Arquivo mensais:agosto 2014

Harvey: A violência nas ruas e o fim do capital

Por David Harvey, via Blog da Boitempo

[9 de junho de 2014, foto de Mídia NINJA]

O artigo a seguir é um trecho editado do mais recente livro de David Harvey, 17 contradições e o fim do capitalismo, em que o geógrafo britânico identifica e disseca didaticamente todas as contradições do capital segundo a análise feita por Marx – para ele, seriam exatamente dezessete. Neste trecho, que a Boitempo antecipa com exclusividade em seu Blog, Harvey procura tecer os fios de um novo humanismo revolucionário, entre a contraditória proliferação de ONGs e as explosões violentas nas ruas, no Brasil e no mundo.

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Em poucas palavras, o problema com a tradição humanista é que ela não internaliza uma boa compreensão de suas próprias e inescapáveis contradições internas – algo mais claramente evidenciado no caso da contradição entre liberdade e dominação. O resultado é o que Frantz Fanon caracterizou como “humanitarismo insípido”. Há evidências suficientes disso em seu revival recente. A tradição burguesa e liberal de humanismo secular acaba formando uma base ética piegas para uma moralização ineficaz sobre o triste estado do mundo e para a construção de campanhas, igualmente ineficazes, contra os males da pobreza crônica e da degradação ambiental.

É provavelmente por essa razão que o filósofo francês Louis Althusser lançou sua ferrenha e influente campanha na década de 1960 para extirpar do marxismo todo o falatório sobre socialismo humanista e alienação. O humanismo do jovem Marx, conforme expresso nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, insistia Althusser, estaria separado do Marx científico d’O capital por uma “ruptura epistemológica” – algo que estaríamos ignorando a prejuízo próprio. O humanismo marxista, ele escrevia, é pura ideologia, teoricamente vazio e politicamente enganoso – se não mesmo perigoso. A devoção de um dedicado marxista como Antonio Gramsci ao “humanismo absoluto da história humana” era, na visão de Althusser, completamente deslocada.

O enorme aumento e a natureza das atividades compactualizantes das ONGs humanistas ao longo das últimas décadas parece sustentar as críticas de Althusser. O crescimento do complexo “caridoso-industrial” reflete principalmente a necessidade de aumentar a “lavagem de consciência” para uma oligarquia mundial que vem dobrando sua riqueza e poder de anos em anos em meio à estagnação econômica. Seu trabalho tem feito muito pouco ou quase nada para lidar com a degradação e despossessão humana, ou com a degradação ambiental que se alastra. Isto se dá, estruturalmente, porque as organizações anti-pobreza precisam operar sem jamais intervir na continuada acumulação de riqueza, de onde tiram seu próprio sustento. Se todos que trabalhassem em uma organização anti-pobreza passassem, da noite para o dia, a promover políticas anti-riqueza, logo nos veríamos vivendo em um mundo bem diferente. Pouquíssimos doadores caridosos – nem mesmo Peter Buffett, eu suspeito – iriam financiar uma coisa dessas. E as ONGs, que agora estão no centro do problema, não iriam de todo modo querer isso (apesar de haver muitos indivíduos no interior do mundo das ONGs que estariam dispostos a tal, mas que simplesmente não podem).

Fanon, é claro, choca muitos humanistas liberais com seu endosso de uma violência necessária e sua rejeição da via conciliatória. Como, ele se pergunta, a não-violência é possível numa situação estruturada pela violência sistemática exercida pelos colonizadores? Que sentido tem uma população faminta declarar greve de fome? Por que, como Herbert Marcuse se perguntava, deveríamos ser persuadidos pelas virtudes de tolerância para com o intolerável? Em um mundo dividido, onde o poder colonial define os colonizados como subumanos e malvados por natureza, a conciliação é impossível.

Não levanto a questão da violência aqui, tampouco o fez o próprio Fanon, porque sou ou ele era favorável a ela. Ele a sublinhou porque a lógica das situações humanas tão frequentemente se deteriora a ponto de não restar nenhuma outra opção. Até Ghandi reconheceu isso.

Mas a ordem social do capital é essencialmente muito diferente de suas manifestações coloniais? Aquela ordem certamente buscou se distanciar, em casa, do cálculo cruel da violência colonial (algo como um mal necessário a ser aplicado sobre os outros, incivilizados, ‘de lá’ para seu próprio bem). Ela teve de disfarçar, em casa, a inumanidade descarada que demonstrava no exterior. ‘Do lado de lá’ as coisas poderiam ser deslocada para fora de nosso campo de visão e de audição. Só agora, por exemplo, a violência cruel da supressão britânica do movimento Mau Mau no Quênia na década de 1960 está sendo completamente reconhecida.

Quando o capital passa perto de tal inumanidade em casa ele tipicamente elicia uma resposta semelhante àquela dos colonizados. Na medida em que ele abraçou a violência racial em casa, como o fez nos Estados Unidos, produziu movimentos como os Panteras Negras e a Nação de Islã com seus lideres como Malcom X e, em seus últimos dias, Martin Luther King, que viu a ligação entre raça e classe e sofreu as consequências decorrentes. Mas o capital aprendeu uma lição. O quanto mais raça e classe se entrelaçam, mais rápido o pavio revolucionário queima.

Mas o que Marx deixa tão claro em O capital é a violência diária constituída na dominação do capital sobre o trabalho no mercado e no ato de produção, bem como no terreno da vida diária. Quão fácil não é pegar descrições das condições de trabalho contemporâneas, por exemplo, nas fábricas de eletrônicos de Shenzesn, nas fábricas de roupas em Bangladesh ou as confecções clandestinas de Los Angeles, e encaixá-las, sem prejuízo, no clássico capítulo de Marx sobre a jornada de trabalho n’O capital? Quão surpreendentemente fácil não é pegar as condições de vida das classes trabalhadoras, dos marginalizados e desempregados em Lisboa, São Paulo e Jacarta, e as justaporem à clássica descrição de Engels em 1844 em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra?

O privilégio e o poder oligárquicos da classe capitalista estão levando o mundo em uma direção semelhante em quase toda a parte. O poder político – sustentado por uma vigilância, um policiamento e uma violência militarizada intensificantes – está sendo usado para atacar o bem-estar de populações inteiras tidas como dispensáveis. Diariamente testemunhamos a desumanização sistemática de povos descartáveis. Implacável, o poder oligárquico está agora sendo exercido por uma democracia totalitária destinada a interromper, fragmentar e suprimir qualquer movimento político coerente organizado contra a riqueza (como o occupy, por exemplo). A arrogância e o desprezo com que os afluentes agora veem os menos abastados – mesmo quando (particularmente quando) em disputa uns com os outros por trás de portas fechadas para mostrar quem pode ser o mais caridoso de todos – são fatos notáveis de nossa atual condição.

A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto é imensa, e não para de crescer. Os oligarcas confundem renda superior com valor humano superior e consideram seu sucesso econômico como evidência de seu conhecimento superior do mundo (ao invés de produto de seu controle superior sobre as artimanhas da contabilidade e sobre determinadas ferramentas legais). Eles não sabem ouvir o sofrimento do mundo porque não podem e não vão deliberadamente confrontar seu papel na construção dessa situação. Eles não vêem e não podem ver suas próprias contradições. Os bilionários irmãos Koch doam caridosamente a uma universidade como a MIT ao ponto de construírem uma linda creche para o corpo docente merecedor de lá enquanto simultaneamente esbanjando incontáveis milhões de dólares em apoio financeiro a um movimento político (liderado pela facção do Tea Party) no congresso estadunidense que corta vale-alimentação e nega bem-estar, suplementos nutricionais e creches para milhões vivendo na ou perto da miséria absoluta.

É num clima político como este que as erupções violentas e imprevisíveis que estão ocorrendo por todo o mundo episodicamente (da Turquia e do Egito ao Brasil e à Suécia só em 2013) parecem mais e mais como tremores prévios de um terremoto vindouro que fará das lutas revolucionárias pós-coloniais da década de 1960 parecerem brincadeira de criança. Se há um fim do capital, então isto é certamente de onde ele virá e suas consequências imediatas dificilmente se provarão felizes para qualquer um. Isso é o que Fanon tão claramente nos ensina.

A única esperança é que a massa da humanidade verá o perigo antes que a podridão vá longe demais e o dano humano e ambiental se torne grande demais para consertar. Diante do que o Papa Francisco com razão chama de “globalização da indiferença”, é imperativo que as massas globais, como Fanon bem disse, “resolvam despertar, sacudir o cérebro e cessar de tomar parte no jogo irresponsável da bela adormecida no bosque.” (Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p.85). Se a bela adormecida despertar a tempo, então talvez possamos esperar um final mais com cara de conto de fadas. O “humanismo absoluto da história humana”, escreveu Gramsci, “não visa a resolução pacifica das contradições existentes na história e na sociedade mas, ao contrário, é a própria teoria dessas contradições”. A esperança está latente nelas, disse Bertolt Brecht. Existem suficientes – dezessete – cativantes contradições no interior no domínio do capital para semear o solo da esperança.

* Este artigo é um trecho editado do livro 17 contradições e o fim do capitalismo (Boitempo, no prelo). A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

Requião se recusa, mas Richa e Gleisi assumem compromisso para baixar salário mínimo regional

Via Esmael Morais

Senador Roberto Requião se recusou ontem a assinar compromisso que pode reduzir valor do salário mínimo regional; “Não posso trair os trabalhadores. O salário mínimo é uma conquista de um milhão de paranaenses que não têm força para negociar sozinhos”, explicou o candidato do PMDB ao Blog do Esmael; Gleisi e Richa concordaram com a proposta da Fiep, segunda qual ao governo cabe apenas o papel de intermediar as negociações entre patrões e empregados; salário mínimo regional prevê quatro faixas salariais que variam de R$ 948,20 a R$ 1.095,60; Requião promete aplicar a inflação e o índice de produtividade estadual no cálculo do novo valor.

Os três principais candidatos ao governo do estado se reuniram ontem (19) com o sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). A senadora Gleisi Hoffmann (PT) e o governador Beto Richa (PSDB), que luta pela reeleição, assinaram compromisso com os empresários para baixar o salário mínimo regional, o maior do país, que vigora desde 2006.

O senador Roberto Requião (PMDB) que tenta voltar pela quarta vez ao Palácio Iguaçu não quis se comprometer com a proposta da Fiep. A ideia do setor é que o governo apenas tenha o papel de intermediar reajustes do mínimo regional em negociação entre patrões e empregados.

“Não posso trair os trabalhadores. O salário mínimo é uma conquista de um milhão de paranaenses que não têm força para negociar sozinhos”, explicou Requião ao Blog do Esmael.

“Ser contra o salário mínimo regional é um atraso, é jogar contra a economia e o movimento trabalhista”, disse o candidato à plateia na Fiep, ao defender que os empresários lutem pela alíquota zero para a inovação e aumentar a competitividade.

O salário mínimo regional prevê quatro faixas salariais que variam de R$ 948,20 a R$ 1.095,60. Requião promete aplicar a inflação e o índice de produtividade estadual no cálculo do novo valor.

No encontro com empresários na Fiep, Gleisi propôs a criação de Conselhos Regionais de Desenvolvimento e o Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico e Social. Ela também defendeu a criação do “PAC Estadual” e prometeu isentar de tributação as micro e simplificar a tributação para as pequenas empresas.

Já Beto Richa prometeu mais diálogo com setor produtivo e ampliação de investimentos. “Respeitamos quem produz e quem trabalha em nosso Estado. O setor produtivo sabe que no nosso governo é respeitado, com diálogo permanente, e que suas ideias são acatadas. Minha proposta é aprimorar ainda mais essa boa relação”, disse aos empresários.

Depois de passar uma carraspana nos empresários na questão do salário mínimo regional, o senador Roberto Requião se comprometeu em retirar os fiscais da porta das empresas, acabar com a substituição tributária e agir com responsabilidade financeira no governo.

Como o Isis está combatendo os EUA com armas norte-americanas

Por Alex Kane*, via Revista Fórum

Caos atual no Iraque mostra que os EUA têm de lutar novamente contra um monstro que eles próprios criaram e, indiretamente, armaram

Os ataques aéreos dos EUA no Iraque estão atingindo os combatentes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis, sigla em inglês), que estão usando de armamento feito nos EUA. Esse simples fato mostra uma dura realidade na história da política externa dos EUA em um país destruído por bombas norte-americanas e, então, uma guerra civil.

Durante a última semana, o Pentágono lançou declarações triunfantes sobre o esforço militar dos EUA contra o Isis. Mas o que não é mencionado por eles é que aqueles iraquianos andando em veículos armados portando armas e artilharias provavelmente foram abastecidos por contribuintes norte-americanos. As armas que o Isis possui são outra amostra do fracasso que foi a invasão dos EUA em 2003. Isso é similar ao que aconteceu na intervenção norte-americana na Líbia, em 2011, que derrubou o ditador Muammar Qadafi, mas também desestabilizou o país – resultando então em um fornecimento de armas para os militantes do Mali, mais ao sul, que por sua vez levou a uma intervenção da França e dos EUA no país africano em 2013.

Ao passo que o Isis, junto de sunitas insatisfeitos e cansados da discriminação e marginalização que sofrem há anos, avançaram pelo Iraque e capturaram armas fabricadas nos EUA. Iniciada em junho, o Isis capturou grandes porções de território no norte do Iraque. O exército iraquiano, treinado pelos EUA, entrou em colapso frente aos avanços do Isis. Em uma combinação de fraco treinamento, equipamentos quebrados e moral baixa, eles deixaram para trás armas, munições e equipamento que foram produzidos e pagos pelos EUA, que usou de 25 bilhões de dólares para treinar e armar o exército do Iraque desde 2003.

Então, agora o Isis possui centenas de veículos armados, caminhonetes, tanques, humvees, assim como munições e armas, que eles utilizam enquanto continuam a marchar pelo país para ajudar a sua luta em outro país: a Síria, onde o Isis está lutando contra o governo de Bashar al-Assad – ironicamente, também inimigo dos EUA.

Histórico

A história de como as armas dos EUA acabaram nas mãos daqueles que muitos descrevem como o mais temido movimento islâmico no mundo data de 2003. Esse foi o ano em que a administração Bush, baseada em informações maquiadas, mentiu para o seu povo a fim de justificar um ataque militar contra o Iraque e sua subseqüente ocupação. Os EUA debandaram grande parte dos militares iraquianos, compostos em sua grande maioria por muçulmanos sunitas. Isso fez com que aumentasse a insurgência antiocupação no país, mas então buscou reagrupar tal exército sem a influência daqueles que trabalharam com Saddam Hussein.

Em 2006, o homem comandando o show de reformar as forças armadas do Iraque era Nouri al-Maliki, o atual primeiro-ministro e muçulmano xiita. Escolhido a dedo pelos EUA, a ascensão de Maliki ao poder foi um símbolo de como a estrutura de poder do Iraque foi revirada do avesso. Sob o comando de Saddam Hussein, a minoria sunita tinha muito mais poder, apesar de o partido de Hussein, o Baath, incluir xiitas. Mas a invasão norte-americana entregou todo o poder aos xiitas, resultando em um grave sectarismo entre as duas alas islâmicas. Além disso, Maliki não fez esforço algum para criar uma estrutura governamental mais inclusiva.

O governo de Maliki alienou os muçulmanos sunitas, que organizaram maciços protestos contra ele, que foram recebidos sob intensa violência, matando centenas de civis. Ele ordenou, inclusive, a prisão de seu vice-presidente sunita, em 2011. As forças de segurança prenderam milhares de homens sunitas sem qualquer acusação, classificando-os como terroristas. Muitos foram torturados. Maliki também realizou um expurgo de sunitas dentro da máquina burocrática. E os EUA ajudaram Maliki em sua busca para marginalizá-los, financiando seu governo e fornecendo armas a suas forças de segurança.

Em 15 de agosto, sob intensa pressão dos EUA e do Irã – país que passou a ter grande influência no país, Maliki saiu de cena. O novo primeiro-ministro, Haidar al-Abadi, vem do Partido Dawa, o mesmo de Maliki. A esperança é que al-Abadi governará de modo mais inclusivo, apesar de tal decisão já receber críticas.

Os EUA estão agora aumentando seus bombardeios aéreos e armando as milícias curdas, no norte do país, em uma tentativa de derrotar um monstro que eles mesmos criaram e que, paradoxalmente, está sendo financiado por aliados norte-americanos, como a Arábia Saudita e o Kuwait.

Mas se a história da política dos EUA para com o Iraque mostra alguma coisa, é que bombardeios não serão suficientes para resolver a crise no país.

*- Originalmente publicado em inglês no Alternet, traduzido por Vinicius Gomes

Antes de votar em Marina, você precisa conhecer Neca – e fazer a pergunta de R$ 18 bilhões

Por André Forastieri, via R7

Neca Setúbal – sócia-proprietária do Banco Itaú – e Marina Silva. Amizade antiga e comprometedora. R7/Reprodução

Você precisa conhecer Neca. Ela é a coordenadora do programa de governo de Marina Silva, pela Rede Sustentabilidade, ao lado de Mauricio Rands, do PSB. O documento será divulgado na semana que vem, 250 páginas consensadas por Marina e Eduardo Campos. Educadora, com longo histórico de obras sociais, Neca conheceu Marina em 2007. É uma das idealizadoras e principais captadoras de recursos da Rede Sustentabilidade.

Sua importância na campanha e no partido de Marina Silva já seria boa razão para o eleitor conhecê-la melhor. Ainda mais após a morte de Eduardo Campos. Mas há uma razão bem maior. Neca é o apelido que Maria Alice Setúbal carrega da infância. Ela é acionista da holding Itausa. Possui 1,29% do capital total. Parece pouco, mas o valor de mercado da Itausa no dia de ontem era R$ 61,4 bilhões. A participação de Maria Alice vale algo perto de R$ 792 milhões.

A Itausa controla o banco Itaú Unibanco, o banco de investimentos Itaú BBA, e as empresas Duratex (de painéis de madeira e também metais sanitários, da marca Deca), a Itautec (hardware e software) e a Elekeiroz (gás). Neca herdou sua participação do pai, Olavo Setúbal, empresário e político. Foi prefeito de São Paulo, indicado por Paulo Maluf, e ministro das relações exteriores do governo Sarney. Olavo morreu em 2008. O Itaú doou um milhão de reais para a campanha de Marina Silva em 2010.

Em agosto de 2013 – portanto, no governo Dilma Rousseff – a Receita Federal autuou o Itaú Unibanco. Segundo a Receita, o Itaú deve uma fortuna em impostos. Seriam R$ 18,7 bilhões, relativos à fusão do Itaú com o Unibanco, em 2008. O Itaú deveria ter recolhido R$ 11,8 bilhões em Imposto de Renda e R$ 6,8 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. A Receita somou multa e juros.

R$ 18 bilhões é muito dinheiro. É difícil imaginar que a Receita tirou um valor desse tamanho do nada. É difícil imaginar uma empresa pagando uma multa que seja um terço disso. Mas embora o economista-chefe do Itaú esteja hoje no jornal dizendo que o Brasil viveu um primeiro semestre de “estagnação”, o Itaú Unibanco lucrou R$ 4,9 bilhões no segundo trimestre de 2014, uma alta de 36,7%. No primeiro semestre, o lucro líquido atingiu R$ 9,318 bilhões, um aumento de 32,1% em relação ao primeiro semestre de 2013. O Unibanco vai muitíssimo bem. E gera, sim, lucro para pagar os impostos e multa devidos – ainda que em prestações.

A autuação da Receita foi confirmada em 30 de janeiro de 2014 pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. O Itaú informou que iria recorrer desta decisão junto ao Conselho Administrativo de Recursos fiscais. Na época da autuação, e novamente em janeiro, o Itaú informou que considerava “remota” a hipótese de ter de pagar os impostos devidos e a multa. Mandei um email hoje para a área de comunicação do Itaú Unibanco perguntando se o banco está questionando legalmente a autuação, e pedindo detalhes da situação. A resposta foi: “Não vamos comentar.”

O programa de governo de Marina Silva, que leva a assinatura de Maria Alice Setúbal, merece uma leitura muito atenta, à luz de sua participação acionária no Itaú. Um ano atrás, em entrevista ao Valor, Neca Setúbal foi perguntada se participaria de um eventual governo de Marina. Sua resposta: “Supondo que Marina ganhe, eu estarei junto, mas não sei como. Talvez eu preferisse não estar em um cargo formal, mas em algo que eu tivesse um pouco mais de flexibilidade.”

Formal ou informal, é muito forte a relação entre Neca e Marina. Uma presidenta não tem poder para simplesmente anular uma autuação da Receita. Mas tem influência. E quem tem influência sobre a presidenta, tem muito poder também. Neca Setúbal já nasceu com muito poder econômico, que continua exercendo. Agora, pode ter muito poder político. É um caso de conflito de interesses? Essa é a pergunta que vale R$ 18,7 bilhões de reais.

Folha coloca sob suspeita de fraude avião em que voava Campos. E indícios são fortes.

Por Fernando Brito, via Tijolaço

Passei algumas horas a levantar um assunto sobre o qual não publiquei nada ainda por tratar-se de algo que, sem certeza absoluta, a gente não fala nem na base do “talvez”.

Foi a partir da coluna de Mônica Bergamo, na Folha, que dá o pontapé inicial num noticiário extremamente pesado.

O da propriedade do avião que vitimou Eduardo Campos.

Não vou fazer juízo de valor, apenas republicar o que a Bergamo divulgou, de manhã.

Um grupo de empresários de Pernambuco deve divulgar uma nota ainda nesta quinta assumindo que estava comprando a aeronave em que o presidenciável Eduardo Campos viajava.

Desde o acidente, na semana passada, em Santos, o nome do operador do avião está envolto em mistério. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) abriu investigação para descobrir o verdadeiro dono da aeronave.

O avião, de prefixo PR-AFA, está em nome Cessna Finance Export Corporation, mas era operado pelo grupo Andrade, do setor sucroalcooleiro em Ribeirão Preto (SP). Ele foi colocado à venda por cerca de US$ 7 milhões.

Um empresário pernambucano, João Carlos Pessoa de Melo, procurou a corretora que representava a Andrade, em maio, e assinou compromisso de compra do avião.

Ao mesmo tempo, uma outra empresa, a Bandeirantes Companhia de Pneus, assumiu o leasing frente à Cessna. Oito prestações já teriam sido pagas pelo grupo de empresários. O valor seria abatido no final da operação de compra e venda.

O grupo pernambucano não quis falar com a Folha. O advogado Ricardo Tepedino, da Andrade, confirma as informações. E diz que elas já foram encaminhadas à Anac.

A Folha, porém, já foi adiante e em reportagem de Mauro César Carvalho levanta a suspeita:

“O avião pertencia ao grupo Andrade, dono de usinas de açúcar na região de Ribeirão Preto, que está em recuperação judicial, e só poderia ser vendido com autorização judicial”

Daí em diante, o caso vira um embrulho onde se suspeita de uma operação fictícia, destinada a fraudar credores da Andrade.

Mas também na ponta “compradora”, os personagens são nebulosíssimos.

“O avião Cessna foi vendido a João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho e Apolo Santana Vieira, ambos de Pernambuco, segundo documento do grupo Andrade enviado à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e revelado pela coluna Mônica Bergamo, da Folha. Mello Filho é usineiro e era amigo de Campos, segundo a Folha apurou.”

João Paulo Lyra Pessoa de Mello (ou seu filho, como a matéria induz a crer) era um personagem metido em problemas por convênios com o Ministério da Ciência e Tecnologia, que foi ocupado por Eduardo Campos e, depois, por seus indicados do PSB. Foi com um indicado de Campos, Sérgio Resende, que uma ONG ligada a ele firmou dezenas de convênios, segundo o Estadão.

Da mesma forma, um João Paulo Lyra Pessoa de Mello e seu irmão Eduardo, usineiros em Pernambuco, foram condenados em 2011 por assassinar um rapaz, Alexandre dos Santos Correia, numa boate do Recife, crime ocorrido em 1999. Não sei se foram inocentados em segunda instância, após o Tribunal do Júri lhes dar penas de 14 e 15 anos.

Exceto se for o caso de homonímia, o que desde já deixo ressalvado, apesar de incrível, a coisa vai dar panos para manga.

O outro comprador do avião, Apolo Santana Vieira já foi denunciado pelo Ministério Público Federal por fraude na importação de pneus chineses em Pernambuco.

Ramo em que opera também a tal Bandeirantes que teria feito o leasing do avião. A Bandeirantes tem capital registrado de R$ 2 milhões, incompatível com a compra de um jato de US$ 7 milhões.

O caso é tão escabroso que tem cara de ter brotado, como o caso Lunus, de algum “saco de maldades”.

Portanto, é preciso muito cuidado para não acusar quem não pode se defender ou dar explicações.

Mas é também impossível que um acidente com tamanha repercussão não vá ser investigado também no que diz respeito aos donos do avião.

Até porque, dias atrás, a Folha publicou que a própria vítima havia aprovado a operação de compra do avião.

Esperemos para ver aonde vai a apuração da Folha. Peço que, nos comentários, ninguém se precipite ou acuse sem provas.

O melhor, nestas horas, é esperar a verdade sem histeria, com respeito, mas também sem encobrimentos.

Pepe Escobar: Balé da energia, Irã, Rússia e o “Oleogasodutostão”

Por Pepe Escobar, via Rede Castor Photo e RT

 

Usina nuclear de Bushehr, sul do Irã. (fornecida pela Rússia)

Um fascinante balé nuclear/de-energia envolvendo Irã, Rússia, EUA e a União Europeia está a ponto de decidir grande parte do que acontecerá adiante, no novo grande jogo na Eurásia.

Comecemos pelo que está acontecendo com o dossiê nuclear iraniano.

Conselheiro para assuntos de lei do Ministério de Relações Exteriores do Irã, Jamshid Momtaz, foi forçado a esclarecer que o acordo provisório assinado pelo Irã e os países do P5+1 em novembro de 2013 não é – ainda – acordo internacional.

No ponto em que estamos, a ravina que separa EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e Alemanha de um lado, e o Irã do outro lado, permanece muito larga. Na essência a ravina que realmente conta é entre Washington e Teerã. E isso infelizmente se traduz em alguns meses a mais, para que uma vasta brigada de sabotadores – de neoconservadores norte-americanos a sortimento variado de fazedores-de-guerra israelenses e da Casa de Saud – empurre o acordo na direção do colapso total.

Um dos mantras da sabotagem a partir de Washington é a tal “breakout capability” [aproximadamente, “capacidade para converter (qualquer coisa) em arma”] [1]; é conceito esquivo, impalpável, que se resume à possibilidade de centrífugas serem “adaptadas” de modo a adquirirem capacidade para produzir urânio enriquecido em quantidade suficiente para uma única bomba. Por causa dessa possibilidade, os EUA concluem que seria necessário impor uma limitação arbitrária sobre toda a capacidade de o Irã enriquecer urânio.

O outro mantra da sabotagem força o Irã a pôr fim a todo o seu programa de enriquecimento de urânio e, como se não bastasse, a abrir mão também dos seus mísseis. É ridículo: todos os exércitos do mundo têm mísseis, que são item de todas as forças armadas convencionais. Então, Washington muda de assunto e passa a falar só de mísseis que possam transportar ogivas nucleares que o Irã não possui. Por isso, todos os mísseis teriam de ser banidos.

Moscou e Pequim veem a tal “capacidade para converter (qualquer coisa) em arma” (“breakout capability”) pelo que a coisa é: problema inventado. Enquanto Washington só diz que quer algum acordo, Moscou e Pequim realmente querem um acordo – e afirmam que terá de ser respeitado, mediante monitoramento estrito.

(Da esq. p/ a dir.) Pres. Vladimir Putin da Rússia; PM Narendra Modi, da Índia; Pres. Dilma Rousseff, do Brasil: Pres. Xi Jinping da China em Fortaleza (BRICS – 2014)

O Supremo Líder Aiatolá Khamenei já demarcou publicamente a própria linha vermelha, para que não haja mal-entendidos: o acordo nuclear final terá necessariamente de preservar o direito de enriquecer urânio, que é direito legítimo de Teerã – e em escala industrial – como parte de uma política de energia de longo prazo. É o que os negociadores iranianos dizem desde o início. Assim sendo, impor como “condição inicial” que o Irã extinga seu programa de enriquecimento de urânio não é condição inicial de coisa alguma: é condição para que nada aconteça.

“Me sancione”, baby, outra vez, outra vez

O enriquecimento de urânio, como se podia prever, é a chave do problema. No ponto em que estão as coisas hoje, Teerã mantém mais de 19 mil centrífugas de enriquecimento instaladas. Washington quer reduzir esse número a umas poucas mil. Desnecessário acrescentar que Israel – que tem mais de 200 ogivas nucleares e os necessários mísseis de transporte para bombardear o Irã, e a coisa toda comprada e montada em negócios ilegais de compra de armas e muita ação clandestina de espionagem – insiste na cláusula de “enriquecimento zero”.

Numa corrente subterrânea simultânea, operam os “especialistas” norte-americanos/ israelenses que vivem de prever que o Irã pode produzir uma bomba em dois, três meses, ao mesmo tempo em que acusam Teerã por criar “obstáculos” em defesa de seu programa nuclear “ilegal”. Pelo menos por hora, afinal, a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA, Susan Rice, calou a boca.

Outro ponto crítico de desacordo é o reator de água pesada de Arak, para pesquisas. Washington quer vê-lo por terra – ou convertido em usina hidrelétrica. Teerã rejeita e argumenta que o reator só produz isótopos para finalidades médicas e usos na agricultura.

E há também a histeria das sanções. A ONU e os EUA vêm surfando uma maré de sanções desde 2006. Teerã, no início, quis que aquelas pesadas sanções, que equivalem a guerra econômica total, fossem imediatamente levantadas; depois passou a preferir uma abordagem escalonada. Obama talvez até consiga levantar algumas das sanções – mas um Congresso dos EUA comandado de Telavive por controle-remoto tentará manter outras, por toda a eternidade.

Neste documento do NIAC (National Iranian American Council), a ser abordado com as devidas cautelas, há uma defesa bem detalhada da alternativa de assinar um bom acordo, em comparação com a alternativa de uma trilha apocalíptica rumo à guerra.

Supondo-se que venha a haver algum acordo, ponto crucialmente importante é a duração, a vigência do acordo. Washington quer acordo para duas décadas. Teerã, para cinco anos – e então o Irã passaria a ser tratado como qualquer outro dos 189 países signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear – que permite que estados que não tenham armas nucleares desenvolvam programas de energia nuclear para finalidades civis. Para conhecer uma perspectiva iraniana civilizada e bem informada, leiam “Negociações devem ser baseadas em realidades, não em ilusões: notas sobre as complexidades do caso nuclear do Irã”, Gholamali Khoshroo, 20/5/2014, Iranian Review (ing.).

De fato, é uma tragicomédia. Washington faz-se de The Great Pretender [“O grande fingidor”, The Platters, 1956; também, ótimo, Fred Mercury (NTs)], fingindo em tempo integral que Israel não tem armas nucleares, ao mesmo tempo em que tenta convencer todo o planeta de que Israel teria direito de armazenar quantas armas atômicas queira, enquanto o Irã não teria direito, nem aos meios convencionais para a própria defesa. Isso, sem dizer que Israel, armada com bombas atômicas, já ameaçou invadir e invadiu praticamente todos os países à sua volta, e o Irã nunca invadiu nada.

Dance no balé da energia

Duras que sejam, como realmente são, as sanções não forçaram Teerã a ajoelhar-se e render-se. Khamenei disse repetidas vezes que não era otimista quanto à possibilidade de efetivo acordo nuclear. O que realmente quer, muito mais que algum acordo, é economia melhorada. Agora, com as sanções começando a ruir, depois do acordo inicial de Genebra, há luz no fim do túnel.

Entram em cena as negociações super turbinadas entre Rússia e Irã. Incluem um negócio de energia de mais de US$ 10 bilhões, com novas usinas térmicas e hidrelétricas e uma rede de transmissão.

E, claro, o negócio de troca [ing. swap] pelo qual a Rússia pode comprar 500 mil barris de petróleo iraniano por dia. Detalhes serão finalizados no início de setembro. Não surpreende que Washington esteja em fúria; esse negócio eleva as exportações do Irã para mais de um milhão de barris/dia, questão que já havia sido acertada desde anteriormente, em Genebra.

Com a Rússia agora também sob sanções dos EUA e da União Europeia, Teerã previsivelmente teve de começar a fazer a corte à Europa como fonte alternativa ideal de gás natural. Escrevo há anos sobre isso. A Europa quer desesperadamente livrar-se da dependência da Gazprom russa. O Irã tem tudo para vender gás à Europa, transportando-o especialmente através da Turquia. Mas há muitos bloqueios políticos e logísticos – a começar pela necessidade de um acordo nuclear final – o que faz desse um cenário de longuíssimo prazo, na melhor das hipóteses.

Estação de bombeamento da Gazprom – Gás para a Europa

O balé da energia em que bailam Irã, Rússia, a União Europeia e os EUA é digno de um neo-Stravinsky geopolítico. Teerã cuida para não antagonizar Moscou – o maior fornecedor de gás natural para a Europa. Mas Teerã também sabe que, com EUA-Irã iniciando uma possível détente, a União Europeia fará absolutamente qualquer negócio, custe o que custar, para conseguir seduzir o Irã e investir no Irã.

O Vice-Ministro do Petróleo para Negócios Internacionais e de Comércio do Irã, Ali Majedi, com certeza já viu claramente de onde sopra o vento. Já fala de três diferentes rotas que Teerã pode usar para suas exportações de energia para o ocidente.

Segundo a Revista Estatística do Mundo da Energia da British Petroleum [orig. BP Statistical Review of World Energy], as reservas comprovadas de gás natural do Irã alcançam enormes-gigantescos 33,6 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia estão em 32,9 trilhões de metros cúbicos. São duas usinas-monstro.

O problema é que o Irã está muito atrasado em relação à Rússia, nos quesitos investimentos e produção. Há poucos anos, em Teerã, especialistas em energia estimaram, a meu pedido, em cerca de US$ 200 bilhões o investimento necessário para modernizar a indústria iraniana e investir em infraestrutura doméstica de transporte e exportação.

Assim sendo, em termos realistas, a Rússia permanecerá como fornecedor-chave de gás para a União Europeia no futuro previsível, predominando sobre o valor estratégico do gás do Irã e da Ásia Central. E isso inclui o fato de que muitas das nações da União Europeia, apesar das futricas produzidas em tempo integral em Bruxelas, apoiam a construção do gasoduto Ramo Sul [orig. South Stream] que a Rússia escolheu.

Mas, agora, Teerã está no jogo – já atraindo um enxame de investidores estrangeiros poderosos e interessados, que chegam da Europa e da Ásia. Recente exposição internacional de produtos petroquímicos, petróleo, gás e refino, montada em Teerã, atraiu nada menos que 600 empresas estrangeiras, de 32 países.

O Supremo Líder já cobriu todas as trilhas

Majid Takht Ravanchi, Vice-Ministro de Relações Estrangeiras do Irã – e membro da equipe de negociadores do acordo nuclear – anda absolutamente em êxtase:

Naturalmente, Irã e Europa podem trabalhar em cooperação muito melhor no campo da economia, comércio e energia. Acreditamos que há espaço para melhorar muito.

Mas quem deu passo gigante à frente foi o Vice-Ministro do Petróleo do Irã, Ali Mejidi – ao ressuscitar o moribundo gasoduto Nabucco:

Com Nabucco, o Irã pode abastecer de gás a Europa. Somos a melhor alternativa à Rússia.

Nabucco, saga do “Oleogasodutostão” é questão que acompanhei já em detalhe, a história de um gasoduto que chegaria à Europa atravessando Turquia, Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria carregando gás às vezes do Azerbaijão às vezes do Iraque, antes de naufragar espetacularmente por falta de investimentos.

Significa que o Irã estaria abrindo uma guerra de energia contra a Rússia. De fato, não. Nabucco é um gigantesco “se”, caríssimo, projeto para muito, muito longo prazo. E o gasoduto South Stream, embora esteja momentaneamente empacado, está pronto para funcionar.

Bulgária (próximo de Rasovo) – Soldando gasoduto South Stream da Gazprom (31/10/2013)

O que aconteceu nas sombras é que Washington levou ao conhecimento de Teerã que, se desistisse do projeto de gasoduto de US$ 10 bilhões Irã-Iraque-Síria, as sanções seriam “aliviadas”, e o Irã poderia ser autorizado a reviver o projeto Nabucco, obsessão europeia apoiada pelos EUA, concebida para rivalizar com o Ramo Sul.

Falar é fácil. No pé em que estão as coisas, é maior a probabilidade de o gasoduto Irã-Iraque-Síria conseguir financiamento nos próximos dois, três anos, que o Nabucco.

Paralelamente, por mais que as sanções de EUA e União Europeia contra a Rússia fortaleçam o Irã nas conversações nucleares, sobretudo em relação aos europeus, não significa que Teerã vá descartar a carta russa. Assim como os iranianos tiram proveito máximo da mais recente virada na trama, toda a política iraniana, de fato, já costura laços bilaterais muito mais íntimos com Moscou, para neutralizar “por bem” aquelas sanções contra o Irã.

E se Washington decidir manter as sanções para sempre, já há à mão um Plano B: cooperação ainda mais íntima com ambos, Rússia e China. Não por acaso, o Presidente Rouhani do Irã já descartou qualquer alvoroço sobre dificuldades nas relações Irã-Rússia:

Fortes laços políticos nos domínios de relações bilaterais, regionais e internacionais, além de firmes laços econômicos entre os dois países, demarcam o cenário para promovermos a paz e a estabilidade.

Isso recobre tudo, desde todos usarem o sistema paralelo do Banco da China para pagar pela energia iraniana que comprem, até as trocas acertadas só entre Irã-Rússia.

Em vários sentidos que se sobrepõem, o dossiê nuclear iraniano é agora como um salão de espelhos. Reflete um sonho nunca declarado de Washington: acesso absolutamente desimpedido, garantido às corporações norte-americanas, a um mercado virgem de 77 milhões de pessoas, inclusive uma jovem população urbana finamente educada, além de bonanza de energia para o “Big Oil” dos EUA.

Mas naquele mesmo salão de espelhos, vê-se também uma imagem iraniana: o Irã vai realizando seu destino como a maior das superpotências geopolíticas do Sudeste Asiático, a última encruzilhada entre Oriente e Ocidente.

Assim, em certo sentido, pode-se dizer que o Supremo Líder já cobriu todas as trilhas. Se Rouhani brilhar e acontecer um acordo nuclear final, o cenário econômico melhorará muito, especialmente mediante massivos investimentos europeus. Se Washington abortar o acordo, pressionada pelos lobbies corriqueiros, Teerã sempre poderá exercitar toda a sua “flexibilidade heroica”, [2] e seguir adiante – em integração cada vez mais próxima e mais completa com ambos, Rússia e China.

Tradução: Vila Vudu

Notas dos Tradutores:

[1] “Breakout capacity” [de CIA Glossary (aqui traduzido): aprox. “capacidade básica para conversão”]: “Conhecimento, infraestrutura e material que comumente permanecem abaixo do nível de tornarem-se suspeitos, mas que podem ser rapidamente adaptados ou reorganizados para permitir que o mesmo processo seja usado para produzir armas. Essa capacidade exige recursos previamente organizados e frequentemente se serve de tecnologia, equipamento ou conhecimento de duplo uso”.

[2] 19/9/2013, redecastorphoto, Pepe Escobar, “Obama-Rouhani: luz, câmera, ação”, Asia Times Online:

Khamenei avalizou plenamente a ofensiva diplomática de Rouhani, enfatizando – muito clara e explicitamente – dois conceitos: a “flexibilidade do herói”, como o lutador que cede, num momento ou noutro, por interesse tático, mas que jamais desvia os olhos e mantém o rival sempre à vista; e a “leniência do campeão” – que é o subtítulo sutilíssimo de um livro que o próprio Khamenei traduziu do árabe, sobre como o segundo Imã xiita, Hasan ibn Ali, conseguiu evitar uma guerra no século 7º, mostrando flexibilidade na relação com o inimigo.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Livros:

Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007.

Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.

Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Requião descarta Marina e garante apoio a Dilma

Via Fabio Campana

 

Hoje, na Gazeta do Povo, Roberto Requião (PMDB) deixou claro que descarta apoiar Marina Silva (PSB) e garantiu que vai de Dilma Rousseff (PT) nas eleições presidenciais. “Acho que a Dilma, na sua política trabalhista, na sua política externa, com sua experiência administrativa, na comparação continua sendo a melhor opção de voto. Não posso votar contra o país. Tenho que votar não no que eu gostaria, no ideal que eu teria de um presidente soberano. Mas tenho que votar no que é melhor para o país neste momento”, disse Requião ao repórter Euclides Lucas Garcia.

“A Marina é minha amiga pessoal, minha irmãzinha, uma pessoa séria e competente. Converso com ela em qualquer circunstância sempre. Jamais falaria mal dela. Mas eu tenho que pensar na República, na continuidade, na manutenção do salário dos trabalhadores. A Marina é uma figura maravilhosa, mas eu voto na Dilma nas atuais circunstâncias”, completou o senador.