Arquivo mensais:setembro 2014

Richa cortou recursos destinados à prevenção e monitoramento de cheias

Por Eduardo Mira | Via Requião PMDB

Gazeta do Povo/Reprodução

As chuvas dos últimos dias já causaram estragos em pelo menos 18 municípios do Paraná. Em Francisco Beltrão, o Rio Marrecas subiu 4 metros e 20 famílias estão desabrigadas. Ruas estão alagadas e a população está em alerta.

As cheias acontecem algumas semanas depois de o atual governo cortar R$ 10 milhões que estavam destinados à gestão de riscos naturais, como enchentes e vendavais, para saldar uma dívida com o BRDE.

O governador Beto Richa, que se afastou do governo por uma semana para se dedicar exclusivamente à campanha eleitoral, desamparando ainda mais os desabrigados, assinou no início de setembro o Decreto 11.994, cortando cerca de R$ 200 milhões a título de “remanejamento orçamentário”.

A verba deveria ser investida em equipamentos e mapeamentos para modernizar o sistema de monitoramento, prevenção e alerta de desastres naturais. Segundo os especialistas no assunto, o monitoramento permite que as autoridades saibam com antecedência de três dias a incidência de desastres naturais.

Até a manhã desta segunda, os temporais haviam prejudicado 1.429 pessoas, segundo o último boletim divulgado pela Defesa Civil. O mau tempo danificou 153 residências e ao menos 38 pessoas permaneciam desalojadas, ou seja continuam abrigadas na casa de amigos ou parentes. Cascavel, no oeste – com 270 pessoas atingidas -, Nova Tebas, no norte – outras 258 – e Nova Cantu, na região central – com mais 200 – são as cidades mais atingidas pelo mau tempo.

A previsão para os próximos dias, conforme o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), é de mais chuvas, principalmente no sul, oeste e sudoeste do estado, em especial nas áreas mais próximas da divisa com Santa Catarina.

Cúpula do Clima: o desencontro entre Dilma e Marina

Por Fátima Mello | Via Carta Maior

Jornal Portal Sul/Reprodução

A posição brasileira rejeita a lógica embutida no programa de Marina Silva que pretende construir uma agenda sustentável, sem soberania do Estado.

A Cúpula do Clima foi convocada pelo Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon para sacudir a vontade política dos governos, incentivando-os a firmarem compromissos à altura crise climática, e assim evitar que naufrague um novo acordo global, que deve suceder ao de Kioto, e deve ser assinado em Paris, em 2015, na COP 21.

O que se busca é um acordo ambicioso, vinculante e aplicável a todos os países, de modo a constituir um instrumento eficaz no combate às crescentes e severas alterações em curso no horizonte climático.

O caminho até a COP 21 está marmorizado de obstáculos e disputas.

O maior deles remete ao baixo engajamento das potências do Norte, associado à investida dos mercados que enxergam na da encruzilhada climática apenas uma nova fonte de lucros.

Contra isso, movimentos sociais e trabalhadores tomaram as ruas de Nova Iorque e de muitas outras cidades do mundo no último domingo.

O que se reivindica é que os países ricos assumam compromissos condizentes com suas responsabilidades históricas e que Wall Street não capture os marcos do novo acordo climático.

Dilma chegou à Cúpula do Clima com um importante trunfo, como asseverou em seu discurso. Em vez de promessas, trouxe realizações de seu governo e dos de Lula. O Brasil, ao contrário da inação e das resistências em firmar compromissos por parte dos históricos poluidores do Norte, reduziu em 79% o seu desmatamento nos últimos 10 anos.

Cumpriu, assim, as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa acordadas por Lula na COP 15 em 2009 (Copenhague). No mesmo ano criou a Política Nacional de Mudança do Clima, um marco legal que inclui o Plano Nacional e o Fundo Nacional de Mudança do Clima; os Planos de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado; inventários e a Comunicação Nacional para Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, além de medidas fiscais e tarifárias. Criou também o Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES.

Nas negociações no âmbito da Convenção de Clima da ONU o Brasil lidera importantes posições, cujas premissas foram reiteradas no discurso da presidenta Dilma em Nova Iorque.

Primeiro, manter firme defesa do multilateralismo e de regras comuns em uma esfera em que os atores privados e países do Norte querem privatizar e esvaziar o regime multilateral.

O Brasil, ao contrário, defende o princípio das Responsabilidades Comuns Porém Diferenciadas, consagrado na Convenção, e das responsabilidades históricas das potências tradicionais sobre as emissões de gases do efeito estufa.

Esse ponto de partida pressupõe que países em desenvolvimento, em especial os emergentes, ampliem compromissos, sem todavia incorrer no grave equívoco de isentar os países do Norte de um engajamento superior ao atual.

Segundo, o Brasil tem como princípio derivar suas posições internacionais de sólidas Consultas Nacionais junto aos diversos setores da sociedade – percurso aclamado por todos os países mas abraçado de fato por poucos.

Terceiro, apesar das fortes pressões internas e externas, o governo brasileiro resiste às propostas de inclusão de mecanismos de mercado na construção do novo acordo global do clima.

Quarto, fazendo uma leitura correta das questões de poder envolvidas nessa agenda, costurou sua posição em conjunto com os países do Sul no âmbito dos BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China) e em apoio à concertação regional junto ao Peru, sede da próxima COP, no início de dezembro deste ano.

Ao contrário de Dilma, a candidata Marina Silva, convidada para a Cúpula do Clima convocada por Ban Ki-moon, não compareceu.

Esse não é o único desencontro entre Marina e Dilma em relação ao desafio climático. As propostas do programa de Marina nesse capítulo são bastante controversas. Ao contrário da justa defesa feita pelo governo Dilma do princípio das Responsabilidades Comuns Porém Diferenciadas, Marina defende “pôr abaixo a leitura estática” deste princípio.

Seu argumento é que o atual governo o utiliza como escudo para não firmar compromissos efetivos. Mas a argumentação pode sugerir que Marina pretende, caso eleita, não pressionar as potências do Norte a assumirem metas condizentes e proporcionais às suas responsabilidades históricas.

O programa de Marina também propõe a implementação de um “Mercado Brasileiro de Redução de Emissões” e outros mecanismos para ‘precificar’ as emissões de gases do efeito estufa no país. O governo Dilma resiste à inclusão de mecanismos de mercado no acordo global.

No programa de Marina a dimensão ambiental é de fato transversal a todas as políticas e setores e há propostas elaboradas para diversas áreas (florestas, água, clima, agricultura, saneamento, mobilidade urbana, resíduos sólidos, entre outros). Entretanto, há problemas de fundo em sua matriz conceitual: não é possível, por exemplo, compatibilizar proteção ambiental e redução de desmatamentos com independência para o capital financeiro, pois é sabido que quanto maior a liberdade para os fluxos de capitais, maior é a dependência em relação ao agronegócio e à mineração para o país conseguir fechar suas contas.

A visão pró-mercado e de redução do papel do Estado não é compatível, ademais, com a ampliação de direitos territoriais para indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais defendida no programa. Sem um Estado ativo, como dispor de ferramentas e instrumentos de política para garantir esses direitos?

Outras perguntas incômodas arguem essa mesma a lógica. Como conciliar direitos sociais com um programa que enfatiza a criação de um mercado de emissões de carbono, verdadeiro pote de ouro para o mercado financeiro que justamente coloca em risco as prerrogativas das comunidades tradicionais sobre seus territórios?

E o que é sobretudo constrangedor: como imprimir o interesse coletivo e ambiental na definição de políticas públicas para a água, o saneamento, o apoio a agricultura familiar, a inovação se o programa de Marina defende, ao mesmo tempo, que o Brasil assine acordos de livre comércio, que subtraem a soberania brasileira nessas esferas, expondo a sociedade à concorrência desigual com mercados e corporações transnacionais?

Um eventual segundo mandato de Dilma, porém, não pode se desobrigar de um aprofundamento da dimensão socioambiental do modelo de desenvolvimento do país.

Se é verdade que as emissões oriundas dos desmatamentos estão diminuindo, crescem as emissões no setor de energia e as do agronegócio.

A diversificação em curso da matriz energética, com maior ênfase em fontes limpas e renováveis, reserva margem para avanços e ousadia.

Os direitos territoriais de pequenos agricultores, ademais dos povos e comunidades tradicionais se ressentem de uma Reforma Agrária do século XXI, que traga para essa agenda a centralidade da questão ambiental. De uma vez por todas, há que se construir uma política fundiária na qual justiça social e equilíbrio ambiental se combinem organicamente.

Em resumo, não basta vencer o programa de Marina Silva nas urnas. É vital construir políticas de governo que rejeitem, de forma crível e sustentada, o ardiloso matrimônio entre socioambientalismo e rentismo.

(*) Fátima Mello é da FASE – Solidariedade e Educação e do GR-RI (Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais)

OAB pede cassação da candidatura de Fidelix por declarações homofóbicas

Por James Cimino | Via Uol Eleições

Internautas ironizam os candidatos à presidência Pastor Everaldo (PSC) e Levy Fidelix (PRTB) em uma montagem que imita o aplicativo de encontros Tinder: “Eles combinam” (tradução livre)

A Comissão Especial da Diversidade Sexual do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vai requerer para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a cassação da candidatura de Levy Fidelix (PRTB) e direito de resposta às declarações homofóbicas ditas pelo candidato durante debate ocorrido na “TV Record” na noite de domingo (28).

Segundo o presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/SP-Jabaquara, Marcelo Gallego, “existe um movimento de diversas comissões da Diversidade Sexual da OAB de diversos Estados, no sentido de repudiar as declarações”.

O deputado Renato Simões (PT-SP) também acionou o candidato. A primeira representação foi feita à Procuradoria Regional Eleitoral do Ministério Público Federal, instituição cujo procurador-geral, Rodrigo Janot, recentemente se pronunciou pela adoção do crime de discriminação previsto na legislação contra o racismo para embasar processos por homofobia.

Outra junto à comissão especial da lei 10.948, que pune a homofobia no Estado de São Paulo, de autoria do próprio Renato quando deputado estadual, que funciona junto à Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo.

“Esperamos que a impunidade não alcance Fidelix, pois seu comportamento como candidato à Presidência da República não pode estimular o preconceito, a discriminação e a violência contra LGBTs em todo o país”, disse o deputado.

Segundo ele, Fidelix incentivou uma reação da sociedade contra os LGBTs. Como a lei 10.948 é estadual, o candidato não será imputado criminalmente, mas poderá ter de pagar multa ou sofrer outras sanções.

O candidato do PV à presidência, Eduardo Jorge, também fez solicitação semelhante ao Ministério Público. A representação pede que se instaure inquérito/processo crime pelo desrespeito à dignidade humana e igualdade de direitos.

“Hoje cedo já mobilizei o Jurídico do Partido Verde e o PV Diversidade, na figura de André Pomba, e entramos hoje no Ministério Público, em São Paulo, com uma representação contra Levy Fidélix pelas declarações homofóbicas no debate de ontem. Para nós, mesmo sem essa legislação explicitamente aprovada no congresso, julgamos que cabe o processo por incitação à violência e preconceito. O Jurídico do PV também está estudando para amanhã uma ação no TSE”.

Luciana Genro e o deputado federal Jean Wyllys, ambos do PSOL, também fizeram o mesmo pedido.

No Facebook, um grupo formado por mais de 6.100 pessoas está coletando dados pessoais para formalizar uma denúncia coletiva à Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos do governo federal.

A coordenadora de Políticas para a Diversidade Sexual da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo, Heloisa Gama Alves, também representou ofício ao candidato com base na lei estadual 10.948/01.

Além disso, diversos usuários de redes sociais têm denunciado o candidato no site do Ministério Público Federal por ferir o artigo 5º da Constituição Federal, inciso XLI, que diz que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”, especialmente por ter sido feito em uma emissora de televisão de concessão pública.

A polêmica

Em debate realizado na noite de domingo (28) pela “TV Record”, Levy Fidelix associou a homossexualidade com pedofilia e afirmou que gays precisam de atendimento psicológico “bem longe daqui”.

As declarações foram dadas após pergunta da candidata Luciana Genro (PSOL), que citou a violência a que a população LGBT é submetida e indagou Levy sobre os motivos pelos quais os que “defendem a família se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo.”

“Aparelho excretor não reproduz (…) Como é que pode um pai de família, um avô ficar aqui escorado porque tem medo de perder voto? Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto. Vamos acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar, fez muito bem, do Vaticano, um pedófilo. Está certo! Nós tratamos a vida toda com a religiosidade para que nossos filhos possam encontrar realmente um bom caminho familiar”, afirmou.

Na réplica, Luciana defendeu o casamento igualitário como forma de reduzir a violência contra a população LGBT. Na tréplica, entretanto, Levy subiu o tom e deu a entender que caso fossem dados direitos ao grupo, metade da população sairia do armário.

“Luciana, você já imaginou? O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir para 100 [milhões]. Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Não tenha medo de dizer que sou pai, uma mãe, vovô, e o mais importante, é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá”, disse.

O que acontece com os pagamentos no comitê do Richa?

Via Blog Wilson Vieira

O cheque acima é da cabo eleitoral, que era para receber R$400,00 por serviços prestados, lhe deram R$350,00 em dinheiro, mesmo o cheque sendo de R$400,00.

“Titanic” Richa poderá ter seríssimos problemas com suas prestações de contas de campanha, parte do problema poderá ser por causa do comitê dele em Maringá.

Vazou que dois coordenadores de campanha dele, foram encaminhados à delegacia de polícia do município no último dia 13, pela manhã, após serem flagrados trocando cheques do comitê do “Titanic” Richa, emitidos com a CNPJ: CNPJ 20572328/0001-90, em nome de Carlos Alberto Richa Governador. E ainda cobrando ágio de 10%.

Todo mundo se silenciou na campanha de “Titanic” Richa, com medo do escândalo ser um “prelúdio” para a “bala de urânio” de Requião.

E o “bagulho ficou louco”, porque envolve pessoas de confiança de “Titanic” Richa em Maringá.

O cheque acima é da cabo eleitoral, que era para receber R$400,00 por serviços prestados, lhe deram R$350,00 em dinheiro, mesmo o cheque sendo de R$400,00.

Aonde foi parar a diferença?

Pior, o pagamento não poderia ser efetuado em “cascalho”, já que ela deveria trocar o cheque no banco e receber os R$400,00.

Mais uma BOMBA relógio contra a campanha de “Titanic” Richa.

Era preciso matar Kadafi?

Por Jean Paul Hébert | Via Le Monde Diplomatique

A eliminação de Muamar Kadafi, no dia 20 de outubro de 2011, significou o fim de seu regime despótico, mas não do caos na Líbia. Os danos colaterais dos ataques aéreos ocidentais afetam todos os moradores do Saara. A fim de evitar tal desastre, antes da intervenção, a União Africana havia proposto uma solução pacífica

Em 2011, no intervalo de dezesseis dias, duas incursões militares estrangeiras pesadas aconteceram no espaço soberano da África, sem que a União Africana [1], considerada negligenciável, tivesse sido consultada. Entre 4 e 7 de abril, as tropas francesas intervieram na Costa do Marfim. Alguns dias antes, desde 19 de março, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), principalmente francesas e britânicas, tinham começado a bombardear a Líbia. Para o ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki, esses acontecimentos ilustraram “a impotência da União Africana em fazer valer os direitos dos povos africanos perante a comunidade internacional”.[2] No entanto – fato ignorado pelas mídias –, nesses dois conflitos, a organização cuja comissão eu presidi de 2008 a 2013 tinha formulado soluções pacíficas concretas, que os ocidentais e seus aliados autoritariamente descartaram.

Desde os primeiros dias de 2011, tudo tinha mudado na África do Norte. Em 14 de janeiro, o presidente tunisiano, Zine al-Abidine ben Ali, fugiu. Pega desprevenida, a Europa não interveio. Em 10 de fevereiro, no Egito, Hosni Mubarak renunciou. No dia 12 de fevereiro, a contestação tomava conta da vizinha Líbia. Para os ocidentais, esse último levante foi uma oportunidade: permitiu-lhes interpretar o papel dos heróis humanitários e apagar seu apoio aos regimes ditatoriais. Com o voto da Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU, em 17 de março, eles pensavam ter obtido um sinal verde para iniciar uma dança macabra em torno do dirigente líbio Muamar Kadafi.

“O Afeganistão próximo dos europeus”

Entre os protagonistas desse conflito figuravam em primeiro lugar o Conselho Nacional de Transição (CNT) e seus revolucionários heterogêneos, que tinham por único objetivo comum se livrar do tirano. Para isso, um apoio externo era indispensável.[3]

Em segundo lugar, intervinha a coalizão ocidental e seu braço armado, a Otan, que fizeram uma irrupção, como justiceiros, nessa nova batalha. Eles pretendiam reagir ferozmente às ações de Kadafi e, como tinham feito com Saddam Hussein, eliminá-lo definitivamente. Mas, para se livrar de um único homem e interromper um massacre de civis, era preciso começar uma guerra punitiva dessa amplitude e cometer outro massacre de civis tão inocentes quanto os primeiros? Estavam brincando com fogo e já podiam prever o caos que, como na Somália, no Iraque, no Afeganistão e em outros lugares, resultaria disso.

O campo ocidental contava naturalmente com o grande irmão norte-americano, a “nação indispensável”, segundo a expressão da ex-secretária de Estado Madeleine Albright. No entanto, acontece que, naquele exato momento, Barack Obama revelava sua nova doutrina de “giro” em direção à Ásia do Pacífico.[4] Os Estados Unidos, atolados em seus problemas internos nascidos da crise econômica e financeira, tinham a necessidade de se voltar um pouco para si mesmos. Eles tinham por isso decidido exercer, a partir de então, sua liderança mundial “por trás” (leading from behind). Abandonando as tradições de sua diplomacia, a França, por sua vez, encabeçou a coalizão internacional antikadafista. Ela dirigiu as hostilidades “pela frente” e por procuração internacional.

Mas quem iria governar a Líbia pós-Kadafi? Quem saberia acalmar as tensões inter-regionais, intertribais e inter-religiosas que nasceriam indiscutivelmente do terrível confronto por vir? Como evitar o caos no interior e a desestabilização no exterior, principalmente no Sahel? Tais eram as questões essenciais que levantávamos no seio da União Africana.

A Resolução n. 1.973 contentava-se em exigir um cessar-fogo e em proibir todos os voos no espaço aéreo líbio, para proteger os civis; ela excluía o emprego de um exército de ocupação. Sem utilizarem seu direito de veto, a Rússia e a China, por falta de respostas sobre os meios cogitados para colocar em ação essa resolução, optaram prudentemente pela abstenção (assim como a Alemanha, o Brasil e a Índia). A intervenção militar, com o recurso às forças especiais no solo, a ajuda aos rebeldes e os ataques aéreos contra as tropas e os centros de comando, constituiu assim para essas duas potências numa afronta e num desvio de procedimento. O objetivo nunca foi se livrar de Kadafi ou impor uma mudança de regime.

As ações ocidentais, julgadas ilegais e imorais por muitos, provocaram inúmeras reações internacionais, como aquela, particularmente amarga, de Mbeki: “Pensávamos ter definitivamente colocado fim a quinhentos anos de escravidão, imperialismo, colonialismo e neocolonialismo. [...] Contudo, as potências ocidentais se arrogaram o direito de decidir o futuro da Líbia de maneira unilateral e desavergonhada”.[5] Esse desabafo ilustrou um sentimento de humilhação amplamente compartilhado.

Para nós, evidentemente, o espectro da guerra civil, da divisão, da “somalização”, do terrorismo e do narcotráfico planava sobre a Líbia. Porque éramos os únicos a ver isso? Iríamos lutar ali pela defesa da democracia, pelo controle do petróleo, em função de sórdidas considerações eleitoreiras (Nicolas Sarkozy já estava em pré-campanha por sua reeleição no ano seguinte) ou ainda por tudo isso junto? Não havia, nesse estágio, outros caminhos possíveis além dos bombardeios maciços?

A União Africana estava convencida de que havia. Foi por isso que ela optou por uma resposta mais política do que militar e concentrou seus esforços na elaboração de um “plano de ações” adotado em 10 de março. Esse documento comportava essencialmente três pontos: uma “cessação imediata das hostilidades”, seguida de um “diálogo”, o qual teria em vista uma “transição consensual” – quer dizer, excluindo a manutenção de Kadafi no poder –, sendo o objetivo principal a continuação da instauração de um “sistema democrático”. O Ocidente queria suprimir um homem; a União Africana pretendia mudar um sistema.

Como que para implodir esse plano, os bombardeios da Otan começaram em 20 de março, no mesmo dia em que nos preparávamos para ir a Trípoli, depois a Bengasi, para tentar colocar em prática o plano de ações.

Em 19 de março, o comitê dos chefes de Estado [6] mandado pela União Africana para persuadir os dois lados do conflito líbio a aceitar os termos de uma solução política reuniu-se em Nouakchott, na Mauritânia, depois de um primeiro encontro em Adis-Abeba, na Etiópia, na sede da organização. No meio das deliberações, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, quis urgentemente falar comigo ao telefone. Ele estava participando naquele sábado, em Paris, de outro encontro internacional que reunia os dirigentes árabes, europeus e norte-americanos para “decidir e agir coletivamente sobre a aplicação da Resolução n. 1.973”. Os governos reunidos em Paris, ele avisou, tinham o encarregado expressamente de me pedir que dissuadisse nossos representantes de se dirigirem a Trípoli e Bengasi. Ele invocou uma razão clara: “As operações militares da Otan vão começar hoje”. Um roteiro semelhante, visando marginalizar a ONU e as mediações da União Africana, aconteceu na Costa do Marfim,[7] demonstrando que, para algumas potências, nenhuma autoridade é superior a elas.

Para nós, foi como recomeçar o jogo. No dia 10 de abril, os representantes da União Africana chegaram a Trípoli para encontrar Kadafi. No dia seguinte, em Bengasi, nossos carros foram cercados desde o aeroporto, e fomos vaiados até o hotel onde deveriam se realizar as negociações. Mustafa Abdeljalil, presidente do Conselho Nacional de Transição, e sua equipe começaram as discussões sob a pressão ininterrupta de uma multidão de manifestantes agressivos que gritaram até nossa partida. Resultado: Kadafi aceitou nossa proposta, mas a resposta do CNT foi negativa. Os pirômanos acabavam de ganhar dos bombeiros e o enfrentamento venceu a negociação.

Com o tempo, notar-se-á que a União Africana foi a única organização internacional que propôs uma saída política. Sem dúvida porque a África tinha vivido experiências análogas e conservava seus estigmas indeléveis. Que se lembre do drama que a Somália vive há mais de vinte anos, abandonada por todos, em seguida da desastrosa operação militar norte-americana “Restore Hope”, em 1993. Que se considere também o caos iraquiano e a desintegração atual desse Estado. [8]

Na Líbia, como tínhamos previsto, o sonho europeu também se tornou um desastre. Os aparelhos de Estado implodiram, para o lucro dos senhores da guerra, dos clãs mafiosos e dos terroristas islâmicos; a pilhagem dos estoques de armas transformou esse país em um gigantesco arsenal a céu aberto; as fileiras de imigração clandestina multiplicaram-se [9] – a ponto de a Líbia ter se tornado, para retomar a expressão de um antigo chefe das informações francês, “o Afeganistão próximo dos europeus”.

Nós advertimos o mundo inteiro: essa bomba-relógio acabaria explodindo na mão daqueles que a criaram, que não sabiam em que história estavam se metendo. A proposta africana que ninguém queria ouvir visava persuadir Kadafi a seguir o caminho do exílio – no estrangeiro, como Ben Ali, ou interno, como Mubarak. Ele deveria renunciar por conta própria ao que lhe restava de poder a fim de poupar seu povo das infelicidades e das humilhações de uma intervenção estrangeira, assim como dos tormentos de uma guerra civil cujo fim lhe seria fatal.

Por trás do pretexto humanitário

Nós procuramos imediatamente possíveis locais de acolhida. Para o exílio interno, propusemos Sebha, capital da região de Fezzan, próxima de países amigos da África negra – principalmente o Chade. Para o exílio no estrangeiro, a Turquia tinha declinado nossa oferta. A Venezuela tinha se oferecido, mas era muito delicado. O Egito também tinha sido contatado, mas os partidários de Kadafi haviam rejeitado essa proposta…

A diplomacia ainda é a arma principal da União Africana. Nossa lógica é a da “paz preventiva”, e não, como se tornou frequente no caso ocidental, a da “guerra preventiva”, desprovida de qualquer legitimidade. Por que não nos deixaram sequer uma chance de colocar em ação nosso plano, que Kadafi tinha aceitado?

Entre os outros agentes estratégicos figuravam os Estados árabes e sua organização regional. Contrariamente à União Africana, a Liga Árabe estava praticamente alinhada com a posição ocidental, o Catar se mostrando o mais bélico. Quanto ao próprio Kadafi, ele não podia entender que, num mundo que se tornou um vilarejo planetário, todos os povos aspiravam à liberdade, à dignidade e à justiça. Sua relação ao levante popular vinha de outro tempo: a repressão, somente a repressão.

Esse curioso personagem parecia, no entanto, estar no topo de sua glória. Ele tinha se tornado novamente frequentável e tinha as melhores relações com os poderosos deste mundo: basta pensar em sua estada em Paris no fim de 2007 e em sua célebre tenda beduína plantada a alguns passos da Champs-Elysées, ou ainda na viagem de Sarkozy a Trípoli em julho do mesmo ano; nas boas notas do Fundo Monetário Internacional, ou ainda nas excelentes relações do dirigente líbio com a Itália de Silvio Berlusconi. Kadafi colaborava inclusive com os serviços de informação norte-americanos, britânicos e franceses. E depois todos os sonhos grandiosos do “Guia” se desmoronaram como um castelo de cartas, levados pelo “tsunami árabe”. Levanta-se com o mundo aos seus pés, vai se deitar com uma chuva de bombas sobre sua cabeça.

Em 20 de outubro de 2011, a aviação francesa interceptou o comboio do chefe líbio. Fugindo a pé, Kadafi foi notado, espancado horrivelmente por um grupo de insurgidos e finalmente morto. Descobrimos que a “guerra humanitária”, vestida com os bons e nobres sentimentos do novo princípio da “responsabilidade de proteger” – adotado pelas Nações Unidas em 2005 –, era apenas uma mistificação. Ela dissimulava uma política de poder clássica visando derrubar um regime e assassinar um chefe de Estado estrangeiro, tendo, dessa vez, o sinal verde da ONU.

Jean Paul Hébert era pesquisador do Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Paz e dos Estudos Estratégicos, faleceu em 21 de julho de 2010.

Ilustração: Odyr

1 Em 2002, a União Africana (www.au.int) sucedeu à Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 1963. Ela agrupa os 54 países do continente, todos representados na Conferência dos Chefes de Estado, sua instância dirigente, enquanto a comissão é seu órgão executivo.

2 Thabo Mbeki, “Union africaine: une décennie d’échecs” [A União Africana: uma década de fracassos], Courrier International, Paris, 27 set. 2012.

3 Ler Serge Halimi, “Les pièges d’une guerre” [As armadilhas de uma guerra], Le Monde Diplomatique, abr. 2011.

4 Ler Michael T. Klare, “Quand le Pentagone met le cap sur le Pacifique” [Quando o Pentágono se dirige ao Pacífico], Le Monde Diplomatique, mar. 2012.

5 Thabo Mbeki, op. cit.

6 Jacob Zuma (África do Sul), Mohamed Ould Abdel Aziz (Mauritânia), Denis Sassou Nguesso (Congo), Amadou Toumani Touré (Mali) e Yoweri Museveni (Uganda).

7 Ler Anne-Cécile Robert, “Origines et vicissitudes du ‘droit d’ingérence’” [Origens e vicissitudes do “direito de ingerência”], Le Monde Diplomatique, maio 2011.

8 Ler Peter Harling, “Ce que qu’annonce l’éclatement irakien” [O que anuncia o desmembramento iraquiano], Le Monde Diplomatique, jul. 2014.

9 Ler Patrick Haimzadeh, “La Libye aux mains des milices” [A Líbia nas mãos das milícias], Le Monde Diplomatique, out. 2012.

Debate na Record: Marina mente e Fidelix ultrapassa todos os limites

Por Rennan Martins | Brasília, 29/09/2014

Ontem (28) a noite, a Record exibiu o penúltimo debate entre os presidenciáveis. A proximidade ao dia 5 de outubro naturalmente acirrou os ânimos e ataques, e quem perde com isso é a própria política e a democracia. Ataques moralistas vazios só contribuem para a despolitização.

A presidente e candidata a reeleição pelo PT, Dilma Rousseff, demonstrou mais uma vez vasto conhecimento dos problemas pelos quais passa nosso país e se torna a cada dia mais propositiva com a corrupção, deixando claro que toma medidas práticas no sentido de combatê-la, para além do discurso de indignação que em nada contribui. Sofreu duros ataques dos outros candidatos.

Eduardo Jorge, do PV, caiu muito no rendimento. Se anteriormente ele assumiu o importantíssimo papel de nos lembrar sobre o serviço da dívida pública que imobiliza o Estado, ontem conseguiu servir de auxiliar aos conservadores quando comparou os médicos cubanos a escravos.

Luciana Genro (PSOL) permanece lembrando aos telespectadores e adversários verdades incômodas, questionando o falido tripé macroeconômico. Dá sinais de que crescerá com vigor nos próximos anos. Vacilou quando não deu combate as declarações homofóbicas de Levi Fidelix.

Aécio (PSDB) melhorou seu desempenho e se mostra mais coerente, demonstrou que sabe debater sem necessariamente atacar o PT. Assim continuando, a tendência é que observemos certo crescimento na preferência do eleitorado em detrimento de Marina Silva.

Marina, candidata pessebista, assiste sua aura do “novo” desfazer-se, afunda nas próprias contradições e não dá sinais de saber como superar o discurso demagógico que profere. Mentiu quando afirmou que manterá a atuação dos bancos públicos, já que não é isto que consta em seu programa nem nas propostas de seus assessores econômicos. Quando confrontada por Dilma sobre a CPMF, respondeu longamente sem nada dizer.

Everaldo (PSC) é incapaz de articular uma frase que não envolva os tópicos da violência, corrupção e o sofrimento do “cidadão de bem”, aliando a isso chavões batidos sobre livre iniciativa. O que intriga é que o partidário ferrenho da globalização não titubeia em privatizar a Petrobras, mas considera que o dinheiro destinado a criação do Banco dos BRICS deveria ficar no Brasil.

Everaldo e Levi Fidelix (PRTB) atuaram em bloco, tabelaram durante todo o debate, realizando ataques descabidos, carregados de preconceito e senso comum. Um verdadeiro “jogo de compadres”.

Mas tudo isso foi ofuscado pelas declarações absurdas de Fidelix. O candidato conseguiu, em menos de 3 horas, afirmar que os investimentos no BRICS podem financiar cocaína dos países andinos, que os “bolivarianos” pretendem nos invadir, e ultrapassou todos os limites quando equiparou homossexuais a pedófilos, dizendo que deviam se tratar “bem longe da gente”.

Conclui-se desse debate que o Brasil precisa superar a política do denuncismo, que é demagógica e em nada acrescenta. E que é urgente, imperativa, a criminalização da homofobia. Não podemos mais tolerar tanto ódio e violência gratuita.

Coronelismo, antena e voto: a apropriação política das emissoras de rádio e TV

Por Carlos Gustavo Yoda | Via Carta Capital

Como a prática, recorrente no Brasil, de políticos eleitos se tornarem proprietários de empresas concessionárias de rádio e televisão ou de radiodifusores serem eleitos para cargos do poder público e passarem a legislar em causa própria é prejudicial à democracia

“Coronel” é patente militar em quase todos os exércitos do mundo. O mais alto posto antes de “general” dentro das Forças Armadas do Brasil, figura responsável pelo regimento de uma ou mais tropas ou companhias. No Nordeste brasileiro, “coronel” também é sinônimo de grandes proprietários de terra, “os coroné”, quem manda, aquele que dita as regras. Daí o termo “coronelismo”, cunhado, em 1948, no clássico da ciência política moderna Coronelismo, Enxada e Voto, do jurista Victor Nunes Leal, para dar nome ao sistema político que sustentou a República Velha (1889-1930). Entre as interpretações de documentos, legislações e dados estatísticos, o livro explica como o mandonismo local se misturava aos altos escalões das estruturas de poder.

Mais de 60 anos se passaram desde a publicação de Victor Nunes Leal. E o coronelismo de outrora ganhou novos contornos, entre eles, o chamado coronelismo eletrônico. Em período eleitoral, nada mais importante do que revisitar essa história e analisar como o controle de emissoras de rádio e televisão por políticos segue influenciando os rumos da política brasileira.

Para provocar essa reflexão, a partir desta semana, o Intervozes, com o apoio da Fundação Friedrich Ebert, publica uma série de reportagens sobre o fenômeno da concentração dos meios sob o controle de grupos políticos. Daqui até o final da campanha eleitoral vamos mostrar por que e como esta prática é prejudicial à democracia, o que diz a legislação e a quem cabe fiscalizar e punir os abusos, quem são os principais partidos e grupos econômicos que violam a Constituição e se aproveitam desta ilegalidade. Por fim, buscaremos conhecer como funcionam as regras em outros países que desenvolveram mecanismos eficazes de combate ao coronelismo eletrônico.

A publicação das reportagens é uma contribuição do Intervozes à campanha Fora Coronéis da Mídia, lançada em julho deste ano pela Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (ENECOS), com o objetivo de mobilizar os mais diversos movimentos sociais e sensibilizar a sociedade e as esferas de poder sobre o tema.

Origens do problema

De acordo com Victor Nunes Leal, durante a Velha República, a milícia imperial estava a serviço dos grandes proprietários de terras e escravos. Esta articulação entre quem comandava as instituições públicas e os grandes fazendeiros passou a influenciar os processos eleitorais. Sucessivos governos locais, estaduais e federais se elegeram com o chamado “voto de cabresto”, a partir da relação estabelecida em locais pobres. O coronelismo se sustentava, assim, em um sistema político de troca de favores recíprocos, onde o voto é moeda de troca por benefícios pessoais, em detrimento do interesse público e do bem comum, também interpretados como clientelismo e fisiologismo.

Mesmo em meio a uma lavoura economicamente decadente, os coronéis continuaram a manter uma moeda de valor inestimável: a influência absoluta sobre a vontade e os destinos de empregados, meeiros e todos aqueles envolvidos em torno do grande latifúndio. O valor dessa moeda aumentou com a democratização formal do País, sobretudo no período republicano quando se universaliza o direito ao voto: o “coronel” passa a ser então o elo de ligação entre o poder estadual e os eleitores. Aos governos cabia, como contrapartida, o reconhecimento da autoridade local e a alimentação desse poder, através da cessão de alguns recursos: empréstimos, empregos e, sobretudo, os favores das forças policiais. A liderança do coronel exige o sistema representativo, e essa é a preocupação central de Victor Nunes ao longo de seu livro. Ele destaca ainda que o sistema coronelista depende sobretudo de um ambiente baseado na estrutura arcaica de concentração de propriedade do latifúndio.

Com indicadores censitários da década de 1940, Victor Nunes aponta que os grandes latifúndios ocupavam mais de 75% em área das terras disponíveis no País e que 70% da população ativa pertenciam à categoria dos não-proprietários, cifra que chegava a 90%, somados os pequenos proprietários, cuja situação era de total precariedade, na maior parte dos lugares.

Apesar do coronelismo ser um episódio histórico, consequências e processos culturais do sistema coronelista ainda se fazem sentir na arcaica distribuição fundiária, de renda e de poder no Brasil.

Coronelismo eletrônico

“Mais sofisticado, sutil e ainda mais perverso”, na opinião do cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Francisco Fonseca é o “moderno” fenômeno do coronelismo eletrônico, ou seja, o uso de canais de comunicação de radiodifusão para atender a interesses políticos – prática que perdura nos tempos digitais. Suas origens estão no autoritarismo coronelista de décadas passadas e a prática política traz inúmeras semelhanças com seus modelos de concentração de propriedade. Só que, em vez do poder sobre as terras, o controle agora também alcança as ondas do rádio e da TV.

No início da década de 1980, um repórter da Rádio Rural, de Concórdia (SC), abria espaço para o depoimento do ex-senador Atílio Fontana: “Senador, o microfone é todo seu”. O senador, ciente de suas propriedades, disse a quem quisesse ouvir: “Não só o microfone, meu rapaz, mas a rádio toda”. Este episódio foi narrado em matéria do Jornal do Brasil que, naquela época, já denunciava o uso eleitoreiro de 104 estações de rádio e televisão, espalhadas por 16 estados, de propriedade de deputados, governadores, senadores ou ministros.

O cenário da época foi analisado pela professora de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Suzy dos Santos, no artigo “o Coronelismo Eletrônico como herança do coronelismo nas comunicações brasileiras”. Nos anos 80, o processo de abertura política do regime militar dava seus primeiros passos. Depois de 15 anos de bipartidarismo, em novembro de 1979, a Reforma Partidária foi aprovada. Os novos partidos começavam a ser articulados.

“Também naquele ano, foram liberadas as eleições diretas para governos estaduais. A concentração partidária, através dos governadores, senadores e prefeitos ‘biônicos’ e da maioria do Congresso com representantes da Arena, deu o tom da distribuição das outorgas de radiodifusão para as elites políticas. Na reportagem do Jornal do Brasil, 81,73% das estações de rádio e televisão mencionadas eram controladas por afiliados do PDS”, partido de remanescentes da Arena, explica Suzy.

Desde a denúncia no Jornal do Brasil, a expressão “coronelismo eletrônico” tem sido usada com frequência na mídia e em artigos acadêmicos para se referir ao cenário brasileiro no qual políticos eleitos se tornam proprietários de empresas concessionárias de rádio e televisão – ou, então, tão comum quanto, radiodifusores são eleitos para cargos do poder público e passam, no caso dos eleitos para o Congresso Nacional, a participar das comissões legislativas que outorgam os serviços e regulam os meios de comunicação no país, legislando em causa própria. Não foram poucos os casos na história. Todos passaram impunes.

Neste cenário, alerta Francisco Fonseca, da FGV, as instituições políticas acabam cooptadas pelo poder econômico dos grupos de comunicação. “O coronelismo midiático provoca o fim da diversidade. É antidemocrático. Estimula as estruturas de oligopólios e as pautas [jornalísticas] em nome de uma elite. É uma censura de mercado, econômica”, afirma.

O impacto desta prática nos processos eleitorais e na configuração das representações das instituições também é significativo. O rádio e, principalmente, a televisão continuam sendo os meios de comunicação de massa de maior alcance na população. A última PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) mostrou que 97,2% das residências possuem pelo menos um aparelho de televisão e 75,7%, um de rádio.

A esses meios de comunicação cabe o papel de dar expressão às demandas e à diversidade da sociedade em todos os seus aspectos, mas também de fiscalizar os poderes públicos e a iniciativa privada. É também por meio de uma mídia livre que se estabelece a ligação e o controle entre representantes e representados, como princípio fundamental para o ambiente democrático. Por isso, a Constituição Federal garante o direito de acesso à informação aos cidadãos e, em conjunto, a liberdade de imprensa.

Num quadro em que um meio de comunicação de massa, que deveria cumprir uma função pública, é controlado por um político, que pode influenciar sua linha editorial, a autonomia e independência deste veículo para exercer o controle sobre o poder público estão totalmente comprometidas. Ao mesmo tempo, o proprietário do veículo passa a ter o poder de filtrar e restringir informações e conteúdos a serem divulgados, na medida de seus interesses e de seus correligionários, numa prática de autopromoção.

Fica caracterizado, assim, um claro desequilíbrio nos princípios de igualdade dos processos eleitorais, numa situação que pode configurar até mesmo a violação de eleições livres, com candidatos e partidos em condições totalmente desiguais de disputa.

Compreendendo o risco para a democracia brasileira do controle de serviços públicos, como a radiodifusão, por políticos, a Constituição Federal, em seu artigo 54, proíbe que deputados e senadores sejam proprietários ou diretores de empresas concessionárias de serviço público ou exerçam cargo ou emprego remunerado nesses espaços privados. A medida vem sendo respeitada para diversos serviços, mas segue ignorada no caso do rádio e da televisão (como veremos nas demais reportagens desta série).

No próximo artigo, você vai saber o que pensam o Ministério das Comunicações, o Ministério Público e a Justiça Eleitoral sobre esta prática. E saber como a sociedade civil e partidos políticos contrários a este uso das concessões de rádio e TV estão lutando contra o problema.

*-Carlos Gustavo Yoda é jornalista e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.