Arquivo mensais:julho 2014

Por meio dos BRICS, Rússia fura bloqueio euroamericano

Por Pettersen Filho, via ABDIC

Ceará Agora/Reprodução

Reunida essa semana em Fortaleza, Brasil, a Federação Russa, através do seu Mandatário Vladmir Putin, juntamente com os demais membros do chamado BRICS, grupo que reúne países de realidades tão assimétricas, como China e África do Sul, ou Brasil e Índia, mas, cujo interesse de romper o Domínio Americano e do dólar desde Breton Woods (1944), logo no finalzinho da Segunda Guerra Mundial, como Moeda de Troca Internacional

A Rússia em especial, consegue ganhar voz fora do boicote e das sanções que ora sofre por parte da União Europeia e Estados Unidos, desde a deterioração da situação na Ucrânia, e anexação da Crimeia. Fazendo-o através da Fundação, em conjunto com os demais sócios, em momento particularmente sensível para a sua Política Externa, de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS, paralelo ao atual FMI e Banco Mundial, com quem fatalmente rivalizará.

Previsto funcionar para daqui a dois anos, com capital inicial de 50 bilhões de dólares, acrescido de um Fundo de Socorro para os BRICS, de outros 100 bilhões, cuja quota majoritária caberá à China, seguida da Rússia, Índia e Brasil, com menor quota da África do Sul. Com sede longe de Wall Street, ou Londres, o banco do BRICS promete ser uma alternativa para outros países que não do bloco, em contrapeso às atuais instituições de prevalência norte-americana ou europeia.

Estes fatores acabam por acrescentar lenha a tendência mundial de deixar de financiar a economia americana do dólar, cuja “Casa da Moeda”, ou gráfica, os americanos tem a exclusividade de emitir, como se fossem revistinhas de Wall Disney, sem dar qualquer satisfação ao mundo nem contrapartida em ouro que o lastreie. É o que tem feito em maior escala desde a Crise de 2008, após a chamada Bolha Imobiliária, afogando os Mercados do Planeta com sua “Moeda Podre”.

Tal manobra, se assim a podemos chamar, embora vinda no atual momento, é na verdade, fruto de uma política progressiva dos BRICS, capitaneados pela Rússia e a própria China que hoje é a maior detentora dos Títulos da Divida Americana, e acabam de fechar um acordo mutuo de fornecimento de Gás, da Rússia à China, envolvendo trilhões.

O Acordo de Fortaleza é inusitado justamente por ser assinado na América Latina, considerada desde sempre o “quintal” dos Estados Unidos. No que se seguiu da reunião de vários lideres latinos americanos que enseja, minimamente, as bases de uma futura União Pacifico/Atlântico jamais concebida ou obrada, devido à realidade tão diferente entre os próprios Países BRICS, cujo elemento catalizador em comum, por incrível que pareça, foi a própria arrogância americana.

Crise de água em SP: outro sistema entra em colapso

Por Fernando Brito, via Tijolaço e Brasil de Fato

Salvo uma reportagem ou outra, pouco tem sido dito sobre o “segundo front da seca” que ameaça São Paulo.

O Sistema Alto Tietê está secando cada vez mais rápido.

O segundo maior complexo de reservatórios destinados ao abastecimento da Grande SP, que está servindo como “complemento” para áreas antes conectadas ao Sistema Cantareira, para reduzir a retirada de água na situação de emergência em que este se encontra, não está suportando nem o acréscimo inicial feito há meses e, muito menos, as novas sangrias feitas a partir do novo agravamento da crise.

O Tietê representa metade da produção do Cantareira e leva 15 m³/s à estação de Taiaçupeba.

A queda no sistema passou de 0,1% ( meio bilhão de litros) por dia para 0,2% e, nos últimos dias, já bateu em 0,3%, ou 1,5 bilhão de litros a menos, diariamente.

Restam 24,3% dos reservatórios, ou cerca de 100 bilhões de litros.

O estado da represa de Jundiaí é este que você vê aí na foto.

E a situação é o que descreve a repórter Sabrina Pacca, num relato do qual transcrevo um trecho de poucos dias atrás, publicado no domingo:

“É desolador o cenário das cinco barragens que compõem o Sistema Produtor Alto Tietê (Spat). Uma imensidão de área, antes alagada, hoje vazia. A sensação, em alguns pontos, é de se observar um pântano. Em outros, de caatinga. Os peixes desapareceram, para desgosto dos pescadores. Moradores já se veem podendo usar, a pé ou a cavalo, antigas estradas que estavam debaixo d´água há mais de 20 anos e que, com a estiagem, reapareceram, a exemplo da barragem do Rio Jundiaí, onde a realidade é a mais impressionante delas.

Pela terceira vez, nesse semestre, a reportagem de O Diário percorreu as cinco represas do Spat. Elas nunca estiveram tão secas e as comunidades que vivem no entorno nunca estiveram tão assustadas. Parece que o temor pela falta de água nas torneiras tomou conta daquelas pessoas, mais próximas a essas paisagens angustiantes.

‘Todo mundo deveria visitar aqui. A Prefeitura deveria fazer excursões. Só vendo o que a gente vê, todos os dias, para que se tome consciência de que a água vai acabar mesmo e que vamos sofrer demais. É o sinal do fim dos tempos e está na Bíblia. Não tem jeito, a gente tem que economizar, pelo amor de Deus’, rogou o borracheiro, Elias Souza Alves, de 55 anos, que trabalha às margens da represa de Taiaçupeba, em Jundiapeba, que tem uma área de inundação de 19,36 km². (…)”

Como se trata da água que vai abastecer uma “pequena cidade”, São Paulo, e pouquíssima gente, apenas 4,5 milhões de pessoas, a gente tem de recorrer ao bravo Diário de Mogi, onde trabalha a repórter, e a seu fotógrafo Edson Martins, para ver e entender o que está se passando.

Não é assunto para um Jornal Nacional, não é?

Criação de Banco dos Brics deve marcar cúpula do bloco no Brasil

Por Sandro Fernandes, via Opera Mundi

Movimentos sociais se manifestam sobre a reunião dos BRICS em Fortaleza. Opera Mundi/Reprodução

Movimentos sociais se manifestam sobre a reunião dos BRICS em Fortaleza. Opera Mundi/Reprodução

No documento final do encontro, que dura até quarta-feira, é esperada uma menção à crise na Ucrânia

Fortaleza e Brasília recebem nesta semana a 6ª Cúpula dos BRICS, o bloco dos países emergentes que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O encontro oficial começa nesta segunda-feira (14/07), em Fortaleza, com o encontro dos ministros da Fazenda e presidentes dos bancos centrais dos cinco países. Também hoje, a presidenta Dilma Rousseff recebe em Brasília o colega russo, Vladimir Putin, em reunião bilateral.

Amanhã, os chefes de Estado dos cinco países devem assinar em Fortaleza os atos de criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês, ou simplesmente Banco dos Brics) e do Arranjo de Contingente de Reservas (CRA, na sigla em inglês). O banco e o fundo de reserva são uma resposta dos BRICS à falta de reforma nas instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial e o FMI (Fundo Monetário Internacional). O banco terá um capital inicial de US$ 50 bilhões (R$ 110 bi), com cotas iguais por cada país. Este valor poderá dobrar. Já o ACR começará com capital de US$ 100 bilhões (R$ 220 bi) e a contribuição de cada país depende do seu PIB – a China aportará US$ 41 bi; Brasil, Rússia e Índia entrarão com US$ 18 bi cada e a África do Sul contribuirá com US$ 5 bi. O objetivo da reserva é ser um fundo para cobrir crises no balanço de pagamento dos países em questão.

As negociações para a criação do banco já levam pelo menos dois anos. Um dos pontos de conflito era a intenção da China em ter uma participação maior na instituição com o aporte de mais capital.

A Cúpula continuará em Brasília, com o encontro entre os líderes dos BRICS e alguns presidentes sul-americanos, na quarta-feira (16/07). Neste dia, está prevista ainda uma reunião particular entre a presidenta brasileira e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e o início da visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, que termina no dia 17.

Paralelamente ao encontro oficial, organizações da sociedade civil se reúnem na capital cearense para debater o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e o CRA. “As novas instituições serão responsáveis pela concessão de créditos aos países em desenvolvimento e a sociedade civil reunida em Fortaleza pede políticas que garantam transparência e salvaguardas ambientais e sociais, além de mecanismos formais de consulta com as comunidades afetadas e com a sociedade no desenvolvimento dessas novas instituições financeiras”, explicou Juliana Câmara, assessora da ONG internacional ActionAid, em entrevista a Opera Mundi.

“A ideia não é ser uma contra-Cúpula. No início, queríamos que fosse um evento para discutir como o Banco poderia financiar um modelo alternativo de desenvolvimento. Mas chegamos à conclusão de que a instituição não apresentará um modelo alternativo, então a importância da sociedade civil organizada se faz ainda maior”, conta Marcela Vecchione, da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais.

A Rede Brasil monitora o impacto dos projetos financiados por instituições multilaterais, como o Banco Mundial, e começará a fazer o mesmo trabalho com o Banco dos Brics. Segundo Marcela, o ideal seria que houvesse uma instituição dentro da instituição, com uma rede de organizações sociais monitorando o Banco. “Nunca tivemos a ilusão de que seria uma rede deliberativa, com poder de decisão, mas ao menos consultiva. A impressão é que a nova instituição não se diferencia das instituições tradicionais.”

Um ato de rua organizados pelos movimentos sociais está programado para amanhã, às 14h.

Brics e a política internacional

Apesar de ser um bloco essencialmente econômico, há uma cobrança cada vez maior para que a vertente política dos Brics seja mais clara. No texto final da Cúpula, que será feito público na terça-feira, é aguardada uma menção à crise ucraniana e às sanções impostas à Rússia por União Europeia, Estados Unidos e Canadá.

Brasil, China, Índia e África do Sul se abstiveram na votação da Assembleia Geral da ONU que condenou a Rússia pela anexação da Crimeia, território ucraniano com população majoritariamente russa que foi anexado por Moscou em março deste ano.

No dia 16, os líderes da União Europeia decidem se aumentam as sanções contra a Rússia. A data coincide com o encerramento oficial da Cúpula dos BRICS.

Em campo, vitória alemã. Nas ruas, autoritarismo

Cerco policial ilegal aos manifestantes. A Nova Democracia/Reprodução

Por Rennan Martins

E então chegamos ao fim da segunda Copa do Mundo ocorrida em nosso país. A taça não veio, ficou com os alemães. O apocalipse da infraestrutura também passou longe, o que se viu em termos de organização é digno de reconhecimento. Os 7 a 1 sofridos no Mineirão entraram pra história, mas o que realmente manchou o quadro foi o aparato policial e judiciário armado pra garantir o evento, que desconheceu o termo legalidade.

Durante todo o desenrolar do torneio ocorreram manifestações das mais diversas pautas, de lemas variando do hostil Não Vai Ter Copa, ao realista Copa Pra Quem? E então tivemos a reação do poder público diante desses atos, que demonstrou todo o seu desgaste e deficit de representatividade quando trataram de criminalizar os cidadãos que vão às ruas com pautas legítimas.

Deixo de lado nesse ensaio o histórico de repressão do evento, já bem documentado e que, sem dúvida, será compilado, para me ater somente aos acontecimentos do final de semana de encerramento. Estes, por si só, são o suficiente pra evidenciar toda a arbitrariedade judiciária e policial que se deram como que orquestradas, objetivando a uma “ordem” benéfica somente aos escolhidos, os que ficaram com os dividendos.

O serviço de encarceramento dos julgados potencialmente perigosos iniciou no sábado, quando a polícia civil deflagrou a operação Firewall II, coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática. Foram expedidos 26 mandados de prisão pela 27ª Vara Criminal, 19 destes foram presos, os outros são considerados foragidos.

Esta operação gerou uma onda imensa de críticas por parte de diversas entidades e intelectuais.

O deputado estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, considerou que essas prisões são “uma derrota da democracia, uma derrota do campo da política e dos direitos”. O jornalista Leonardo Sakamoto ironizou em seu blog, dizendo que instituiu-se a divisão de pré-crimes na polícia civil, esta só retratada no filme de ficção futurista, Minority Report. O também jornalista e ex-preso político Cid Benjamin, recordou-se das arbitrariedades da ditadura com estes fatos.

O juiz João Batista Damasceno, integrante da Associação Juízes para a Democracia (AJD) posicionou-se sobre o caso, para ele “Violou-se o direito constitucional de liberdade de manifestação do pensamento e direito de reunião.” Disse ainda que “não há como defender a legalidade de tais prisões”.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ apresentou ontem (13) o pedido de soltura dos presos. Marcelo Chalréo, seu presidente, declarou que “É um escândalo o chefe da polícia civil (delegado Fernando Veloso) corroborar com esse tipo de ação de seus subordinados. Não há provas de que eles formam uma quadrilha armada. Trata-se, nitidamente, de uma prisão política”.

A Anistia Internacional, por sua vez, publicou nota definindo a situação como “preocupante por parecer repetir um padrão de intimidação que já havia sido identificado pela organização antes do início do mundial.”

Os acusados permanecem sob prisão temporária, contando ainda com o vergonhoso, mas já não surpreendente, silêncio da grande mídia.

Passemos então pro ato ocorrido ontem na Praça Saens Pena, centro da capital carioca, também recheado de exemplos de desrespeito ao Estado de Direito. Tratou-se de uma verdadeira aula de abuso de autoridade e violação de direitos por parte da polícia militar.

O sindicato de jornalistas do estado registrou ontem que 12 profissionais de mídia sofreram violência por parte dos agentes públicos de “segurança”. As agressões variaram de cacetadas, passando por quebra de equipamentos de trabalho, chegando até mesmo ao uso de spray de pimenta nos olhos a curta distância.

Mídia NINJA/Reprodução

O Jornal A Nova Democracia noticia que “Dezenas de pessoas ficaram feridas e seis foram presas. As lentes de AND registraram toda ordem de abusos cometidos por policiais: agressões, linchamentos, roubos, bombas de gás e efeito moral sendo atiradas a esmo, tiros de bala de borracha”.

Alguns dos abusos podem ser vistos no vídeo abaixo:

Como se não bastasse, ao final do ato cerca de 400 ativistas remanescentes foram cercados pelos mesmos policiais. Esta medida constitui violação grave a direitos e liberdades garantidas por lei.

Essa escalada de autoritarismo que temos testemunhado desde junho do ano passado põe em cheque a própria democracia que voltamos a construir há nem três décadas. Necessário é que todos os que possuem compromisso com estes valores políticos, independente de eventuais diferenças, se unam pra garantir direitos e liberdades para além da letra morta.

Futebol: A queda de uma superpotência

Por Pepe Escobar, via facebook

Sei que não tem importância alguma. Israel está bombardeando Gaza, Kiev está bombardeando a Ucrânia do leste, o Califa anda por aí totalmente pirado, o Império do Caos joga rouba-monte. Mas, agora, tenho de desabafar.

Estava guardando essa foto para o momento certo. É hoje. Conheçam um paraíso tropical clássico – Santo André, na Bahia, perto do local onde o Brasil foi ‘descoberto’ pela Europa em 1500.

Eu também estava aí no início da Copa do Mundo, na casa de Anna, minha amiga e anfitriã generosa. O campo de treino dos alemães – de fato, um condomínio de casas de veraneio – foi vedado e adaptado com perfeição. Mas os jogadores visitavam a vila, visitaram a escola local, dançaram com índios pataxó, andavam pela praia ao raiar do dia. E treinaram MUITO. Disciplina, compromisso, trabalho decente – e curtindo cada minuto desse apaixonante canto do paraíso. Foi aí que os já famosos/infames 7-1 da demolição do futebol brasileiro começaram.

O time do Brasil, entrementes, estrelava um convulsionante, lacrimoso (literalmente) psicodrama enlouquecido que envolveu 200 milhões de pessoas. Foi como uma telenovela abismal – NENHUM trabalho decente ou disciplina; só Plim-Plim e um doentio sentimento de posse: ‘é nossa’ (a taça). Tinha de ser deles, porque, afinal, o principal mito nacional brasileiro ensina que “Deus é brasileiro”.

Como parábola da globalização, muito antes da Copa, o Brasil – que um dia foi superpotência futebolística – já havia sido reduzido, por níveis concêntricos de má administração, a um papel subalterno de exportador de matéria prima (jogadores de talento, por exemplo). Nem uma linha de qualquer ideia de investir no futuro; tudo sempre se tratou de lucrativos ‘direitos’ de transmissão por televisão, reservados sempre, como privilégio, só a algumas redes.

A Alemanha, por outro lado, desde que perdeu a Copa do Mundo de 2002 (para o Brasil), passou a investir em vasta rede de escolas de futebol, parte de um programa nacional de fomentar o surgimento de talentos e dar-lhes educação e formação. E de preparar técnicos.

Três horas antes do início da humilhação dos 7-1, meu barbeiro pediu-me um palpite para o jogo. “Alemanha 4 a zero”, mandei eu. Todos ficaram boquiabertos. Ora, ora… Viajei da Ásia, depois da Europa, para cobrir a Copa do Mundo aqui, como se estivesse cobrindo uma guerra. E o que de início era só desconfiança confirmou-se, quando começou a desenrolar-se o psicodrama envolvendo 200 milhões de pessoas.

Todos os sinais indicavam que ‘o grupo’, um bando de jovens milionários psicologicamente instáveis estava a ponto de explodir espetacularmente. Já haviam ameaçado explodir no jogo contra o Chile; depois novamente no jogo contra a Colômbia. Até que finalmente aconteceu durante 6 minutos, enquanto a Alemanha fazia quatro gols – e, aos 29 minutos, já ganhava por 5-0.

Surpresa? Não, de fato, não. O Brasil já deixou há muito tempo de jogar “jogo bonito”, depois daquele fabuloso 1970, e, depois, do mais bonito ainda, que jamais venceu coisa alguma, em 1982. Depois daquilo, o Brasil, lar do jogo bonito, virou mais um mito – um elaborado truque de marketing (com ‘uma mãozinha’ da Nike).

E os brasileiros gostaram da autoenganação, enrolados numa grife de nacionalismo perenemente barata tipo “We Are the Champions.” Deu no que deu. A Alemanha fez a coisa certa – “jogo bonito” de verdade, com passes cintilantes, acabamento perfeito, triangulação elegantíssima, padrão Chicago Bulls dos seus dias de glória.

O time dos brasileiros entrou em colapso nervoso, antes de tudo, por razões táticas/técnicas; foi time sem meio campo, jogando contra o melhor meio de campo do planeta. Culpa dos cartolas, da federação brasileira de futebol, da “comissão técnica” que indicaram – bando de ignorantões arrogantes sem talento, que reproduz, igualzinho, sem tirar nem pôr, a arrogância/ignorância das elites políticas e econômicas brasileiras, velhas e novas. Assim como a polícia brasileira, bem ironicamente, desmantelou uma gangue de gente da FIFA que vendia ingressos no mercado negro no Rio de Janeiro (a Scotland Yard nem desconfiava!), mais uma vez deixaram passar a outra gangue – que enche os corredores e os gabinetes do futebol brasileiro.

Haverá infindáveis reverberações políticas sobre esses 7-1 arrasadores. Vai muito além dos endinheirados brasileiros que podem pagar ingressos a preços FIFA e, simultaneamente, desprezam a presidenta Dilma pelo que gasta para melhorar as condições de bem-estar social. Com certeza tem a ver com pagar a conta da funfest da própria FIFA ($4 bilhões, sem impostos) pagos pelos locais, para nem falar da conta total (espantosíssimos $13,6 bilhões). (…)

A maior humilhação esportiva global na memória do mundo ESTÁ diretamente relacionada à síndrome da ignorância/arrogância das elites brasileiras e ao senso de “já ganhou”/“nunca perderá”.

Ao mesmo tempo, ninguém pode aspirar a tornar-se “superpotência” quando sua autoidentidade é construída em torno de um esporte – o futebol – comandado por escroques. Os deuses do futebol decidiram encerrar o psicodrama dos 200 milhões em campo. Lamento pelos derrotados – a maioria daqueles 200 milhões de torcedores, muitos dos quais gente boa e trabalhadora, porque foram engambelados.

O Brasil pode beneficiar-se de quantidades ilimitadas de soft power em todo o mundo, mas vocês têm de se livrar dessa sua elite corrupta e ineficiente. Se o futebol continua a ser o único elemento que mantém coeso o país, melhor começar a pensar sério, compreender de onde brotou a humilhação, livrar-se para sempre desses salafrários autopromovidos a sumidades, mostrar muita humildade e trabalhar DE VERDADE. Examinem em detalhe o que fez a Alemanha – e vocês reencontrarão o paraíso.

Tradução: Vila Vudu

A hora da reação nacional contra um Estado genocida

Via Luis Nassif Online

Jornal GGN/Reprodução

As conclusões do jurista Luiz Flávio Gomes são da maior relevância. Ao defender a tese de que o Estado brasileiro é genocida, Gomes abre uma discussão que poderá ser a saída para uma escalada sem paralelo da violência institucional e popular.

É hora do Judiciário se firmar como um poder civilizatório e montar uma frente contra os desmandos.

Não dá mais para procrastinar. Em todos os estados há uma escalada de violência inédita contra pobres, negros, índios, um estímulo às execuções por parte da polícia e ao linchamento por parte da população..

E ninguém é responsabilizado. Quando ocorre alguma punição é na ponta da cadeia do genocídio: o soldado que deu o tiro final. Os maiores responsáveis – autoridades que estimulam a violência ou se eximem de combate-la – permanecem em posição cômoda, graças à cumplicidade institucional brasileira.

Esta semana pela primeira vez houve uma condenação em São Paulo pelos crimes de maio – o massacre de mais de 600 jovens de periferia, em represália pelos ataques do PCC.

Foi o mais vergonhoso episódio da história da cidade, um massacre coordenado que só foi interrompido quando um grupo de procuradores federais e médicos do Conselho Regional de Medicina correram ao Instituto Médico Legal (IML) para garantir o laudo – prova inicial para os futuros inquéritos. Só assim cessou a matança.

Foram mais de 600 assassinados, na maioria jovens de periferia, maioria negros, óbvio, grande parte sequer com antecedentes criminais.

Condenou-se UM soldado à prisão. E os chefes? E a Secretaria se Segurança, que permitiu que se desligasse a comunicação dos rádios da polícia para não deixar rastros? E o Ministério Público Estadual que não deu seguimento a um inquérito sequer? No caso dos índios, como explicar a ausência criminosa de mediação por parte do Ministério da Justiça? Como tolerar as mortes frequentes nas UPPs cariocas? Não se trata de fenômenos isolados, mas de uma escalada de violência à altura dos piores períodos ditatoriais.

É hora da Justiça se manifestar e do Ministério Público começar a agir:

1. Quando o Ministro da Justiça abandona a mediação de conflitos indígenas, em áreas conflagradas, tem que ser responsabilizado por omissão dolosa pelos crimes que ocorrerem devido à sua ausência. E se nada for feito, a responsabilização tem que chegar ao chefe do Ministro: a presidente.

2. Quando o Secretário de Segurança de São Paulo endossa violência policial, tem que ser responsabilizado por incitação à violência. Assim como o governador do Estado, quando diz que só morreram os que resistiram. Quando o Secretário muda a cúpula da PM tem que se saber a razão: se a substituição implicar em mais violência, que seja responsabilizado.

3. Quando um comentarista em veículo de larga difusão estimula o linchamento, tem que ser responsabilizado.

4. Quando aumenta o número de mortes pela PM, os comandantes da força, respectivo Secretário de Segurança e governador têm que ser responsabilizados.

E todas essas denúncias precisam ser levadas às cortes internacionais para uma chacoalhada que permita a este país recuperar um mínimo do respeito aos direitos individuais e coletivos.

O Estado brasileiro é genocida?

02/07/2014 por Luiz Flávio Gomes

“Fingi de morto, conta jovem que sobreviveu a ataque de PMs no Rio; M., 15 anos, levou tiros de fuzil e pistola e foi socorrido numa igreja; outro garoto, de 14 anos, não resistiu e morreu; dois cabos da PM foram presos; fatos ocorreram em 11/6/14, num matagal do morro do Sumaré (RJ), para onde os menores foram levados; os meninos foram baleados 4 vezes; os comerciantes da região disseram que o local é ponto de desova (ocultação de cadáveres produzidos pela PM); Aline dos Santos, tia do garoto morto, já perdera o marido e um tio assassinados; o pai reconheceu o garoto abandonado no matagal e disse: “se tivesse feito algo errado, deveria ser levado para a delegacia, não assassinado”; M. disse que estava tranquilo nas mãos dos policiais, até chegar ao morro do Sumaré; “ali vimos que iam fazer maldade” (Folha 21/6/14: C4). No Brasil a polícia executa sumariamente os jovens negros, pardos ou brancos pobres (sobretudo da periferia) e isso é feito cotidianamente. Também diariamente um ou mais de um policial é assassinado. Faz parte do pacote genocida a morte de policiais. Como não são fatos isolados, sim, corriqueiros, frequentes, parece não haver nenhuma dúvida de que as execuções sumárias dos agentes do Estado fazem parte de uma política pública genocida.

A tese que estamos desenvolvendo é esta: o Estado brasileiro é genocida e faz isso por ação e omissão. Um dia tem que ser responsabilizado por esse genocídio massivo nos tribunais internacionais. Espera-se pela mobilização das entidades de defesa dos direitos humanos de todos (das vítimas dos policiais bem como dos policiais-vítimas). Basta que se compreenda o verdadeiro conceito de genocídio (que é um crime contra a humanidade e imprescritível).

Morrison, com seu livro Criminología, civilización y nuevo orden mundial (Barcelona: Anthropos, 2012), não apenas reivindica uma nova criminologia, de natureza global, como sustenta a necessidade de um novo conceito de genocídio (tendo estudado no livro incontáveis massacres humanos, desde 1885). De minha parte acredito que o melhor caminho epistemológico seria reconhecer como genocídio todos os massacres massivos contra qualquer agrupamento humano por razões de raça (assassinatos massivos dos afrodescendentes, por exemplo), cor (massacre dos jovens negros e pardos pobres), etnia (massacre dos índios), religião, sexo (massacre dos homossexuais), origem, socioeconômicas(massacre dos pobres), machistas (massacre das mulheres em razão do gênero) etc. Zaffaroni (na apresentação do livro citado, p. XV e ss.) sublinha que deveríamos (pelo menos) prestar mais atenção e tentar estancar os massacres (genocidas) provocados pelo Estado.

Particular interesse científico apresenta, nesse novo contexto epistemológico, o genocídio no Estado brasileiro. Não somente por razões históricas (ele se formou dessa maneira, massacrando massivamente os índios e os negros). Entendido de forma ampla, o novo conceito de genocídio permite o seu reconhecimento no seio da política pública de segurança instituída no nosso país (desde 1822). Trucida-se diariamente não apenas os jovens negros, pardos e brancos pobres (das periferias), como também os próprios policiais (em 2012, somente no Estado de São Paulo, mais de 100 deles foram mortos em razão das suas atividades). Anualmente, milhares são as vítimas dos policiais e centenas são os policiais-vítimas.

São incontáveis as implicações jurídicas desse novo enfoque, visto que o crime de genocídio, repita-se, é crime contra a humanidade e imprescritível. Mais ainda: se se trata de crime contra a humanidade, o Brasil poderá ser demandado nas Cortes Internacionais por esses crimes jushumanitários. Ademais: se o crime é imprescritível, também o seria a reparação desses danos (consoante a doutrina de Zaffaroni, na apresentação do livro acima citado, p. XV).

Uma das maiores novidades criminológicas deste novo século consiste na solidificação da tentativa de se ampliar (criminologicamente) o conceito de genocídio, classicamente tido como um ataque a um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, com o escopo primordial de dizimá-lo. Dessa tarefa se encarregou o neozelandês (Wayne Morrison), professor da Escola de Direito Queen Mary (Universidade de Londres), que já desponta como um dos criminólogos mais importantes do século XXI, em razão da sua criteriosa e histórica pesquisa sobre os incontáveis genocídios (milhões de cadáveres) praticados desde o final do século XIX. Um detalhe sumamente relevante: de todos esses horrendos genocídios não cuidou a criminologia desenvolvida nos países centrais (Europa, EUA etc.). Que faziam a criminologia e o direito penal durante todos esses massacres? Nenhuma linha sobre eles. É hora de a criminologia (burocrática) deixar de cuidar exclusivamente dos homicídios comuns e roubos (Zaffaroni). O mundo dos genocídios massivos deve gozar de absoluta prioridade científica e política frente ao ladrão de galinha!

Do já famoso livro de Morrison não constam detalhes do genocídio brasileiro, mas ele existe. Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, de 1980 a 2012.

Uma muito relevante parcela dessas mortes tem como responsável direto o Estado brasileiro, que protagoniza (por meio dos seus agentes) uma das políticas racistas e genocidas mais cruéis do planeta. Por exemplo: em julho de 1993 alguns PMs mataram oito crianças que dormiam em marquises próximas da Igreja da Candelária, no RJ. Fatos como esse se tornaram diários, o que comprova que é uma política de Estado, que atua para matar e, normalmente, se omite no apurar e punir os executores sumários.

 

O humilhante fim do treinador brasileiro que admirava Pinochet

Via El mostrador

Elpais/Reprodução

Luis Felipe Scolari derrotou os alemães em 2002, na final do Mundial da Coreia-Japão. Porém, é muito provável que seja mais lembrado por essa acachapante derrota que sofreu o Brasil no Mineirão, em Belo Horizonte, mesmo local onde poucos dias antes Neymar e companhia sofreram até as lágrimas para vencer nos pênaltis o Chile, nas oitavas de final.

Ninguém poderá dizer que ele nada ganhou em sua carreira. Luiz Felipe Scolari (65 anos) já foi campeão do mundo com a seleção brasileira em 2002, quando derrotou por 2 a 0 a Alemanha. Porém, sem dúvida que passará a história como o técnico que dirigiu a “verdeamarela” em qualidade de anfitriã do Mundial de 2014, tendo caído categoricamente numa derrota por 7 a 1, na semifinal, diante dos mesmos alemães.

O estádio Mineirão de Belo Horizonte, mesmo local onde sofreram até as lágrimas no último dia 28 para superar o Chile nos pênaltis nas oitavas de final, foi o cenário da maior humilhação esportiva brasileira das últimas décadas.

Scolari, que há 16 anos chegou a declarar que o falecido ex-ditador Auguto Pinochet – quando já havia sido preso em Londres – “fez mais coisas boas que más” tendo justificado a repressão do regime militar chileno dizendo que “há determinados momentos em que se deve ter ordem ou então a anarquia desata”, chegou ao mundial em meio a críticas de baixo rendimento de sua equipe nas partidas amistosas, e por deixar de fora do time figuras como Robinho e Ronaldinho Gaúcho, que bem se sabe não ser a figura de antes, mas que realizou boa temporada no brasileirão passado.

Se por um lado a chegada as semifinais deu a ilusão a torcida de que era possível sonhar com o hexacampeonato, por outro, na partida contra a seleção chilena acendeu-se o alarme por conta da pressão que sofreram os jogadores, tando pela necessidade de se obter um bom resultado como pelo contexto social que viva o país, onde a empolgação com o futebol permitiu que se reduzisse as violentas manifestações de rechaço aos gastos milionários para a organização do Mundial.

A incerteza da seleção brasileira cresceu mais nas quartas de final, onde derrotou a Colômbia, também sem não sofrer, por 2 a 1. No entanto, não foram essas dúvidas que se destacaram, mas sim a lesão na coluna que deixou Neymar fora da competição, o atacante do Barcelona que se mostrou referência desta equipe. E então tivemos um Scolari que se viu sem ideias, sucumbindo como nunca antes e em sua própria casa diante dos alemães dirigidos por Joachim Low, equipe que o treinador brasileiro disse respeitar, antes do “Mineiraço”.

Em coletiva de imprensa na segunda-feira anterior a partida, Scolari referiu-se as críticas que recebia o próprio Low frente a seleção alemã, de quem duvidavam que tivesse condições para aspirar a Copa. “Não importa. De mim também dizem que não sirvo pra ganhar um Mundial”, disse, sem saber que desta vez, seus detratores tinham razão.

Tradução: Rennan Martins