Arquivo mensais:julho 2014

Empreiteira que construiu aeroporto na fazenda do tio de Aécio doa para campanha

Via Correio do Brasil

Aécio tentou explicar obra realizada na fazenda de seu tio, em Minas. Correio do Brasil/Reprodução

Quando no governo do Estado de Minas Gerais, o candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, liberou a construção de um aeroporto em uma fazenda de propriedade do tio dele, na cidade de Cláudio, interior do Estado. A obra, que custou cerca de R$ 14 milhões aos cofres públicos, foi concluída em 2010, na fazenda de Múcio Guimarães Tolentino, o tio do senador. A denúncia, que gerou protestos por todo o país, não para na possível malversação do Erário, mas chama atenção para fatos como o equipamento, embora público, ser administrado pela família de Aécio e, segundo o diário conservador paulistano Folha de S.Paulo, autor da denúncia, quem “tem a chave” para acessa-lo é o próprio Múcio Tolentino.

Na nota que divulgou na manhã de domingo, Aécio tentou dar explicar o negócio envolvendo o governo mineiro – sob sua gestão – e da família. Ele alega que o “antigo proprietário” contesta o valor da desapropriação promovida pelo Estado para implementar o aeroporto. Ou seja, o tio de Aécio teve um aeroporto construído em sua fazenda, com dinheiro do governo do Estado, gerido pelo sobrinho, “tem a chave” da pista e quer receber mais do que determinaram as perícias de uma desapropriação que ao que tudo indica só se deu no papel.

A novidade, porém, fica por conta da empresa que venceu a licitação para a obra ser doadora da campanha eleitoral de Aécio Neves. A Vilasa Construtora doou R$ 67 mil para o comitê de Neves na disputa ao governo mineiro, em 2006. A informação está registrada no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais. Em 2010, quando o aeroporto foi construído, o sucessor de Aécio, Antonio Anastasia, recebeu R$ 20 mil da empresa para sua campanha.

Os valores não são expressivos no montante geral de gastos dos candidatos. Em 2006, Aécio orçou junto à Justiça Eleitoral sua campanha em R$ 20 milhões. Já em 2010, Anastasia estimou gastar R$ 35 milhões. Entretanto, os recursos repassados pela empresa aos tucanos figuram no rol de episódios em que empresas fazem doações eleitorais e conquistam também contratos públicos. A Vilasa já foi contratada para outras obras do governo mineiro, como informa seu site, em empreendimentos de Copasa (Companhia de Saneamento) e Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais. Também já prestou serviços para o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e outros órgãos públicos.

O que aconteceu ao avião da Malaysia Airlines?

Por Paul Craig Roberts, via Rede Castor Photo

1ª página do NYTimes de 18/7/2014 já informa que o voo MH17 foi derrubado por míssil. Como?

A máquina de propaganda de Washington está trabalhando em tão alta rotação, que há risco de perdermos os dados e fatos comprovados que já temos.

Um desses fatos é que os federalistas não têm os caros sistemas de mísseis antiaéreos Buk ou não têm pessoal treinado para operá-los.

Outro fato é que os federalistas não têm incentivo ou motivo para, ou interesse em, derrubar avião de passageiros; a Rússia tampouco. Qualquer um sabe ver a diferença em um avião de combate voando baixo e um avião de passageiros a 33 mil pés de altura.

Os ucranianos têm sistemas Buk de mísseis antiaéreos, e uma bateria Buk estava operacional na região e localizada em ponto do qual poderia ter disparado um míssil contra o avião.

Assim como os federalistas e o governo russo não têm incentivo nem motivo para derrubar avião de passageiros, tampouco os tem o governo ucraniano; e, de fato, nem os ensandecidos nacionalistas extremistas ucranianos que formaram milícias para fazer as lutas contra os federalistas que o governo ucraniano não têm interesse em fazer. A menos que haja aí um plano para culpar a Rússia.

Um general russo que conhece o sistema de armas apresentou sua opinião, de que foi erro cometido por militares ucranianos não treinados para usar aquela arma. O general disse que, embora a Ucrânia tenha algumas armas, os ucranianos não foram treinados para usá-las nesses 23 anos desde que a Ucrânia separou-se da Rússia. O general acredita que tenha sido um acidente devido à incompetência.

Sistema de mísseis Buk do exército ucraniano

Essa explicação faz algum certo sentido e com certeza faz muito mais sentido que a propaganda de Washington. O problema com a explicação do general é que não explica por que o sistema Buk de mísseis antiaéreos foi posto próximo de, ou dentro de, território dos federalistas. Os federalistas não têm força aérea. Parece estranho que a Ucrânia mantivesse um caríssimo sistema de mísseis em área na qual não teria uso militar – e em posição na qual poderia ser capturado pelos federalistas.

Como Washington, Kiev e a imprensa-empresa press-tituta [orig. presstitute] também estão obrando na propaganda de que Putin é culpado, ninguém encontrará na mídia norte-americana qualquer informação aproveitável. Teremos de procurar e de construir nós mesmos nossa própria informação aproveitável.

Um modo de fazer isso é perguntar: por que aquele sistema de mísseis estava onde estava? Por que pôr em risco um caríssimo sistema de mísseis, pondo-o num ambiente conflagrado, no qual não teria nenhuma serventia? Incompetência, sim, é uma das respostas; outra resposta é que o sistema de mísseis foi posto ali, para ser usado, porque seria usado.

Seria usado para quê? Noticiosos e provas circunstanciais têm fornecido duas respostas. Uma delas é que os extremistas ultranacionalistas anti-Rússia e pró-EUA & Europa tinham planos para derrubar o avião presidencial de Putin; e teriam confundido o avião malaio e o avião russo.

Como os EUA (e o Wall Street!) “sabiam” que o MH17 havia sido derrubado por míssil no mesmo dia?

A agência Interfax, citando fontes anônimas, aparentemente controladores de tráfego aéreo, noticiou que o avião malaio e o avião de Putin estariam em rotas quase idênticas, com poucos minutos de intervalo entre um e outro. Interfax cita sua fonte:

O que posso dizer é que o avião de Putin e o Boeing malaio cruzaram-se no mesmo ponto no mesmo degrau. Foi perto de Varsóvia, no degrau 330-m, altura de 10.100 metros. O jato presidencial estava nesse ponto às 16h21 hora de Moscou, e o avião malaio, às 15h44 hora de Moscou. Os perfis das aeronaves são semelhantes, as dimensões lineares são muito semelhantes, e as cores, observadas em grande distância, são quase idênticas.

Não encontrei nenhum desmentido oficial russo, mas, segundo noticiários russos, o governo russo informou, em resposta às notícias da agência Interfax, que o avião presidencial de Putin já não voa a antiga rota da Ucrânia desde o início das hostilidades.

Antes de aceitar essa negativa, é preciso ter bem claro que qualquer tentativa pelos ucranianos de assassinar o presidente da Rússia implica guerra – exatamente a guerra que a Rússia quer evitar. Implica também a cumplicidade de Washington na tentativa de assassinato, porque é altamente improvável que os fantoches de Washington em Kiev arriscar-se-iam a cometer ato tão perigoso, se não contassem com o apoio dos EUA.

O governo russo, que é inteligente e racional, com certeza negaria todas as notícias sobre uma tentativa, por Kiev e Washington, de assassinarem o presidente russo. Se não negar, a Rússia fica obrigada a tomar alguma providência – quer dizer: também implica guerra.

A segunda explicação é que os extremistas pró-Europa-EUA que operam por fora do aparelho militar ucraniano oficial tenham concebido um atentado para derrubar um avião de passageiros, para inculpar a Rússia. Se houve um atentado, o mais provável é que tenha sido gerado pela CIA ou por algum braço operativo de Washington; e visaria a forçar a União Europeia a parar de opor-se às sanções de Washington contra a Rússia, além de contribuir para romper valiosos laços econômicos que conectam a Rússia à Europa. Washington está frustrada por suas sanções continuarem a ser unilaterais, sem apoio dos fantoches dos EUA na OTAN, nem de qualquer outro país no planeta, exceto talvez do cachorrinho-de-madame e primeiro-ministro britânico.

David Cameron e Barack Obama

Há muitas provas circunstanciais a favor dessa segunda explicação. Há o vídeo em Youtube apresentado como de uma conversa entre um general russo e federalistas, que falam sobre terem derrubado, por erro, um avião de passageiros. Segundo o noticiário,especialistas que examinaram o vídeo já sabem que foi gravado na véspera, um dia antes de o avião malaio cair.

Outro problema com esse vídeo é que, por mais que se possa crer que os federalistas tivessem confundido um avião de passageiros a 33 mil pés de altitude, com um jato militar de ataque, o general russo jamais os confundiria. A única conclusão é que, ao fazer falar um militar russo (verdadeiro ou falso), para tentar dar credibilidade a um vídeo falso, os falsários erraram e desacreditaram-se, eles mesmos.

A prova circunstancial que o público não especialista pode entender mais facilmente está na sequência de noticiários de televisão produzidos para culpar a Rússia… antes de que se conheça qualquer fato.

Em meu artigo anterior falei de um noticiário da BBC ao qual assisti e que, com certeza, foi integralmente produzido para culpar a Rússia. O programa concluía com um correspondente da BBC, ofegante, dizendo que acabava de assistir ao vídeo em YouTube, e que ali estava a prova do crime e “não resta dúvida alguma” – dizia o jornalista. A prova do crime apareceu para o jornalista da BBC, antes de o governo da Ucrânia e Washington saberem das coisas.

A prova de que Putin fez tudo seria um vídeo filmado antes do ataque ao avião malaio. Todo o noticiário produzido pela BBC e distribuído pela [rede] National Public Radio foi orquestrado para a exclusiva finalidade de “provar”, antes de haver qualquer prova, que a Rússia teria sido responsável.

A 1ª página do Daily News já em 18/7/2014 acusa Putin diretamente

Verdade é que toda a imprensa-empresa ocidental falou como uma só voz: foi a Rússia! E todas as press-titutas/press-titutos continuam a dizer sempre a mesma coisa.

O mais provável é que essa opinião única e uniforme apenas reflita o treinamento pavloviano da imprensa-empresa ocidental que, sempre, automaticamente, se alinha com Washington. Nenhuma “fonte” quer ser criticada por “antiamericanismo” ou quer ver-se isolada da opinião geral, a única que se ouve, a única que se admite, a única que não pode ser contestada, sob pena de o “especialista” receber “nota vermelha” no boletim.

Como ex-jornalista e colaborador dos mais importantes veículos da imprensa-empresa nos EUA, sei muito bem como funcionam.

Por outro lado, se se descontam os condicionamentos pavlovianos – que gera o “jornalismo” de repetição automática – a única conclusão que resta é que todo o ciclo de notícias sobre o avião malaio está sendo orquestrado para inculpar Putin.

Romesh Ratnesar, vice-editor de Bloomberg Businessweek, oferece prova convincente de que, sim, tudo está sendo orquestrado, com o que publicou dia 17/7/2014.

O título da coluna de Ratnesar é “Derrubada do avião malaio atrai desastre para Putin”. Ratnesar não está dizendo que Putin pode estar sendo vítima de um complô. O que ele diz é que antes de Putin ter derrubado o avião malaio,

Romesh Ratnesar

(…) para a vasta maioria dos norte-americanos o comprometimento da Rússia na Ucrânia parecia só ter importância periférica para os interesses dos EUA. Esse cálculo mudou (…). Talvez demore meses, talvez anos, mas a crueldade de Putin voltará a desabar sobre ele. Quando acontecer, a derrubada do MH 17 será afinal vista como o começo do fim de Putin.

 

Fui editor do Wall Street Journal e, naquele tempo, quem me aparecesse com coluna de merda equivalente a essa teria sido demitido(a). Só insinuações, sem nenhuma prova que apoie qualquer coisa. E a mentira-distorção, descarada, segundo a qual o que foi golpe de estado dado por Washington contra a Ucrânia seria “o comprometimento da Rússia na Ucrânia”!

O que estamos testemunhando é a total corrupção do jornalismo ocidental, pela agenda imperial de Washington. Ou os jornalistas alinham-se com as mentiras, ou são atropelados.

Procurem à volta: onde há jornalistas ainda honestos? Quem são? Glenn Greenwald, que enfrenta ataque constante dos próprios colegas jornalistas, os quais, TODOS, são putas, daquelas que fazem qualquer negócio por qualquer dinheiro. E que outro jornalista haveria, cujo nome nos venha à lembrança? Julian Assange, trancado na Embaixada do Equador em Londres, com a vida por um fio pendente de ordens de Washington. E o fantoche britânico não dá a Assange o direito de livre trânsito [até o aeroporto] para que possa assumir o asilo que o Equador lhe garantiu.

A última vez que se viu tal violência no mundo, foi a União Soviética, que exigiu que o governo-fantoche da Hungria mantivesse o cardeal Mindszenty cercado dentro da embaixada dos EUA em Budapeste durante 15 anos, de 1956 até 1971. Mindszenty recebeu asilo político dos EUA, mas a Hungria, obedecendo ordens dos soviéticos, não honrou o direito de asilo – exatamente como faz hoje o palhaço-fantoche britânico obedecendo ordens de Washington, que não honra o direito de asilo que Assange JÁ TEM. (…)

Edward Snowden e Julian Assange

A única mácula na diplomacia de Putin é que a diplomacia de Putin depende de a boa-vontade e a verdade prevalecerem. Mas não há boa-vontade nos EUA, e Washington não tem interesse algum em que a verdade prevaleça. Para Washington só interessa que Washington prevaleça.

Putin não está enfrentando “parceiros” razoáveis, mas todo um ministério da propaganda que faz mira contra ele.

Compreendo a estratégia de Putin, na qual se veem a razão e a razoabilidade russas, contra as ameaças de Washington – mas é aposta muito arriscada. A Europa já há muito tempo é apêndice de Washington, e não há líderes europeus no poder que tenham capacidade e visão suficientes para separar a Europa, de Washington. Além do mais, os líderes europeus são sobejamente subornados para servirem a Washington. Um ano depois de deixar o governo, e Tony Blair já recebia salário de US $50 milhões.

Depois dos desastres que os europeus conheceram, é pouco provável que seus líderes pensem em qualquer outra coisa que não seja aposentadoria confortável. Para isso, nada como empregar-se como serviçal de Washington. Como a extorsão bem-sucedida contra a Grécia, obrada por bancos, o comprova, o povo europeu está reduzido à impotência.

Em Global Research lê-se a declaração oficial do Ministério de Defesa da Rússia.

O ataque de propaganda de Washington contra a Rússia é uma dupla tragédia, porque contribuiu para desviar as atenções para longe da mais recente atrocidade que Israel comete contra os palestinos sitiados no Gueto de Gaza. Israel diz que o ataque aéreo e a invasão da Faixa de Gaza seriam simples esforços para localizar e vedar supostos túneis pelos quais palestinos contrabandeariam armas para dentro de Israel. Basta olhar pela janela em Israel, para ver que não há ataques de palestinos contra israelenses, nem há palestinos massacrando uma geração inteira, mais uma, de palestinos.

Seria de esperar que houvesse pelo menos um jornalista em algum ponto da imprensa-empresa norte-americana, que perguntasse se bombardear hospitais e matar crianças dentro das próprias casas está(ria) ajudando a fechar supostos túneis que chegariam a Israel. Mas já é pedir demais para as press-titutas/press-titutos da imprensa-empresa nos EUA.

A queda do MH17 é um álibi da imprensa-empresa para disfarçar o GENOCÍDIO de Israel em Gaza

E do Congresso dos EUA, então, esperem ainda menos! A Câmara e o Senado já aprovaram resoluções de apoio ao morticínio de palestinos por Israel. Dois Republicanos – o desprezível Lindsey Graham e o frustrante Rand Paul – e dois Democratas – Bob Menendez e Ben Cardin – apresentaram projeto de Resolução ao Senado de apoio ao assassinato premeditado de mulheres e crianças palestinas, por Israel. A Resolução foi aprovada pelo povo “excepcional e indispensável” do Senado dos EUA, por unanimidade.

Como recompensa pela política de genocídio, o governo Obama já está repassando, imediatamente, US$ 429 milhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para Israel: é o pagamento pelo mais recente massacre.

Comparem o apoio que o governo dos EUA garante aos crimes de guerra de Israel, e a massacrante campanha de propaganda contra a Rússia, alimentada de mentiras.

Os EUA estamos de volta aos tempos das MENTIROSAS “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein; das “armas químicas” de Bashar al-Assad; das “armas atômicas iranianas”.

Washington mente tanto, há tanto tempo, que já não sabe fazer outra coisa.

Tradução: Vila Vudu

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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business WeekeScripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

A relevância do Banco Mundial

Por Rogério Studart, via Brasil Econômico

Africa Today/Reprodução

A criação do Banco dos Brics tem gerado intenso debate sobre o Grupo Banco Mundial e sua relevância para o Brasil e para o mundo

O interessante é que essa discussão tem sido também intensa dentro da própria instituição, desde a eleição do novo presidente Jim Yong Kim, que deslanchou recentemente uma enorme reforma interna visando um papel mais proeminente da instituição no desenvolvimento no mundo. Terá sucesso?

O Grupo Banco Mundial constitui-se de quatro agências voltadas para o desenvolvimento. O Bird é uma mescla de banco e cooperativa internacional, já que capta junto ao mercado de capitais e empresta a países de renda média a um custo baixo, possibilitado por um capital exigível bem mais elevado que o subscrito e pela cláusula de credor principal que possui com todos seus clientes/membros.

Seu lado “cooperativa” vem do fato de a instituição cobrar o mesmo custo para todos os clientes, apesar de terem ratings e custos de transação distintos. Isso significa que, por um lado, alguns clientes grandes (como, por exemplo, o Brasil e a China) geram lucros significativos para a instituição, utilizados para subsidiar empréstimos para países com ratings mais baixos e custos de operação maiores. Por outro lado, o Bird também faz transferências a para a AID (Associação Internacional de Desenvolvimento), que é um fundo de doações voltado para o financiamento de países mais pobres (a maioria na África, mas também em todos os continentes), e que tem tido como maiores doadores os Estados Unidos e a Inglaterra — mas também, em menor escala, economias emergentes, inclusive o Brasil.

O IFC (Corporação Financeira Internacional) por sua vez financia o setor privado, não possui capital exigível, e, portanto, capta e empresta a taxas de juros mais elevadas. Mesmo assim, também utiliza seus lucros para financiar operações com economias de risco maior e também realiza transferências para a AID. Por último, a Miga (Agência Multilateral de Garantia de Investimentos) é uma agência de garantia de risco político.

A percepção da perda de relevância do grupo está relacionada a pelo menos quatro fatores: uma estrutura de governança anacrônica em vista da atual geopolítica mundial; uma agenda e um mandato que foram ampliados ao longo da sua existência, em função das novas necessidades do desenvolvimento, mas também das prioridades determinadas pelos seus maiores acionistas; a fragmentação das operações entre as suas principais agências; e uma base de capital e capacidade financeira extremamente limitadas, face às necessidades dos seus clientes.

Esses fatores são interrelacionados. A estrutura de governança gera enormes distorções sobre o mandato, as operações e mesmo a estrutura operacional. Isto porque o controle acionário é de um grupo relativamente limitado de economias em desenvolvimento, que também possuem maioria no Conselho de Administração. Com isso, as prioridades estratégicas, políticas operacionais e mesmo a alocação de recursos passam a refletir muito mais as perspectivas e visões estabelecidas do Norte do que necessariamente as necessidades dos países em desenvolvimento. Também refletindo essa governança desbalanceada, a estrutura corporativa fragmentou-se ao longo dos anos, e setores internos às quatro agências passam a representar “as paixões e os interesses” dos distintos acionistas majoritários, inclusive com orçamentos financiados por fundos fiduciários dos mesmos.

O excessivo poder de voto (e de veto) das economias desenvolvidas também termina por gerar fortes restrições a reformas do poder de voto, que não só aumentariam a legitimidade da instituição mas também poderiam permitir uma recapitalização das instituições com recursos de economias emergentes, como os Brics. Foi exatamente isso que ocorreu com a reforma de 2008, e que deverá ter sua primeira revisão periódica em 2015.

Ao longo dos cinco anos de mandato de Robert Zoellick como presidente, o Grupo cumpriu o mandato do G20 e ampliou enormemente seus empréstimos como contribuição do esforço anticíclico global. Com isto, Jim Yong Kim, eleito em 2012, herdou instituições com base de capital insuficiente, fragmentadas internamente e com insuficiente sinergia entre elas, com mandatos sobrepostos e muitas vezes conflitantes e com um orçamento gigante — um verdadeiro “House of Cards” com mais de 10 mil funcionários. Seu primeiro ato de reforma foi “re-ancorar” a instituição em somente dois mandatos fundamentais: a redução da pobreza extrema e da desigualdade.

Assim, como outros presidentes fizeram, elaborou com o auxílio de consultores externos e ampla consulta interna um plano de reestruturação significativa, voltado a romper com os “feudos”, facilitar os fluxos de comando, aumentar a sinergia entre as instituições do Grupo e estimular os fluxos de informações e conhecimento. Junto com a nova estrutura organizacional, renovou a liderança administrativa através de seleções competitivas de dezenas de posições na alta administração do Banco. Por fim, lançou uma iniciativa ousada de redução de custos, voltada primordialmente a aumentar as receitas líquidas e a base de capital do Grupo.

As reformas de Kim parecem ser condição necessária para um Grupo Banco Mundial mais relevante, e por isso nós acionistas a apoiamos. Mas uma pergunta sempre fica no ar: são suficientes? Se minha análise estiver correta, no longo prazo a governança desequilibrada é a raiz dos demais problemas. Sem mudá-la, rapidamente as mesma distorções, os mesmos vícios e a mesma cultura Norte-Sul se reproduzirão. Os Brics apoiaram e torcemos pelo sucesso do presidente Jim Kim, e esperamos contar com ele na aspiração por um Grupo Banco Mundial mais democrático e inclusivo. Mas, pelo sim e pelo não, criamos o Novo Banco de Desenvolvimento.

Aécio gagueja no JN. Obra importante trancada a chave por quatro anos?

Por Fernando Brito, via Tijolaço

Vale a pena ver a reportagem do Jornal Nacional sobre o “Aecioporto”.

Jornalismo, para variar, zero, sem uma apuração sobre coisa alguma, com mais de 24 horas para levantar informações.

Mas, pelo menos, não ocultaram a matéria da Folha de ontem.

Embora nem sequer tenham mencionado que o candidato tucano tem ali, a apenas seis quilômetros, sua fazenda, a qual chama de seu “Palácio de Versalhes”, segundo a tucaníssima revista Piauí.

Dava pena, até, de ver a incapacidade de Aécio Neves respondendo – não a perguntas, que não foram feitas, mas à simples notícia – com declarações genéricas sobre a “transparência” das obras de seu governo.

E falando da importância daquele aeroporto para a pequena Cláudio, com seus 27 mil habitantes.

Não duvidemos.

Mas, se é tão importante assim, porque é que o aeroporto está trancado a chave há quatro anos?

É ridícula a chiadeira sobre o fato de a ANAC ter mandado investigar o uso de um aeroporto não autorizado a operar.

E que, mesmo para particulares eventuais, está operando.

Reproduzo acima a foto do Google, tirada de satélite onde se vê um aviãozinho parado no “aecioporto”.

É pequeno, embora não seja um aeromodelo, como o da galera que vai lá se divertir com seus brinquedos e que a gente já mostrou aqui.

E não podia estar, porque o aeroporto não cumpriu as exigências para operar.

Se a ANAC não investigasse uma denúncia pública de uso irregular de um aeroporto, aí sim é que mereceria críticas.

Aécio precisa acostumar-se à ideia de que este país é uma república, não uma fazenda.

E se preparar para o que vem por aí.

É inevitável o questionamento dos gastos milionários em um aeroporto que é somente uma pista de asfalto como o de uma rua qualquer e que custou o mesmo que um aeroporto completo, com capacidade de receber Boeings 737 da aviação comercial, como mostra o post abaixo.

Embora não muitos, vão existir jornalistas que o indaguem sobre isso.

Tendências no jornalismo: sola de sapato ou neurônios?

Por Carlos Castilho, via Observatório da Imprensa

Na era analógica, pré-internet o senso comum no jornalismo apontaria o esforço físico como a prioridade, mas na era digital é o trabalho intelectual que começa a exigir mais dedicação dos profissionais da comunicação.

Antes da internet, os repórteres precisavam correr atrás da informação onde ela estivesse, o que exigia gastar um bocado de sola de sapato, sem que isto significasse que os neurônios deixassem de ser indispensáveis. As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) inverteram as prioridades no trabalho jornalístico, fato que muitos profissionais experientes ainda não lograram assimilar.

O uso intensivo do intelecto tornou-se a principal exigência para os jornalistas da era digital por dois motivos:

1. As TICs deram às pessoas a possibilidade de transmitir ou publicar notícias (dados inéditos) fazendo com que os fatos, números e eventos cheguem até o repórter numa velocidade, intensidade e diversidade nunca vistos antes. As versões sobre uma mesma notícia chegam aos borbotões via blogs, redes sociais, micromensagens, correio eletrônico chats etc.

2. O problema não está mais em buscar notícias, mas em selecioná-las, filtrá-las e contextualizá-las. E isto é um trabalho basicamente intelectual, onde os neurônios são ativados de forma intensiva e constante. Para que um profissional dê conta dessa tarefa ele precisa ter cultura informativa – ou literacia, uma expressão anglófona para identificar a capacidade de trabalhar o conteúdo de uma informação e não apenas as técnicas de redação e formatação para publicação.

A cultura de valorizar o esforço físico e a obediência estrita às normas redacionais cedem espaço à exigência de estar bem informado, em vez de ter informações, e à valorização da versatilidade intelectual. A combinação desses fatores indica uma exigência de qualificação profissional muito superior a do jornalismo praticado nos moldes convencionais.

Estar bem informado não significa apenas ter fontes confiáveis e nem um nutrido caderno de telefones e e-mails. Significa ser capaz de recombinar notícias, dados, fatos, eventos e processos, bem como situá-los no contexto do público-alvo do jornalista. Os manuais são ótimos para normatizar a formatação de textos e narrativas audiovisuais, mas eles não servem para orientar o processo de remixagem de conteúdos informativos. Isto é um trabalho individual ou de grupo, onde as regras são menos importantes que a criatividade e inovação.

O trabalho numa redação jornalística está deixando de ser fordista (estratégia de produção baseada em linhas de montagens) para ganhar características de brain storm permanente. Isso não quer dizer que até agora os jornalistas não usavam o intelecto. O problema é que o esforço físico para ir buscar as notícias era tão intenso que acabava ganhando mais importância dos repórteres e editores porque atendia à necessidade de enfrentar a concorrência.

A dificuldade é que muitos professores de jornalismo e donos de empresas jornalísticas ainda lidam com o computador como se ele fosse um máquina de escrever mais rápida e versátil, bem como encaram a internet como um telégrafo inteligente e instantâneo. Está em curso uma mudança cultural mais ampla do que simplesmente adotar novos formatos, normas, equipamentos e processos.

O jornalista e o jornalismo estão imersos num ambiente informativo marcado pela avalancha de dados e informações. O trabalho com o sistema de buscas Google é obrigatório porque ele é um auxiliar indispensável para a filtragem e seleção de dados a serem usados numa reportagem.

Mas só o Google não resolve porque é necessário ver os números, fatos e eventos no seu contexto de origem e também no contexto do público-alvo. Para isso o repórter ou editor deve estar informado sobre o contexto original e sobre o do leitor, ouvinte ou telespectador. Um mesmo dado pode ter um significado na origem e outro completamente diferente no destino, e só quem pode fazer esta distinção é o jornalista.

Outra mudança importante. Os futuros jornalistas terão obrigatoriamente que saber lidar com dados porque estamos caminhando para uma sociedade movida a números. A digitalização permitiu transformar quase tudo em dígitos que podem ser processados sinalizando tendências e correlações. Caberá ao jornalista digital descobrir, na profusão de números, os sentidos e significados relevantes para o público.

Estamos diante de uma eventual quebra do paradigma “90% transpiração, 10% inspiração”.

A fonte de poder do latifúndio da informação

Por Lalo Leal, via RBA

Para avançar em seu processo de mudanças, rumo a uma democracia madura, o país requer uma ‘reforma agrária’ no sistema de mídia. As empresas resistem, mas há profissionais dispostos

Em aula recente, na Escola de Governo de São Paulo, ilustrei o tema da padronização das informações oferecidas pela mídia com manchetes idênticas estampadas pelos três jornalões brasileiros (Globo, Estadão e Folha). O tema era a fala do ex-presidente Lula no Encontro Nacional de Blogueiros. De um discurso de mais de uma hora, com análises da conjuntura, aqueles e outros veículos, como Correio Braziliense, O Dia, Exame e o portal G1, resolveram destacar, de forma truncada, uma referência do ex-presidente à forma do torcedor chegar aos estádios de futebol.

Lembrei que o blogueiro Eduardo Guimarães se fez passar por um cidadão desinformado para constatar, com alguns repórteres, qual seria a linha adotada em conjunto para a cobertura do encontro. O dialogo foi rápido: “Lula é sempre notícia, né?”, comentou Eduardo com um repórter. A resposta: “Notícia cabeluda. Dá um trabalho danado”. “Por quê?”, quis saber o blogueiro. “A gente tem de achar a ‘pauta certa’”, informou o jornalista.

Presentes à aula, jornalistas não se contiveram e fizeram questão de deixar claro que não havia nenhuma novidade nisso. Combinar linhas de cobertura, com o cuidado para que os destaques sejam semelhantes, é mais comum do que se imagina. Trata-se da luta em defesa da sobrevivência profissional. Os alunos explicaram: ao dar ênfases iguais a um determinado aspecto­ do assunto que está sendo coberto, os jornalistas evitam possíveis cobranças ou mesmo punições das chefias. Livram-se de comparações, atendem ao esperado pelos patrões e seguram o emprego.

Lembrei também do coronelismo midiático, um dos mais perversos desdobramentos do coronelismo brasileiro, gestado com a criação da Guarda Nacional, no século 19, ainda na Regência, e presente até hoje em nossa sociedade. Victor Nunes Leal, no livro Coronelismo, Enxada e Voto, mostra como os coronéis do império souberam acompanhar a urbanização do pais, mantendo seus latifúndios agrários, mas enviando filhos e genros para se tornarem “doutores” nas cidades, estendendo nelas o poder conquistado na fazenda.

Não é por acaso que até hoje os herdeiros gostam de ser chamados de doutores, sem nunca terem defendido uma tese de doutorado. Parte deles controla os latifúndios midiáticos, fonte moderna de poder.

O que distingue um e outro latifúndio não está no seu controle, mas na mão de obra utilizada e no produto obtido. A mercadoria produzida no campo esgota-se no seu consumo e a margem de independência do trabalhador na sua realização beira o zero. No latifúndio midiático, o produto permanece vivo no consumidor mesmo depois do seu consumo. Por vezes pelo resto da vida, pois tratam-se de bens simbólicos inculcados em corações e mentes.

Essa característica do produto jornalístico sempre deu ao trabalhador da área uma margem de ação própria, inexistente para o trabalhador rural. Na década de 1980, dizia-se que eram brechas a serem ocupadas pelo jornalista comprometido com a verdade. Só que a concentração dos meios de comunicação, o controle ideológico das redações e o estabelecimento das pautas comuns estreitou ao máximo aquelas “brechas” equiparando, muitas vezes, as margens de liberdade do jornalista às do trabalhador rural.

Ampliou-se também o número e o poder dos capatazes no latifúndio moderno, profissionais bem pagos para não apenas controlar os trabalhadores, mas para dar voz às ideias e posições políticas dos seus patrões. Apesar desse quadro cada vez mas rígido, não notei nos alunos da Escola de Governo sinais de resignação. Ao contrário, mostraram-se conscientes da situação e defenderam a possibilidade de atuar nos resquícios das brechas ainda existentes.

Só o fato de procurarem um curso como aquele para a discussão de temas desprezados pela mídia mostra que, apesar de todo o cerco em torno da prática jornalística, a resistência existe e pode, no futuro, resultar na volta de modelos de informação menos comprometidos com os interesses dos latifundiários, antigos e modernos.

Beltrame chama de “bandidos ao quadrado” PMs que mataram adolescente

Por Vladimir Platonow, via Agência Brasil

O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, classificou como “bandidos ao quadrado” os dois policiais militares acusados de matar um jovem e tentar matar outro, no Morro do Sumaré, no dia 11 de junho. Os cabos Fábio Magalhães Ferreira e Vinícius Lima Vieira foram flagrados pelo sistema de câmeras instalado na viatura que utilizavam no dia, que mostra como eles agiram até o assassinato do adolescente Mateus Alves, de 14 anos.

Os policiais já estavam presos, mas as imagens foram divulgadas ontem (20), pela Rede Globo. As câmeras registraram a ação da dupla de policiais desde o momento em que capturaram as duas vítimas, próximo ao camelódromo da Rua Uruguaiana, no centro do Rio, além de um terceiro jovem, que havia testemunhado a abordagem.

Ao chegarem ao Morro do Sumaré, em meio à Floresta da Tijuca, os policiais mandaram os três saírem da viatura, mataram Mateus com um tiro de fuzil e atiraram contra o segundo adolescente, que foi atingido, mas sobreviveu após se fingir de morto, e, posteriormente denunciou o caso à polícia. O terceiro jovem foi liberado e ainda ganhou uma carona dos policiais, que nas imagens não aparentam qualquer remorso pelos crimes praticados.

“Infelizmente, nós temos policiais muito ruins. Policiais ligados ao crime. Pessoas que fizeram isso são verdadeiramente bandidos. E eu digo que bandidos ao quadrado. Mas, a mesma polícia que praticou essa barbárie, foi a que os prendeu”, disse Beltrame, que participou na tarde de hoje (21) da inauguração de um projeto social na zona norte do Rio.

De acordo com o secretário, o sistema de monitoramento por câmeras se mostrou eficiente e deverá ser ampliado. “É um projeto caro. Foram R$ 18 milhões para duas mil viaturas. Temos que ter orçamento para ir fazendo gradativamente. Vai ser feito e nós esperamos que isso ajude tanto a legitimar a ação do bom policial como, também, quando ele age errado, mostrar para a sociedade que a própria instituição criou um sistema para se autofiscalizar e cortar em sua própria carne”, avaliou.

Os dois policiais militares foram indiciados pelo delegado Rivaldo Barbosa, titular da Delegacia de Homicídios, por homicídio, tentativa de homicídio e ocultação de cadáver. Além disso, foi instaurado inquérito para investigar o desaparecimento do terceiro jovem, que foi liberado pelos policiais próximo aos Arcos da Lapa. Os dois serão ouvidos amanhã (22) sobre o adolescente desaparecido.