Chico Mendes, Marina Silva e a rede de ONGs

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Por Patricia Faermann | Via Jornal GGN

Jornal GGN – Em entrevista ao Jornal Nacional, nesta quarta-feira (27), a candidata à presidência Marina Silva (PSB) ressuscitou a “turma de Chico Mendes”, base que usou para construir suas principais relações políticas e das causas ao meio ambiente.

“Eu venho de uma trajetória política que, desde os meus 17 anos, eu tive que confrontar muitos interesses no meu estado do Acre ao lado de Chico Mendes, ao lado de pessoas que se posicionaram ao lado da Justiça, da defesa dos índios, dos seringueiros, da ética na política”, disse Marina.

Mas esse lado leva a um histórico de relações de Marina que vai além da luta pelos seringueiros ou dos índios. O emaranhado de relações de Marina Silva com ONGs remete à uma complexidade que se confunde com a própria história de relações políticas, que a trazem hoje ao palanque da candidatura.

Chico Mendes era ícone da luta dos seringueiros – principal fator que estreitou a relação com Marina Silva, então professora de história e sindicalista, ligada às Comunidades Eclesiais de Base, importantes para a resistência dos seringueiros. Participaram, juntos, da criação da CUT e do PT no Acre.

A partir de então, a rede com lideranças ativistas do meio ambiente e ONGs se propagou. Chico Mendes lhe apresentou a antropóloga Mary Allegretti, que posteriormente ajudou na criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, e Steve Schwartzman, antropólogo norte-americano, ligado à ONG Environmental Defense Fund (EDF).

Os objetivos de mudanças políticas que guiaram a trajetória de Chico Mendes foram, aos poucos, se alterando, com ápice na sua morte. Esses atores políticos dissociaram o seu nome das lutas sindical e pela reforma agrária, e demais reivindicações com forte cunho na teoria marxista.

Por sua vez, Mary Allegretti estabeleceu relações e construiu carreira como consultora de projetos para a Amazônia financiados por instituições e agências internacionais. Interlocutora nas negociações para implantação do PPG7 (Programa Piloto do G7, com foco na proteção das florestas tropicais do Brasil, gerido pelo Banco Mundial e orientou várias políticas do Ministério do Meio Ambiente) e ajudou a articular o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), um grupo de ONGs que acompanharia os projetos do PPG7.

O Grupo de Trabalho Amazônico foi criado em 1993 e teve, três anos depois, como secretário-executivo Fábio Vaz de Lima, marido de Marina Silva, até 1999.

Assim que Chico Mendes foi assassinado, grupos de esquerda do Acre fizeram alianças e tornaram a principal liderança do PT Jorge Viana, de família de tradição aliada à ditadura militar e filho de Wildy Vianna – deputado estadual pela ARENA, entre 1967 e 1979, e deputado federal de 1979 a 1987. Foi Jorge Viana que conseguiu ajudar a eleger Marina Silva ao Senado em 1994. Viana foi prefeito de Rio Branco em 1992.

Em 1998, Marina comemorou a chegada da Frente Popular, uma aliança de 12 partidos, incluindo o PSDB, ao governo do Acre, com a eleição de Viana. O marido de Marina assessorava os irmãos, Jorge e Tião, e ocupou cargos de confiança na gestão dos governadores.

“Foi-se o tempo em que a ‘turma do Chico Mendes’ e empresários – principalmente madeireiros – eram como água e óleo. As coisas amadureceram nos últimos 15 anos, o mundo girou, o Acre está mudando, a ‘turma do Chico’ chegou ao poder e pôde concretizar suas ideias. Aplacaram-se radicalismos. Viu-se que é possível negociar diferentes interesses com ética e conhecimento técnico. (…) Por incrível que pareça, há madeireiros, pecuaristas e petistas sentados à mesma mesa”, disse um dos materiais de divulgação do gabinete da senadora, em 2001.

Marina Silva comemorava o governo de Jorge Viana.

Assumiu o Ministério do Meio Ambiente em 2003, durante o governo Lula. O espaço não era novo. Mary Allegretti já ocupava a Secretaria de Coordenação da Amazônia na pasta durante o governo FHC.

Nesse período, três figuras fortes apareceram na rede de Marina: Carlos Antônio Vicente, Tasso Azevedo e João Paulo Capobianco.

Vicente foi Secretário de Florestas e Extrativismo do estado do Acre, no governo de Jorge Viana, e trabalhou para a promoção do manejo madeireiro nas florestas acrianas. Virou assessor direto de Marina e acompanhou-a na sua volta ao Senado, e na campanha eleitoral pelo PV, em 2010. Tem ligação com a ONG IMAZON (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), promotora do manejo madeireiro na Amazônia.

Azevedo foi diretor executivo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA) e ajudou a pressionar o Congresso para aprovar a polêmica Lei de Gestão de Florestas Públicas, que autoriza a concessão para exploração pelo setor privado e cria o Serviço Florestal Brasileiro, do qual foi diretor geral. Também tem relação com a ONG IMAZON.

Capobianco foi Secretário de Biodiversidade e Florestas e, depois, Secretário Executivo do Ministério. João Paulo Capobianco é uma das cabeças da separação do IBAMA, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO). Alguns servidores do IBAMA chegaram a acusar Marina e Capobianco de sucatearem a fiscalização ambiental no Brasil.

Ele também presidiu a ONG Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), da qual Marina também faz parte; do conselho consultivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e do conselho de administração da Bovespa Social; pesquisador associado do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que defende o sistema de vendas de serviços ambientais na Amazônia, como o mercado de créditos de carbono.

Marina também fez parte do Conselho Consultivo do IPAM, ao lado de Steve Schwartzman, vice-presidente do conselho deliberativo.

Com informações do Centro de Memória das Lutas e Movimentos Sociais da Amazônia.

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