Arquivo mensais:agosto 2014

Veja continua (inacreditavelmente) pautando a mídia

Por Luis Nassif, em seu blog

Nos anos 2.000, a Folha cometeu o maior erro estratégico da sua história moderna, indo a reboque da revista Veja. Não apenas ela, mas os demais veículos.

Dias desses cruzei com o diretor de redação de uma grande publicação, ferozmente anti-governo. Sem que o provocasse, comentou comigo que Veja não faz jornalismo.

Ou seja, mesmo na frente-mídia montada em 2005, o jornalismo de Veja é motivo de vergonha, a maneira como ideologizam qualquer besteira, o fato de não ter a menor preocupação em se ater aos fatos.

Ou seja, o padrão Veja ajudou a desmoralizar o jornalismo como um todo, lançou ao descrédito todos os grupos de mídia. É só conferir o desafio gigantesco da Folha para recuperar a imagem perdida, tendo que “explicar” aos leitores qual sua posição e qual a dos colunistas.

Aliás, a posição de um jornal não é o que sai nos editoriais (de baixa leitura) mas na cobertura diária.

A repercussão dada ao factoide da Veja desta semana – tratando como escândalo o suposto conhecimento prévio, pelos convocados da CPI da Petrobras, das perguntas que seriam formuladas, beira o ridículo. Escândalo é continuar se valendo de instrumentos de espionagem, mantendo o padrão que, na Inglaterra, levou jornalistas à prisão, e por aqui continua sendo totalmente tolerado.

Ontem um amigo me ligou dizendo que o Jornal Nacional dedicou quase dez minutos de cobertura. O efeito-manada faz com que Estadão e Folha vão atrás.

Não adianta. Mesmo com o Instituto Millenium, com o fórum da ANJ, com os consultores midiáticos, a mídia padece de uma ausência total de visão estratégica. Não tem o menor cuidado ao se misturar com a lama.

Desmascarando o engodo tucano sobre os impostos

Por Claudio Ribeiro, via Palavras Diversas

A tabela que ilustra este post demonstra, claramente, que quem posa de justo com a questão fiscal, não diz a verdade para a opinião pública, contando com um esquecimento providencial que o tempo e a mídia podem fornecer.

Frequentemente é possível identificar porta vozes do pensamento neoliberal, que vem a público para dizer que é preciso baixar impostos, desonerar o setor produtivo e aliviar os assalariados.

De fato, creio que estes setores precisam ser desafogados e que os impostos passem a incidir sobre grandes fortunas e lucros apurados. Liberando o consumidor e o empregador de parte da carga tributária.

Mas é preciso estar atento sobre quem está fazendo tal discurso.

Não é raro encontrar ex-integrantes do governo FHC fazendo tal defesa na imprensa. Cantam a pedra da carga tributária, a mesma que atiraram sobre os pequenos e médios empresários e o trabalhador ao longo de 8 anos de arrocho fiscal.

Entre janeiro de 1995 e dezembro de 2002 a inflação acumulada no governo tucano foi 100,06%. Mas a tabela que corrige as isenções de imposto de renda para pessoa física foram corrigidas em apenas 56,4%, chegando a ficar congelada por seis longos anos!

O trabalhador foi duramente penalizado e a tributação para quem vivia de salário neste período cresceu bastante. E isto não foi suficiente para equilibrar as finanças do governo, pois a carga tributária explodiu e o país teve que, de joelhos, recorrer ao FMI por três vezes em oito anos!

E são estes senhores que vem bradar contra a carga tributária? Não possuem legitimidade para isso, pois foram os agentes do desequilíbrio das contas públicas, mesmo tendo arrecadado cerca US$80 bilhões com as privatizações.

Como efeito de comparação, nos governos Lula/Dilma, entre 2003/2013, a inflação acumulou uma taxa de 87,04%, ou seja, em 11 anos cresceu menos que nos oito anos de FHC.

No mesmo sentido, Lula e Dilma diminuíram a defasagem referente a correção da tabela de imposto de renda pessoa física neste período, que chegou a 61,7%.

Resumo: inflação menor, correção da tabela de imposto de renda maior entre 2003 e 2013.

O cinto foi desapertado para o trabalhador assalariado e a situação fiscal do governo melhorou bastante neste período, sem necessitar recorrer ao organismos financeiros internacionais. Aliás, o governo petista pagou o que devia e ainda emprestou U$10 bilhões ao FMI!

É óbvio que ainda é preciso melhorar a tributação brasileira, mas não são estes que hoje posam de sabedores da fórmula mágica que apresentarão uma proposta justa.

O que buscam, dissimuladamente, é defender os interesses dos grandes bancos privados e aumentar os ganhos do cassino financeiro, com a adoção de juros mais altos.

Definitivamente, este não é o caminho.

Desonerar a folha de pagamento, gradualmente; aumentar o valor de isenção de impostos para as pessoas físicas e criar novas alíquotas para quem ganha mais; taxar, pesadamente, grandes fortunas, terras improdutivas, o lucro apurado e o sistema financeiro é parte da solução para se chegar a um sistema de tributário mais justo.

O que se escuta ou se lê nos dias atuais, através da imprensa dita especializada, ou é malabarismo político eleitoral, ou apenas a defesa de grandes clientes em busca de mais dinheiro.

É preciso estar atento aos “defensores” da desoneração fiscal, pois os cordeiros de hoje, são aqueles velhos lobos de ontem…

“Denúncia” de Veja, repercutida em 4 minutos e 42 segundos do Jornal Nacional, faz lembrar ofensiva midiática de 2006

Por Luiz Carlos Azenha, via Viomundo

De volta ao passado: o objetivo então era levar ao segundo turno. Levaram. Viomundo/Reprodução

O “novo escândalo” da Veja, sobre suposto vazamento de perguntas — que de qualquer forma seriam tornadas públicas — aos que foram ouvidos na CPI da Petrobras me parece uma manobra diversionista para mudar de assunto. Tirar o noticiário de Cláudio e Montezuma e trazer Dilma Rousseff mais uma vez para o domínio absoluto das manchetes.

Quando eu era repórter da TV Globo, em 2005, antecedendo minha primeira cobertura de eleições presidenciais no Brasil — havia morado quase duas décadas nos Estados Unidos –, uma investigação que fizemos sobre caixa 2 em Goiás acabou em uma das CPIs que trabalhavam simultaneamente em Brasília.

Vi com meus próprios olhos uma importante jornalista da Globo, de alta patente, que me ciceroneava em um ambiente desconhecido, visitando gabinetes de deputados e senadores para troca de informações. No do então deputado ACM Neto, que participaria do depoimento do homem investigado por nós, houve até entrega de documentos e sugestão de perguntas. Eu vi isso acontecer e, francamente, não me espantei.

Se o objetivo de uma CPI é esclarecer os fatos, não há perguntas, nem assuntos secretos. Os depoentes devem trazer todos os esclarecimentos que forem necessários à opinião pública. A existência de parlamentares de diferentes correntes políticas é garantia de que teremos todo tipo de pergunta, das “levantadas de bola” às “pegadinhas”, das críticas às bajulatórias. Bancadas inteiras combinam estratégias. Não há motivo para guardar nenhuma informação em sigilo, se se pretende de fato esclarecer o assunto.

Qual é o problema de perguntas serem organizadas para facilitar os esclarecimentos do depoente? Isso não significa que ele vá responder apenas àquelas perguntas, já que a oposição estará presente. O problema está nas mentiras do deponte, não nas perguntas feitas a ele. Não há nada de errado quando um governo tenta vender à opinião pública sua versão dos fatos, desde que a oposição possa, igualmente, fazê-lo. Vamos combinar que não falta espaço na mídia à oposição brasileira, certo?

Portanto, trata-se de uma denúncia tola, transformada em manchete por uma gravação subterrânea, vendida como “comprometedora”.

O que me chamou a atenção naquela CPI de 2005, na verdade, foi que o homem por nós investigado, dono de uma seguradora, quando abriu os arquivos em seu depoimento deixou claro que havia feito doações por fora a todos os partidos políticos, não só ao PT mas também ao PSDB, PMDB, PFL e outros. Assim que isso ficou explícito e demonstrado, acabou nossa investigação. Fui mandado de volta a São Paulo…

Naquele período eleitoral, também constatei por dentro a mecânica da mídia: denúncia na capa da Veja entre sexta e sábado, repercussão acrítica no Jornal Nacional de sábado, bola rolando a partir de domingo na Folha, Estadão e O Globo.

Não foi o que se chama de “nota pelada” do Jornal Nacional, algo passageiro, sem imagens, na edição de ontem. Foram 4 minutos e 42 segundos falando sobre a denúncia de Veja, uma enormidade! Se fosse em comerciais, teria um custo próximo dos R$ 4 milhões. Frequentemente, quando eu era correspondente em Nova York, precisava explicar assuntos complexos, como a crise que precedeu a invasão do Iraque, em 60 segundos.

O que a Globo fez ontem se chama no meio jornalístico de “dar pernas” a uma denúncia.

Eu mesmo, num plantão, fui convocado a fazer uma destas “reportagens”, denúncia que envolvia um irmão do então presidente Lula e que não deu em nada. Muita fumaça, pouco conteúdo. Argumentei com meu chefe direto que seria impossível fazer uma apuração independente do conteúdo da revista. Estávamos dando tudo aquilo como límpido e verdadeiro. O certo seria fazer nossa própria apuração a partir dos dados trazidos pela Veja. E se as informações não se confirmassem? Resposta dele: é isso mesmo, é apenas para reproduzir trechos da revista.

Foi nesse quadro que, mais tarde, houve um revolta interna na redação da Globo de São Paulo, que envolveu um grande número de profissionais, resultou na demissão de Rodrigo Vianna e, mais tarde, influenciou minha decisão de pedir rescisão antecipada de meu contrato, que venceria quase dois anos depois, para estudar internet nos Estados Unidos. Não me arrependo e, a julgar pelo que aconteceu neste fim-de-semana, vejo que o método da mídia corporativa não mudou. Saiu na capa de Veja, teve grande repercussão no Jornal Nacional e…

A suspeita que eu tinha então agora está desfeita. Não duvido mais que seja tudo combinado. Se não fosse, por que a denúncia da Folha sobre o aeroporto de Cláudio não detonou imediatamente o mesmo rolo compressor investigativo?

Talvez a existência dos blogs e das redes sociais tenha acabado com as mentiras mais deslavadas. A manipulação da mídia corporativa agora é exercida na escolha da pauta e nos recursos direcionados para apurar este ou aquele assunto, de acordo com as conveniências políticas, econômicas ou ideológicas. De volta a 2006!

 

Pepe Escobar: A Plutocracia Ocidental lança a caça ao urso

Por Pepe Escobar, via Asia Times Online

O status quo pós-Guerra Fria na Europa Ocidental está morto.

Para a plutocracia ocidental, aquele 0,00001% do topo, os reais Patrões do Universo, a Rússia é a meta final; tesouro imenso de recursos naturais, florestas, água limpa, minérios, petróleo e gás. Mais do que suficiente para levar ao êxtase qualquer jogo de guerra orwelliano/Panopticon NSA-CIA. Como meter as garras e lucrar de tão formidável butim?

Entra em cena a OTAN-Globocop. Nem bem acabaram de terem seus traseiros coletivos chutados por um bando de guerrilheiros de montanha armados com Kalashnikovs, os exércitos da Organização do Tratado Atlântico Norte já lá se vão, pivoteando-se rápido – o mesmo velho jogo Mackinder para Brzezinski – para a Rússia. O mapa do caminho será arrematado na reunião do grupo no início de setembro em Gales.

Entrementes, a tragédia do MH17 passa por rápida metamorfose. Se se combinam (i) as observações no local feitas por investigador canadense da Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) (assistam cuidadosamente ao vídeo[1]) e (ii) a análise feita por um piloto alemão,[2] surge forte probabilidade que aponta para um jato Su-25 ucraniano que disparou canhão automático de 30mm contra a cabine do MH17, o que levou a descompressão massiva e à queda.

Nada de míssil – nem mesmo algum R-60M ar-ar, e nem se fala de BUK (estrela da boataria inicial frenética disparada pelos norte-americanos). A nova possível narrativa combina perfeitamente com o que disseram testemunhas oculares em matéria da BBC[3] agora famosa por ter sido “desaparecida” da página da BBC. Resumo da ópera: o caso MH17 tem tudo para ter sido operação de ‘falsa bandeira’, desgraçadamente planejada pelos EUA e desgraçadamente executada por Kiev. Não se consegue nem imaginar as repercussões geopolíticas tectônicas se, por acaso, todo o ‘plano’ for exposto em todos os verdadeiros pormenores.

A Malásia entregou os gravadores de voo aos britânicos, o que significa “OTAN”, o que significa que serão manipulados pela CIA. O voo AH5017 da Air Algerie caiu depois do MH17. A análise dos gravadores já foi divulgada. Só falta explicar por que é preciso tanto tempo para analisar/apagar/reescrever os registros das caixas prestas do MH17.

E aí começa o jogo das sanções: a Rússia é culpada de tudo – sem prova alguma –, então, tem de ser castigada. A União Europeia seguiu abjetamente a Voz do Dono e adotou todas as sanções mais linha-dura contra a Rússia que discutiram semana passada.

Mas há buracos. Moscou terá acesso reduzido aos mercados de dólar norte-americano e euro. Bancos estatais russos estão proibidos de vender ações ou títulos do ocidente. Mas o Sberbank, maior banco da Rússia, não foi sancionado.

Quer dizer: no curto e no médio prazo, a Rússia terá de se autofinanciar. Ora, bancos chineses podem facilmente suprir esse tipo de empréstimo. Não esqueçam a parceria estratégica Rússia-China. Como se Moscou precisasse de mais algum aviso de que o único modo de seguir adiante é afastando-se cada vez mais do sistema do dólar norte-americano.

Países da União Europeia serão atingidos. Coisa grossa. A British Petroleum é dona de 20% da Rosneft, e já está com a boca no trombone. ExxonMobil, Statoil norueguesa e Shell também serão afetadas. Nenhuma sanção contra a indústria do gás; mas isso, afinal, já seria impulsionar a estupidez contraproducente da União Europeia para dimensões galácticas. A Polônia – que culpa histericamente a Rússia por todos os males do mundo – recebe da Rússia mais de 80% do gás que consome. E 100%, no caso dos não menos estridentes estados do Báltico, bem como a Finlândia.

O banimento de bens de duplo uso – que tenham aplicações civis e militares – afetará pesadamente a Alemanha, principal exportador da União Europeia para a Rússia. Na defesa, Reino Unido e França sofrerão; o Reino Unido tem nada menos que 200 licenças para vender armas e dispositivos de lançamento de mísseis para a Rússia. Mas o negócio francês de 1,2 bilhão de euros (US$1,6 bilhão) em barcos Mistral de guerra para a Rússia, esse, prosseguirá normalmente.

Enquanto isso, no front da demonização…

O que a Associated Press publica como se fosse “análise” e distribui para jornais e jornalistas em todo o mundo é isso:[4] coleção de clichês desesperadamente à procura de uma ideia. Dmitri Trenin, do Carnegie Moscou Center,[5] sem trair quem lhe paga as contas, acerta umas poucas coisas mas, na maioria, erra. David Stockman[6] pelo menos acerta uma, ao desconstruir as mentiras do Estado-de-Guerra-Perpétua.

Mas quem diz tudo, coisa-com-coisa, é, definitivamente, Sergei Glazyev, conselheiro econômico de Putin.[7] Uma de suas teses centrais é que o business europeu tem de ser realmente muito cuidadoso e proteger seus interesses contra as tentativas dos EUA de “incendiar uma guerra na Europa e uma Guerra Fria contra a Rússia”.

Esse é o conselho bomba atômica recentíssima (de 10/6), oferecido por um Glazyev composto, calmo e claro.[8] Assistam atentamente ao vídeo. É exposição detalhada do que Glazyev vem dizendo já há semanas; misturada com alguns importantes Comentários[9] no blog do Saker, leva a uma conclusão inevitável: setores chaves da plutocracia ocidental querem uma guerra ainda não muito bem definida contra a Rússia. E o Santo Graal do jornalismo (“nunca acredite em coisa alguma, até que haja desmentido oficial”[10]) – já o comprovou que querem.

O plano A da OTAN é instalar baterias de mísseis na Ucrânia; já está sendo discutido em detalhes nas reuniões preparatórias para a reunião de cúpula da OTAN em Gales no início de setembro. Desnecessário dizer, se isso acontecer, já estará muito além da linha vermelha, do ponto de vista de Moscou; implica capacidade para primeiro ataque junto às fronteiras ocidentais da Rússia.

O plano A curto de Washington, enquanto isso, é instalar uma cunha entre os federalistas no leste da Ucrânia e a Rússia. Implica financiar diretamente, progressivamente, o governo de Kiev, ao mesmo tempo em que vai construindo (via conselheiros dos EUA que já estão em campo) e armando pesadamente, um enorme exército ‘por procuração’ para operar à distância (até o final de 2014 serão 500 mil, segundo a projeção de Glazyev). O fechamento da jogada em campo será cercar os federalistas numa área bem pequena. O presidente Petro Poroshensko da Ucrânia já anda dizendo que acontecerá no início de setembro. Se não, até o final de 2014.

Nos EUA e em grande parte da União Europeia está em curso uma grotesquerie monstruosa, que apresenta Putin como o novo bin Laden stalinista. Até aqui, a estratégia de Putin para a Ucrânia tem sido a paciência – que tenho chamado de Vlad Lao Tzu – assistindo enquanto a gangue de Kiev se autoenforca,[11] ao mesmo tempo em que tenta conversar de modo civilizado com a União Europeia para construir alguma solução política.

Agora talvez tenha de encarar uma mudança de jogo, porque aumentam as provas, que a inteligência russa e Glazyev estão fazendo chegar a Putin, de que a Ucrânia é um campo de batalha; que há movimento organizado para uma ‘mudança de regime’ em Moscou; que há projeto para desestabilizar a Rússia; que há, até, possibilidade de uma provocação definitiva.

Moscou, aliada aos BRICS, trabalha ativamente para escapar do sistema do dólar norte-americano – que é a âncora de uma economia de guerra dos EUA baseada na impressão de grandes quantidades de papel verde sem valor real. O progresso é lento, mas tangível; não só os BRICS, mas também aspirantes aos BRICS, o G-77, o Movimento dos Não Alinhados (MNA), todo o Sul Global estão absolutamente fartos dos desmandos e provocações ininterruptas do Império do Caos, e querem outro paradigma nas relações internacionais. Os EUA contam com a OTAN – que manipulam à vontade – e com Israel-cachorro-louco; e talvez com o Conselho de Cooperação do Golfo, as petromonarquias sunitas parceiras na carnificina em Gaza, que podem ser compradas/silenciadas com um tapinha na mão.

Putin deve estar enfrentando tentação sobre humana de invadir o leste da Ucrânia em 24 horas e reduzir a pó as milícias de Kiev. Especialmente ante a cornucópia da demência sempre crescente por ali; mísseis balísticos na Polônia e em breve na Ucrânia; bombardeio indiscriminado contra civis no Donbass; a tragédia do MH17; a demonização histérica, pelo ocidente.

A paciência do urso tem limites

Mas Putin parece que gosta, mesmo, de jogo demorado. A janela de oportunidade para ataque relâmpago já passou; aquele movimento de kung fu que teria paralisado a OTAN onde estivesse, ante um fato consumado, e a limpeza étnica de 8 milhões de russos e russófonos no Donbass nunca teria se desenvolvido.

Seja como for, Putin não “invadirá” a Ucrânia, porque a opinião pública russa não aprova a invasão. Moscou manterá o apoio ao movimento no Donbass que é uma resistência de facto. Lembremos que, mais dois meses, menos dois meses, e entrará em ação o General Inverno naqueles infelizes, saqueados pelo FMI campos ucranianos.

O plano de paz alemão-russo que vazou[12] será implementado sobre o cadáver coletivo de toda a Washington governamental. Esse Novo Grande Jogo, em grande medida, também tem a ver com impedir a integração econômica da Rússia na União Europeia via a Alemanha, parte de uma plena integração eurasiana, que inclui a China e suas muitíssimas Rotas da Seda.

Se o comércio da Rússia com a União Europeia – cerca de US$410 bilhões em 2013 – deve sofrer um golpe por causa das sanções, isso também faz pensar em movimento “Para o Leste!”. Isso implica que a Rússia trabalhará na sintonia fina do projeto da União Econômica Eurasiana.[13] Nada mais de Europa Expandida, de Lisboa a Vladivostok – ideia original de Putin. Entra em cena a União Eurasiana, como irmã em armas das muitas Rotas da Seda da China. Ainda assim, tudo isso faz pensar numa forte parceria Rússia-China no coração da Eurásia – e continua a ser anátema total para os Patrões do Universo.

Que ninguém se engane: a parceria estratégica Rússia-China continuará a andar muito rapidamente – com Pequim em simbiose com os imensos recursos naturais e militares tecnológicos de Moscou. E ainda nem se falou dos benefícios estratégicos. Problema será explicar por que não aconteceu antes, desde o tempo de Genghis Khan. Mas Xi Jinping não está interessado em dar uma de Khan e dominar a Sibéria e o resto todo, adiante.

A Guerra Fria 2.0 é agora inevitável, porque o Império do Caos jamais aceitará a influência da Rússia sobre partes da Eurásia (como tampouco aceita a influência da China). E jamais aceitará a Rússia como parceira igual (excepcionalistas não se dão bem com igualdades). E jamais perdoará Rússia – com China – por ter abertamente desafiado a já rachada ordem mundial excepcionalista imposta pelos EUA.

Se o estado profundo nos EUA, guiado por aquelas nulidades que se fazem passar por líderes, em desespero, der um passo adiante – pode ser um genocídio no Donbass; um ataque da OTAN contra a Crimeia; ou, no pior cenário imaginável, um ataque contra a própria Rússia –, atenção. Porque o urso golpeará.

Referências:

[1] http://www.cbc.ca/news/world/malaysia-airlines-mh17-michael-bociurkiw-talks-about-being-first-at-the-crash-site-1.2721007?cmp=rss&partner=sky

[2] http://www.anderweltonline.com/wissenschaft-und-technik/luftfahrt-2014/shocking-analysis-of-the-shooting-down-of-malaysian-mh17/

[3] https://www.youtube.com/watch?v=zUvK5m2vxro

[4] http://www.washingtonpost.com/world/europe/ap-analysis-putin-cornered-over-ukraine/2014/07/31/dc11e97a-18cd-11e4-88f7-96ed767bb747_story.html

[5] http://carnegie.ru/2014/07/09/ukraine-crisis-and-resumption-of-great-power-rivalry/hfgs

[6] http://davidstockmanscontracorner.com/on-dominoes-wmds-and-putins-aggression-imperial-washington-is-intoxicated-in-another-big-lie/

[7] 18/6/2014, “Para pôr fim às guerras dos EUA em todo o planeta: Assessor de Putin propõe ‘Aliança Antidólar’”, Tyler Durden, ZeroHedge, trad. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/08/para-por-fim-as-guerras-dos-eua-em-todo_2.html

[8] https://www.youtube.com/watch?v=nWT5HM_NMlI&list=PLHS4KH8qkEfbz57RrnjwbBnmjBLz_A7qU%20-%20t=10

[9] http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2014/07/could-glazev-be-right-request-for-your.html

[10] http://rt.com/uk/176824-cameron-world-war-ukraine/

[11] http://orientalreview.org/2014/07/30/the-slow-motion-collapse-of-the-ukrainian-state-and-the-radas-capitulation/

[12] http://www.independent.co.uk/news/world/europe/land-for-gas-secret-german-deal-could-end-ukraine-crisis-9638764.html

[13] http://rt.com/business/162200-russia-bealrus-kazakhstan-union/

Pesquisa diz que 77,2% dos policiais são a favor da desmilitarização da PM

Por Fabiana Maranhão, via Uol

Uma pesquisa feita com policiais de todo o país, lançada nesta quarta-feira (30) em São Paulo, revelou que a maioria diz ser a favor da desmilitarização da PM. Ainda segundo o estudo, um terço dos policiais brasileiros pensa em sair da corporação na qual trabalham.

O estudo foi realizado com 21.101 policiais militares, civis, federais, rodoviários federais, bombeiros e peritos criminais de todos os Estados. Os profissionais foram ouvidos entre os dias 30 de junho e 18 de julho.

A pesquisa “Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública” foi promovida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da Fundação Getúlio Vargas e pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Perguntados sobre a hierarquia policial, 77,2% dos entrevistados disseram não concordar que as polícias militares e os corpos de bombeiros militares sejam subordinados ao Exército, como forças auxiliares, demonstrando que são a favor da desmilitarização da PM.

“Se considerarmos apenas os policiais militares, 76,1% defendem o fim do vínculo com o Exército. O que é um sinal claro de que o Brasil precisa avançar na agenda da desmilitarização e reforma das forças de segurança”, afirma Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Conselho de Administração do fórum e pesquisador da FGV.

De acordo com a pesquisa, 53,4% discordam que os policiais militares sejam julgados pela Justiça Militar. Para 80,1% dos policiais, há muito rigor em questões internas e pouco rigor em assuntos que afetam a segurança pública.

Nova polícia

Mais da metade dos policiais (51,2%) afirmaram que as atuais carreiras policiais não são “adequadas” e deveriam mudar.

Eles deram suas opiniões sobre qual deveria ser o modelo da polícia brasileira: 27,1% deles sugeriram a criação de uma nova polícia “de caráter civil, com hierarquia e organizada em carreira única”; outros 21,86% apontaram como solução a unificação das polícias militares com as civis, “formando novas polícias estaduais integradas e civis”.

Dos entrevistados, 83,2% concordaram que os regimentos e códigos disciplinares precisam ser modernizados e adequados à Constituição Federal de 1988.

Insatisfação com a profissão

Os policiais também responderam questões ligadas às condições de trabalho. Segundo a pesquisa, 34,4% dos policiais afirmaram que pretendem sair da corporação “assim que surgir outra oportunidade profissional”. E 55,1% disseram que planejam se aposentar onde trabalham atualmente.

Perguntados se, caso pudessem escolher, optariam novamente pela carreira na sua corporação, 43,7% falaram que sim; 38,8% responderam que não.

Sobre as dificuldades que enfrentam na rotina de trabalho, mais de 80% deles citaram baixos salários, leis penais que consideram “inadequadas”, contingente policial insuficiente, falta de uma política de segurança pública e formação e treinamento insuficientes.

Perfil dos entrevistados

Dos policiais que participaram do projeto, mais da metade (52,9%) é da Polícia Militar. Outros 22% são da Polícia Civil. A maioria (63,5%) tem ensino superior completo ou especialização, e grande parte (44,4%) trabalha em média oito horas por dia.

Em relação à formação, 37,5% dos policiais tiveram de seis a 12 meses de aulas durante curso para ingressar na corporação; 34,2% tiveram de três a seis meses.

Sobre a renda mensal, 27,2% deles ganham de R$ 5.000 a R$ 10 mil; 26,2%, de R$ 2.000 a R$ 3.000; e 20,9%, de R$ 3.001 a R$ 4.000. O valor é líquido, incluindo os adicionais.

“Não obstante tecnicamente os dados não se constituírem em um retrato exato das opiniões de todos os policiais brasileiros, eles nos autorizam algumas análises e hipóteses exploratórias sobre reformas das polícias no Brasil e incentivam a participação destes profissionais na definição dos rumos de suas instituições”, diz texto da pesquisa.

O preço político de aparecer ao lado de Edir

Por Paulo Nogueira, via DCM

Edir e Dilma

Imagine que você é um jovem idealista.

Sonha por um mundo melhor, se indigna com a desigualdade social e pensa em militar em algum partido.

Aí então você vê a inauguração do Templo de Salomão.

Mais especificamente, você vê Dilma ao lado de Edir Macedo, agora com uma barba branca interminável.

Edir, o homem que inventou no Brasil a máquina evangélica de tirar dinheiro dos ingênuos, dos inocentes, dos crédulos – dos pobres.

Alckmin está lá também, contrito. Mas você não se surpreende com isso. Não espera de nada dele, e então sua presença não decepciona você.

Mas Dilma?

Num templo faustoso, para cuja construção milhões de fieis contribuíram muitas vezes com o que tinham no bolso.

Você vai pensar: não é esta espécie de política que eu quero fazer. Não é aquele partido que vai me ter.

Bem, todo o meu introito foi para dizer o custo de imagem para Dilma, e para o PT, de fazer um tipo de política tão parecido com tudo que está aí.

O comparecimento à inauguração do templo é apenas um entre tantos gestos.

Apenas para ficar num caso: você consegue ver Mujica no beija-mãos do Edir Macedo do Uruguai?

Mujica não foi sequer à consagração de Francisco em Roma, só para compararmos.

Ah, razões pragmáticas levaram Dilma ao Templo de Salomão. Ela tem que disputar os votos dos evangélicos. Tem que agradá-los.

Mas a que preço.

Você não apenas associa sua imagem à de um homem que é uma espécie de anti-Francisco. Um cultua a simplicidade, e a igualdade. O outro cultua o dinheiro, e a ostentação.

Você acaba também abraçando causas conservadoras apenas para não arriscar a perda de votos evangélicos.

Discutir coisas como o aborto? Esqueça. A legalização da maconha? Esqueça também.

Mas pior ainda.

Você parece mais um na multidão dos velhos políticos, sobretudo aos olhos de jovens idealistas que são, ou deveriam ser, o futuro de um partido como o PT.

Os princípios, na sofreguidão da busca por votos, vão sendo atirados ao mar como peso do qual você tem que se livrar.

Sobra o quê?

Pragmatismo, quando é demais, vira oportunismo cínico.

Não.

Não é baixo o “Custo Edir” para Dilma e para o PT.

Fabio Hideki Harano, um preso político no Brasil

Por Pedro Abramovay, via Brasil Post

Quando um jornalista foi morto em uma manifestação houve uma justa comoção nacional. Toda vida é sagrada. Mas a morte de um jornalista em uma manifestação atinge algo mais. Atinge a liberdade de imprensa e, portanto, a democracia.

O Brasil tem inúmeras pessoas presas ilegalmente hoje em suas cadeias. Todas essas prisões ilegais devem ser denunciadas. Mas há algo de mais grave na prisão ilegal de um manifestante. Prender alguém para impedir seu direito de manifestação, prender alguém porque não se concorda com sua ideologia é realizar uma prisão política.

Deve haver mais, mas há hoje, pelo menos, um preso político no Brasil. Fabio Hideki Harano. Fabio foi preso no dia 23 de junho em uma estação de metrô em São Paulo. Fábio foi preso em flagrante. Para se realizar uma prisão em flagrante a pessoa tem que estar cometendo o crime naquele momento. O crime do qual Fábio é acusado é o de porte de explosivos. Há um vídeo com a prisão de Fábio. Não há sinal de que os policiais encontraram explosivos ali.

Segundo o secretário de segurança, Fábio foi preso em flagrante por associação criminosa. Para se configurar o crime de associação criminosa Fábio teria que estar reunido com pelo menos mais duas pessoas para o fim específico de cometer o crime na hora em que foi preso. Se ele foi preso em flagrante por isso, quem eram as outras duas pessoas? Elas foram presas? Fugiram?

Há que se ter todo o respeito pelas autoridades policiais e governamentais envolvidas neste caso. Mas os fatos como expostos dão todos os motivos para se acreditar que Fábio é um preso político. Que Fábio não cometeu nenhum crime previsto no Código penal. Que Fábio é um bode expiatório de um Estado amendrontado que necessitava dar uma resposta a manifestações violentas e escolheram Fábio, mesmo que ele não tivesse relação com a violência, para apresentar como troféu.

O governo afirma que Fabio era um black block. Fabio e todos os que o conhecem negam veementemente. Fabio realizou algum ato de violência? Estava portando artefatos explosivos? Coordenou ou liderou ações criminosas? Há que se ter um processo para descobrir. Se não houver processo, se ele foi preso com um flagrante tão mal explicado, ele é um preso político.

A prisão de Fábio atenta contra a sua liberdade. Mas a prisão de Fabio, enquanto não for completamente esclarecida afeta toda a democracia brasileira. Se governantes, com medo de manifestações violentas podem prender cidadãos que não cometeram crimes para dar uma resposta política, o Brasil deixa de ser um Estado de direito. Se os cidadãos brasileiros não se indignarem com uma prisão política como essa, estão dando um cheque em branco para que os governos sejam autoritários.

A Human Rights Watch, uma das principais organizações de Direitos Humanos do mundo, soltou um comunicado, nele se pede para que Fabio seja solto ou que provas sejam apresentadas. Qualquer pessoa presa tem o direito ao devido processo legal. Qualquer pessoa presa tem o direito a ser condenado somente com base em provas. Mas quando uma pessoa está presa por ser um manifestante, exercendo a democracia em sua plenitude, esse direito não é só de Fábio, é de todos nós. O governo deve apresentar provas contundentes de que não houve ilegalidade na prisão e provas dos crimes de que Fábio é acusado. Enquanto não o fizer, Fábio é um preso político.

Uma prisão como a de Fábio nos diminui enquanto democracia. O silêncio perante esta prisão nos diminui enquanto sociedade.