Arquivo mensais:agosto 2014

Wikileaks: EUA armaram Estado Islâmico e se recusaram a ajudar Síria no combate ao grupo

Por Charles Nisz, via Opera Mundi

Presidente Bashar al-Assad tentou se aproximar de Washington em 2010, mas governo Obama continuou armando seus opositores e grupos islâmicos

Os Estados Unidos se recusaram a ajudar o governo da Síria a combater grupos radicais islâmicos como a Al-Qaeda e o ISIS (Exército Islâmico do Iraque e da Síria, que recentemente mudou de nome para Estado Islâmico). Além disso, segundo revelações feitas pelo site Wikileaks, o governo norte-americano armou grupos como o ISIS. Os quase 3 mil documentos sobre essa questão foram vazados pelo site dirigido por Julian Assange na última sexta-feira (08/08).

Em 18 de fevereiro de 2010, o chefe da inteligência síria, general Ali Mamlouk, apareceu de surpresa em uma reunião entre diplomatas norte-americanos e Faisal a-Miqad, vice-ministro das relações exteriores da Síria. A visita de Mamlouk foi uma decisão pessoal de Bashar al-Assad, presidente sírio, em mostrar empenho no combate ao terrorismo e aos grupos radicais islâmicos no Oriente Médio, assinala o documento.

Neste encontro com Daniel Benjamin, coordenador das ações de contra-terrorismo dos EUA, “o general Mamlouk enfatizou a ligação entre a melhoria das relações EUA-Síria e a cooperação nas áreas de inteligência e segurança”, afirmam os diplomatas norte-americanos em telegrama destinado à CIA, ao Departamento de Estado e às embaixadas dos EUA em Líbano, Jordânia, Arábia Saudita e Inglaterra.

Para Miqad e Mamlouk, essa estratégia passava por três pontos: com o apoio dos EUA, a Síria deveria ter maior papel na região, a política seria um aspecto fundamental para ações de cooperação contra o terrorismo e a população síria deveria ser convencida dessa estratégia com a suspensão dos embargos econômicos contra o país. Para Imad Mustapha, embaixador sírio em Washington, “os EUA deveriam retirar a Síria da lista negra”. Nas palavras de George W. Bush, o país fazia parte do “eixo do mal”, junto com Coreia do Norte e Afeganistão.

Armados pelos EUA, militantes do Estado Islâmico conseguiram lutar em cinco frente concomitantemente. Agência Efe/Reprodução

Apesar da discordância entre EUA e Síria quanto ao apoio de Assad a grupos como Hezbollah e Hamas, os dois países concordavam quanto à necessidade de interromper o fluxo de guerrilheiros estrangeiros para o Iraque e impedir a proliferação de grupos radicais, como a Al-Qaeda, o ISIS e o Junjalat, uma facção palestina com a mesma orientação política. Para Benjamin, as armas chegavam ao Iraque e ao Líbano contrabandeadas pelo território sírio.

Mamlouk reforçou a “experiência síria em combater grupos terorristas”. “Nós não ficamos na teoria, tomamos atitudes práticas”, foram as palavras do chefe de inteligência de Assad. Segundo o general, o governo sírio não mata ou ataca imediatamente esses grupos. “Primeiro, nós nos infiltramos nessas organizações e entendemos o funcionamento delas”. De acordo com Damasco, “essa complexa estratégia impediu centenas de terroristas de entrarem no Iraque”.

Guerra do Iraque e surgimento do Estado Islâmico

No entanto, apesar de afirmarem cooperar com a Síria para combater o terrorismo, os EUA também trabalharam para armar os opositores sírios e isso causaria um problema maior na região: a criação do atual Estado Islâmico. Segundo documentos obtidos pelo jornal britânico Guardian, grande parte do armamento utilizado pelo ISIS (antigo nome do Estado Islâmico) veio de grupos armados pelos EUA e cooptados por Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Califado Islâmico, que hoje controla territórios na Síria e no Iraque.

O Estadão e suas mentiras no caso do pagamento com cartões

Por Rennan Martins

Que a grande mídia esqueceu o que quer dizer jornalismo sabemos. Mas, a proximidade das eleições tem tornado a manipulação, as mentiras e distorções ainda mais descaradas. A velha direita está encarniçando.

O caso do projeto de decreto legislativo PDS 31/2013, de autoria do senador Roberto Requião (PMDB-PR), é uma aula de desinformação. A mentira começa já na manchete. Passemos, pois, a análise, comparemos o folhetim partidário publicado pelo Estadão com o Relatório sobre a Indústria de Cartões de Pagamento, produzido pelo Banco Central, em conjunto com a Secretaria de Acompanhamento Econômico, e a Secretaria de Direito Econômico, em 2010.

A manchete do artigo que consta no Estadão assim informa: Senado aprova cobranças mais caras de quem pagar com cartão. Quando prosseguimos a leitura vemos que o primeiro parágrafo já desmente a manchete, o autor – que por sinal não teve coragem de assinar o texto – muda o tom e fala de “preços distintos para pagamentos realizados com dinheiro ou cartão de crédito”.

O que faz o decreto legislativo PDS 31/2013 é permitir que o comerciante desconte o custo embutido da transação financeira com a operadora do cartão no caso da compra ser realizada em dinheiro. Na realidade, esta é uma vantagem tanto para consumidor quanto para lojista, já que aumenta a flexibilidade do preço, das negociações. O que a Resolução 34/1989 do Conselho Nacional de Defesa do Consumidor faz é não permitir a diferenciação dos preços em cartão e em dinheiro, que na prática encarece a mercadoria.

Quando analisamos o documento citado, primeiramente descobrimos que o mercado de cartões brasileiro é extremamente concentrado, com Visa e Mastercard respondendo por mais de 90% dos cartões ativos, o que é definido como um “duopólio”. Isto em si já é um grande problema.

Então, na página 9, encontramos a real razão da histeria das empresas de cartão de crédito, que usam a mídia corporativa como porta-voz: “A principal preocupação da indústria em permitir a diferenciação de preços é que a utilização de cartões de pagamento seja desestimulada”. Ou seja, o que essas empresas não querem é competir, não querem perder a cartelização que a Resolução 34/1989 induz.

A fim de embasar ainda mais sua mentira, o Estadão pediu a opinião da coordenadora da Associação de Consumidores Proteste, Maria Inês Dolci, que declarou que “o cartão de crédito é um meio de pagamento à vista como qualquer outro”. Esta afirmação não se sustenta diante de uma pequena pesquisa.

Na página 7 do mesmo relatório, descobrimos que “Nas transações com cartão de crédito no Brasil, o prazo entre a data da compra e a data do crédito ao estabelecimento, é, em geral, de trinta dias”. O Estadão quer nos enfiar goela abaixo que receber à vista é o mesmo que receber após trinta dias.

O documento do Banco Central aponta ainda que sob a regra atual quem paga à vista pode subsidiar, financiar quem paga por meio do cartão de crédito, explicando que permitir o pagamento diferenciado será vantajoso pois reduzirá “a possibilidade de subsídio cruzado dos consumidores que não utilizam cartão (majoritariamente população de menor renda) para os consumidores que utilizam (majoritariamente população de maior renda)”. Trocando em miúdos, não permitindo preços diferentes abrimos espaço pra transferir dinheiro de pobres para ricos.

A conclusão do relatório é que o mercado dos cartões de pagamento atualmente é ineficiente, que entre outros problemas temos “forte evidência de que a regra do não sobrepreço traz distorções ao mercado e prejuízo ao consumidor”.

Permitir a diferenciação dos preços fará com que as empresas tenham de tornar mais vantajoso pagar com o cartão, o que se refletirá em descontos nas taxas e vantagens para o consumidor. E é justamente isso que as empresas e o patronato não querem. Desejam manter seus privilégios e altos lucros, em detrimento daqueles que pagam a conta, você.

O governo brasileiro é gastador?

Via Brasil Debate

É bastante comum a afirmação de que o governo brasileiro é gastador. É também frequente a infeliz comparação entre o orçamento público e o orçamento da casa da “Dona Lúcia”, como se a dinâmica e as implicações do gasto público fossem as mesmas do orçamento familiar.

Estes fatos apontam não só para um desconhecimento a respeito da dinâmica do déficit público e suas implicações macroeconômicas, mas, principalmente, para a falta de informação sobre a situação das contas públicas brasileiras em perspectiva internacionalmente comparada.

Há, basicamente, duas formas de avaliar quantitativamente o volume do que um governo gasta em relação ao que se recebe. A primeira é o balanço primário, calculado como a diferença entre as receitas totais e as despesas não financeiras, isto é, excluindo-se o pagamento de juros sobre a dívida pública das despesas gerais do governo. A segunda é o balanço nominal, que inclui na conta os juros da dívida pública.

Na maior parte dos países, os gastos primários são maiores do que as receitas do setor público, o que implica em déficit primário. Este não é o caso do governo brasileiro, como pode ser visto no gráfico abaixo. Dentre os países estudados, o Brasil possui o terceiro maior superávit primário em relação ao PIB.

Quando incluímos o pagamento de juros, a situação muda de figura. Devido às elevadas taxas de juros, o governo brasileiro paga em torno de 5% do PIB de juros sobre a dívida pública – percentual muito maior do que a média internacional, ainda que a nossa dívida pública seja relativamente baixa. Mesmo incluindo esta rubrica, o déficit nominal do governo brasileiro está muito próximo à média internacional.

Diante disso, fica evidente que o governo brasileiro não é gastador. Na verdade, o Brasil ainda é um dos poucos países que produzem superávit primário.

Por outro lado, está claro que os juros estreitam (e muito) a margem de manobra para que o governo possa gastar de forma mais fértil, pagando menos juros e aumentando os investimentos para melhoria de serviços públicos prestados à população.

Portanto, está claro que os gastos públicos estão bem controlados, mas é premente a necessidade de reduzir os juros para melhorar sua composição.

Isso não parece tão claro no debate de política macroeconômica que se vê na maior parte das análises, que recorrentemente preconizam uma combinação de aumento de juros e ajuste fiscal.

Nas suas entrelinhas, ou nas suas consequências, isso quase sempre significa aumentar a parcela de pagamento de juros (maior déficit nominal) e reduzir os investimentos de maior impacto para a população (maior superávit primário). É realmente isso que queremos?

 

Altamiro Borges: Aécio frustra Merval e outros cheirosos

Por Altamiro Borges, em seu blog

A pesquisa Ibope divulgada na noite de quinta-feira (7) pelo “Jornal Nacional” da TV Globo frustrou as esperanças da maioria dos “calunistas” da velha imprensa. Apesar de todo o bombardeio midiático, a presidenta Dilma Rousseff manteve-se estável, com 38% das intenções de voto, já os seus dois principais concorrentes – o neoliberal Aécio Neves (23%) e o dissidente Eduardo Campos (9%) – não conseguiram decolar. Por esta foto do momento – que não deve gerar falsas ilusões –, a candidata petista seria reeleita já no primeiro turno. Diante deste resultado, Merval Pereira, o “imortal” da Rede Globo, quase corta o pulso. Já Eliane Cantanhêde, da Folha, parece mais desanimada com a “massa cheirosa” tucana.

O percentual de 38% de Dilma Rousseff é o mesmo registrado pelo Ibope em julho. No caso do cambaleante presidenciável do PSDB, ele oscilou dentro da margem de erro, passando de 22% para 23% – o que é estranho, já que no período pintou o escândalo do “aecioporto”, o aeroporto na fazenda do titio de Aécio Neves construído com R$ 14 milhões dos cofres públicos de Minas Gerais. Já Eduardo Campos subiu um ponto e segue empacado, correndo o sério risco de terminar a corrida presidencial bem menor do que entrou na campanha. Pela pesquisa, a única salvação dos velhos e novos oposicionistas são os chamados candidatos “nanicos”, que – insuflados – podem até levar a disputa para o segundo turno.

A decepção dos especuladores

Este cenário “estável” explica o desânimo de Merval Pereira, em sua coluna no jornal O Globo deste sábado (9). O “imortal” utiliza os humores do “deus-mercado” para justificar seus temores. “Faltando dez dias para o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, há uma expectativa no mercado político que se reflete no financeiro e justifica os resultados como a queda da Bolsa em consequência do resultado da mais recente pesquisa divulgada pelo Ibope. O fato de o candidato do PSDB Aécio Neves não ter tido um crescimento fora da margem de erro decepcionou os especuladores, que já temem a resiliência da candidatura da presidente Dilma à reeleição”. Os agiotas estão decepcionados, confessa o “calunista”!

Difusor da “escandalização da política”, que gerou tamanho ceticismo na sociedade, Merval Pereira agora se mostra bastante preocupado com o risco do abstencionismo. “Se a falta de empolgação do eleitorado com a campanha representar repúdio à maneira como a política é feita no Brasil, o número de votos em branco e nulo será maior do que o normal, e será difícil definir se os votos válidos poderão definir o final da disputa no primeiro turno com a vitória de Dilma, apesar da rejeição verificada à sua candidatura e à baixa aprovação ao seu governo. Seria uma vitória da máquina partidária sobre o sentimento geral do eleitorado que, mal informado ou desanimado, não votará e acabará elegendo quem rejeita”.

A mesma descrença parece ter contagiado Eliane Cantanhêde, a outrora animada colunista da “massa cheirosa” tucana. Ela escreveu na Folha de quinta-feira (7): “Dilma caiu drasticamente nas pesquisas desde as manifestações de junho de 2013 e jamais voltou aos patamares recordes que tinha. Nem por isso a oposição está bombando. Aécio Neves, Eduardo Campos e o Pastor Everaldo, somados, têm 31% das intenções de voto. Os três maiores opositores de 2010 chegavam a 48%, e os de 2006 tinham 39% na mesma fase da campanha. Mesmo assim, nas duas, o Planalto ganhou e a oposição perdeu. Logo, Dilma não está nada bem, mas a oposição não convence e não tem nenhum motivo para comemorar”.

Bob Fernandes: A hora do acerto, as doações de campanha

Por Bob Fernandes, via facebook

Estima-se que só as campanhas para presidente da República custariam perto do R$ 1 bilhão.

Até agora foram doados no Caixa 1, no oficial, R$ 170 milhões. Doações essas não apenas para candidatos à presidência.

Dos 20 maiores doadores, 10 são empreiteiras, ou braços desse setor.

Há décadas grande parte dos escândalos e CPIs nacionais, estaduais ou municipais nasce nesse território: o das empreiteiras e similares.

Escândalos ligados a obras são centenas. E suas origens estão quase sempre nas licitações pós-campanhas, e nos acertos de campanha.

Já as maracutaias conectadas ao setor de incorporações imobiliárias quase não repercutem… mas infernizam o cotidiano das cidades.

O esquema é o de sempre: campanhas são financiadas e, em troca, Executivo, Legislativo ou funcionários liberam geral.

Cada um constrói o que quiser, onde quiser e da altura que quiser. Daí cidades são arrebentadas, como o foram São Paulo, Salvador, Rio, Recife… e tantas outras.

Daí shoppings onde não deveria existir nem uma padaria. Daí prédios onde não se deveria liberar nem uma tenda.

Não apenas por tais motivos, mas também dai a multiplicação de engarrafamentos e de cidades enfartadas.

Até aqui o PMDB levou algo como R$ 51 milhões, 30% das doações. O PMDB, como se sabe, é a grande cunha no Congresso Nacional.

Cada congressista tem o direito de incluir no Orçamento anual da União até R$ 15 milhões em emendas individuais

Isso dá R$ 60 milhões por cabeça a cada mandato, R$ 35 bilhões a cada legislatura. Tal direito foi conquistado na marra; para não se dizer que foi fruto de chantagem.

Faltam menos de 2 meses para as eleições Candidatos (e seus habituais ecos) seguem na guerra diária e semanal de desgaste mútuo… E quem vai propor a sério a reforma política?

Seria com ou sem Constituinte Exclusiva? Com ou sem financiamento público para campanhas? Com ou sem voto distrital? Com ou sem fidelidade partidária? Com ou sem clausula de barreira?

Em relação a reformas, todas elas, o que se tem é silêncio. À espera do próximo escândalo de ocasião. À espera dos ecos e da marquetagem.

Brasil: dois projetos em disputa

Por Eduardo Fagnani, via Le Monde Diplomatique

Para a corrente desenvolvimentista, os progressos recentes, embora positivos, não apagaram as marcas profundas da crônica desigualdade social brasileira, que tem raízes históricas herdadas do passado escravocrata, do caráter específico do capitalismo tardio e da curta experiência democrática do século XX.

Vivemos a disputa entre dois projetos antagônicos. O liberal versus o desenvolvimentista. O mercado versus o Estado. A focalização exclusiva nos mais “pobres” versus a universalização dos direitos da cidadania. Os valores do Estado mínimo versus os do Estado de bem-estar. Os direitos sindicais e laborais versus as relações de trabalho flexíveis.

Essa disputa tem implicações contraditórias tanto na interpretação da política social no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) como na identificação dos rumos a serem trilhados no futuro.

Na primeira década do século XXI, o Brasil logrou importantes progressos sociais (distribuição da renda, diminuição das desigualdades sociais, mobilidade, aumento do consumo das famílias e redução da miséria extrema). Para a corrente desenvolvimentista, o fato determinante foi o crescimento da economia, que após 25 anos voltou a ganhar espaço na agenda governamental, o que teve consequências na impulsão do mercado de trabalho e do gasto social, potencializando os efeitos redistributivos da Seguridade Social instituída pela Constituição de 1988.

O programa Bolsa Família teve papel destacado na mitigação da fome e das vulnerabilidades associadas à miséria extrema. A estratégia para enfrentar a questão social não pode prescindir de ações focadas naqueles que estão submetidos à fome ou precariamente inseridos (mais de 70% dos adultos beneficiários do Bolsa Família trabalham).

O caso brasileiro guarda similaridades com o que ocorreu na América Latina e no Caribe. Estudos realizados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em 2012 apontam que, na década passada, o comércio internacional favorável impulsionou a atividade econômica no continente. Como consequência, houve geração de emprego assalariado, elevação do salário médio, valorização real do salário mínimo, queda na taxa de desemprego e elevação do gasto social. Com isso, “pela primeira vez em várias décadas, um subconjunto considerável de países da região obteve resultados positivos em termos distributivos”.

Na experiência brasileira, destaca-se inicialmente que, entre 1999 e 2002, o Partido dos Trabalhadores havia elaborado um projeto “social-desenvolvimentista” (Mercadante e Tavares, 2001). A eleição de 2002 renovava a esperança por mudanças. Mas, em plena campanha eleitoral, esses ímpetos foram contidos. Em grande medida porque os agentes financeiros passaram a apostar contra o Brasil. “Era uma verdadeira chantagem que os mercados faziam com os eleitores brasileiros”, afirma Luiz Gonzaga Belluzzo.1 Nesse cenário, entre 2003 e 2005 a política macroeconômica seguiu, em essência, os parâmetros adotados anteriormente.

Entretanto, a partir de 2006 o projeto “social-desenvolvimentista” pôde ser parcialmente resgatado. O crescimento voltou a ser contemplado na agenda macroeconômica e foram adotadas políticas fiscais e monetárias menos restritivas. Essa postura foi reforçada em 2007, quando foi lançado o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Com a crise financeira internacional de 2008, foram adotadas medidas anticíclicas, e os bancos públicos lançaram uma estratégia agressiva de ampliação do crédito, que praticamente dobrou entre 2003 e 2010 (de 24% para 49% do PIB).

A economia voltou a crescer, abrindo espaço para a expansão do gasto social, a geração de empregos formais, a redução da taxa de desocupação e a elevação real do salário mínimo e da renda do trabalho. Entre 2003 e 2010, mais de 18 milhões de empregos formais foram criados, e a taxa de desemprego caiu pela metade (de 12,3% para 5,5%). O valor do salário mínimo aumentou mais de 70% acima da inflação.

A ativação da atividade econômica também fez crescer as receitas tributárias, melhorando as contas públicas e abrindo espaços para a expansão do gasto governamental. Em valores reais, o Gasto Social Federal (GSF) per capitaaumentou quase 60% entre 2004 e 2010 (passou de R$ 2.100 para R$ 3.325); e, em relação ao PIB, subiu de 13,2% para 15,5% (Castro e outros, 2012).

O principal item de ampliação do gasto social consistiu nas transferências de renda da Seguridade Social (previdência rural e urbana, assistência social e seguro-desemprego), sobretudo em razão dos impactos da valorização do salário mínimo sobre o piso dos benefícios. Em 2012, foram concedidos mais de 37 milhões de benefícios (70% equivalem ao piso do salário mínimo). As transferências de renda via Bolsa Família também cresceram, atingindo 0,45% do PIB.

Além da transferência de renda para as famílias, a expansão da oferta dos serviços foi impulsionada. Os gastos federais com educação, por exemplo, dobraram (valores constantes) entre 2000 e 2010 (passando de R$ 21,2 bilhões para R$ 45,5 bilhões).

Esses fatores foram determinantes para a redução das desigualdades sociais entre os assalariados. Observe-se que na década passada o rendimento médio real mensal do conjunto dos trabalhadores subiu cerca de 30%, enquanto para os 20% mais pobres o crescimento foi superior a 70%. Para o Ipea (2012), o mercado de trabalho e a Seguridade Social responderam por 87% dessa redução.

Em suma, na década passada foram engendradas alternativas ao modelo econômico que vinha sendo colocado em prática desde 1990 que resultaram na melhoria dos padrões de vida da população. A economia cresceu e simultaneamente distribuiu renda, fato inédito nos últimos cinquenta anos.

O reconhecimento desse fato não implica endossar a ideia de que teria sido introduzido um “novo padrão de desenvolvimento”. Na verdade, caminhou-se no sentido da construção de um modelo econômico menos perverso que o padrão histórico.

Também parece questionável a visão de que os governos progressistas eleitos no Brasil e em diversos países da América Latina seriam “pós-neoliberais” (Sader, 2014). É verdade que foi aberta uma nova etapa de lutas contra a doutrina neoliberal. Mas, apesar dessa marcha, o continente está muito aquém de “superar e virar a página do neoliberalismo”.

Como sinaliza o historiador Perry Anderson, neste início de século o neoliberalismo “segue aprofundando seu poder no mundo”. Nesse contexto, com os governos progressistas da América do Sul, o continente passou a ser portador de “uma esperança que não existe em nenhum outro lugar do mundo hoje”. Em sua visão, o Brasil está “na linha de frente” desse processo de abrir frestas para caminhar no “contrafluxo da ideologia mundial dominante”.

Essa avaliação choca-se com a hegemônica interpretação liberal acerca da política social do governo Lula. Essa corrente difunde o dogma de que os progressos sociais foram frutos exclusivos do Bolsa Família. Essa miragem é repetida como mantra pelos organismos internacionais.

Apenas como ilustração, observe-se que, para a diretora-gerente do FMI, as “melhoras notáveis” dos indicadores de pobreza, desigualdade e desenvolvimento dos países da América Latina devem-se ao papel desempenhado pelos chamados conditional cash transfer programs (CCT) – núcleos da estratégia internacional orquestrada há mais de três décadas para os países subdesenvolvidos –, com destaque para os programas Bolsa Família (Brasil) e Oportunidades (México), “que conseguiram interromper a transmissão da pobreza de geração para geração e agora servem como modelo para o resto do mundo”.2

Muitos no campo progressista não percebem que a inspiração dos programas CCT tem caráter liberal clássico. A “garantia de renda mínima” foi proposta inicialmente por Hayek (1944). Posteriormente, Friedman (1962) popularizou a defesa do “imposto de renda negativo” como “o procedimento mais recomendável” para “combater a pobreza”, embora preferisse a caridade.

Com o neoliberalismo, nos anos 1980 e 1990 a América Latina serviu como “um campo de provas” para aperfeiçoar essas experiências. Depois do Chile (1981), foi no México (Oportunidades) e no Brasil (Bolsa Escola) que esses programas foram estendidos pela primeira vez em grande escala nos anos 1990. Sua propagação foi intensa na década seguinte. Em 2007, o Banco Mundial informou que “praticamente todos os países” da região haviam adotado algum tipo de CCT, bem como mais de trinta países em outros continentes (Lavinas, 2013).

Para a doutrina neoliberal, ao Estado cabe somente cuidar da educação básica (“igualdade de oportunidades”) e da população que se encontra “abaixo da linha de pobreza”. Os que “saíram da pobreza” devem buscar no mercado privado a provisão de bens e serviços sociais de que necessitam, abrindo-se as portas para a privatização e mercantilização da oferta.

Assim, os CCT são funcionais para o ajuste macroeconômico. A doutrina liberal transformou a “política social” em compartimento dissociado da estratégia macroeconômica. As almas caridosas do mercado reservaram 0,5% do PIB para os ditos progressistas se divertirem na promoção do “bem-estar”. Além disso, os critérios arbitrados internacionalmente são extremamente baixos para classificar as situações de indigência (indivíduo que recebe até US$ 1,25 por dia) e pobreza (até US$ 2,5 por dia). Não é moralmente aceitável afirmar que um indivíduo que passou a receber pouco mais de US$ 2,5 por dia tenha “saído da pobreza”.

A importância desses programas foi reforçada após a crise internacional de 2008. A resposta das lideranças globais foi introduzir a chamada iniciativa do Basic Social Security Floor (OIT, 2011). Formou-se uma ampla coalizão global em sua defesa, que reúne as principais lideranças mundiais (G-7 e G-20), FMI, Banco Mundial, ONGs e dezenove agências da ONU.

Mas a grande vedete do novo consenso liberal é o programa brasileiro. A apologia desmedida que tem sido feita ao Bolsa Família pelas agências internacionais parece ser ação ideológica deliberada para elevar o statusdo programa brasileiro a um case global de sucesso a ser seguido por outros países pela via do Basic Social Security Floor.

Diante da vitória da ideologia, é preciso escancarar o óbvio: programas dessa natureza aliviam as situações críticas de vulnerabilidades e fome. Exatamente por essa razão, são necessários e devem fazer parte de uma estratégia mais ampla de enfrentamento da questão social. O equívoco é transformá-los em estratégia única.

É compreensível que instituições multilaterais defendam essa visão minimalista. O que causa surpresa é que setores e governos populares e progressistas na América Latina abracem acriticamente os dogmas neoliberais. No caso brasileiro, essa visão reduz o legado dos governos do PT.

Essa disputa entre projetos antagônicos também tem implicações contraditórias quanto aos rumos a serem trilhados no futuro. Cada um dos projetos aponta para agendas e opções com consequências políticas diametralmente opostas.

O projeto liberal conduz, inevitavelmente, para o aprofundamento da focalização exclusiva nos “pobres”. Crescimento, emprego, salário mínimo e políticas universais são “ineficazes” para combater a pobreza. Para que consolidar o Sistema Único de Saúde se a “nova” classe média egressa da miséria pode comprar planos de saúde no mercado privado?

A focalização é funcional para a gestão ortodoxa do chamado “tripé” macroeconômico. Por ser barata, essa política compensatória não conflita com a adoção de “medidas impopulares” reivindicadas pelo capital financeiro: redução da meta de inflação, ampliação do superávit fiscal e fim da regra de reajuste do salário mínimo são apenas alguns exemplos do que está sendo cogitado nos bastidores das campanhas eleitorais.

Para a corrente desenvolvimentista, os progressos recentes, embora positivos, não apagaram as marcas profundas da crônica desigualdade social brasileira, que tem raízes históricas herdadas do passado escravocrata, do caráter específico do capitalismo tardio, da curta experiência democrática do século XX e do acelerado processo de urbanização, na ausência da reforma agrária e de políticas urbanas e sociais.

Entre 2001 e 2011, a concentração da renda recuou aos padrões de 1960. Não obstante, o Brasil permanece entre as vinte nações com maior desigualdade de renda do mundo. A secular concentração da riqueza no campo brasileiro continua intocada, e o tema da reforma agrária ainda é atual.

As desigualdades se refletem na apropriação física do espaço urbano – “não basta distribuir renda”; é preciso “distribuir cidade”, afirma Maricato (2013) –, bem como no sistema tributário que não incide sobre a renda e o patrimônio. A estrutura do mercado de trabalho ainda guarda traços e características de economias subdesenvolvidas ou periféricas.

As iniquidades também estão presentes no acesso aos serviços sociais básicos. As políticas sociais universais apresentam lacunas de oferta entre classes sociais e regiões do país. Assegurar a universalização da cidadania – inclusive para os mais pobres – requer esforços no sentido de ampliar a oferta de serviços para as regiões e populações não atendidas. A oportunidade de transformar os brasileiros pobres em cidadãos portadores de direitos não pode ser perdida, pois o Brasil é um dos poucos países subdesenvolvidos que, no contexto da competição capitalista sob a dominância das finanças, conseguiu preservar o núcleo de seus sistemas públicos universais (Fagnani e Fonseca, 2013).

Em suma, ainda vivemos graves níveis de concentração de renda e de riqueza que implicam miséria, pobreza, baixos salários e acesso precário aos bens e serviços sociais básicos. São traços marcantes do subdesenvolvimento que precisam ser superados, se queremos um país justo e civilizado.

Esse enfrentamento repõe o conflito redistributivo entre capital e trabalho no centro do debate nacional. A superação desse embate em favor da sociedade e da cidadania depende da capacidade dos cidadãos de se apropriar dos recursos que têm sido capturados pelo poder econômico nos ganhos especulativos sobre a dívida pública e por inúmeros mecanismos de transferências tributárias.

Será preciso desbravar caminhos para construir uma agenda de transformação que priorize a justiça social. Essa tarefa requer que se façam complexas mudanças estruturais: reforma tributária, revisão do pacto federativo, enfrentamento dos processos de mercantilização e fortalecimento da gestão estatal.

A tarefa também exige o reforço do papel do Estado e a revisão dos pressupostos que dão substrato ao chamado “tripé” macroeconômico (câmbio flutuante, superávit fiscal e metas de inflação). Mas nada será possível sem uma reforma política que resgate a democracia e a esfera pública plural e inclusiva. Nesse sentido, a reforma política é a mais importante de todas as reformas.

A tarefa é complexa, tanto pelo caráter estrutural do fenômeno quanto pelo conservadorismo das elites, num contexto em que a correlação de forças favorece as finanças globalizadas. Mas não há outro caminho a seguir caso se queira, de fato, enfrentar as diversas faces da crônica desigualdade social, pano de fundo do mal-estar contemporâneo exposto pelas recentes marchas populares.

*- Eduardo Fagnani é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho).

Pesquisa do Banco Central reduz previsão da inflação para o ano

Por Kelly Oliveira, via Agência Brasil

A taxa básica de juros, a Selic, deve fechar 2014 sem novas alterações

Apesar das reduções na estimativa, a projeção para a inflação ainda está longe do centro da meta (4,5%) e um pouco abaixo do limite superior (6,5%)

Brasília – A projeção para a inflação deste ano caiu pela quarta semana seguida. Segundo a pesquisa semanal feita pelo Banco Central (BC), a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 6,39% para 6,26%. Para 2015, houve ajuste de 6,24% para 6,25%.

Na última sexta-feira (8), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o IPCA fechou o mês de julho em 0,01% e chegou a 6,5% em 12 meses. Em junho, a inflação estava mais alta: 6,52%, em 12 meses e 0,4% no mês.

Apesar das reduções na estimativa, a projeção para a inflação ainda está longe do centro da meta (4,5%) e um pouco abaixo do limite superior (6,5%).

A taxa básica de juros, a Selic – usada pelo BC para influenciar a economia e, consequentemente, a inflação – deve fechar 2014 sem mais alterações, de acordo com as expectativas. Atualmente, a Selic está em 11% ao ano, mas, em 2015, esperas-se a elevação da taxa, que deve encerrar o período em 12% ao ano.

Na pesquisa do BC, também consta a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que passou de 5,49% para 5,39% este ano, e de 4,97% para 5,08%, em 2015. Em relação ao IGP-M, a estimativa foi ajustada de 4,4% para 4,05% neste ano e de 5,61% para 5,60%, em 2015. A projeção para o Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI) passou de 4,33% para 3,98% neste ano, e de 5,53% para 5,50%, em 2015.