Arquivo mensais:agosto 2014

A questão industrial

Por Wladimir Pomar, via Correio da Cidadania

Bahia Atual/Reprodução

Das questões colocadas para o desenvolvimento brasileiro, a industrial não tem tido o destaque que merece. Embora inúmeros economistas considerem que o processo industrial seja aquele que melhor pode deslindar os principais aspectos do desenvolvimento econômico, isso não tem se transformado em propostas ou políticas efetivas para solucionar a atual inércia desindustrializante do país.

Essa dificuldade é agravada, em certa medida, pelas interpretações a respeito das origens históricas e do papel da revolução industrial e, portanto, da própria indústria. Alguns supõem que, para que tal revolução ocorresse, teria sido necessária a existência de Estados nacionais absolutistas. Esses Estados teriam transferido o excedente econômico do Novo Mundo, a principal fonte de acumulação primitiva, para financiar a acumulação de capital nos países centrais.

Outros, porém, acreditam haver sido mais importante o lento processo de construção institucional de uma economia de livre mercado para permitir a realização da revolução industrial. Esta teria sido decorrência daquela construção institucional. Na prática, tanto esta quanto a interpretação anterior supõem que as mudanças na superestrutura (Estados nacionais e construção institucional) seriam a origem das revoluções técnicas e econômicas da sociedade.

Prática e historicamente, a revolução industrial ocorreu apenas em um Estado nacional absolutista. Na Inglaterra, a acumulação primitiva de capital, proporcionada pelos saques das riquezas, tanto do Novo Mundo quanto da África, Ásia e Oceania, ganhou uma nova qualidade ao se combinar com uma enorme massa humana livre. Livre, tanto no sentido de que não era escrava ou serva, quanto no sentido de que fora expropriada de seus meios de produção pela revolução agrícola e agrária inglesa.

Foi a junção desses dois elementos básicos (capital + força de trabalho livre) que permitiu a criação das manufaturas e a criação de um novo mercado, diferente do até então existente. As manufaturas propiciaram que as demandas sociais e os avanços técnicos levassem à revolução industrial. Esta teve por base inicial o invento e a operação de máquinas de tecidos, da máquina a vapor e das transmissões mecânicas por correias.

A revolução industrial se expressou, assim, tanto na construção de máquinas quanto na massificação da produção. Neste caso, subordinando a demanda à produção industrial e subvertendo e mercado. A indústria se impôs, passo a passo e em luta constante contra os feudais e os Estados absolutistas que os representavam. E levou à constituição de novos tipos de Estado e à construção institucional do livre mercado. A revolução na base da sociedade revolucionou sua superestrutura.

O livre mercado e os Estados nacionais formalmente democráticos foram se expandindo à medida que a revolução industrial se desenvolveu, criando novas máquinas, novas organizações produtivas, novos produtos e novos segmentos de mercado. A indústria, ou a transformação em escala de matérias primas fornecidas pela natureza em materiais e bens que a natureza não é capaz de transformar por si mesmo, se mostrou muito mais capaz de criar riqueza do que a agricultura, o artesanato e a manufatura.

Ou seja, também tendo por base o trabalho humano, a indústria se mostrou muito superior àqueles três ramos produtivos na extração do valor proporcionado pela força de trabalho no processo produtivo. É essa capacidade de extrair alto valor da força de trabalho no processo produtivo que também tornou a indústria superior ao comércio e aos serviços, mesmo que estes estejam relacionados com a circulação e a distribuição de mercadorias industriais. Na verdade, o comércio e os serviços não geram valor próprio, ou o geram em pequena proporção. Seus lucros fazem parte da divisão da massa total de valor produzida pelas forças de trabalho empregadas na indústria, agricultura, artesanato e manufatura.

Por outro lado, o desenvolvimento da indústria impôs à produção e ao mercado uma complexidade e uma desordem desconhecida dos modos de produção anteriores. A concorrência introduziu uma permanente guerra de preços e a necessidade de revolucionar constantemente as máquinas e a produtividade. Estas, por sua vez, elevaram a capacidade de produzir muito acima da capacidade de consumo do mercado. Tudo isso colocou os capitalistas diante de um mercado caótico, tendendo a crises constantes, seja de lucratividade, seja de superprodução.

Tais crises, por sua vez, introduziram novas mudanças no Estado. Ele se viu obrigado a intervir na economia para salvar o capitalismo do próprio capital. O que estimulou os países capitalistas subdesenvolvidos a fazerem com que seus Estados interferissem na economia para desenvolver a indústria, seja utilizando empresas de capital estatal, seja orientando os investimentos privados.

No Brasil, durante o século 20, por três vezes o Estado desempenhou papel industrializante. Nos dez anos finais do século, ao contrário, realizou uma política de devastação industrial, a serviço dos interesses capitalistas financeiros e estrangeiros. Nos anos mais recentes, o Estado tem se visto num processo ambíguo. Tem deixado que os investimentos, inclusive os estrangeiros, se dirijam preferentemente para o comércio e os serviços. E pouco tem feito para reverter a inércia declinante da produção industrial. O que reduz a capacidade de o país gerar riqueza na intensidade que seria necessária para retomar um desenvolvimento sustentado.

Essa situação se agravou ainda mais porque a indústria brasileira é predominantemente constituída por empresas estrangeiras, cujos lucros (ou do valor gerado pela força de trabalho local) são exportados para suas matrizes no exterior. Isto cria uma contradição entre o produto interno bruto, ou o valor total produzido no país, e o valor nacional bruto, ou o valor líquido que permanece no país. Contradição que também se faz presente com os gastos da crescente importação de produtos industriais de outros países.

Nessas condições, discutir a centralidade da indústria no Brasil de hoje deveria consistir em discutir como elevar os investimentos públicos na indústria e como, através dessa alavancagem, estimular os investimentos privados. É necessário abandonar a suposição de que vivemos uma era pós-industrial, propalada pela publicidade dos países capitalistas centrais. Com ela, eles querem justificar seu declínio industrial, causado por seu alto desenvolvimento tecnológico, colapso da lucratividade e exportação de capitais para fazer frente àquele colapso.

Para nós, é mais vantajoso retomar toda a história do desenvolvimento industrial, desde a revolução industrial inglesa, passando pela industrialização sofisticada francesa, pela industrialização forçada norte-americana e pelas industrializações estatais alemã e japonesa, entre os séculos 18 e 19. Ou, se não se quisermos ir muito longe, examinar o desenvolvimento industrial da Alemanha, Japão e Tigres Asiáticos nos anos 1950.

A reindustrialização ou industrialização desses países foi, em grande parte, proporcionada pela política de Guerra Fria, pela Guerra da Coréia e pelas guerras de descolonização. Em todos os casos, os Estados daqueles países aproveitaram das demandas imperiais dos Estados Unidos. Porém, colocaram-se no comando do processo interno, tanto planejando e orientando os investimentos estrangeiros diretos para o adensamento de suas cadeias produtivas quanto protegendo o parque industrial nacional. Ao mesmo tempo, estimularam as exportações de manufaturados e elevaram a qualificação educacional e técnica da força de trabalho.

Também é possível examinar as experiências mais recentes dos Novos Países Industrializados, como a Indonésia, a Tailândia e a Malásia, assim como da Índia e dos socialismos de mercado da China e do Vietnã. Em todos os casos, de uma forma mais ou menos intensa, temos os mesmos ingredientes do Japão e dos Tigres Asiáticos combinados com as características nacionais de cada um.

O que ressalta, em todos os casos, é o papel desempenhado pelo desenvolvimento industrial no desenvolvimento econômico, social e político. Sem a implantação de cadeias industriais relativamente completas, às vezes comportando e combinando plantas da primeira, segunda e terceira revoluções industriais, no sentido de gerar novos postos de trabalho, o incremento da riqueza que permite o desenvolvimento social e político não teria sido possível.

Nesse sentido, o debate sobre a construção preliminar ou posterior de fortes sistemas educacionais, de altas taxas de poupança, de políticas macroeconômicas conservadoras, de Estados enxutos com baixa carga tributária e muito eficientes na oferta de serviços públicos, se parece com a discussão sobre o que surgiu primeiro: o ovo ou a galinha?

Alguns daqueles países tinham bons sistemas educacionais, mas baixas taxas de poupança, ou de capital acumulado. Outros não possuíam políticas macroeconômicas conservadoras, nem Estados que praticassem baixas cargas tributárias. E, em geral, só conseguiram oferecer serviços públicos eficientes à medida que seus parques industriais começaram a gerar taxas crescentes de riqueza e permitiram maiores investimentos naqueles serviços.

Portanto, para ver que caminho seguir, é preciso ter em conta as experiências dos outros, mas partir das condições nacionais. Estas são a base. Não aproveitar a experiência dos outros é arrogância patrioteira. Mas a cópia estrita leva ao desastre.

Rocha Loures assume direção estadual do PMDB

Via Rodrigo Rocha Loures

Decisão da maioria dos peemedebistas é a resposta às dificuldades que a direção anterior vinha impondo à candidatura de Requião ao governo

Por 42 votos a favor e nenhum contra, o diretório estadual do PMDB decidiu pela destituição do comando da diretoria do partido no Paraná e pela condução do ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures à presidência. Rocha Loures, que é candidato a deputado federal, é o único paranaense membro da direção nacional do PMDB.

A reunião que definiu a troca de comando aconteceu em frente à sede do partido, em Curitiba. “Foi uma decisão da maioria, totalmente dentro do estatuto”, afirmou Rocha Loures. O diretório do PMDB é composto por 71 membros, portanto mais da metade compareceu e votou a favor da mudança.

De acordo com o novo presidente, que ficará à frente da executiva estadual até novembro, quando serão realizadas novas eleições, a decisão de trocar a direção ocorreu em função das manifestações e ações que contrariaram o resultado da convenção do partido, quando foi definido o nome do senador Roberto Requião para disputar o governo.

“No início do processo eleitoral identificamos não apenas resistência, mas uma série de dificuldades impostas pela direção do partido à candidatura do senador Requião ao governo, que foi decidida em um processo democrático, na convenção do partido”, afirmou.

Logo após o anúncio da mudança, o presidente do PMDB nacional, Michel Temer, falou com Rocha Loures e com Requião manifestando total apoio à decisão política que a executiva do Paraná tomou. “A direção nacional do PMDB apoia todo processo democrático onde a maioria se manifesta”, disse Temer.

“O PMDB caminha agora unido para fazer com que o nosso candidato Roberto Requião seja governador do estado”, disse Rocha Loures, que garantiu também que os membros destituídos da diretoria e que são candidatos, terão total apoio e respeito da nova direção para suas campanhas.

Rússia busca alternativas ao petrodólar

Por Heloísa Villela, via Brasil Econômico

Vários autores e analistas já dão como certo o fim do sistema implantado nos anos 70 e que tanto lucro deu até agora aos Estados Unidos

Com mais de 1.000 mortos nas regiões de Donetsk e Lugansk, a Ucrânia marcha em direção ao caos. Nem mesmo um comboio de ajuda humanitária, enviada pela Rússia, tem permissão de Kiev para chegar à zona do conflito. A imprensa ocidental não se cansa de dizer que Putin se prepara para jogar o exército russo na crise fomentada pelos Estados Unidos e pela Europa. Me parece que dessa vez Washington comprou uma briga na qual já tem derrota garantida. Tudo é uma questão de tempo. A briga não é exclusivamente com a Rússia mas Moscou pode dar o empurrão decisivo.

Vários autores e analistas já dão como certo o fim do sistema implantado nos anos 70 e que tanto lucro deu até agora aos Estados Unidos. A hegemonia do dólar tem os dias contados, dizem eles. Resta saber apenas por quanto tempo ele ainda vai se manter como a moeda referência para a maior parte das transações mundiais.

Foi nos anos 70, sob a liderança de Richard Nixon e do estrategista Henry Kissinger, que os Estados Unidos romperam com a equivalência entre dólar e ouro que balizava os valores das moedas mundiais. Encurralados quando a economia sangrava por conta dos gastos com a guerra do Vietnã e o mundo correu para converter dólares em ouro para se garantir, Nixon deu um basta. Cortou a ligação entre metal precioso e verdinhas. Deixou o dólar flutuar. Mas se preveniu. Ele precisava alimentar a demanda por dólares no mundo. Por isso, fechou um acordo com a Arábia Saudita. Em troca de armas e da promessa de defesa eterna, conseguiu que os sauditas passassem a fechar contratos de exportação de petróleo exlusivamente em dólares. Assim, todos os clientes dos sauditas teriam que comprar a moeda americana para adquirir o combustível. Fechado o acordo, em 1974 ele já estava em pleno funcionamento. No ano seguinte, os demais produtores de petróleo aderiram. Nascia o chamado petrodólar.

Mas e a Rússia com isso?

A Rússia de Putin ameaça Washington porque tem feito de tudo para fugir do domínio do dólar na economia mundial. Fechou acordo com a China para aumentar o percentual das trocas comerciais entre os dois países realizadas em rublos ou yuans. Nada de dólar. Fechou com os BRICS a criação de um banco de desenvolvimento que vai livrar os países membros das condições catastróficas impostas pelo FMI toda vez que faz um pacote de ajuda financeira. E as operações não terão como base o dólar e sim algo como o ouro ou a energia. Na contra-ofensiva das sanções impostas a Moscou por conta da Ucrânia, que a União Europeia se viu coagida a seguir, a Rússia respondeu: suspendeu a compra de alimentos dos países que aderiram e já está ampliando o comércio com outros parceiros, como o Brasil, para substituir o que comprava da Europa. Que o digam os produtores brasileiros de carne e de frango.

No fim, as sanções contra a Rússia já estão surtindo efeitos negativos… na Europa. Na quinta-feira da semana passada saiu a notícia: pela primeira vez em um ano, a economia da Alemanha encolheu e isso paralisou a fraca recuperação econômica que a União Europeia vinha experimentando. A Alemanha é a maior parceira comercial da Rússia na UE e é a principal economia do grupo. Se a Alemanha sofre, arrasta com ela toda a Europa. Até onde vai a crença política da Europa na necessidade de isolar a Rússia enquanto a interligação econômica entre eles é cada vez maior e mais vital? Enquanto isso, os Estados Unidos espionam Angela Merkel e acusam a Rússia, sem provas, de estar por trás da queda do voo da Malaysian Airlines na Ucrânia… Me parece que os Europeus estão acumulando uma pilha de motivos para confiar cada vez menos no grande parceiro norte-americano.

Porém, o medo é grande já que os Estados Unidos deram demonstração de força inequívoca contra o último aventureiro que tentou enfrentar abertamente o domínio econômico dos petrodólares. É o que hoje alguns jornalistas e escritores apontam como a verdadeira causa da invasão do Iraque depois dos atentados do 11 de setembro. No livro “Petrodollar Warfare” (poderia ser traduzido como “A Guerra do Petrodólar”), William Clark diz que no dia 24 de setembro de 2000 Saddam Hussein saiu de uma reunião de gabinete e anunciou que ia abandonar o dólar em favor do euro nas exportações de petróleo. De fato, até o ano 2002 ele fez a conversão completa. Em 2003, o país foi invadido, Saddam fugiu, se escondeu em um buraco e acabou enforcado. No dia 5 de junho de 2003 o jornal Financial Times anunciava a volta do Iraque ao mercado internacional de petróleo fechando os contratos, como manda o figurino, em dólares novamente. A conclusão do autor, e de outros analistas, é de que o Iraque serviu de exemplo para quem tentar abandonar a moeda americana. Mas Irã, Síria, Venezuela e Coreia do Norte fizeram o mesmo. E são os grandes inimigos de Washington.

Energia e dólares estão na base de grandes disputas e conflitos. A maior reserva mundial de gás natural foi descoberta em uma área que liga Qatar e Irã. O governo iraniano fechou acordo com Iraque e Síria para construir um gasoduto e levar o combustível à Europa. O gasoduto da amizade, para uns, ou o gasoduto islâmico, para outros. Submetido a um embargo econômico desde 2002, o Irã precisa de uma saída para vender o gás que até recentemente trocava por ouro como forma de fugir das sanções. Mas Washington eliminou essa saída também barrando as trocas com metais preciosos.

A saída do Irã é se juntar aos vizinhos e para isso tem o apoio da Rússia e da China. Dois países que têm todo o interesse de criar alternativas aos domínio econômico dos Estados Unidos. Putin, me parece, está bem mais investido nesta guerra do que no conflito armado na Ucrânia.

Bob Fernandes: Em alta, Marina vai ter que cair na real

Por Bob Fernandes, via facebook

O Datafolha mostra Dilma Roussef (PT) com 36% das intenções de voto e aprovação ao governo com crescimento de 6 pontos. Marina Silva (PSB) com 21% e Aécio Neves (PSDB) com 20% têm situação de empate técnico.

É provável Marina subindo ainda mais numa próxima pesquisa.

Para um segundo turno Marina tem 47% e Dilma 43%. A preocupação da presidente Dilma é o segundo turno.

Já Aécio vai ter que lutar muito contra Marina para chegar ao segundo turno.

Para Marina a campanha agora é outra. Até o acidente fatal a então candidata a vice presidência podia seguir sendo quem é e dizendo o que pensa; ou deixando que dissessem por ela.

Marina podia dizer, ou deixar que dissessem, ser contra a aliança formal do PSB com o PSDB de Alckmin em São Paulo e a aliança informal com o PSDB de Aécio em Minas.

O mesmo podia dizer, ou deixar que dissessem, em relação a aliança do PSB com o PT no Rio de Janeiro.

Marina podia seguir sem riscos com o discurso de que representa o novo. Ela era apenas a vice. Agora terá que, ela mesma, dizer o que quer e o que não quer.

Marina Silva certamente dirá que vai cumprir os compromissos e acordos de Eduardo Campos. E isso implicará renúncia a porções do discurso novidadeiro.

Os compromissos do PSB de Eduardo com o mundo do agronegócio, por exemplo, não são os mesmos compromissos de Marina e seus sonháticos.

Como não eram as alianças heterodoxas com PSDB e PT. Para se concretizar o que chamam de “terceira via” não bastará a mera negação do PSDB e do PT.

A arquitetura, usos e costumes da política-partidária do Brasil são o que são. Marina terá que conviver com isso, e enfrentar isso no dia-a-dia.

Como Dilma e Aécio, Marina agora está exposta. Virão fatos e verdades em seu favor, virão opiniões e fatos negativos. Virá a atenção total ao que ela diga, faça ou tenha feito.

Virão as investigações jornalísticas, virá a devassa. E, como fazem com Dilma e Aécio, também contra Marina se moverá o esgoto habitual.

A possível reeleição de Alckmin e a difícil arte de entender o voto paulista

Por Igor Carvalho, via SPRESSOSP

SPRESSOSP/Reprodução

Na gestão do tucano a água está acabando, a USP deixou de ser referência, a corrupção pegou carona no Metrô, a PM assassina nas periferias e uma mulher dar à luz algemada é o símbolo do sistema carcerário precário. Apesar disso…

A última pesquisa de intenção de votos para governador de São Paulo, divulgada nesta sexta-feira (15), pelo Datafolha, indica a reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno, com 55% da população apoiando o tucano.

Em seguida, mas muito distante, está Paulo Skaf (PMDB), com 16%. O ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), vem ainda mais atrás, com 5%. O cenário está desenhado, se confirmada a previsão das pesquisas recentes, para uma vitória confortável do tucano.

Porém, se o êxito de Alckmin parece que será fácil, difícil é interpretá-lo. Paulistas estão, diariamente, impactados diretamente pela má gestão do atual governador.

Água

Nessa semana chegaram a cinco, os munícipios que decretaram calamidade pública por falta de água: Artur Nogueira, Casa Branca, Iepê, Tambaú e Valinhos. Também no interior paulista, Cordeirópolis já decretou situação de emergência, ainda por conta da crise hídrica. Ao todo, as cidades somam mais de 240 mil pessoas.

Ao declarar calamidade pública, a cidade passa a ter direito de pedir interferência da União. Com a situação de emergência, o munícipio pode contratar serviços ou bens sem a publicação de editais. Dessa forma, essa população pode se alijar dos designíos de Geraldo Alckmin, que evita assumir, por motivos políticos, o racionamento de água.

Em janeiro de 2014, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recomendou que o racionamento fosse aplicado nas regiões abastecidas pelo Sistema Cantareira. Porém, prevendo o desastre eleitoral, Alckmin rejeitou a proposta.

Universidades paulistas

Mas se a falta de água não impactou diretamente, por ventura, algum eleitor, ele pode conhecer um funcionário, professor ou aluno das universidades estaduais de São Paulo (USP, Unicamp e Unesp). Desde o dia 26 de maio, a comunidade universitária está em greve.

Na última quinta-feira (14), uma manifestação saiu da Cidade Universitária, zona oeste da capital, e seguiu até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, para cobrar de Alckmin que negocie com os grevistas. Nas ruas, professores, alunos e funcionários das três universidades carregavam faixas como: “Alckmin, não faça com as estaduais o que você fez com a água” e “Alckmin, negocie com a educação pública paulista já.”

Funcionários e professores estão com salários congelados, por conta da alegada crise financeira enfrentada pelas três universidades. Dessa forma, caiu no colo do trabalhador a conta pela má gestão do ex-reitor, João Grandino Rodas, reconhecido por suas extravagancias administrativas.

Mas caso o eleitor não conheça ninguém que frequente a USP, a Unicamp ou a Unesp, talvez seja porque ainda não há um sistema de cotas que promova a inserção de negros e negras nas universidades paulistas. O Estado, que tem uma população de negros e pardos declarados de 35%, de acordo com o Censo 2010, segue sendo uma exceção no país e se configura, na academia, como uma “ilha de privilégio branco.”

Metrô

No último dia 6 de agosto, uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) foi instaurada para investigar um dos maiores escândalos de corrupção do estado, conhecido como “propinoduto tucano” ou “trensalão tucano”. Os parlamentares que integrarão a CPMI serão definidos no dia 2 de setembro.

O assunto foi blindado pelo governo paulista, que conseguiu, por exemplo, impedir que uma CPI se formasse na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) para investigar o caso.

Segundo as denúncias apuradas pelo Ministério Público, com letargia, empresas como a francesa Alstom e a alemã Siemens integrariam um esquema de pagamento de propina para agentes públicos. Em troca, os executivos receberiam favorecimento em contratos de compra e reforma de trens do Metrô e da CPTM.

O cartel de empresas atua, em São Paulo, desde a gestão do ex-governador Mário Covas (PSDB), que começou a governar o estado em 1995. Desde então, passando por José Serra (PSDB) e Geraldo Alckmin (PSDB), por duas vezes, o esquema esteve mantido. Ao todo, 325 contratos foram registrados e assinados com as empresas envolvidas no escândalo.

Mas, se para o eleitor é tudo especulação e o esquema não existe, ele pode conhecer a outra faceta do Metrô e embarcar em uma de suas composições por volta das 18h.

PM

Talvez, nos últimos 20 anos, nenhuma instituição tenha sido tão desgastada e alvo de tamanha insatisfação popular, em São Paulo, quanto a Polícia Militar. Segundo matéria recente, publicada na Ponte, os policiais paulistas assassinaram 10.152 pessoas em 19 anos, ou seja, desde o primeiro mandato de Mário Covas (PSDB).

O cume da conivência do Estado com a belicosa PM foi em 2006, quando 493 civis foram assassinados. A série de homicídios começou após o PCC atacar instalações da Polícia Militar, Guarda Civil Metropolitana e Bombeiros. Ao todo, 43 agentes de segurança morreram. No último dia 8 de julho, oito anos depois das 493 mortes, o cabo Alexandre André Pereira da Silva se tornou o primeiro policial condenado por ter cometido assassinatos (três) no fatídico maio de 2006. O estudo “São Paulo sob achaque”, organizado pela Justiça Global, explica o papel do Estado, através da PM, nos ataques que vitimaram 493 civis. Em 2006, Alckmin era o governador de São Paulo.

Se o eleitor nunca foi impactado com a violência e o despreparo policial, pode ser que conheça alguém que o foi. Mesmo que não conheça, ainda deve ter, com frescor, na mente, o que foram aqueles dez dias de maio de 2006.

Dar à luz algemada

Porém, se não falta água na casa do eleitor, se ele não conhece ninguém que trabalha ou estuda nas universidades públicas, se ele nunca pegou um metrô lotado, se ele nunca ouviu falar de violência policial, ao menos deve se sensibilizar com a história de uma mulher que é obrigada a dar à luz algemada. Ou não?

No final de julho, a Justiça impôs outra derrota ao governo Alckmin. Uma mulher, que teve de dar à luz algemada quando cumpria pena de privação de liberdade, receberá indenização do Estado. O juiz Fausto José Martins Seabra, responsável pela sentença, classificou o episódio como “cruel, desumano e degradante.”

O caso é apenas mais um, entre tantos descasos cometido pelo Estado contra uma população carcerária que cresce assustadoramente. Já são, nos presídios paulistas, 297.096 presos. Para que se tenha uma ideia do que representa esse número, Minas Gerais, que vem logo atrás, na segunda posição, possui em suas unidades prisionais 68.452 pessoas encarceradas.

No entanto, a cada mês que passa, as estatísticas se encarregam de provar que a lógica do encarceramento não produz qualquer resultado. Os últimos dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), referentes ao mês de junho de 2014, mostraram que houve um aumento, por exemplo, de 33% nos casos de latrocínio, e 21% de roubos, em relação ao mesmo período de 2013.

A Fundação Casa segue sendo um espaço de inúmeros desrespeitos aos direitos humanos. Por conta da superlotação das unidades, uma ação do Ministério Público, ajuizada no último dia 8 de agosto, pede multa de R$ 14,7 milhões por dia, caso a instituição não ofereça vagas aos internos, que seguem se amontoando nas celas.

A mesma ação ainda investiga casos de tortura, falta de suprimentos de higiene pessoal e água quente para banho. Todas as denúncias estão em um relatório produzido pelo MP ao longo do ano de 2013, que investiga as irregularidade dentro da instituição.

Eleições 2014

Bom voto.

Paraná: as eleições estaduais e o perfil do eleitorado

Via Roseliabrão

O Instituto Datafolha faz uma análise da pesquisa sobre a sucessão no Paraná, divulgada ontem, e atesta que, na análise das variáveis sociodemográficas, observa-se que a intenção de voto em Requião cresce conforme diminui o porte do município enquanto Beto Richa tem melhor desempenho entre os moradores do interior do que entre os moradores da capital e região metropolitana.

Richa, segundo análise disponível no site do instituto, tem 43% dos votos no interior e 30% na Capital e Região Metropolitana.

O senador peemedebista tem 39% entre os moradores de municípios com até 50 mil habitantes e 27% entre os residentes de cidades com mais de meio milhão de habitantes, segundo o Datafolha.

Requião ganha em Curitiba e Região Metropolitana. Ele tem 37% dos votos contra 30% de Beto. A petista Gleisi Hoffmann tem 15%.

Na Capital, Beto leva vantagem sobre Requião: 36% contra 31%. Gleisi aparece com 13%. No Interior do Estado a diferença pró Beto é maior: 43% contra 31% de Requião. Gleisi tem 10%.

Requião e Beto têm o mesmo percentual – 37% – entre os eleitores do sexo masculino. Gleisi tem 11%; entre as mulheres, Beto tem 41%, Requião, 28% e Gleisi, 12%.

Por faixa etária, o governador tem maior percentual entre os eleitores de 35 a 44 anos (40%). Os de Requião estão concentrados na faixa etária entre 45 a 59 anos (36%), e os de Gleisi entre 25 e 34 anos (13%).

Por escolaridade, Beto tem maior eleitorado entre os que têm o ensino fundamental (42%), Requião entre os que têm ensino superior (39%) e Gleisi entre os eleitores que têm ensino médio (15%).

Diálogos Desenvolvimentistas: O mito da alta carga tributária e como encará-la corretamente

Charge de Carlos Latuff

Edição por Rennan Martins

O Brasil assiste a campanha midiática incessante sobre uma suposta alta carga tributária no Brasil. Campanha esta que apresenta os dados brutos de forma que não informa, mas sim confunde a população, que passa a não entender quem realmente não contribui para o bem comum.

O Impostômetro discorre sobre o quanto o Estado arrecada, falando em seguida sobre os tais 5 meses de trabalho destinados a pagar todos os impostos. O que a elite que promove esta campanha não informa é o que interessa.

No Brasil, quanto mais pobre, mais se paga, o imposto é regressivo. O serviço da dívida pública, dinheiro que é direcionado diretamente ao bolso dos banqueiros, corresponde a quase 50% do orçamento.

Quando falamos da solução para a tributação brasileira, que seria tornar os impostos progressivos e taxar a renda e o patrimônio ao invés do consumo, a elite desconversa. Sabem eles que estão em dívida com a sociedade.

A fim de definir uma forma de encarar a questão tributária mais condizente com a verdade, os colaboradores da Associação Desenvolvimentista Brasileira, Adriano Benayon, doutor em economia e Ceci Juruá, doutora em políticas públicas, travaram este ótimo debate.

Confira:

Ceci Juruá – Se somarmos os montantes relativos a vendas líquidas dos 20 maiores grupos econômicos operando no Brasil, chego a um valor maior do que R$ 1,1 trilhão. O que isto quer dizer? Que eles controlam 20% do PIB brasileiro? Não, isto não quer dizer nada. Porque os montantes não se relacionam. Vendas líquidas é faturamento sem os impostos sobre o preço. Para existir uma relação é preciso relacionar valor agregado pelos 20 grupos/PIB, que é a soma dos valores agregados a custo de fatores ou a preços de mercado. Para o governo o mesmo raciocínio deve ser aplicado. Carga tributária bruta não pode ser relacionada ao PIB, não há ponto comum entre eles e logo não há relação, salvo o desejo, a vontade explícita de satanizar o Estado.

Para calcular o peso do governo na economia é necessário analisar ou pelo lado da Demanda Agregada, onde a parte do Estado é representada pelo Consumo do governo mais os investimentos do Governo. Ou pela ótica do PIB/Renda, onde a parte do governo é representada pelos impostos líquidos sobre a produção.

O indicador que interessa, para a sociedade é a carga tributária líquida = carga tributária líquida menos transferência em espécie à sociedade, isto é: menos os pagamentos da previdência e assistência social, e menos o pagamento de juros da dívida pública. Do que sobra, carga tributária líquida, é aí que vamos encontrar o indicador relevante – o gasto incorrido pelo governo para a prestação de bens e serviços públicos. No Brasil isto está entre 15 à 17% do PIB, para os três níveis de governo. Desse valor mais da metade (não sei ao certo, estimo) é devolvida à sociedade sob a forma de serviços públicos – basicamente saúde e educação, manutenção das cidades e infraestrutura viária, forças armadas e outros. E tais serviços não sendo universais, eles tem beneficiários. No caso de serviços de educação e saúde, eles não são dirigidos aos ricos, mas aos mais necessitados. Salvo a universidade pública.

O resto é jogo de números, tentativas de desmoralizar o Estado. Nas sociedades ricas, onde as pessoas não precisam de serviços públicos, ou nas super-liberais, onde os pobres são deixados à própria sorte, ou à “generosidade” de particulares – igrejas e ricos, mais as seguradoras, a carga tributária bruta é quase igual à líquida, e pode ser pequena. No império e na república velha, nossa carga tributária ficava em torno de 5%-7% por exemplo. Nos países europeus, onde ainda predomina a social-democracia, e sobretudo onde não foram desmontados os serviços de proteção social, há países com carga tributária bruta de 40 e 50%, é só pesquisar.

Os mais pobres não são os que pagam mais. Por um lado estão isentos do imposto de renda (ele só atinge 30% da população ocupada brasileira), por outro lado são beneficiários de serviços públicos, basicamente educação e saúde. Mas há outros setoriais como o Programa Luz para todos, Minha Casa Minha Vida, etc.

Sem um conhecimento mínimo de Contabilidade Nacional (ou Social) fica difícil a visão global, macroeconômica.

Adriano Benayon – A carga tributária nos países do norte da Europa certamente supera a do Brasil de 30% a 60%, comparando-se os montantes das cargas tributárias per capita, mas não evidentemente as cargas tributárias em proporção do PNB ou do PIB. (No Brasil o PNB é muito menor que o PIB, e lá é o contrário).

Mais relevante em relação ao que está em discussão é que deveríamos considerar não tanto as cargas tributárias per capita comparadas, mas essas cargas menos o serviço da dívida pública. Sob esse conceito, o líquido de receita tributária disponível para investir em infraestrutura e custear serviços públicos, a situação do Brasil fica ainda pior: mais devido à altíssima taxa de juros do que ao valor, per capita, do estoque sobre o qual incidem essas taxas.

Além disso, creio termos de reconhecer que o problema no Brasil não é só de insuficiência de recursos, mas também de aplicação inadequada ou dilapidadora desses recursos. Não pensem que estou entrando no discurso moralista ou de direita, pois fundamento a proposição da má aplicação dos recursos, não em alguma incompetência inata ou de tendência à corrupção própria dos brasileiros, mas, sim, nas relações de poder político num país cuja independência real é muito limitada, devido à concentração econômica nas mãos de cartéis transnacionais e da oligarquia financeira.

Os exemplos são de grande porte e não poucos. Tome-se os transportes urbanos e interestaduais. Tudo foi desenhado para assegurar ganhos às transnacionais montadoras de veículos e aos cartéis do petróleo. A questão dos custos da energia e da matriz energética é mais um de vulto a ilustrar as injunções decorrentes de interesses contrários ao desenvolvimento do País.