Arquivo mensais:agosto 2014

Frota de veículos triplica até 2050, diz EPE

Nicola Pamplona, via Brasil Econômico

Revista Brasileiros/Reprodução

Cenário econômico elaborado para auxiliar no planejamento estratégico estima que número de veículos crescerá bem mais do que população e chegará a 130 milhões

Rio – Para quem enfrenta o trânsito caótico nas grandes cidades do país, projeções divulgadas ontem pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam um cenário ainda mais sombrio para meados do século: segundo a entidade, a frota brasileira de veículos leves deve triplicar até 2050, atingindo a marca de 130 milhões de automóveis. A previsão faz parte do estudo Cenário Econômico 2050, que é parte do processo de elaboração do Plano Nacional de Energia e foi desenvolvido com contribuições de órgãos do governo federal, instituições de ensino e associações empresariais.

O crescimento da frota se dará, segundo o documento, em ritmo bem mais acelerado do que o da população brasileira, que deve passar dos atuais 200 milhões para 225 milhões de habitantes no período estudado. Assim, a EPE prevê avanço significativo na taxa de motorização do país. O indicador, que calcula o número de habitantes por veículo, já evoluiu bastante nos últimos anos, passando de 8,4 em 2002 para 5,7 em 2011. Em 2050, a entidade estima que serão 1,7 brasileiros para cada veículo, taxa comparável à de países europeus como Espanha, Itália, Alemanha e Reino Unido — os Estados Unidos, líderes nesse quesito, têm 1,2 habitantes por veículo.

A evolução brasileira dos últimos anos é resultado do crescimento da renda, aliado a políticas federais vigentes nos últimos anos para incentivar a venda de veículos, como a abertura de linhas de crédito e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Entre 2010 e 2013, a frota brasileira mais do que dobrou, sem investimentos equivalentes em infraestrutura, o que acirrou problemas de mobilidade urbana e de qualidade do ar nas grandes cidades. Este ano, mesmo em crise, a indústria automobilística já vendeu 1,8 milhão de carros e comerciais leves.

Em sua projeção para os próximos anos, a EPE considera uma taxa de crescimento médio do PIB de 3,6%, e taxa de investimento acima dos 20% do PIB, contribuindo, ao lado do setor de petróleo e gás, para impulsionar a economia. O estudo pondera que a evolução dos indicadores depende de o Brasil “fazer o dever de casa, desenvolvendo a infraestrutura, que se encontra ineficiente se comparada a países com um maior nível de desenvolvimento, o que permitirá uma redução do Custo Brasil, e consequentemente, uma maior competitividade da economia brasileira.”

“Uma das marcas desse período será o forte crescimento da renda per capita, que irá se situar nos níveis atuais da França e Alemanha”, aposta o presidente da entidade, Maurício Tolmasquim, em nota oficial. Os números do Cenário Econômico 2050 apontam um crescimento, neste indicador, dos atuais US$ 10,8 mil por habitante por ano para US$ 36,1 mil por habitante por ano. “Outro aspecto importante para a evolução do setor brasileiro de transportes é a crescente taxa de urbanização que impacta a atividade de transporte de passageiros e de cargas neste horizonte. Além disso, deve se considerar a manutenção do peso da indústria automotiva no PIB brasileiro ao longo do horizonte”, analisa a EPE.

Ou seja, além de mais carros, as cidades terão também mais pessoas: a taxa de urbanização deve crescer dos atuais 84% para 89%, o que significa um incremento de 30 milhões de brasileiros entre os que vivem em centros urbanos. Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste terão crescimento relativo maior do que Sul e Sudeste, que hoje concentram 56,5% da população brasileira.

Maior frota de veículos e maior urbanização estão entre os principais desafios do setor elétrico no período. A EPE espera que a fatia dos municípios com ar condicionado praticamente triplique, dos atuais 23% para 65% em 2050. A climatização tem mudado o perfil de operação do setor elétrico, com deslocamento do horário de pico para o período da tarde durante o verão e maior necessidade de investimento nas redes urbanas de distribuição de eletricidade.

Ao contrário da evolução verificada em países em desenvolvimento, a agropecuária deve permanecer com forte participação no PIB, diante da abundância de terras e da possibilidade de melhorias na produtividade em culturas dominantes. A EPE prevê, por exemplo, que o rebanho brasileiro pode crescer em 342 milhões de cabeças de gado, melhorando os indicadores de produtividade dos atuais 1 cabeça para 2,2 cabeças por hectare. A produção de cana de açúcar também deve ter grande evolução, passando dos atuais 737 milhões verificados em 2013 para 1,2 bilhão de toneladas em 2050.

Já na indústria, as projeções são de crescimento significativo da produção de cimento — de 71 milhões para 175 milhões de toneladas por ano — e de aço — de 35 milhões para 81 milhões de toneladas por ano — também motivadas pelo crescimento da renda per capita, que melhorará os indicadores de consumo brasileiros. No cenário traçado, porém, o Brasil continuará importador de insumos importantes para a economia, como produtos químicos e fertilizantes, apesar dos investimentos previstos para aumento da capacidade, principalmente no caso do insumo agrícola.

Para um país com potencial para se tornar grande produtor de petróleo, o cenário traz uma previsão ruim: o preço da commodity deve registrar queda no longo prazo, com o aumento dos esforços para redução das emissões de gases do efeito estufa e para a expansão das fontes renováveis de energia. Segundo o documento, projeções internacionais indicam que a cotação internacional do petróleo se aproximará da casa dos US$ 80 por barril entre 2014 e 2020 e registrará recuperação nas décadas seguintes, encerrando o período a US$ 97,30.

Morte de Eduardo Campos repercute em todo o país

Por Márcia Xavier, via Portal Vermelho

A deputada Luciana Santos, que foi secretária de Ciência e Tecnologia do governo de Eduardo Campos, manifestou sentimento de dor e tristeza profunda.

Brasília – A morte do candidato à Presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos, repercutiu em todos os segmentos da vida do país. As classes política, empresarial e sindical se manifestaram por meio de notas oficiais lamentando o ocorrido. A deputada Luciana Santos, do PCdoB de Pernambuco, que foi secretária de Ciência e Tecnologia do governo de Eduardo Campos, se disse “incrédula com a notícia”, com um sentimento de dor e tristeza profunda.

“A luta política em Pernambuco fica com uma sensação de orfandade”, avalia a parlamentar pernambucana, destacando que “esforço-me para lembrar só dos momentos alegres e desafiadores que tive a oportunidade de partilhar com ele.”

A direção municipal do PCdoB de Santos, onde aconteceu o acidente, também manifestou “seu profundo pesar pela tragédia que aconteceu em nossa cidade e que vitimou o candidato à Presidência da República Eduardo Campos”, anunciando que “neste momento de dor suspenderemos todas as atividades em sinal de luto e solidariedade às famílias das vítimas e ao Partido Socialista Brasileiro.”

O Ministério de Ciência e Tecnologia, que teve Eduardo Campos como seu titular em 2004, no governo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, lançou nota oficial, em que manifesta “grande pesar e tristeza” e destaca que “Eduardo deixou como legado não apenas a preparação e defesa da Lei 10.973, também conhecida como Lei da Inovação, promulgada em 2004, mas também o exemplo de convivência fraterna e respeitosa, reconhecida pela equipe que com ele compartilhou a gestão no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).”

A candidata do Psol à Presidência da República, Luciana Genro, acompanhou os demais presidenciáveis e cancelou a agenda de campanha. Em nota, ela também manifesta “perplexidade e emoção a notícia do falecimento do presidenciável Eduardo Campos. A tragédia que atingiu Campos, sem precedentes na história democrática, também nos toca e reveste de luto este processo eleitoral.”

A Campanha eleitoral e a reforma política

Editorial do jornal Brasil de Fato

Os partidos fizeram as convenções e escolheram seus candidatos. As alianças entre eles estão feitas, sem nenhum critério ideológico ou qual­quer compromisso com a classe tra­balhadora. Tudo em nome do prag­matismo da vitória eleitoral e de al­guns segundos na televisão. Portan­to, a corrida eleitoral já começou. E os métodos manipuladores de sem­pre, também.

Os candidatos registraram o que pretendem gastar. Os três principais presidenciáveis vão gastar, somados, a bagatela de 1 bilhão de reais. E a so­ma de todos os candidatos a senado­res e a deputados, registraram a in­tenção de gastar 4 bilhões de reais, destes, 85% serão supridos por ape­nas 117 grandes empresas, em sua maioria empreiteiras, bancos e algu­mas indústrias. E claro, sempre have­rá algum doleiro generoso no meio.

Esse valor fica atrás apenas da cam­panha dos Estados Unidos. Nada mau, para um país que é a oitava eco­nomia mas está em terceiro em pior desigualdade social do mundo! Ou seja, a sociedade brasileira é tão rica que pode se dar o luxo de gastar essa dinheirama em apenas dois meses de campanha, com marqueteiros, con­tratação de pessoas, showsde músi­ca, banners, santinhos e outras por­carias. Os jornais publicaram que já foram contratados mais de 60 mil pessoas, apenas para atuar na inter­net e na campanha digital. Uma ver­gonha!

Por outro lado, o senador João Ca­pibaribe (PSB-AP), antigo militan­te da esquerda, entrou com um Pro­jeto de Lei no senado para limitar os gastos das Assembleias Legislativas estaduais e os tribunais de conta es­taduais, que deveriam fiscalizar seus gastos. O senador descobriu que os gastos anuais dessas duas institui­ções, nada democráticas, somam 9, 4 bilhões de reais para deputados esta­duais e outros 5,1 bilhões de reais pa­ra os ilustres conselheiros das contas públicas. São 14,5 bilhões por ano, para nada. Descobriu que os gastos com diárias e passagens dos nobres parlamentares somam bilhões de re­ais, tudo desviado para atender in­teresses particulares. Descobriu que um deputado no Acre,custa ao po­vo 4,7 milhões de reais por ano, e no Rio de Janeiro custa 15,9 milhões de reais por ano.

Tudo isso são apenas sinais da fa­lência do modelo político brasilei­ro. Há uma clara crise de representa­ção política. Crise e hipocrisia na ho­ra dos partidos escolherem os candi­datos. Crise na forma de financiar as campanhas, em que as grandes em­presas sequestraram a democracia brasileira, com seus caixas 2. Crise, na forma de fazer as campanhas, que não motiva mais ninguém. Basta lem­brar que, segundo o TSE, apenas 27% dos jovens com 16 anos fizeram o tí­tulo de eleitor esse ano.

Crise porque os candidatos não dis­cutem os problemas do povo brasilei­ro e suas causas. Não discutem pro­jetos para o país. Embora, por trás de cada um deles, de forma dissimulada, se encontrem interesses e projetos de classe. Infelizmente, a ampla maio­ria só defende os interesses da bur­guesia. Ou seja, esse tipo de regime político e de campanha só interessa à burguesia, que se utiliza desses méto­dos para controlar o Estado brasileiro e suas instituições.

Diante de tudo isso, os movimen­tos sociais, desde as pastorais até o movimento sindical, estão conven­cidos que somente uma reforma po­lítica, profunda – que vá além do fi­nanciamento das campanhas, da for­ma de eleger e que inclua mudanças na forma de funcionarem os partidos, os candidatos, o poder judiciário e o controle sobre os meios de comunica­ção –, pode de fato recuperar a demo­cracia representativa no Brasil.

Por isso, já estão organizados mais de mil comitês populares por todo o país, fazendo trabalho de conscientização da população sobre a necessi­dade de uma reforma política. E farão um Plebiscito Popular, para que o po­vo se manifeste se é a favor da convo­cação de uma assembléia constituinte soberana e exclusiva, que faria as mu­danças políticas necessárias.

Os resultados do plebiscito popular serão levados aos Três Poderes insta­lados em Brasília – Executivo, Legis­lativo e Judiciário. E levarão também ao Jardim Botânico, no Rio de Janei­ro, onde está instalado o quarto po­der: a mídia burguesa – Rede Globo.

E a partir da pressão popular, se encaminhará a proposta de um de­creto legislativo que convoque, para o primeiro semestre de 2015, um ple­biscito formal, legal, para que toda população decida, se é necessário ou não a convocação de uma Assembleia Constituinte soberana. Ou seja, elei­ta de acordo com a vontade do povo, sem dependência econômica das em­presas. E exclusiva, ou seja, independente , separada do Congresso que se­rá eleito em outubro deste ano.

O Brasil de Fato, como veículo comprometido apenas com a classe trabalhadora, com os movimentos so­ciais, se soma nessa campanha de lu­ta por uma reforma política ampla e na luta popular para conquistá-la.

América Latina recebe pressão da União Europeia para não exportar alimentos para a Rússia

Via Pátria Latina

A União Europeia planeja manter conversações com vários países da América Latina, em particular – Brasil e Chile, durante as quais vai tentar dissuadi-los de exportar seus produtos agrícolas para a Rússia. Quem escreve é o Financial Times, citando um alto funcionário da UE.

Segundo a publicação, o Brasil solicitou a cerca de 90 novas fábricas de embalagem de carne começar imediatamente a exportação de carne de frango, bovina e suína para a Rússia. O Chile espera obter um grande benefício do embargo russo em peixes da União Europeia. Tal entusiasmo no setor agrícola desses países “causou preocupação em Bruxelas”, disse o jornal.

“Vamos negociar com os países que potencialmente poderiam substituir as nossas exportações para o mercado russo. Esperamos que eles se abstenham de tirar vantagem injusta da situação atual,”- disse o oficial da UE.

Ele admitiu que algumas empresas podem assinar novos contratos com a Rússia, no entanto, disse ele, seria difícil encontrar uma justificação para os países que se aproveitam da situação e tentam tirar as cadeiras vagas da UE, dos EUA, Noruega e Austrália.

7 de agosto, em resposta às sanções que o Ocidente impôs contra a Rússia por causa dos acontecimentos na Ucrânia, Moscou anunciou uma proibição total da oferta de carne bovina, carne de porco, legumes, frutas, aves, peixe, queijo, leite e produtos lácteos da UE, À Austrália Canadá, Noruega e EUA. Estas restrições terão validade por um período de um ano. Embargo aos produtos não afetam comida para bebé.

O presidente russo Vladimir Putin assinou um decreto proibindo a importação de produtos agrícolas, matérias-primas e alimentos provenientes de países que impuseram sanções contra a Rússia.

Inflação, dependência externa e estagnação econômica têm “pés de barro”

Por Guilherme Costa Delgado, via Brasil de Fato

O sistema dominante nos brinda com um “gigante salvador da pátria” – a exploração intensiva e extensiva dos recursos naturais pela economia do agronegócio, juntamente com outras cadeias exploradoras das vantagens comparativas naturais na mineração, na hidroeletricidade e na extração de petróleo bruto.

Houve uma época na América La­tina, e no Brasil em particular – pe­la criativa contribuição de Celso Furta­do a esse debate –, que a discussão do desenvolvimento, sob o enfoque estru­tural, considerava os constrangimen­tos externos (da Balança de Pagamen­tos), as pressões inflacionárias e as ten­sões por estagnação do sistema eco­nômico como males típicos do subde­senvolvimento. As teses da CEPAL dos anos de 1960 ressaltavam também o papel “atrasado” da estrutura agrária e da concentração da renda social na re­produção deste “modelo”.

Esse enfoque estrutural foi sen­do abandonado à esquerda e à direi­ta ainda nos anos de 1970. O forte cres­cimento econômico dos anos de 1970 convenceu a esquerda no clássico arti­go de Maria da Conceição Tavares e Jo­sé Serra – “Mais Além da Estagnação”, de que o capitalismo brasileiro tinha fôlego para crescer e que a estagnação não era componente endógena do sub­desenvolvimento brasileiro.

Pouco tempo antes, 1969 – toda uma geração de economistas e econo­metristas da USP “provara” a não con­sistência da tese estruturalista da re­lação entre pressões inflacionárias e desempenho da agricultura. E final­mente toda uma estratégia de endivi­damento externo nos anos do milagre (até 1981) aparentemente demonstra­va que o acesso ao mercado interna­cional de capitais seria recurso plena­mente utilizável para resolver o dese­quilíbrio externo.

Em resumo, pela teoria e pela práti­ca das políticas econômicas vigentes no período da industrialização e urbaniza­ção intensivas (final dos anos de 1960 até início dos anos de 1980), pratica­mente se desmontaram as teorias críti­cas do subdesenvolvimento (estrutura­lista) e da dependência (marxista). E ao mesmo tempo a “questão agrária” que era o “pé de barro” do desenvolvimen­to no campo, teria ficado superada pela inauguração no regime militar da “mo­dernização conservadora da agrope­cuária” – um experimento de mudança técnica da agricultura sem mudança na estrutura agrária.

Mas o abandono do pensamento crí­tico em economia, pela esmagadora maioria dos centros de ensino e pesqui­sa do país – seja de corte estrutural, se­ja de corte marxista –, deixou-nos ór­fãos para pensar problemáticas que se repõem e que terminam sendo vividas, mas não refletidas.

Temos na presente conjuntura um relançamento da problemática antiga do subdesenvolvimento, muito embora em contexto histórico completamente diverso. Ficando apenas no “approach” econômico – as evidências do aumen­to da dependência econômica, explici­tamente medidas pelo “déficit na con­ta corrente do Balanço de Pagamentos (desde 2008) são mais do que preocu­pantes. Por sua vez, o recrudescimen­to da estagnação econômica, com desindustrialização é também fenôme­no empiricamente demonstrado desde 1981, com certa interrupção no período 2004-2010; e retomada no último qua­driênio. E finalmente o repique das pressões inflacionárias, com claros vie­ses de contaminação pelos preços dos alimentos, que também nos visitam há várias conjunturas.

Diante desse quadro estrutural de agravamento da dependência nas re­lações comerciais e financeiras externas, de estagnação econômica e desin­dustrialização e de pressões inflacio­nárias, o sistema dominante nos brin­da com um “gigante salvador da pá­tria” – a exploração intensiva e exten­siva dos recursos naturais pela econo­mia do agronegócio, juntamente com outras cadeias exploradoras das vanta­gens comparativas naturais na mine­ração, na hidroeletricidade e na extra­ção de petróleo bruto.

Explorar as vantagens comparati­vas naturais como via de passagem pa­ra uma economia industrial e urbana foi a engenharia econômica construída no pós-guerra. Mas agora é diferente, aparentemente não há qualquer pro­jeto de superação em relação aos pés de barro da estrutura de propriedade, posse e uso da terra e demais recursos naturais que subjaz ao projeto hege­mônico. Veja-se o exemplo muito re­cente do festival de bajulações que os três candidatos à presidência da Re­pública fizeram recentemente às “re­comendações” da CNA-ABAG. E diga­-se de passagem, essas recomendações não tocam no tripé do subdesenvol­vimento, mas insistem com todas as tintas na segurança jurídica da “terra mercadoria”, conceito inexistente no ordenamento constitucional.

Mas o “gigante salvador da pátria”, como na decifração do sonho do Impe­rador Nabucodonosor, segunda o Pro­feta Daniel (Dan 2,29-36), tinha preci­samente nos seus pés de barro o ponto de maior vulnerabilidade ao choque ex­terno. Daí ao desmoronamento comple­to do império a uma estrutura de poder completamente desequilibrada, bastou um pequeno passo.

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Alteração de perfil: Lula, Dilma, Petrobrás

Por Saul Leblon, via Carta Maior

Vamos falar de bullying ideológico? Não faltam clássicos do jornalismo meliante a incriminar Lula, sangrar o PT, indispor Dilma e a falir a Petrobrás.

Alteração de perfil: Picasso, Lula, Dilma e Petrobrás.

Não se sabe ainda se foi um surto de megalomania ou de desespero.

Quem sabe as duas coisas juntas.

O fato é que jornalistas do maior oligopólio de comunicação do país, cujos perfis foram alterados na Wikipédia com uso do sinal de Wi-Fi do Planalto, declararam-se vítimas de uma política oficial de bullying ideológico.

Promovida pelo ‘governo do PT’.

Claro.

Não importa que a trama careça de lógica. Manchetes faiscantes selaram o enredo.

É preciso paciência. Vamos lá.

Personagens autoexplicativos, que vivem de reafirmar o que são, cujas assinaturas se confundem com um timbre do que representam, demandariam alguma conceituação adicional?

E do governo?

De um governo que investe a maior verba publicitária destinada à tevê justamente no grupo ao qual os dois ofendidos pertencem?

E o faz a contrapelo de uma audiência crepuscular dos beneficiados –atacaria assim?

Pela… Wikipédia?

De dentro do Planalto?

Carta Maior nasceu e se propõe a ser um espaço de reflexão da esquerda que não renuncia à interdependência entre socialismo e democracia.

Sua isenção consiste em produzir jornalismo –com modestíssimos recursos– a partir desse mirante histórico.

A opção não dispensa, ao contrário, pressupõe um ambiente de pluralidade informativa para afrontar o denso nevoeiro da crise civilizatória do nosso tempo, da qual o vale tudo do capitalismo é uma síntese robusta.

Os dias que correm demonstram: isso não é retórica.

Os referidos donos dos ‘perfis alterados’, no entanto, habitam um universo de comunicação isento de dúvidas. E avesso ao contraditório.

Desse minarete blindado sentenciam projetos, programas, lideranças, movimentos, governos e reputações à fogueira purgativa de um capitalismo entregue à sua própria lógica.

Ai dos que teimam.

Um metalúrgico teimou e chegou onde não devia, em 2003, enfiando-se em uma faixa presidencial .

Sujeito sem termo, de jejuna experiência administrativa, o monoglota pouco afeito aos bons modos, veio cercado de gente da mesma cepa e ungido por malta de instintos equivalentes aos seus.

A elite e o dinheiro reagiram e reagem inconformados.

Vamos falar de bullying ideológico? De sistemática falsificação no perfil? De onipresente e martelante adulteração de imagem?

Por exemplo.

Na edição da Folha de São Paulo –um braço dessa engrenagem– desta 2ª feira (11/08), pequena nota corrige erro aparentemente desprovido de maiores consequências, cometido no alvorecer do ciclo de governos petistas.

Só aparentemente.

Na edição dominical de 07 de março de 2004, o jornal alimentara o sentimento de menosprezo dos seus leitores pela coisa pública, oferecendo-lhes um contundente exemplo da incompetência estatal, ademais do despreparo do novo governo, para lidar com o próprio patrimônio.

Sob o título “Decoração burocrata –Desenho do pintor espanhol, que divide moldura com restos de insetos, foi descoberto por historiador”, uma foto gigantesca na 1ª página da Folha mostrava o que seria um autentico Picasso (1881-1973), pendurado em uma das salas da direção do INSS, em Brasília.

“Uma mulher desenhada por Pablo Picasso”, dizia o texto, “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição (…) Pendurada desde o final do ano passado numa das salas da diretoria do instituto próxima de uma fotografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mulher de Picasso ainda aguarda um destino melhor… ” (Marta Salomon; Folha de SP (07/03/2004)

Como então, uma gente que não consegue dar destino melhor a um tesouro artístico do que ombreá-lo a um pôster de Lula, pode se propor a comandar o país?

Era a mensagem.

A intenção verdadeira.

Tão falsa quanto a originalidade da obra.

O tesouro, agora se admite, era apenas uma reprodução de desenho do pintor de Guernica.

A confissão do bullying veio nesta 2ª feira.

Com uma década de atraso.

Ainda assim porque a barriga foi resgatada pelo cineasta Jorge Furtado, que argui o padrão Frias de qualidade em seu recém lançado filme, ‘Mercado de Notícias’

A real dimensão do que estava em jogo remete a um processo bem mais amplo de ‘alteração de perfil’ que ainda não terminou.

Empossado há um ano e três meses, o então Presidente Luís Inácio Lula da Silva era alvo de um agressivo terceiro turno por parte de um dispositivo midiático disposto a vingar a derrota do seu eterno delfim, o tucano José Serra.

O ataque era humilhante e implacável. Não raro grosseiro.

Três meses depois do Picasso, a mesma Folha e de novo na edição nobre dominical ( 13/06/2004), estampava nova foto sugestiva na primeira página.

Maior que a anterior, vinha encimada de manchete capciosa e deselegante. A composição cuidava de cevar o ódio da classe média, fidelizando-a no menosprezo e na desqualificação ao novo governo e ao seu principal expoente.

Uma ração matinal para as famílias se enojarem da política e dos políticos –sobretudo os do PT.

Na imagem, Lula toca um berrante numa angulação que dá sentido dúbio ao seu gesto. A intenção ostensivamente buscada se explicita na manchete garrafal a emoldurar o conjunto:

‘25% dos filhos da elite bebem demais’(http://acervo.folha.com.br/fsp/2004/06/13/2/)

O texto reitera a visada: “ (…) à noite, houve uma festa junina para marcar os 30 anos de casamento do presidente (…) O carro de boi estava carregado de comidas típicas, como carne seca, paçoca e biscoito de polvilho, além de três litros de cachaça…”(Folha de S Paulo; 13/06/2004)

Isso é alteração de perfil ou jornalismo isento?

É coincidência ou ‘alguém deu ordem para isso’ –como afirmou um dos personagens do ‘escândalo da wikipédia’?

Em dúvida, convém reler o texto da então colunista do jornal , Danuza Leão, publicado dois dias depois do arraial na Granja do Torto, na terça-feira,15/06/2004.

Com o título descolado, ‘Fala sério, Lula!’, a socialite completa o serviço iniciado no domingo.

Estamos falando de uma virtuose na arte de adicionar preconceito de classe ao antipetismo. Quem não se lembra do seu libelo contra os porteiros da era Lula, que agora também andam de avião? (http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Daslu-Danuza-e-Da-o-fora-/30012).

Em 2004, ela já era boa nisso.

Trechos: ‘‘O Brasil tem tantos regionalismos bacanas (…) e o presidente e dona Marisa Letícia vão escolher logo uma caipirada dessas? Foi um desastre desde o começo: o tema da festa, o carro de boi chegando cheio de paçoca e cachaça (…) Sempre se soube que a saudade de Fernando Henrique e dona Ruth Cardoso ia ser grande, mas não dava para imaginar que fosse ser tão grande. O arraiá foi de uma breguice difícil de ser superada, mas não vamos perder as esperanças: até o fim do mandato eles talvez consigam” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1506200413.htm)

Não seria o auge.

Eles se superam.

Um clássico do gênero coube à edição da mesma Folha de S. Paulo, de 30 de setembro de 2006, véspera do 1º turno da eleição presidencial daquele ano.

Um jato da Gol havia se chocado no ar com outro avião. Morreriam 155 pessoas.

A tragédia, de longe, era o destaque do dia. Mas a Folha, a mesma que agora se retrata com uma década de atraso em relação ao falso Picasso, descolaria outra obra de arte no gênero ‘falsificação de perfil’.

Virou um ‘case’ do jornalismo meliante.

A manchete em seis colunas (‘Fotos mostram dinheiro do dossiê’) faiscava sobre a imagem de uma montanha de notas, supostamente para a compra de um dossiê contra Serra –que havia abandonado a prefeitura para disputar o governo do Estado.

Logo abaixo da pilha de dinheiro, a imagem de Lula, encapuzado com um impermeável de chuva que cobria o seu rosto.

Dois homens ladeavam o presidente e candidato à reeleição contra o tucano Geraldo Alckmin.

Seguravam o seu ombro. http://acervo.folha.com.br/fsp/2006/09/30/2/

Coisa de profissional.

O conjunto compunha a cena típica do bandido capturado por policiais: Lula reduzido à imagem de um marginal, emoldurado por dinheiro suspeito e manchetes criminalizando o PT.

A caminho da urna. Ou do xadrez?

Foi assim a marretada no seu perfil público naquele sábado, véspera da votação do 1º turno das eleições presidenciais de 2006.

Hors concours?

Nunca se sabe.

Como esquecer a peça de 17 de dezembro de 1989?

Sequestrado por ex-militantes políticos chilenos, o empresário Abílio Diniz seria libertado do cativeiro naquele dia.

Presos, os sequestradores seriam fotografados e filmados pela Globo & Cia usando camisetas do PT.

Isso aconteceu exatamente no dia da votação do segundo turno da disputa presidencial, vencida por Collor.

Acabou?

Em 2010 teve a ficha da Dilma.

Em 2012, a decisão do relator Joaquim Barbosa de calibrar o julgamento do chamado mensalão, de modo a sentenciar o ex-ministro José Dirceu à boca da urna das eleições municipais…

Assim por diante.

Como será a primeira página da Folha e assemelhados no dia 4 de setembro, véspera do 1º turno das eleições presidenciais deste ano?

Não se pode alimentar ilusões.

Tome-se a fuzilaria contra a Petrobrás nos dias que correm.

O alvo é duplo: derrubar a estatal no colo da candidatura Dilma.

A empresa criada por Getúlio em 1953, fechou 2013 como a petroleira que mais investe no mundo: mais de US$ 40 bilhões/ano; o dobro da média mundial.

Ademais, é a campeã mundial no decisivo quesito de prospecção de novas reservas.

Este ano, 36 novos poços já entraram em operação.

O pré-sal já produz 480 mil barris/dia.

Em quatro anos, a Petrobras estará extraindo 1 milhão de barris/dia da Bacia de Campos.

Até 2017, investirá US$ 237 bilhões; 62% em exploração e produção.

Em 2020, só o pré-sal adicionará 2,1 milhões de barris/dia à oferta brasileira.

Praticamente dobrando para 4 milhões de barris/dia a produção nacional.

O bullying contra a empresa mal disfarça seus propósitos.

Seu empenho, neste momento, é sequestrar a Petrobras para o palanque da campanha sombria: o ‘Brasil que não deu certo’.

Os números retrucam. O pré-sal mudou o tamanho geopolítico da nossa economia.

O mais difícil foi feito.

O novo marco regulador transfere à Petrobras a responsabilidade soberana de harmonizar duas variáveis básicas: o ritmo da extração e o do refino.

Ambos associados à capacidade brasileira de atender à demanda por plataformas, máquinas, barcos, sondas etc.

Se a exploração corresse livre, todo o efeito multiplicador do pré-sal vazaria em importações e geração de empregos lá fora.

Para internalizar as rendas do refino, cinco plantas estão sendo construídas, simultaneamente.

A Abreu de Lima, a maior de todas, entra em operação em novembro.

O conjunto causa erupções cutâneas na pátria dos dividendos, que prefere embolsar lucros rápidos, com o embarque predatório de óleo bruto.

Causa arrepios no conservadorismo igualmente: o êxito do pré-sal é a derrota da agenda privatista.

O parque tecnológico de ponta que está nascendo na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, com laboratórios de todo o mundo, é uma vitória da luta pelo desenvolvimento soberano.

Um berçário da reindustrialização que se preconiza para o país.

Dali sairão inovações e tecnologias que vão irradiar saltos de eficiência e produtividade em toda a rede de fornecedores nacionais do pré-sal.

É desse amplo arcabouço de medidas e salvaguardas que poderão jorrar os recursos do fundo soberano para erradicar as grandes iniquidades que ainda afligem a população brasileira.

Da carência na saúde, às deficiências na educação pública, por exemplo.

Tudo isso é sabido. Mas passa hoje por um corredor polonês de falsificação de perfil destinado a triturar a reputação da estatal, de seus dirigentes, de seu potencial econômico e de seu significado para a autoestima nacional.

Desqualificá-la é um requisito para reverter a blindagem em torno de uma riqueza, da qual as petroleiras internacionais e o privatismo de bico longo ainda não desistiram.

A Petrobrás passa por ajustes compreensíveis depois do gigantesco estirão desencadeado pelas descobertas do pré-sal. E do sacrifício –justificado– de anos vendendo gasolina 20% abaixo do valor importado.

Com a inflação há quatro meses em queda, o preço do combustível será corrigido agora, sem risco de descontrole.

A gasolina, porém, é só o lastro oportunista de um pavio permanentemente aceso contra a empresa.

A verdadeira intenção do bullying é outra.

Trata-se de promover uma alteração de perfil no discernimento da própria sociedade.

Para convencê-la da natureza prejudicial da presença do Estado na luta pelo desenvolvimento.

E a rejeitar, junto, quem a defende: Dilma, favorita nas urnas de outubro, quando a Petrobrás completa 61 anos de vida.

Desculpas de Israel ridicularizam vira-latas brasileiros

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Depois que o próprio Reuven Riulin, o novo presidente de Israel, telefonou para Dilma Rousseff para pedir desculpas, não custa recordar a reação dos adversários do governo brasileiro, que há duas semanas se alinharam com o porta-voz da chancelaria israelense que definiu o Brasil como “anão diplomático.”

Em poucas horas o Brasil foi inundado por vídeos, artigos e comentários de ar grave, palavras duras e retórica pedante, de grande utilidade para encobrir uma postura típica de vira-latas.

Falou-se que era uma definição com “incrível precisão” de nossa diplomacia. Mesmo quem admitiu que a postura do governo brasileiro diante dos ataques do Exército Israelense a Gaza podia estar certa, justificou o “anão diplomático” porque o Itamaraty carece “de credibilidade mesmo quando faz declarações corretas.”

O telefonema de Riulin mostra com precisão realmente incrível o ridículo dessa reação. Para azar de quem levou o “anão diplomático” a sério, a atitude do presidente de Israel deixa claro que era uma definição menor, de um funcionário sem qualificação para emitir conceitos em nome do governo, alguma coisa que se poderia chamar de “gafe” — o que torna ainda mais curioso que tenha sido aceita e divulgada com tanta facilidade.

Riulin deixou claro pelo gesto que o Brasil está longe de desempenhar um papel desprezível na diplomacia do século XXI, para infelicidade daqueles que enxergam o mundo pelo olhar da inferioridade e da submissão.

Mais realistas do que o Rei a quem pretendem servir — estou falando da direita republicana dos EUA, que sustenta Israel de qualquer maneira –, procurando qualquer pretexto para bater no governo Dilma, eles se alinharam com Yigal Palmor, que fala em nome do chanceler Avigdor Lieberman, a mais acabada expressão do fascismo na política israelense.

Principal adversário de toda iniciativa de paz, Lieberman defende a manutenção e ampliação de assentamentos em territórios palestinos. Sustenta uma política de discriminação em relação a população árabe que reside em Israel. Chegou a apresentar um projeto pelo qual ela só teria direito a voto, por exemplo, se fizesse um “juramento de lealdade” ao estado judeu.

Foi desse mundo obscuro, vergonhoso e inaceitável, sem o menor compromisso com a democracia nem com a soberania dos povos, que veio o termo “anão”.

Não é surpreendente que ele tenha sido abraçado por aliados da oposição, capazes de afagar até adversários externos que — mesmo se estivessem corretos em seu ponto de vista — não tinham o direito de faltar com consideração por autoridades legitimamente autorizadas a falar em nome do povo brasileiro. O desrespeito e a agressividade são chocantes, mas não chegam a ser novidade neste repertório.

Fazem parte da tentativa de desmoralizar adversários que não se consegue derrotar democraticamente. Tenta-se corroer sua legitimidade ao partilhar um tratamento grosseiro, chulo, que, a seus olhos, tem mais valor porque vem do estrangeiro.

Convém não esquecer que, há quatro anos, esse mesmo pessoal alinhou-se aos mesmos senhores externos condenar Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de construir um acordo de paz com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad.

A viagem de Lula havia sido autorizada e até certo ponto estimulada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que enfrenta tensões com a atual política de Israel, tão radical e extrema que pode tornar-se prejudicial aos interesses norte-americanos.

Mesmo assim, os vira-latas não perdoaram.