Por Vanessa Jurgenfeld, via Valor Econômico
A indústria é o maior problema a ser enfrentado em 2015 pelo presidente eleito, diz Luiz Gonzaga Belluzzo, o professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Nós caímos no conto de que a manufatura não tinha importância. O Brasil está abrindo mão da sua manufatura, esse é um problema estrutural da economia brasileira e é o maior problema que o próximo presidente vai ter que enfrentar.”
A afirmação foi feita durante a palestra “Diagnóstico da Economia Brasileira e Recomendações para o Próximo Presidente”, ontem à noite na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). “Mudar a orientação da política econômica, de modo a recuperar e promover um processo de industrialização, mesmo que em bases modestas do ponto de vista temporal, de modo que o Brasil não se transforme simplesmente em um produtor de commodities”, esse é o desafio, segundo o economista.
Na avaliação de Belluzzo, o país vive uma desaceleração muito forte e isso pode levar à recessão econômica (quando a economia registra dois trimestres consecutivos de crescimento negativo no PIB). Ele citou entre os principais fatores para essa situação o desempenho do setor industrial, que apresenta queda relevante de produção, principalmente no setor automotivo, que iniciou demissões.
Belluzzo lembrou que a crise argentina tem dado uma contribuição adicional para os problemas da indústria no que diz respeito à queda da exportação manufatureira brasileira, mas destacou que os problemas da indústria brasileira vêm de mais longo prazo.
Segundo ele, a valorização cambial é um dos s principais elementos negativos para a indústria. Nos últimos 20 anos, desde a estabilização de preços do Plano Real, houve vários períodos de forte valorização da moeda nacional, por isso Belluzzo considera esse um problema de longo prazo estrutural.
“Temos que compreender o longo processo de valorização cambial que a economia brasileira viveu, porque ela é crucial para entender o que a economia vive hoje”, disse. “A indústria sofre há anos a queda do nível de produção. Ela está encolhendo. O setor de bens de capital está praticamente destruído, não só pela valorização cambial, mas por outras razões. Uma das razões do baixo crescimento do país é que a indústria não cresce.” Para Belluzzo, ao se descuidar da indústria, o país cometeu “um erro estratégico de longo prazo, que produz consequências graves da qual é difícil de sair”.
Segundo o economista, o efeito que a medida teria sobre a inflação é um dos motivos que leva o Banco Central a não desvalorizar o real. “Estamos encalacrados nessa situação difícil”, afirmou. “Seria um desastre se a inflação saísse desses 5,7% e 6% em que está e saltasse para 10% ou 12%. Você começaria um processo de reindexação de novo”, alerta Belluzzo.
A valorização cambial, lembrou, deu origem a uma mudança na origem de peças, componentes e bens de capital, com favorecimento desse fornecimento a partir de produção na China, com custos menores do que o Brasil. “A valorização cambial tornou o Brasil um país caro para se produzir. Enquanto isso, a China manteve o yuan desvalorizado pela sua estratégia de industrialização.”
Outro problema para quem for eleito presidente, segundo Belluzzo, é que será preciso enfrentar o reajuste dos combustíveis. “O não reajuste afeta diretamente o caixa da Petrobras. A Petrobras é grande demandante de equipamentos, várias empresas se constituíram para atender à demanda da Petrobras e elas não recebem. Essa questão é muito importante, porque o investimento da Petrobras significa 10% da taxa de investimento hoje da economia brasileira. Temos aí um problema grave.”
