quadro? O que ele demonstra sobre os interesses políticos no Brasil?

Gil Castello Branco – Demonstra claramente os interesses políticos que as empresas têm, porque as doações para as candidaturas à Presidência da República naturalmente são maiores, mas nós vemos, por exemplo, que são as candidaturas fortes que estão liderando as pesquisas. Por isso, sob essa ótica vai ser extremamente interessante acompanharmos o que acontecerá na próxima prestação de contas. Nós veremos se o fato de a candidata Marina ter crescido nas pesquisas foi acompanhado por um número expressivo de doações em favor dela. Se isso acontecer, é mais uma prova de que as empresas se movem por interesses e não por amor à política. Se num primeiro momento, até um mês atrás, elas não estavam preocupadas com essa candidatura, por que agora estão colaborando de uma maneira significativa? Vai ficar muito claro que às vezes essas doações têm uma preocupação com o próprio ranking, as doações estão ligadas inclusive às pesquisas, porque quando um candidato começa a despontar, naturalmente começa a receber mais recursos; e quando um candidato começa a perder o espaço ou fica claro que talvez a sua candidatura fique inviabilizada, os recursos começam a minguar. Não é uma questão de se identificar politicamente, mas as empresas financiam aquelas candidaturas que imaginam que no futuro possam ser uma porta de entrada para a prestação de serviços ao governo, seja governo federal ou estadual, ou mesmo para manutenção da situação que elas já possuem.

IHU On-Line – Além do financiamento de empresas do setor alimentício, alguma outra particularidade nessas eleições tem chamado a sua atenção?

Gil Castello Branco – Nesta eleição estão concorrendo cerca de 25 mil candidatos, inclusive candidatos que disputam em situação de desigualdade com os outros, muitos inclusive têm a possibilidade, se são funcionários públicos, de ter uma licença remunerada para concorrer, o que também me parece absolutamente errado, porque torna desigual a participação desse candidato em relação a outros que não têm licença.

É espantoso que sejam 25 mil candidatos concorrendo. Isso mostra que a política parece ser um bom negócio, um bom emprego, porque a quantidade de pessoas que tentam um mandato é enorme. Desses 25.366 cidadãos que estão concorrendo, por exemplo, 2.321 são empresários, 1.481 são professores, 1.386 são advogados, 544 são polícias, 23 são motoboys, 21 são garis, 100 são sacerdotes, oito são artistas de circo e dois são coveiros.

Dessa multiplicidade, alguns candidatos são extremamente ricos, outros são pobres. Nas declarações de bens dos candidatos, nós encontramos 63 aeronaves e 236 embarcações, quer dizer, tem desde um jato de 7 milhões e meio a um bote inflável de 462 reais. Percebemos que alguns também fazem um esforço absolutamente de aparecer de qualquer forma, a qualquer preço, a qualquer título, inclusive colocando no nome de guerra da sua campanha, nomes como: Hora do rango, Cachorrão, Chiclete, Chupa cabra, Barack Obama, Mister M, Filho do Padre, Eu te amo, Bagunça. Isso demonstra uma tentativa de se eleger a qualquer preço.

Tudo isso a meu ver faz com que ainda não tenhamos as eleições que desejamos, talvez até algum aprimoramento venha acontecendo, mas um aprimoramento lento para que tenhamos eleições mais justas. Inclusive a própria propaganda eleitoral é pouco educativa, porque em função da quantidade de partidos, cada um tem espaço de segundos para se apresentar e mal dá tempo para dizer o nome e uma frase. Isso evidentemente não gera no eleitor absolutamente nenhuma informação útil para uma análise consciente. E no caso das campanhas para governador e presidente da República, o que nós vemos são produções caríssimas, fazendo com que valha muito mais a embalagem do que o conteúdo. Então, os marqueteiros certamente orientam as campanhas embalando candidatos e tornando-os inclusive pessoas diferentes daquilo que nós comprovamos no dia a dia. Nesse sentido, é muito difícil para o eleitor consciente fazer a sua escolha, porque nós somos sempre enganados pelos marqueteiros a ponto de os candidatos de uma maneira geral guardarem muito pouca relação com o que de fato são. Quer dizer, as campanhas não guardam uma relação com aquilo que nós vemos no dia a dia do candidato, inclusive no humor, na maneira de se vestir, na maneira de se relacionar com a sociedade. Essa maquiagem feita pelos marqueteiros acaba criando um produto que muitas vezes não é real.

Por que os bancos lucram mais do que os outros setores?

Por Juvandia Moreira | Via Brasil de Fato

O que acontece então quando a economia cresce menos, em ritmo menos dinâmico? Nesse caso, os bancos também ganham! Existe uma fonte de receita extremamente relevante e histórica do setor bancário brasileiro: os ganhos com financiamento da dívida pública

Mais uma vez em 2013 o setor bancário brasileiro foi o mais rentável da economia brasileira. De acordo com dados das empresas de capital aberto feitos pela Economatica, a rentabilidade mediana dos bancos com ação na bolsa em 2013 foi de 12%. Esse valor representa o meio do caminho entre as rentabilidades de cerca de 30 bancos que tem ação em bolsa, bancos de diversos tamanhos e segmentos. Se olharmos a rentabilidade dos maiores bancos que atuam no país, no entanto, veremos que os valores são ainda mais impressionantes. A rentabilidade mediana destes bancos – que concentram mais de 80% do mercado – gira em torno de 20%.

Isso significa que enquanto as aplicações de um trabalhador na caderneta de poupança fizeram seu patrimônio aplicado render cerca de 5,2% no ano passado, o patrimônio bilionário dos bancos rendeu 12% e se considerarmos só os maiores, 20%. Outros setores da economia apresentaram rentabilidade bem inferior ao setor financeiro: Setor de Construção (10,7%), Energia Elétrica (9,8%), Têxtil (6,6%), Alimentos e Bebidas (5,8%), Siderurgia e Metalurgia (5,6%), Setor Químico (5,09%) e Telecomunicações (-1,42%).

A diferença de rentabilidade entre as empresas financeiras e não financeiras se explica pela natureza de suas atividades, principalmente no Brasil. Uma indústria de alimentos, por exemplo, para gerar valor precisa de capital inicial para realizar compras dos meios de produção – prédios, máquinas, insumos, terra, matéria-prima, etc. -, precisa contratar trabalhadores assalariados para realizar o processo produtivo e neste processo gerar lucro. Para que esse processo se realize em sua plenitude, no entanto, precisa realizar seus lucros, ou seja, precisa ter condições de vender no mercado aquele produto gerado no processo produtivo. O que significa que se a demanda agregada da economia estiver com ritmo baixo, há uma boa chance de as vendas das empresas produtivas caírem e consequentemente seus lucros e sua rentabilidade.

Quando a economia está crescendo, com mais empregos e renda o setor financeiro ganha. As empresas precisam investir e os trabalhadores se sentem mais seguros para consumir, o que muitas vezes se traduz na busca por crédito concedido pelos bancos. O preço cobrado por isso são os juros e sabemos que, no Brasil, esse preço é particularmente elevado. A taxa de juros do cheque especial, por exemplo, gira em torno de 171% ao ano e a do crédito pessoal não consignado 100,3% ao ano. Trata-se, sem dúvida, de uma fonte de ganhos inigualável. Mais do que isso, a receita de crédito dos bancos é garantida por contrato, ou seja, mesmo que a empresa que tome crédito demore mais do que previu para obter receitas ou que a família que faz um empréstimo tenha alguma dificuldade financeira, existe um instrumento jurídico que garante que os bancos irão receber os valores, independentemente de como anda a economia. Além disso, quando a economia cresce mais pessoas abrem conta em banco (porque conseguiram emprego, por exemplo) e sabemos que ser cliente de banco significa pagar tarifa. Em 2013 os maiores bancos no Brasil ganharam R$ 97 bilhões apenas com receitas de tarifas e prestação de serviços.

O que acontece então quando a economia cresce menos, em ritmo menos dinâmico? Nesse caso, os bancos também ganham! Existe uma fonte de receita extremamente relevante e histórica do setor bancário brasileiro: os ganhos com financiamento da dívida pública. Os títulos públicos no Brasil pagam uma das mais altas taxas de juros do mundo, com alta liquidez e baixíssimo risco. As instituições financeiras no Brasil detêm diretamente 30% dos títulos públicos do governo e os fundos de investimento administrados por estas instituições são detentores de mais 20%. Quando a taxa Selic sobe retraindo o crescimento econômico, portanto, os bancos ganham e muito! Vejamos o que vem ocorrendo em 2014: com as recentes altas da taxa Selic os três maiores bancos privados do país ganharam em seis meses R$ 37 bilhões (alta de 19,5%) com operações de títulos e valores mobiliários e mais R$ 7 bilhões como remuneração das aplicações compulsórias (elevação de quase 70%).

Além disso, se por um lado, a elevação dos salários leva as pessoas a se sentirem mais seguras para contrair empréstimos, por outro, a estagnação dos salários muitas vezes leva as famílias a “complementarem” a renda com crédito, gerando novos ganhos com juros para os bancos. Isso ocorreu por décadas de estagnação salarial nos EUA, por exemplo. Concluímos, portanto, que os bancos têm lucro e rentabilidade de forma independente do ciclo econômico e, nestas circunstâncias não tem nenhum compromisso com o país. Seu compromisso está ligado apenas aos retornos de curto prazo garantidos aos acionistas.

Juvandia Moreira é formada em direito e pós-graduada em política e relações internacionais. Está à frente da presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região desde 2010.

Portais boicotam pesquisa em que Dilma empata com Marina no 2º turno

Por Eduardo Guimarães | Via Blog da Cidadania

Pouco antes das 11 horas de 9 de setembro de 2014 o site da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) divulgou a “121ª rodada da pesquisa CNT/MDA”. Segundo essa pesquisa, Dilma e Marina voltam a ficar empatadas em segundo turno.

Na 120ª rodada da pesquisa, divulgada em 27 de agosto, Marina tinha 43,7% e Dilma, 37,8%. Pela margem de erro de 2,2 pontos das pesquisas CNT/MDA, na pior hipótese para Marina ela teria 41,5% e Dilma, 40%. Ou seja, a pessebista vencia a petista fora da margem de erro.

13 dias depois, a 121ª rodada CNT/MDA mostra que, na mesma simulação de 2º turno, Marina subiu 2 pontos (dentro da margem de erro, de 2,2 pontos), para 45,7%, e Dilma subiu 4,9 pontos (bem acima da margem de erro), para 42,7%.

A distância entre Dilma e Marina no segundo turno, portanto, caiu de 5,9 pontos percentuais para 3 pontos (fora da margem de erro).

A pesquisa é excelente para Dilma porque, além de voltar à situação de empate técnico no 2º turno, a pesquisa MDA confirma as pesquisas Ibope e Datafolha da semana passada, que já mostravam tendência de queda da vantagem de Marina sobre Dilma em 2º turno.

Porém, a pesquisa CNT/MDA mostra expressiva queda da vantagem de 7 pontos de Marina sobre Dilma no 2º turno que as últimas pesquisas Ibope e Datafolha mostraram. Naquelas pesquisas da semana passada, a vantagem da pessebista caíra de 10 para 7 pontos.

Apesar de bombástica, a notícia foi boicotada nas homes de UOL e G1 e na do Estadão foi publicada, mas manchete inverteu o fato mais importante da pesquisa.

O Estadão destacou que a “vantagem de Dilma sobre Marina caiu no 1º turno” em detrimento do fato de que a vantagem de Marina sobre Dilma praticamente sumiu no 2º turno, o que é o fato mais importante.

Apesar de a home do site da Folha de São Paulo ter noticiado que Dilma empatou com Marina no segundo turno, só assinantes podem ler as matérias ali publicadas. O portal UOL, que tem muito mais acessos por ter conteúdo que qualquer um pode acessar, não publicou a notícia até, pelo menos, as 13:30 hs. da terça-feira 9 de setembro.

O que impressiona mais, porém, são os portais controlados pela Globo. O G1 e o site de O Globo, até o mesmo horário acima citado, não haviam publicado notícia nenhuma sobre a pesquisa CNT/MDA.

Apesar de previsível, vale registrar que o site da Veja também se recusou a publicar pesquisa que mostra reação consistente de Dilma na eleição. Os portais IG, Terra e R7 divulgaram a pesquisa. Os dois primeiros colocaram a notícia na home; o portal R7, da Record, não.

Diante do exposto, o Blog prevê forte reação da mídia contra Dilma. Contudo, o estoque de ataques possíveis caiu muito. A “delação premiada” que Veja vazou ilegalmente atinge Marina tanto quanto Dilma e o terrorismo econômico já fez o que pôde.

Vai se cristalizando boa reflexão do eleitorado. O moralismo de Aécio, apesar dos problemas éticos dele e de seu partido, e as propostas preocupantes de Marina, além dos questionamentos éticos que sofre, sinalizam à população que melhor mesmo é ficar com o que tem.

Estados Unidos, o suspeito e constante beneficiário das tragédias aéreas

cessnab777
Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/09/2014

A grande mídia – repentinamente e sem a menor explicação – silenciou sobre duas importantes tragédias aéreas que sacudiram o tabuleiro geopolítico internacional. Falo dos incidentes envolvendo o Boeing 777 voo MH17, na Ucrânia, e o Cessna 560XLS, que vitimou o então presidenciável do PSB Eduardo Campos e seis membros de sua equipe de campanha.

Os dois acontecimentos possuem implicações político-econômicas representativas e interessantes a grandes grupos de poder internacionais, estando ambos em situações nebulosas, as quais levanta questionamentos sobre o porque não mais se investiga nem se divulga informações sobre os casos.

Quanto ao voo MH17, estão sem explicações os seguintes fatos:

i) A caixa-preta se encontra há semanas em Londres, sem que as autoridades disponibilizem sequer trechos das gravações nela contidas [1];

ii) As aeronaves de guerra SU25 ucranianas detectadas pelo governo russo pouco antes da queda, que se aproximaram entre 3 à 5 quilômetros do Boeing 777 [2];

iii) As imagens de fragmentos da aeronave as quais um especialista alemão indicou serem perfurações à bala [3];

iv) A reportagem da BBC com moradores que testemunharam dois aviões militares sobrevoando a área no momento do acidente [4], e;

v) O confisco das comunicações entre a aeronave e a torre de controle por parte do governo de Kiev [5].

Estas informações colocam em cheque a versão oficial de que um sistema antiaéreo Buk, operado por rebeldes pró-Rússia, teria abatido o avião. Porque a Ucrânia, os EUA e a Inglaterra não divulgam as gravações? Que interesses possuem em obscurecer o caso? Considerando o aparato orwelliano/pan-óptico de monitoramento de Washington, é plausível que não tenha havido nenhuma imagem que ateste a versão por eles contada?

Passemos agora para o Cessna 560XLS, que caiu em Santos, matando Eduardo Campos e sua equipe. Abaixo, seguem as informações ainda obscuras:

i) As investigações não chegaram ao real dono da aeronave [6];

ii) Encontrou-se uma série de laranjas os quais se atribuíram pagamentos pelo bem [7];

iii) Os voos não foram contabilizados nos gastos de campanha [8];

iv) A polícia federal apurou que Campos negociava a compra do avião [9];

v) O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, redigiu parecer que aponta diversas ilegalidades em torno do uso do Cessna [10].

E então, o componente deste caso que o assemelha ao voo MH17. Por alguma razão ainda não explanada em definitivo, a caixa-preta do avião não gravou as comunicações do dia do incidente. Nos dois casos não se tem acesso as gravações do cockpit, o que quase elimina a possibilidade de determinação da causa das quedas.

Este quadro configura uma total e estranhíssima falta de materialidade no tocante as investigações, o que levanta suspeitas sobre possíveis sabotagens. Analisando a história, a conjuntura, o desenrolar dos fatos e os beneficiários deste, podemos, talvez, nos aproximar da verdade.

Iniciemos pela história, repleta de “acidentes” que vitimaram personalidades importantes, gerando gordos dividendos econômicos e geopolíticos a adversários.

No dia 24 de maio de 1981, o então presidente do Equador Jaime Roldós, de orientação reformista e avesso a presença das petroleiras norte-americanas no país, morreu junto de seu ministro da defesa e de toda a tripulação, quando o avião em que viajavam, um Super King Air, “acidentou” na montanha Huairapungo.

Pouco mais de dois meses depois, no dia 31 de julho, Omar Torrijos – ditador panamenho anti-imperialista e pivô da retomada do controle do canal do Panamá, antes sob controle de Washington – faleceu após seu avião, um DHC-6, cair misteriosamente em Cerro Marta, próximo a Penomoné, região central de seu país natal.

Sobre as mortes destes líderes, temos a intrigante alegação que consta no livro do ex-executivo da área financeira, John Perkins. Intitulado Confissões de um Assassino Econômico, podemos ler já no início:

“Este livro deveria ser dedicado aos presidentes de dois países, homens que foram meus clientes, a quem respeitei e em quem vi grandes espíritos – Jaime Roldós, presidente do Equador, e Omar Torrijos presidente do Panamá. Os dois morreram em temerosas quedas de aeronaves. Suas mortes não foram acidentais. Eles foram assassinados por se oporem a fraternidade de corporações, governos e banqueiros que almejam um império global. Nós, os assassinos econômicos, não conseguimos deter Roldos e Torrijos, e então o outro tipo de assassino, os sancionados pela CIA, que sempre aparecem após nossas falhas, atuaram.”

É imperativo acrescentar, neste ponto, não um “acidente”, mas a prova de que estes são planejados por governos. Nos anos 60, oficiais das mais altas patentes dos Estados Unidos planejaram derrubar um avião em território cubano a fim de fabricar um pretexto para invadir Cuba e derrubar o governo socialista, implantado na ilha depois da revolução de 1959.

Voltando para o presente e a atual conjuntura geopolítica, perguntemos então: quem se beneficia desse quadro? Cui bono? Os efeitos, os acontecimentos posteriores aos incidentes envolvendo o voo MH17 e o Cessna 560XLS, são completamente favoráveis, novamente, a Washington. Explico.

O neoconservadorismo norte-americano instituiu a Doutrina Wolfwoitz, que prevê a contenção de toda e qualquer potência capaz de lhes fazer frente, seja no campo político, econômico ou militar.

A Rússia – com suas vastas reservas energéticas – iniciou uma integração Euro-asiática por meio da venda de seu gás natural e compra de alimentos produzidos pela União Europeia. O resultado foi uma aproximação e interdependência entre as partes, com a balança pesando para Moscou, pois passara a fornecer um terço de todo gás consumido pelos europeus.

Concomitante a esta movimentação, a Rússia voltou a se aproximar da China, e estes em conjunto, tem atuado no sentido de abandonar o dólar em suas transações e ainda incentivando seus parceiros a fazer o mesmo.

E aqui se insere o Brasil. Desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, a política externa deu um giro para o Sul, priorizando o comércio entre o Mercosul e os países em desenvolvimento. Em assuntos de segurança, abandonou o alinhamento automático a Washington, passando a questionar as intervenções militares da OTAN, usando da diplomacia para conter os rompantes imperiais do Ocidente.

O ápice da integração do Sul global se deu em Fortaleza, na VI Cúpula do BRICS, ocorrida em julho deste ano. Além de se aproximarem politicamente, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, criaram o Novo Banco de Desenvolvimento e um Arranjo de Reservas Contingentes, organismos que visam ser alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, engessados pela ortodoxia econômica e excesso de poder de decisão dos desenvolvidos.

Ora, este quadro retrata com clareza tudo aquilo que Washington evita, a perda de importância geopolítica. Os EUA precisam manter – e não hesitam em usar de todos os métodos – o dólar como referência mundial e o controle do fluxo energético. O petrodólar é a base de seu financiamento.

Corrobora com essa visão as análises do professor Wallerstein. Considera ele que a perda de relevância dos EUA é inevitável, mas que Washington responde a isso se tornando mais hostil, na tentativa de manter sua posição.

As duas tragédias aéreas beneficiaram diretamente o Tio Sam. A da Ucrânia foi usada como pretexto para isolar a Rússia, trazendo uma avalanche de sansões econômicas.

Por aqui, a morte de Eduardo Campos trouxe Marina a cabeça da chapa do PSB, e esta foi catapultada na opinião pública, tornando-se favorita na eleição presidencial. Convenientemente, a plataforma de Marina é muito mais propensa ao capital financeiro e ao alinhamento a Washington.

Wayne Madsen – experiente jornalista investigativo e ex-oficial da Marinha para assuntos de segurança – é taxativo. Em publicação do último dia 30 intitulada All factors point to CIA aerially assassinating Brazilian presidential candidate (Todos os fatores apontam para a CIA ter assassinado o candidato a presidência brasileiro, tradução livre). Lemos:

“Uma revisão da história do pós Segunda Guerra Mundial nos revela que de todos os métodos que os serviços de inteligência usam para eliminar seus problemas político-econômicos, o assassinato por tragédias aéreas está em segundo no ranking, a frente dos acidentes de carro e envenenamentos, e somente atrás do uso de armas de fogo, que é o modo favorito da CIA para as execuções políticas. […]

A América Latina, em particular, sofreu com tragédias aéreas que mataram dois líderes determinados a se afastar da influência política norte-americana, o presidente Jaime Roldos Aguilera do Equador e o presidente Omar Torrijos do Panamá. […]

O envolvimento histórico dos EUA em assassinatos aéreos levanta suspeitas sobre o acidente com o Cessna 560XLS no dia 13 de agosto em Santos. Este vitimou o candidato a presidência pró-mercado do Partido Socialista Brasileiro, Eduardo Campos, e toda sua assessoria. A tragédia ocorreu justamente num momento em que se delineava uma vitória tranquila de Rousseff, e isto levantou muitos questionamentos entre os investigadores brasileiros e a opinião pública.”

O panorama, quando contextualizado, levanta sérias suspeitas sobre o envolvimento dos serviços de inteligência norte-americanos na queda dos aviões, tanto na Ucrânia como no Brasil. A verdade só será descoberta com um eventual vazamento de documentos classificados. É imperativo que a sociedade brasileira e mundial permaneça atenta as ingerências e hostilidades externas, a fim de trabalhar pela paz, garantir a soberania das nações e a autodeterminação dos povos.

PS: Hoje, a imprensa anuncia sem muita veemência o relatório da comissão holandesa (Dutch Safety Board Report) o qual concluiu que o Boeing 777 da Malaysia Airlines foi atingido externamente por um “grande número de objetos de alta energia”, o que torna praticamente evidente que o avião foi derrubado por tiros. O documento é extremamente comprometedor a tese ocidental que culpa os separatistas do leste ucraniano, e é exatamente por isso que nenhuma autoridade, europeia ou norte-americana, se pronunciou sobre o assunto.