Arquivo mensais:agosto 2014

Veja tenta esconder aecioporto

Por Miguel do Rosário, via O Cafezinho

Que a Veja se tornou um fenômeno antes psiquiátrico do que propriamente midiático, disso já sabíamos.

No entanto, ela se supera a cada dia.

Do psiquiátrico ela tem migrado para o escatológico.

O novo “escândalo” fabricado por ela revela o desespero de varrer o aecioporto para debaixo do tapete.

Do que se trata o escândalo?

Um vídeo com parlamentares aliados passando instruções ou apenas conversando com figuras aliadas, num preparativo para uma CPI.

CPI é um evento político. Tem situação e oposição.

A situação defende os aliados do governo.

A oposição ataca os aliados do governo.

Escândalo seria se flagrássemos Alvaro Dias tentando ajudar Graça Foster. Aí sim, todos ficariam espantados!

Tentar criar uma CPI da CPI corresponde ao apogeu do ridículo. É como ver um tucano devorando a própria cauda.

Ora, se a oposição tem espaço garantido na CPI, mesmo minoritário, então ela que faça as perguntas que quiser fazer.

Como fizeram, aliás.

A oposição fez perguntas incômodas a Graça Foster, a Sergio Gabrielli, a Nestor Cerveró.

Eles já foram diversas vezes ao Congresso. Porque há uma redundância. Há duas CPIs, sobre o mesmo tema, acontecendo ao mesmo tempo.

Cada vez que Graça Foster vai a CPI, para repetir a mesma coisa, ela deixa de trabalhar, e isso atrapalha a Petrobrás.

Petrobrás cuja produção tem batido recorde e cujas ações se valorizaram mais de 70% nos últimos meses.

Foster, Gabrielli, Cerveró, estiveram várias vezes no Congresso, em CPIs.

Os tucanos é que nunca dão as caras em CPIs que os investigam.

Como eles são blindados e protegidos pela mídia, quase não há CPI investigando tucano.

E quando há, a mídia faz de tudo para abafá-la, até porque, sempre que se investiga tucano, a mídia entra na história. Como réu.

Foi o caso da CPI do Cachoeira. Mais um pouco, e se tornaria uma CPI da mídia, porque o Brasil estava descobrindo as relações íntimas entre a bandidagem e o jornalismo.

É hora de chamar Aécio Neves numa CPI para explicar porque construiu aeroporto na terra de seu tio, e porque este foi o aeroporto mais caro do Brasil.

É hora de chamar os chefões da Globo para explicar a sonegação de R$ 615 milhões, feita através de uma “intrincada engenharia financeira para ludibriar a Receita”, segundo as palavras do auditor fiscal responsável pelo processo.

A Petrobrás é importante demais para ser alvo de abutres que sempre quiseram destruí-la.

A Petrobrás é uma empresa mista regulada, supervisionada, monitorada, por diversos órgãos, nacionais e internacionais.

Se existe uma coisa a ser investigada na CPI da Petrobrás é o afundamento da plataforma P-36.

Era a maior plataforma do mundo. O prejuízo foi incalculável.

Morreu gente.

Enquanto Gabrielli e Graça Foster compraram refinarias, construíram outras, e apostaram no crescimento da produção de petróleo bruto de um lado e refinado de outro, os tucanos venderam metade da Petrobrás para fundos abutres da Bolsa de Nova York.

Não descobriram petróleo. Não fizeram nem compraram refinarias.

Apenas privatizaram, sucatearam e afundaram a maior plataforma do mundo.

Hoje uma boa parte do lucro da Petrobrás vai para bilionários estrangeiros.

Esses mesmos bilionários fazem pressão, através da mídia, para que a Petrobrás dê lucro rápido e fácil, para eles gastarem em festinhas, iates e… jatinhos.

Jatinhos que pousam em aeroportos particulares construídos, no caso de Minas Gerais, com dinheiro público.

A vitória dos abutres é o símbolo máximo do capitalismo financeiro

Por Rennan Martins

A decisão favorável aos ditos fundos abutres, por parte da corte de Nova Iorque e seu juiz Thomas Griesa, que forçaram a Argentina ao calote técnico, evidenciam a face imperialista e as contradições irreconciliáveis do capitalismo financeiro desregulado. Esta questão também se posta como um divisor de águas no campo econômico.

Antes de prosseguir na análise, convém recapitular alguns fatos. No dia 26 de junho o Estado argentino foi impedido pela corte norte-americana citada de continuar pagando sua dívida com os credores que a reestruturaram, 93% deles, enquanto não quitasse a parte devida a aqueles que se recusaram a entrar em acordo.

O montante desse pagamento em específico é de 1,3 bilhão de dólares mais juros, e pra esse há reservas. A ameaça reside na cláusula Rufo, que prevê igual tratamento aos credores. Se acionada, a dívida saltará para mais US$ 100 bilhões. As reservas internacionais argentinas são de US$ 28 bilhões.

Os fundos NML Capital, Aurelius e Blue Angel ganharam a alcunha de abutres porque compraram estes papéis após a moratória de 2001, quando estes nada valiam, esperando receber o valor de face judicialmente. Os lucros são de 1600%.

E é este o panorama que contradiz o capitalismo financeiro e seu mentor ideológico, o liberalismo.

Considerando que a decisão judicial impede a Argentina de pagar os credores que aceitaram a reestruturação e que a cláusula que gera o impasse das negociações, a Rufo, vence dia 31 de dezembro deste ano, é possível imputar ao juiz, no mínimo, falta de razoabilidade.

O senhor Thomas Griesa poderia ter permitido a continuação dos pagamentos a maioria esmagadora, 93%, enquanto as negociações com os discordantes continuariam. Eventualmente, a Rufo expiraria e a amarra estava desfeita.

Mas não. É preciso pagar integralmente aos especuladores. Seus lucros de 1600% têm primazia frente a todo um povo que pagará com recessão, desemprego e crise os empréstimos. Estes, irônica e cruelmente, tomados em grande parte, pelos mesmos apóstolos do mercado quando presidentes, Menem e De La Rua.

Estes senhores, quando chefes do executivo argentino, recebiam todo tipo de honras e elogios da Casa Branca, do FMI e do Banco Mundial. Após as ordens dos gurus destas instituições resultar na maior moratória da história, todos saíram de fininho julgando os políticos incompetentes e lavando a mão de qualquer responsabilidade. Faltou mercado, disseram cinicamente.

Os caminhos do chamado liberalismo, trilhados desde Pinochet, Reagan e Thatcher, nos trouxeram ao divisor de águas. Diversas partes que sempre apoiaram estes rumos da economia, agora se mostram reticentes diante desta investida. O Financial Times e a Itália tomaram o lado argentino, o que é emblemático.

A decisão da corte de Nova Iorque, como dito reiteradas vezes, abre um precedente perigoso para todo o sistema financeiro internacional, tornando muito complicada a possibilidade de reestruturação de dívidas. O nobel em economia, Joseph Stiglitz, a define como bomba. Bomba essa que mina a “confiança” e a “transparência”, tão apreciadas pelo mercado.

E eis que temos então a Argentina, que sob a retórica liberal foi dominada e posta de joelhos, conhecendo o imperialismo especulativo em sua forma mais crua. E os abutres, que seguindo estritamente o mantra do maior egoísmo para o maior bem comum, acabam por ameaçar as próprias bases do capitalismo financeiro.

Os abutres, isolados do mundo

Por David Cufré, via Carta Maior

Não deixa de chamar atenção que a Argentina obtenha apoio de parte de alguns símbolos desses setores, como o editorialista estrela do Financial Times.

O papel da Argentina no Consenso de Washington desde o início dos anos 90 lhe rendeu conhecimento internacional. A vontade política expressada pelo menemismo para levar adiante uma política de organização social baseada nos critérios do mercado acumulou elogios dos centros de poder globais.

Simbolicamente, os Estados Unidos até suprimiram o requisito de tramitar visto aos cidadãos argentinos para entrada em seu território. Cada assembleia do Fundo Monetário Internacional era propícia para colocar a Argentina como exemplo de país sério, ordenado, capaz de deixar para trás suas contradições e se atirar em um sistema econômico moderno.

Neoliberalismo em seu estado puro: redução do Estado à sua expressão mínima, livre fluxo de entrada e saída para os capitais especulativos, primazia da valorização financeira sobre a produção, abertura comercial, privatizações – hidrocarbonetos, energia elétrica, telecomunicações, transporte, serviços básicos, indústrias-chave como a siderurgia, a naval e a aeronáutica, espectro radioelétrico e até confecção de passaportes – entrega ao setor financeiro a administração das aposentadorias e desregulamentação trabalhista. Todas essas políticas tiveram sua tradução institucional em leis, decretos e resoluções.

Também houve acordos internacional que tornaram ainda mais profunda a marca do caminho traçado. Atualmente, alerta-se em toda sua dimensão o que significou ceder à solução legal de controvérsias com títulos da dívida nos tribunais dos Estados Unidos. E antes, já haviam sido comprovados os efeitos de aceitar o Ciadi, o tribunal do Banco Mundial para dirimir eventuais conflitos com as privatizadas. Os Tratados Bilaterais de Investimento que floresceram na América Latina acabaram por empacotar a soberania jurídica e outorgá-la aos países mais poderosos.

Se fossem analisadas uma por uma todas as políticas que alimentaram aquela Argentina que acabaria estalando em 2001, seria fácil encontrar nos arquivos documentos e declarações dos “líderes do mundo”, enfatizando sua admiração por tanto compromisso argentino com suas ideias. Conseguiram uma identificação assustadora com os interesses econômicos de seus países, empresas e capitais como se fossem de interesse nacional. Que a Repsol assumisse o controle da YPF, por exemplo, seria o melhor para a Argentina porque permitiria que fizesse render em todo seu potencial as riquezas subterrâneas, algo que a gestão estatal não poderia fazer.

A imprensa local mais influente fez um empréstimo valioso para viabilizar politicamente iniciativas que atentavam contra as maiorias. Os sócios locais daqueles capitais e companhias estrangeiras também fizeram sua parte e, neste bloco, se destacaram – e ainda se destacam – os economistas, que conseguiram ser apresentados pela mídia como gurus. Nesta tarefa sempre foi muito útil a utilização de eufemismos ou conceitualizações vaporosas: a Argentina deveria ser um país sério, moderno, integrado ao mundo.

A eclosão de 2001 varreu com essa estrutura argumentativa e o que ficou à vista de todos foi a realidade. Já não havia maquiagem suficiente para tapar os resultados da doutrina neoliberal, que o país havia abraçado com tanto entusiamo.

Os mesmos “líderes mundiais” que tinham enchido a Argentina de elogios não tiveram vergonha de esconder quanto ganharam seus países, empresas e capitais e colocaram a culpa do ocorrido na “irresponsável” dirigência política local, que não teve a capacidade de fazer o ajuste como deveria. Em todo caso, a administração política local ganhou o “que se vayan todos” por ter seguido de forma tão potente os comandos que chegavam de Washington.

Tanto cinismo, por fim, abriu uma brecha para um projeto político diferente daquele desenvolvido até então. O processo aconteceu com caraterísticas semelhantes na América Latina. E as respostas da imprensa dominante também foram semelhantes. A técnica do eufemismo, apesar de tudo, não desapareceu. Nestes dias de dura luta travada com os fundos abutres, fui ler o jornal La Nación. Em suas páginas, pediu “plasticidade” por parte do governo para resolver o conflito.

Plasticidade, neste caso, seria aceitar as condições dos abutres, que entregariam o país a julgamentos multimilionários, fazendo ruir a reestruturação da dívida de 2005 e 2010.

Mas há uma novidade nesta etapa, que contrasta com o que aconteceu até 2001.

As mensagens que chegam dos espaços de poder internacionais não são uniformes. Não há um discurso único como o que havia até então. Isso talvez seja a melhor expressão da decomposição pela qual atravessa um sistema econômico global monopolizado por setores financeiros.

Neste contexto, a briga da Argentina com os fundos abutres se transformou em um leading case. Completa uma etapa iniciada em 2008 com a crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos. A principal potência mundial experimentou na própria pele os efeitos da desregulação financeira. Isso sacudiu o tabuleiro. Estados Unidos e Europa deveriam aceitar, por exemplo, a convocatória do G-20 para canalizar a situação, dando espaço na mesa de tomada de decisões países em ascensão, como os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e outros países, em um mundo multipolar.

O reconhecimento internacional para a Argentina nos anos 90 vinha pela direita. Agora, não deixa de chamar atenção que o país obtenha apoio de parte de alguns símbolos desses setores, como o editorialista estrela do Financial Times ou a mesmíssima Anne Krueger, outrora número dois do FMI em 2001. A lista de países e instituições que apoiam a posição do governo – um governo progressista, de ruptura com o establishment financeiro, que fez a maior quitação na maior reestruturação da dívida da história – é impactante. E isso também diz respeito ao fato de a economia internacional estar no meio de algo, de um processo que não se sabe onde vai terminar, mas que apresenta questionamentos cada vez mais firma sobre as bases que pautaram seu funcionamento por quatro décadas.

Houve, na sexta-feira (25), uma nova demonstração neste sentido. Mais de uma centena de parlamentares italianos assinaram uma declaração em apoio à Argentina no conflito com os fundos abutre. Afirmaram que “chegou o momento de superar o caos normativo existente em nível internacional para a reestruturação de dívidas soberanas”. A iniciativa foi assinada por 105 legisladores de diversos partidos políticos. O texto proclama a necessidade de “regras e procedimentos de gestão acordados em nível internacional para a reestruturação das dívidas soberanas”. “Casos deste tipo revelam a ausência das regras e normas claras, que envolvem os mercados financeiros em escala internacional, e podem ter consequências graves para um país soberano e para a estabilidade de todo o sistema econômico internacional”, enfatizaram.

Nesse sentido, entenderam que “esta dramática eventualidade” –como se referem ao caso argentino– poderia ter “repercussões mais do que graves, tanto no plano interno argentino”, como sobre “o sistema econômico e financeiro internacional”.

Diante deste panorama, os legisladores disseram que “urge retomar nas instituições financeiras (FMI e Banco Mundial) o caminho para o estabelecimento de um conjunto de procedimentos de gestão acordados, em nível internacional, para a reestruturação das dívidas soberanas”.

Na mesma linha, o secretário adjunto da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal), Antonio Prado, advertiu que a sentença do juiz Griesa “atenta contra o sistema financeiro internacional, porque constitui um precedente que pode obstaculizar outros processos de reestruturação da dívida soberana”. “O caso da Argentina é um leading case para a comunidade internacional, que evidencia um vazio jurídico e deve dar lugar para reformas que permitam proteger os bens comuns”, afirmou o funcionário, ao falar diante do Conselho Sul-americanos de Finanças, em sessão realizada no Palácio San Martín.

Tais manifestações de apoio ao país e questionamentos sobre a falta de regulamentação internacional dos mercados são um elemento que o governo deve continuar considerando nesta briga com os abutres, pois “estar isolados do mundo” já não é mais uma opção.

O retorno de Orwell: a guerra contra a Palestina, a Ucrânia e a verdade

Por John Pilger, via Resistir

Na noite passada assisti à peça “1984″, de George Orwell, encenada num teatro de Londres. Embora clamasse por uma interpretação contemporânea, a advertência de Orwell acerca do futuro foi apresentada como uma peça datada: remota, não ameaçadora, quase reconfortante. Era como se Edward Snowden nada houvesse revelado, como se o Big Brother não fosse agora um espião digital e como se o próprio Orwell nunca houvesse dito: “Para ser corrompido pelo totalitarismo, basta ter de viver num país totalitário”.

Aplaudida pelos críticos, a produção cuidadosa foi uma medida dos nossos tempos culturais e políticos. Quando a luzes acenderam, as pessoas já estavam a sair. Pareciam impassíveis, ou talvez outras distracções as chamassem. “Que mindfuck “, disse uma jovem, a ligar seu telemóvel.

Quando sociedades avançadas são despolitizadas, as mudanças são tanto subtis como espectaculares. No discurso diário, a linguagem política é activida na sua cabeça, tal como Orwell profetizou em “1984″. “Democracia” é agora um dispositivo retórico. Paz é “guerra perpétua”. “Global” é imperial. O outrora esperançoso conceito de “reforma” agora significa regressão, mesmo destruição. “Austeridade” é a imposição do capitalismo extremo sobre os pobres e a prenda do socialismo para os ricos: um sistema engenhoso sob o qual a maioria serve as dívidas dos poucos.

Nas artes, a hostilidade a dizer a verdade é um artigo de fé burguês. “O período vermelho de Picasso”, diz uma manchete do Observer, “e porque política não faz boa arte”. Considere isto num jornal que promoveu o banho de sangue no Iraque como uma cruzada liberal. A oposição de Picasso ao fascismo é uma nota de rodapé, assim como o radicalismo de Orwell desvaneceu-se do prémio que se apropriou do seu nome.

Há alguns anos, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester, calculou que “pela primeira vez em dois séculos, não há qualquer poeta eminente, dramaturgo ou romancista britânico preparado para questionar os fundamentos do modo de vida ocidental”. Nenhum Shelley que fale pelos pobres, nenhum Blake para sonhos utópicos, nenhum Byron a amaldiçoar a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin a revelarem o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não têm hoje equivalentes. Harold Pinter foi o último a levantar sua voz. Dentre as vozes insistentes do feminismo consumidor, nenhuma ecoa Virginia Woolf, que descreveu “as artes de dominar outras pessoas… de governar, de matar, de adquirir terra e capital”.

No National Theatre, uma nova peça, “Great Britain”, satiriza o escândalo das escutas telefónicas que viu jornalistas julgados e condenados, incluindo um ex-editor do New of the World, de Rupert Murdoch. Descrito como uma “farsa com dentes caninos [que] coloca toda a cultura incestuosa [dos media] em causa e sujeita-os a um ridículo impiedoso”, os alvos da peça são as personalidades “abençoadamente divertidas” da imprensa tablóide britânica. Isso está muito bem e soa familiar. Mas o que dizer dos media não tablóides que se consideram sérios e críveis, mas exerce um serviço paralelo como braço do estado e do poder corporativo, como na promoção de guerras ilegais?

O inquérito Leveson sobre escutas telefónicas considerou isto como não mencionável. Tony Blair estava a depor, queixando-se a Sua Senhoria acerca do assédio dos tablóides a sua esposa, quando foi interrompido por uma voz da galeria do público. David Lawley-Wakelin, um realizador de filmes, exigiu a prisão de Blair e que fosse processado por crimes de guerra. Houve uma longa pausa: o choque da verdade. Lord Leveson saltou sobre os seus pés e ordenou a expulsão do que dizia a verdade e desculpou-se junto ao criminoso de guerra. Lawley-Wakelin foi processado, Blair ficou livre.

Os cúmplices permanentes de Blair são mais respeitáveis do que os hackers das escutas. Quando a apresentadora de artes da BBC, Kirsty Wark, o entrevistou sobre o décimo aniversário da invasão do Iraque, ela prendou-o com um momento com que ele sonhava: permitiu-lhe atormentar-se sobre a sua “difícil” decisão sobre o Iraque ao invés de chamá-lo a prestar contas pelo seu crime gigantesco. Isto evocou o cortejo fúnebre de jornalistas da BBC o quais em 2003 declaravam que Blair podia sentir-se “justificado” e as subsequente séries “seminais” da BBC, “Os anos Blair”, para a qual foi escolhido David Aaronovitch autor, apresentador e entrevistador. Um servidor de Murdoch que fez campanha a favor de ataques militares ao Iraque, à Líbia e à Síria, Aaranovitch bajulava com perícia.

Desde a invasão do Iraque – o exemplo de um acto de agressão não provocada que o promotor de Nuremberg, Robert Jackson, classificou como “o supremo crime internacional diferente dos outros crimes de guerra apenas por conter em si próprio mal acumulado do todo” – a Blair e seu porta-voz e cúmplice principal, Alastair Campbell, tem sido concedido um espaço generoso no Guardian para reabilitarem suas reputações. Descrito como a “estrela” do Partido Trabalhista, Campbell tem procurado a simpatia dos leitores pela sua depressão e manifestou seus interesses, embora sua tarefa actual não seja de conselheiro, com Blair, quanto à tirania militar egípcia.

Quando o Iraque é desmembrado em consequência da invasão Blair/Bush, uma manchete do Guardian declara: “Derrubar Saddam estava certo, mas retirámo-nos demasiado cedo”. Isto encontra-se num artigo destacado de 13 de Junho de um antigo funcionário de Blair, John McTernan, que também serviu o ditador instalado pela CIA no Iraque, Iyad Allawi. Ao apelar à repetição da invasão de um país que o seu antigo mestre ajudou a destruir, ele não faz qualquer referência às mortes de pelo menos 700 mil pessoas, a fuga de quatro milhões de refugiados e a tempestade sectária numa nação que outrora orgulhava-se da sua tolerância conjunta.

“Blair corporifica a corrupção e a guerra”, escreveu em 2 de Julho o radical colunista do Guardian, Seumas Milne, numa peça inspirada. Isto é o que se conhece no comércio como “equilíbrio”. No dia seguinte o jornal publicou um anúncio de página interna de um bombardeiro furtivo americano. Sobre uma imagem ameaçadora do bombardeiro constavam as palavras: “O F-35. Bom para a Grã-Bretanha”. Esta outra corporificação da “corrupção e da guerra” custará aos contribuintes britânicos £1,3 mil milhões [€1,64 mil milhões], tendo os seus antecessores modelo F massacrado povos por toda a parte no mundo em desenvolvimento.

Numa aldeia do Afeganistão, habitada pelos mais pobres dos pobres, filmei Orifa, ajoelhada nos túmulos do seu marido, Gul Ahmed, um tecelão de tapetes, e de sete outros membros da sua família, incluindo seis crianças, e duas crianças que foram mortas na casa adjacente. Uma bomba de “precisão” com 500 libras [226,5 kg] caiu directamente sobre a sua pequena casa de barro, pedra e palha, deixando uma cratera com 50 pés [15,2 m] de largura. A Lockheed Martin, o fabricante do avião, tinha lugar de destaque no anúncio do Guardian.

A antiga secretária de Estado e aspirante à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, foi recentemente à “Women’s Hour” da BBC, a quinta-essência da respeitabilidade nos media. A apresentadora, Jenni Murray, considerou Clinton como um farol do êxito feminino. Ela não recordou aos seus ouvintes acerca da abominação de Clinton que invadiu o Afeganistão para “libertar” mulheres como Orifa. Ela nada perguntou a Clinton acerca da sua campanha de terror utilizando drones para matar mulheres, homens e crianças. Não houve menção à ameaça ociosa de Clinton, enquanto em campanha para ser a primeira mulher presidente, de “eliminar” o Irão. Tão pouco acerca do seu apoio à vigilância ilegal em massa e à perseguição de denunciantes.

Murray perguntou-lhe uma questão delicada. Clinton havia perdoado Monica Lewinsky por ter um caso com o seu marido? “Perdoar é uma opção”, disse Clinto, “para mim, era absolutamente a opção certa”. Isto rememorou a década de 1990 e os anos gastos com o “escândalo” Lewinsky. O presidente Bill Clinton estava então a invadir o Haiti e a bombardear os Balcãs, a África e o Iraque. Ele estava também a destruir vidas de crianças iraquianas; a UNICEF relatou a morte de meio milhão de crianças iraquianas com menos de cinco anos em consequência do embargo efectuados pelos EUA e a Grã-Bretanha.

As crianças foram ignoradas pelos media, assim como as vítimas de Hillary Clinton nas invasões que ela apoiou e promoveu – Afeganistão, Iraque, Iémen, Somália – são ignoradas pelos media. Murray não lhes fez referência. Uma fotografia dela e da sua distinta convidada, radiante, aparece no sítio web da BBC.

Na política, tal como no jornalismo e nas artes, parece que a discordância outrora tolerada nos media “de referência” regrediu para dissidência: uma clandestinidade metafórica. Quando comecei minha carreira na Fleet Street na Grã-Bretanha, na década de 1960, era aceitável criticar o poder ocidental como uma força predadora. Ler as celebradas reportagens de James Cameron sobre a bomba de hidrogénio no Atol de Bikini, a bárbara guerra na Coreia e o bombardeamento americano do Vietname do Norte. A grande ilusão de hoje é de uma era da informação quando, na verdade, vivemos numa era dos media na qual a propaganda corporativa incessante é insidiosa, contagiosa, eficaz e liberal.

No seu ensaio “On Liberty”, de 1859, ao qual os liberais modernos prestam homenagem, John Stuart Mill escreveu: “Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros, desde que o objectivo seja o seu aperfeiçoamento e os meios justificados pelos que realmente actuam para aquele fim”. Os “bárbaros” eram vastas parcelas da humanidade da qual era exigida “implícita obediência”. “É um mito bonito e conveniente o de que os liberais são pacifistas e os conservadores belicosos”, escreveu o historiador Hywel Williams em 2001, “mas o imperialismo pelo caminho liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada: sua convicção de que representa uma forma de vida superior”. Ele tinha em mente um discurso de Blair no qual o então primeiro-ministro prometia “reordenar o mundo em torno de nós” de acordo com os seus “valores morais”.

Richard Falk, respeitada autoridade sobre direito internacional e Relator Especial da ONU sobre a Palestina, certa vez descreveu “um quadro legal/moral farisaico, unilateral, com imagens positiva dos valores ocidentais e de inocência retratada como ameaçada, validando uma campanha de violência política irrestrita”. Isto é “tão amplamente aceite ao ponto de ser virtualmente indiscutível”.

Os guardiões são premiados com estabilidade e patrocínio. Na Radio 4 da BBC, Razia Iqbal entrevistou Toni Morrison, a afro-americana laureada com o Nobel. Morrison perguntou porque o povo estava “tão irado” com Barack Obama, que era “óptimo” (“cool”) e desejava construir uma “economia forte e cuidados de saúde”. Morrison estava orgulhosa por ter conversado ao telefone com o seu herói, o qual havia lido um dos seus livros e convidara-a para a sua posse.

Nem ela nem sua entrevistadora mencionaram os sete anos de guerra de Obama, incluindo sua campanha de terror através de drones, na qual famílias inteiras, equipes de resgate e parentes enlutados foram assassinados. O que parecia importar era que um homem de cor que “falava com elegância” havia ascendido ao comando nas alturas do poder. Em “Os condenados da terra”, Frantiz Fanon escreveu que a “missão histórica” do colonizado era servir como uma “linha de transmissão” àqueles que dominavam e oprimiam. Na era moderna, o emprego da diferença étnica nas potências ocidentais e seus sistema de propaganda é agora considerada como essencial. Obama sintetiza isto, embora o gabinete de George W. Bush – sua clique belicosa – fosse o mais multi rácico da história presidencial.

Quando a cidade iraquiana de Mossul caiu nas mãos dos jihadistas do ISIS, Obama disse: “O povo americano fez enormes investimentos e sacrifícios a fim de dar aos iraquianos a oportunidade de traçar um melhor destino”. Quão “cool” é aquela mentira? Quão “elegante” foi o discurso de Obama na academia militar de West Point em 28 de Maio. Ao apresentar o seu discurso dos “estado do mundo” na cerimónia de graduação daqueles que “levarão a liderança americana” através do mundo, Obama disse: “Os Estados Unidos utilizarão força militar, unilateralmente se necessário, quando nossos interesses essenciais o exigirem. A opinião internacional importa, mas a América nunca pedirá permissão…”

Ao repudiar o direito internacional e os direitos de nações independentes, o presidente americano afirma uma divindade baseada no poder da sua “nação indispensável”. É uma mensagem familiar de impunidade imperial, embora sempre reforçada a fim ser ouvida. Evocando a ascensão do fascismo na década de 1930, Obama disse: “Acredito no excepcionalismo americano com toda a fibra do meu ser”. O historiador Norman Pollack escreveu: “Para os incondicionais (goose-steppers), substitui a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E para o líder bombástico, temos o reformador falhado, a trabalhar alegremente para planear e executar assassinatos, a sorrir o tempo todo”.

Em Fevereiro, os EUA montaram um dos seus golpes “coloridos” contra o governo eleito da Ucrânia, explorando protestos genuínos contra a corrupção em Kiev. A secretária de Estado assistente, Victoria Nuland, seleccionou pessoalmente o líder de um “governo interino”. Ela alcunhou-o como “Yats”. O vice-presidente Joe Biden veio a Kiev, tal como o director da CIA John Brennan. As tropas de choque do seu putsch foram fascistas ucranianas.

Pela primeira vez desde 1945 um partido neo-nazi, abertamente anti-semita, controla áreas chave do poder de estado numa capital europeia. Nenhum líder europeu ocidental condenou esta ressurreição do fascismo na fronteira através da qual invasores nazis ceifaram milhões de vidas russas. Eles foram apoiados pelo Ukrainian Insurgent Army (UPA), responsável pelo massacre de judeus e russos a quem chamam “insectos”. O UPA é a inspiração histórica nos dias de hoje do Partido Svoboda e seus companheiros de viagem do Right Sector. O líder do Svoboda, Oleg Tyahnybok, conclamou a um expurgo da “mafia moscovita-judaica” e “outra escória”, incluindo gays, feministas e aqueles na esquerda política.

Desde o colapso da União Soviética, os Estados Unidos têm cercado a Rússia com bases militares, aviões de guerra e mísseis nucleares, no âmbito do seu Projecto de Ampliação da NATO. Renegando uma promessa feita em 1990 ao presidente soviético Mikhail Gorbachev de que a NATO não se expandia “nem uma polegada para Leste”, a NATO efectivamente ocupou militarmente a Europa do Leste. No antigo Cáucaso soviético, a expansão da NATO constitui a maior acumulação militar desde a Segunda Guerra Mundial.

Um Plano de Acção para a pertença à NATO é a prenda de Washington para o regime golpista de Kiev. Em Agosto, a “Operação Tridente Rápido” colocará tropas americanas e britânicas na fronteira russa da Ucrânia e a operação “Brisa Marítima” enviará navios de guerra estado-unidenses frente a portos russos. Imagine a resposta se estes actos de provocação, ou intimidação, fossem executados nas fronteiras da América.

Ao recuperar a Crimeia – a qual Nikita Kruschev ilegalmente destacara da Rússia em 1954 – os russos defenderam-se como haviam feito durante quase um século. Mais de 90 por cento da população da Crimeia votou pelo retorno do território à Rússia. A Crimeia é a base da Frota da Mar Negro e sua perda significaria a vida ou a morte da Armada Russa e um prémio para a NATO. Confundindo os partidos da guerra em Washington e Kiev, Vladimir Putin retirou tropas da fronteira ucraniana e instou russos étnicos no Leste da Ucrânia a abandonarem o separatismo.

Em modo orwelliano, isto foi invertido no Ocidente para a “ameaça russa”. Hillary Clinton comparou Putin com Hitler. Sem ironia, comentadores alemães de direita disseram o mesmo. Nos media, os neo-nazis ucranianos são tornados aceitáveis como “nacionalistas” ou “ultra-nacionalistas”. O que eles temem é que Putin está habilmente a procurar uma solução diplomática – e pode ter êxito. Em 17 de Junho, respondendo à mais recente proposta acomodatícia de Putin – seu pedido ao Parlamento russo para revogar legislação que lhe dava o poder para intervir em prol de russos étnicos na Ucrânia – o secretário de Estado John Kerry emitiu outro dos seus ultimatos. A Rússia deve “actuar dentro das próximas horas, literalmente” para acabar com a revolta no Leste da Ucrânia. Apesar de Kerry ser amplamente reconhecido como um bufão, o objectivo grave destas “advertências” é conferir o estatuto de pária à Rússia e suprimir notícias da guerra do regime de Kiev ao seu próprio povo.

Um terço da população da Ucrânia é de falantes do russo e bilingues. Eles têm desde há muito procurado uma federação democrática que reflicta a diversidade étnica da Ucrânia e seja autónoma e independente de Moscovo. A maior parte não é nem “separatista” nem “rebelde” mas cidadãos que querem viver com segurança na sua pátria. O separatismo é uma reacção aos ataques da junta de Kiev sobre eles, causando a fuga de 110 mil (estimativa da ONU) para a Rússia através da fronteira. Tipicamente, são mulheres e crianças traumatizadas.

Tal como as crianças do Iraque sob embargo e as mulheres e meninas do Afeganistão “libertado”, aterrorizadas pelos senhores da guerra da CIA, este povo de etnia russa da Ucrânia é ignorado pelos media do ocidente, o seu sofrimento e as atrocidades contra ele cometidas são minimizadas ou silenciadas. Nenhum sentido da escala do assalto do regime é reflectido nos media de referência ocidentais. Isto não é sem precedentes. Relendo a obra magistral de Philip Knighteley, ” The First Casualty: the war correspondent as hero, propagandist and mythmaker”, reitero minha admiração pelo Morgan Philips Price do Manchester Guardian, o único repórter ocidental a permanecer na Rússia durante a revolução de 1917 e a relatar a verdade de uma invasão devastadora pelos aliados ocidentais. Sem preconceitos e corajoso, só Philips Price perturbou o que Knightley chamou de um “escuro silêncio” anti-russo no ocidente.

No dia 2 de Maio, em Odessa, 41 russos étnicos foram queimados vivos na casa dos sindicatos com a polícia a assistir. Há horrendas provas em vídeo. O líder do Right Sector, Dmytro Yarosh, louvo o massacre como “mais um dia brilhante na nossa história nacional”. Nos media americanos e britânicos, isto foi relatado como uma “tragédia obscura” resultante de “choques” entre “nacionalistas” (neo-nazis) e “separatistas” (pessoas a colherem assinatura para um referendo sobre uma Ucrânia federal). O New York Times enterrou o assunto, tendo descartado como propaganda russa advertências acerca das políticas fascista e anti-semita dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal amaldiçoou as vítimas – “Incêndio fatal na Ucrânia provavelmente ateado pelos rebeldes, diz o governo”. Obama congratulou a junta pela sua “contenção”.

Em 28 de Junho, o Guardian dedicou quase toda uma página a declarações do “presidente” do regime de Kiev, o oligarca Petro Poroshenko. Mais uma vez, a regra da inversão de Orwell foi aplicada. Não houve putsch, nenhuma guerra contra a minoria da Ucrânia; os russos eram culpados por tudo. “Queremos modernizar meu país”, disse Poroshenko. “Queremos introduzir liberdade, democracia e valores europeus. Alguém não gosta disso. Alguém não gosta de nós por isso”.

Nesta reportagem, o entrevistador do Guardian, Luke Harding, não desafiou estas afirmações, ou mencionou a atrocidade de Odessa, os ataques aéreos e de artilharia do regime contra áreas residenciais, a morte e sequestro de jornalistas, o ataque com bombas incendiárias a um jornal da oposição e a sua ameaça de “libertar a Ucrânia de excrementos e parasitas”. O inimigo são “rebeldes, “militantes”, “insurgentes”, “terroristas” e sequazes do Kremlin. A actual campanha para culpar o governo russo pelo derrube do avião malaio faz parte desta propaganda. Na verdade, o crime do derrube daquele avião civil é um resultado directo do putsch de Obama na Ucrânia. Evoca da história os fantasmas do Vietname, Chile, Timor Leste, África do Sul, Iraque. Observa-se a reprodução das mesmas etiquetas, as mesmas falsas bandeiras. A Palestina é imã deste logro constante. A seguir à última carnificina de Israel em Gaza, com equipamento americano, de mais de 800 palestinos – incluindo 120 crianças – um general israelense escreve no Guardian: “Uma demonstração de força necessária”.

Na década de 1970 encontrei Leni Riefenstahl e perguntei-lhe acerca dos seus filmes que glorificavam os nazis. Utilizando técnicas de câmera e de iluminação revolucionárias, ela produziu uma forma documentário que hipnotizou os alemães. Foi o seu “O triunfo da vontade”, que segundo se crê lançou o discurso de Hitler. Perguntei-lhe acerca da propaganda em sociedades que se imaginavam superiores. Ela respondeu que as “mensagens” nos seus filmes estavam dependentes não de “ordens de cima” mas de um “vazio submisso” na população alemã. “Isso incluía a burguesia liberal e educada?”, perguntei-lhe. “Toda a gente”, respondeu, “e naturalmente a intelligentsia”.

O editorial e a luta de classes

Por Cátia Guimarães, via Observatório da Imprensa

A maior afronta ao Estado de direito no Brasil não são os black blocs, como defendem os pacifistas, e nem mesmo os miseráveis embrutecidos da Polícia Militar, como costumam apontar os radicais. A instituição que mais corrói até os limitados caminhos de liberdade que a democracia capitalista pode oferecer não precisa usar máscaras nem se expor ao descontentamento das ruas. Organizações Globo: esse é o aparelho privado de hegemonia que assumiu, sem medos, o papel de recolocar o barco na direção que ele seguia antes dos abalos de junho. Mas quem leu Gramsci sabe que hegemonia é mais do que um disciplinamento artificial, que o bom resultado desse processo, para a classe que quer se manter dirigente, requer que a relação entre consenso e coerção, força e convencimento, seja razoavelmente equilibrada. Quando abusa da força – ainda que só ideologicamente –, atacando violentamente todos os indivíduos, grupos e instituições que acompanham os movimentos das ruas, o/a Globo está pondo em risco a dimensão do consenso estável.

Toda a cobertura das prisões políticas ocorridas no Rio de janeiro, mas também em São Paulo, traz evidências disso. Na edição de quarta-feira (23/7) do Jornal Nacional, William Bonner não conseguiu disfarçar a cara de derrota e desaprovação quando deu a notícia de que o desembargador Siro Darlan havia concedido habeas corpus para 23 presos políticos. Informação e cara feia, nem um detalhe a mais. Mas o último golpe de verdade, pelo menos enquanto escrevo, foi um editorial publicado no dia anterior (22/7), intitulado “Entre a liberdade de manifestação e a criminalidade”, em que o jornal O Globo diz, no espaço de opinião, tudo aquilo que ele tentou travestir de informação nas matérias que fingiu que eram jornalísticas.

Mentiras e meias verdades

O texto dá destaque ao fato de “repórteres da imprensa profissional” terem se “transformado em alvo” dos vândalos (ilustrados pelos black blocs, mas não só), lembrando, como sempre, da morte do cinegrafista Santiago Andrade. Com isso, ignora no editorial, como sempre ignorou nas reportagens, a informação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo que mostra que 70% dos casos de agressão contra profissionais da imprensa em manifestações partiu da Polícia Militar, e não de ativistas.

O editorial informa que, “liberada parte do material colhido pela polícia nas investigações, ficou-se sabendo que poderia ter havido uma carnificina nas manifestações que programaram para o dia seguinte, o da final, na Tijuca”. Em primeiro lugar, é bom esclarecer que o material não foi “liberado”, mas traficado por autoridades do Estado brasileiro diretamente para as Organizações Globo, que tiveram acesso ao inquérito antes do desembargador envolvido no caso e antes mesmo dos advogados de defesa. Portanto, “ficou-se sabendo” pelo/a Globo algo que não podia ser contestado no detalhe simplesmente porque o sujeito oculto do/da Globo não funcionou para o direito de defesa que a democracia garante.

Até que o julgamento termine – na verdade, ele primeiro precisa começar, porque até agora só houve condenação pública – e a polícia (e o/a Globo, claro) prove que drink significa coquetel molotov, líquido significa gasolina e livro significa bomba, a “carnificina” poderia ser considerada, no máximo, uma bebedeira intelectual. Se quisesse ser sensacionalista e irresponsável como o editorial do Globo, eu diria que aconteceu, de fato, uma carnificina na Tijuca, no dia da final da Copa, só que feita pela polícia. Não foi uma carnificina, não houve “matança” ou “extermínio”, que é o que essa palavra significa, mas houve gente presa por horas numa praça pública e pessoas feridas impedidas de voltar para casa ou de seguir para um hospital. E quem fez isso foram vândalos armados e fardados, organizados numa quadrilha oficial.

O editorial afirma a adesão acrítica e unilateral às informações incompletas da polícia, que as matérias publicadas pelo jornal já tinham deixado claro. Informa que as ligações telefônicas grampeadas pela polícia e “vazadas” pelo Globo apontam conversas sobre compra de fogos de artifício e confecção de bombas. Isso é mentira. Como não temos acesso a todo material do processo, não se sabe se essas conversas existem, mas o que foi disponibilizado pelo/a Globo não contém esse conteúdo.

Em nenhuma gravação apresentada pelo “furo de reportagem” desse grupo empresarial travestido de jornalístico fala-se em nada do que o editorial cita. A única referência próxima aparece quando um dos meninos investigados comenta, com sua interlocutora, sobre o coquetel molotov que ele viu cair sobre um policial. Ele ri e comemora, é verdade. O Globo só esquece de dizer que isso (o riso e a felicidade íntima com o fato) não é crime. Logo depois das primeiras manifestações de junho, ouvi uma liderança de favela contar que a maior felicidade para os moradores de comunidade que estavam na passeata foi ver os black blocs colocarem o “caveirão” para correr. Para pessoas que vivem oprimidas por uma polícia que humilha, bate e mata diariamente, principalmente nos bolsões de pobreza desse estado, não se pode pedir sentimento cristão. Não comemorei nenhuma violência pessoal sofrida por qualquer pessoa em qualquer manifestação, mas não vou fazer julgamento moral de quem sofre a dor que eu não sofro e muito menos transformar isso em crime. Lamento pelas almas sensíveis, mas a fila da nossa sensibilidade está grande, com Amarildos, Cláudias e muitas crianças palestinas para serem choradas na frente.

Do editorial para as ruas

Por fim, o editorial volta a atacar partidos políticos e sindicatos – estes referidos como “máquinas sindicais” – citando, nominalmente, o PSOL, o Sindspetro, Sindsprev e Sepe. Acusa-os de cometerem “ilegalidade”, sendo “cúmplices de atentados” e de apoiarem “organizações antidemocráticas, contrárias à Constituição”. Critica diretamente os parlamentares do PSOL que formalizaram uma queixa contra o juiz que decretou as prisões políticas junto ao Conselho Nacional de Justiça e, numa insinuação leviana, quase lamenta que o PSOL “continue a negar” seu envolvimento, não se sabe bem com o quê.

Para qualquer leitor minimamente informado e bem intencionado, não é preciso apontar o mundo de discordâncias e turbulências entre partidos políticos e movimentos sociais combativos à participação eleitoral que o editorial do Globo oportunamente ignora. O esforço é de matar todos os coelhos com uma cajadada só mas, para nos mantermos entre os ditos populares, o tiro pode sair pela culatra.

Que os anjos digam amém e a união que o Globo promoveu transborde das páginas do jornal e se transforme em ação efetiva. Que a solidariedade em função dos presos políticos, que articulou frações muito diversas de indignados com a violência e a arbitrariedade a que chegamos, sobreviva às diferenças. Que os partidos políticos “mais à esquerda” e sindicatos não recuem, e não aceitem se defender daquilo que é – ou deveria ser – a sua própria razão de existência: a relação orgânica com os movimentos sociais organizados, com as lutas populares e com a democracia direta. Transformar em acusação a solidariedade de classe, materializada no apoio financeiro e logístico a manifestações, e o exercício efetivo da representação popular que justifica um mandato eleitoral é parte da estratégia de trazer as forças sociais para o campo de quem se coloca contra elas, sob a falsa máscara do terreno neutro da democracia, que só é convocada nessa hora para mostrar os seus limites.

O momento atual no Brasil é pedagógico em ensinar que não se pode cair na armadilha de submeter inteiramente a luta concreta à institucionalidade porque, sozinha, a institucionalidade é o terreno do outro. Não há, portanto, direito de resposta que dê conta da concretude que o editorial do Globo e todo esse ataque aos princípios mínimos da democracia representam. A resposta está nas ruas, antes, durante e depois das eleições, no Executivo, no Legislativo e, principalmente, na organização de base. O importante é saber que, em todos esses espaços, existem eles e existimos nós. O nome disso é luta de classes.

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Globo inventa novo modelo de jornalismo investigativo

No tempo em que a democracia se disfarçava de bem comum, a imprensa se disfarçava de instrumento da democracia. Como tratou-se, desde sempre, da democracia burguesa, o fato de essa imprensa ter se tornado grande empresa capitalista não era um inconveniente porque o seu grande trunfo era a independência em relação ao Estado. O argumento era que a “livre concorrência” no mercado e a liberdade de “escolha individual” – o tal poder do controle remoto – seriam suficientes para impedir que interesses particulares se sobrepusessem aos interesses da sociedade. Claro que isso nunca foi verdade, até porque, no frigir dos ovos, apesar de todas as disputas internas, o Estado é instrumento de classe e, não por acaso, da mesma classe que a grande imprensa representa. Mas essa imagem fazia parte do jogo. E uma das ferramentas mais importantes desse papel que a imprensa dizia desempenhar na democracia que se dizia ter é o jornalismo investigativo, que andava mal das pernas, mas acaba de ser ressuscitado numa versão adaptada.

Depois de uma primeira cobertura abstrata, em que sobravam adjetivos e faltavam dados sobre as prisões de manifestantes ocorridas no Rio de Janeiro no dia 12/7, o/a Globo saiu a campo, correu contra o tempo e nos brindou com uma enxurrada de informações em primeira mão, verdadeiros furos de reportagem. Não é jornalismo investigativo e sim um jornalismo que reproduz a investigação dos outros – nesse caso, a polícia. Mas como também não é democracia, quem vai notar a diferença?

No lugar daquela imagem romântica do jornalista que segue pistas, convence fontes e apura as inconsistências e os não-ditos, principalmente das ações relacionadas ao Estado, temos altos executivos que, provavelmente com um simples telefonema a um dos seus, conseguem acesso a um inquérito que nem o desembargador envolvido no caso nem os advogados dos acusados tinham lido. A isso se chama furo de reportagem e ainda se diz que faz bem à tal da democracia. No lugar das emocionantes descobertas e desmentidos públicos, temos a reprodução, sem dúvidas nem questionamentos, do que a polícia diz que viu, ouviu e encontrou e tudo apresentado de forma mais concisa, definitiva e dinâmica do que no relatório da investigação. Durma-se com um barulho desses: os grandes jornalistas do/da Globo viraram copidesques da polícia.

Manipulação explícita

Foi assim que o Globo e o Jornal Nacional nos explicaram, didaticamente, que quando um manifestante fala “líquido” ou “drink”, ele quer dizer “gasolina” ou “coquetel molotov”. Entenderam? Nem eu. Não tenho ideia do que essas pessoas conversavam entre si, mas a tal grande imprensa que se diz independente deveria estar apurando junto à polícia explicações sobre como se chegou a essa conclusão. A polícia – que compõe o Estado – investiga o cidadão e a imprensa – que na farsa que se manteve até pouco tempo, fingia vigiar o Estado em defesa do cidadão – reproduz a investigação da polícia. Simples assim.

Atos que teriam sido descritos por testemunhas – que não são identificadas nas matérias e não se sabe se o são no inquérito –, ouvidas pela mesma polícia que acusa, nas páginas dos jornais viram afirmações de atos e vontades dos manifestantes presos. E tudo isso caprichado nas tintas, lançando-se mão de recursos escusos para promover uma manipulação muito explícita, própria de um período em que os grupos garantidores dos seus interesses de classe partem para o tudo ou nada.

Num momento tenso e decisivo para o desenvolvimento do caso, exatamente enquanto uma das ativistas que está com a prisão decretada pedia asilo no consulado do Uruguai, o Globo online publicou aquela que deve ter sido a chamada mais corajosamente desonesta da história desse grupo empresarial no pós-ditadura empresarial-militar: “Eloísa Samy ordenava atos violentos e fazia reuniões em casa”. Subchamada: “Advogada pede asilo político ao consulado do Uruguai no Rio”. Assim mesmo, sem “segundo fulano”, “de acordo com beltrano”. O jornal repete, em nome próprio, assumindo para si, a acusação de alguém que nem foi julgado.

Pouco tempo depois, o texto mudou – “Eloísa Samy é acusada de organizar atos violentos entre ativistas” –, mas, para não deixar dúvidas sobre a certeza que o jornal queria provocar, acrescentou-se um link em que se lia: “Escuta revela que Samy avisou manifestantes sobre busca e apreensão”. São chamadas que não correspondem aos títulos, que não correspondem ao conteúdo da matéria e, portanto, não informam coisa alguma. Desafio alguém que, influenciado por essa campanha vergonhosa, esteja apoiando a prisão dessas pessoas, a me explicar, a partir das informações dos jornais, qual foi o crime que essa moça cometeu. Talvez no inquérito as coisas estejam mais organizadas e façam algum sentido, mas o fato é que, na imprensa, há um claro e intencional esforço de desorganização e fragmentação das informações que, não compreendidas, só reforçam o senso comum conservador que, de modo geral, prefere a concretude da repressão, mesmo que injustificada, à abstração da garantia de liberdades e direitos.

Problemas e limites

Não foi um caso isolado: “Sininho admite que há provas para ser indiciada em MG”, dizia outra chamada amplamente repetida no Globo online, com variações na versão impressa e nos outros veículos desse grupo empresarial. Em primeiro lugar, vale perceber que essa fórmula sugere ao leitor menos atento que houve um fato novo – algo como uma confissão da militante, transformada em inimiga pública número 1 pela grande imprensa brasileira. Mas isso nem de longe é o pior. O texto da matéria explica que a informação anunciada na chamada constaria de uma conversa telefônica gravada, que estaria transcrita no relatório do inquérito a que o veículo teve acesso. Mais uma vez, é trabalho da justiça apurar a procedência da “prova”, mas, jornalisticamente, o pulo do gato, com o qual as autoridades que “vazaram” o inquérito para o/a Globo certamente contaram, foi o fato de a primeira versão dessa matéria conter o link para o áudio de uma conversa telefônica da tal Sininho.

A conversa traz as palavras-chave – polícia e Minas Gerais –, mas não há nela qualquer referência a provas ou outra coisa que indique confissão de algum crime. Ao contrário: o principal argumento da ativista para não ir a Minas é que lá as coisas estavam mais tensas, com gente colocando fogo em ônibus. Há, portanto, um áudio que não corresponde ao que é citado na matéria e destacado no título e na chamada – mas quantas pessoas sabem disso? Quantos se deram ao trabalho de clicar no link, ouvir o áudio até o final e comparar com a (des)informação produzida pelo jornal? E qual o feito que isso poderia ter em meio a um bombardeio de acusações sem defesa? Na cobertura inicial, junto com jornais subversivos, computadores e celulares, a diferença entre uma garrafa de gasolina e um explosivo era principalmente constrangedora.

No meio do que se tenta vender como um “furo de reportagem”, a distância entre o que a matéria descreve e o que o áudio mostra denota a mais pura e consciente desonestidade. O julgamento passa a ser feito pelas páginas dos jornais ou pelo sorriso do William Bonner e o resultado é que tudo que a conquista da democracia, com todos os seus problemas e limites, garantiu, como direito de defesa e presunção de inocência, está sendo diariamente rasgado pelas Organizações Globo, sem que se possa fazer nada.

Versão atualizada do Cidadão Kane

Não faltaram outros artifícios rasteiros, que criam sentido pelo impacto e pela fragmentação. A imagem impactante de um incêndio em que uma pessoa aparece com o braço levantado, aparentemente comemorando, foi repetida mesmo sem que houvesse qualquer relação desse caso e dessa pessoa com os envolvidos e com o conteúdo das matérias; deu-se destaque a uma fala em que a tal Sininho comemora a derrota da seleção brasileira, numa tentativa vulgar de aumentar a rejeição pública a essa moça, que foi alçada a liderança maligna não se sabe do quê nem por quê; ressaltou-se, na mesma fala, a frase em que a “vilã” da vez comenta que a manifestação do jogo da final da Copa vai “bombar”, num lamentável esforço de associar essa gíria ao uso de bombas; e por aí foi.

Mas não parou. Depois de esgotar todas as combinações possíveis de fragmentação sensacionalista das informações, insinuando sem mostrar e julgando sem provar, o/a Globo reeditou a fórmula que foi amplamente usada no momento seguinte às manifestações de junho do ano passado. Depois da inimiga pública individual, resgataram-se os inimigos públicos coletivos, que também foram artificial e interesseiramente construídos: os sindicatos e partidos políticos. Embora faça questão de dizer que manifestar – pacificamente – não é crime, a doação de comida, transporte e carro de som para manifestantes é mais uma vez tratada como financiamento de atos criminosos em defesa de interesses escusos dos sindicatos envolvidos. Para isso, basta juntar as duas informações – a doação e a ocorrência de algum ato de violência em algum protesto – e produzir uma chamada sensacionalista.

Como é parte do processo de construção ideológica a disseminação de valores que são próprios da ordem burguesa, como o individualismo, a competição e a primazia dos interesses particulares, é fundamental que qualquer manifestação de solidariedade de classe, que é o único recurso de que os trabalhadores dispõem, seja rapidamente transformada em aparelhamento institucional, barganha de interesses ou mesmo formação de quadrilha. É no mínimo curioso que ninguém tenha usado as mesmas lentes “investigativas” para denunciar o apoio financeiro que o ex-governador Sergio Cabral deu, em 2012, para garantir a presença de manifestantes nas ruas contra a distribuição dos royalties do petróleo. Na época, para incentivar a presidente Dilma Rousseff a vetar o projeto que havia sido aprovado no Congresso, e que se argumentava que traria muitos prejuízos ao estado do Rio, não só vários o ônibus foram alugados para trazer pessoas de diferentes cidades do estado como o então governador decretou ponto facultativo para o serviço público. Era dinheiro público financiando manifestação, mas a imprensa não achou que era um problema. Essa é a cara, sem máscara, da liberdade de imprensa burguesa, calcada no modelo profissional do jornalismo burguês.

E não é nova. Diz a lenda que, em 1896, quando um repórter do New York Journal enviado a Cuba para cobrir a guerra hispano-americana informou que estava voltando porque, chegando lá, descobriu que não havia guerra nenhuma, William Hearst, um dos mais famosos empresários da imprensa dos EUA, e que tinha muito interesse no conflito, teria respondido simplesmente: “Não volte. Você enviará as fotos e eu farei a guerra”. Não se sabe se esse diálogo é verídico, mas ele parece perfeito para ilustrar o processo de manipulação explícita que as Organizações Globo estão promovendo na cobertura das prisões políticas que denunciam os limites intransponíveis da democracia burguesa. “Me mande o inquérito que eu produzo as provas”: eis a versão mais atualizada da adaptação brasileira do Cidadão Kane.