Arquivo mensais:julho 2014

Dissecando a criação da personagem Sininho pela imprensa

Por Sergio Martins*, via Porque eu quis

O caso de Sininho é particularmente instrutivo, por seu destaque, para reconstituir o funcionamento da imprensa na condução de verdadeiros linchamentos públicos. Sua primeira aparição nas páginas de um jornal, salvo engano, foi na famigerada página dos “70 vândalos”, em 17 de outubro, a mesma que rendeu do editor-executivo Pedro Dória elogios à equipe por “revelar personagens”; lá ela era “Sininho do barulho”. Nas matérias relacionadas a essa prisão, as evidências contra Sininho são o fato dela ter declarado que “vive na rua” e ter em sua página de Facebook um símbolo anarquista (ou seja, o crime aqui é a simpatia anarquista). Apesar disso, um depoimento de outra ativista refuta a ideia de que Sininho seja líder do que quer que seja, reiterando que “o movimento não tem líderes.”

Daí em diante o Globo começa a seguir seu personagem, construindo-o ao longo da trajetória. Em 25 de outubro, fotografa ela falando para professores em greve. Sua aparição seguinte é já em fevereiro de 2014, novamente como um personagem, agora no conto de terceiros: é a história do advogado Jonas Tadeu, que diz ter ouvido de Sininho sobre as “ligações” entre Fábio Raposo e Marcelo Freixo. Em declaração ao jornal, no dia 10, Sininho nega ter sido fonte das declarações e diz inclusive que sempre repudiou a violência mesmo como tática de protesto. Nas matérias seguintes, o nome dela segue flutuando, embora fique claro para o leitor que a acusação real contra ela é, no máximo, a de intermediar apoio jurídico a presos em protestos.

Com a morte de Santiago, o tom das matérias se acirra. No dia 13 aparece num box de “perfis”, dentro de uma matéria intitulada “Ataque à Liberdade de Expressão”, na companhia do advogado Jonas Tadeu e de Fábio Raposo. O “perfil”, escrito por Elelnice Bottari, vem com o título: “Com nome de fada, mas fama de encrenqueira”. Uma reedição do “Sininho do barulho”. Apesar de reconhecer que pouco se sabe da vida dela antes das manifestações, a autora afirma que seu discurso mudou e a retrata como alguém que inicialmente “pedia calma” aos black blocs com quem “caminhava junto”, mas que conquistou liderança no Ocupa Câmara e gritava palavras de ordem e segura ovos para atirar em Chiquinho Brazão (PMDB), aquele que foi empurrado goela abaixo como presidente da CPI dos Ônibus. Diz ainda que Sininho foi presa por desacato por supostamente ter chamado de “macaco” um policial e que ela teria chamado jornalistas de “carniceiros”. Esse último ponto vem junto de uma frase sobre a morte de Santiago, como que para insinuar alguma espécie de simpatia ou concordância com o ocorrido. Logo em seguida, Bottari escreve que Sininho “arrumou mais confusão” ao ser acusada por Jonas Tadeu de ter falado da tal ligação com Freixo. Repito: ela foi acusada, desmentiu a acusação dias antes, mas aparece na matéria como o sujeito da frase: “arrumou mais confusão”.

No dia seguinte, 14 de fevereiro, entra em cena o factóide das doações de vereadores e do delegado Orlando Zaccone, sob o título “Manifestações Violentas em Xeque”. A matéria de Luiz Ernesto Magalhães abre comentando que mesmo após sua prisão (com os “70 vândalos”), Sininho continuou “circulando com desenvoltura” nos salões da Câmara de Vereadores. A própria matéria reconhece que a finalidade das doações era uma festa de Natal para a população de rua da Cinelândia, mas o título e o destaque não deixam mentir: o tom da matéria é o da insinuação de que algo impróprio teria ocorrido. “Dar dinheiro a manifestantes” é algo retratado praticamente como um financiamento ao crime.

No dia 17 de fevereiro, página 2. Na coluna de Ricardo Noblat, a foto de Sininho é contraposta a da jovem guerrilheira Dilma Roussef. A justaposição já diz tudo: embora o governo engrosse o discurso de criminalização das manifestações (há inclusive uma fala de José Eduardo Cardozo a esse respeito na coluna), a oposição manifesta do Globo faz o jogo do leitor e representa Dilma como uma radical simpática a uma versão deturpada do que seria a agenda das manifestações: a apologia da violência e o ataque à democracia. Mas vejamos o que o colunista tem a dizer sobre Sininho: 1) ela é uma black bloc (o que nesse momento já era sinônimo de criminoso); 2) ela “usa a a violência para derrubar… nem ela mesma sabe direito o quê.” – o personagem aqui já se tornou ele próprio violento, ainda que literalmente nenhuma evidência nesse sentido tenha aparecido; 3) “Suponho que Sininho e sua turma desejam ferir gravemente o regime democrático sob o qual vivemos.” – aqui, o colunista distingue Dilma de Sininho, pois esta – acusada de ser parte ativa de uma turma violenta – estaria na verdade lutando contra a democracia pela qual lutaram e sofreram Dilma e tantos outros (o fato do Globo ter na época defendido a ditadura e tratado os seus opositores também como uma “turma violenta” e antidemocrática não vem ao caso, claro).

A moda da justaposição de imagens pega: no final da coluna de Ancelmo Góis, no dia 20, há uma foto de Sininho ao lado de uma de Débora Falabella, com a seguinte legenda: “Tem gente achando que Sininho, a espevitada ativista, lembra um pouco Débora Falabella. Nada contra… a talentosa atriz!”. Não é nada, não é nada, é um indício de que o foco no personagem passa pelo casting; o fato de ser mulher, jovem, bonita e aparentemente doce serve tanto para justificar todo tipo de jogo de palavras barato com sua suposta periculosidade quanto para incitar juízos misóginos.

Sininho aparece novamente numa matéria de 16 de abril sobre – mais uma vez – um protesto que terminou em “baderna”. Mais precisamente: “O protesto, que começou pacífico e contro com a presença de ativistas como Elisa Quadros, a Sininho, virou uma verdadeira baderna à tarde”. Qual teria sido o papel de Sininho disso? O Globo não diz, e nem precisa, já que ela já é, nessa altura do campeonato, uma “vândala” que “usa a violência” para “ferir gravemente a democracia”. Sua mera presença já é caso de página policial.

Na notícia de 14 de junho, Sininho já está indiciada por incitar a violência. Na mesma notícia, é mencionado que ela também é testemunha de acusação do processo contra os PMs que plantaram rojões na mochila de um adolescente na Lapa (momento capturado num vídeo, diga-se de passagem, gravado pelo próprio Globo). Mas esse não é o ponto de destaque: o que importa é que o personagem finalmente colou na pessoa a ponto de produzir consequências legais graves. Daí em diante, todos conhecem a história.

Tirem suas conclusões. Para mim, o caso da construção do personagem Sininho é exemplo de como a “jurisprudência muda” de que falou o Safatle em uma coluna recente não é restrita aos trâmites da justiça. De notícia em notícia, de página em página, disparates sem fundamento viraram suspeitas que viraram condenação pública que viraram alvo de inquérito. Os ingredientes são tóxicos: criminalização, má-fé e misoginia. Isso porque eu nem precisei entrar no mérito dos editoriais do jornal para reconstituir essa narrativa. Em suma, o que está correndo em sigilo de justiça é só uma parte do inquérito. Uma outra, talvez a mais importante, vem correndo a olhos vistos na página dos jornais desde junho do ano passado.

*-Sérgio Martins é professor da PUC-Rio

O que está em jogo na Faixa de Gaza

Por Marco Aurélio Garcia, via Opera Mundi

Esta nota estará seguramente desatualizada quando for publicada. Mais de setecentos palestinos – grande parte dos quais mulheres, crianças e anciãos – foram mortos nos bombardeios das Forças Armadas israelenses na Faixa de Gaza desde que, há duas semanas, iniciou-se uma nova etapa deste absurdo conflito que se arrasta há décadas. A invasão do território palestino provocou também mais de 30 mortos entre os soldados de Israel.

Dezenas de palestinos morreram apenas com os ataques de Israel desta quinta-feira (24/07) Agência Efe/Reprodução

O governo brasileiro reagiu em dois momentos à crise. Na sua nota de 17 de julho “condena o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra Israel” e, ao mesmo tempo, deplora “o uso desproporcional da força” por parte de Israel.

Em comunicado de 23 de julho e tendo em vista a intensificação do massacre de civis, o Itamaraty considerou “inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina” e, uma vez mais, condenou o “uso desproporcional da força” na Faixa de Gaza. Na esteira dessa percepção, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (somente os Estados Unidos estiveram contra) que condena as “graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais oriundas das operações militares israelenses contra o território Palestino ocupado” e convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas.

A chancelaria de Israel afirmou que o Brasil “está escolhendo ser parte do problema em vez de integrar a solução” e, ao mesmo tempo, qualificou nosso país como “anão” ou “politicamente irrelevante”.

É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas.

Não é muito difícil entender, igualmente, que está cada dia mais complicado ser “parte da solução” neste trágico contencioso. Foi o que rapidamente entenderam o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, depois de suas passagens por Tel Aviv, quando tentaram sem êxito pôr o fim às hostilidades.

Como temos posições claras sobre a situação do Oriente Médio – reconhecimento do direito de Israel e Palestina a viverem em paz e segurança – temos sido igualmente claros na condenação de toda ação terrorista, parta ela de grupos fundamentalistas ou de organizações estatais.

Estive, mais de uma vez, em Israel e na Palestina. Observei a implantação de colônias israelenses em Jerusalém Oriental, condenadas mundialmente, até por aliados incondicionais do governo de Tel Aviv. Vi a situação de virtual apartheid em que vivem grandes contingentes de palestinos. Constatei também que são muitos os israelenses que almejam uma paz duradoura fundada na existência de dois Estados viáveis, soberanos e seguros.

É amplamente conhecida a posição que o Brasil teve no momento da fundação do Estado de Israel. Não pode haver nenhuma dúvida sobre a perenidade desse compromisso.

Temos reiterado que a irresolução da crise palestina alimenta a instabilidade no Oriente Médio e leva água ao moinho do fundamentalismo, ameaçando a paz mundial. Não se trata, assim, de um conflito regional, mas de uma crise de alcance global.

Agência Efe/Reprodução

É preocupante que os acontecimentos atuais na Palestina sirvam de estímulo para intoleráveis manifestações antissemitas, como têm ocorrido em algumas partes, felizmente não aqui no Brasil.

A criação do Estado de Israel, nos anos quarenta, após a tragédia do Holocausto, foi uma ação afirmativa da comunidade internacional para reparar minimamente o horror provocado pelo nazi-fascismo contra judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e socialdemocratas. Mas o fantasma do ressurgimento ou da persistência do antissemitismo não pode ser um álibi que justifique o massacre atual na Faixa de Gaza.

O Brasil e o mundo têm uma dívida enorme para com as comunidades judaicas que iluminaram as artes, a ciência e a política e fazem parte da construção da Nação brasileira. Foi esse sentimento que Lula expressou em seu discurso, anos atrás, na Knesset, quando evocou, por exemplo, o papel de um Carlos e de um Moacir Scliar ou de uma Clarice Lispector para a cultura brasileira. A lista é interminável e a ela se juntam lutadores sociais como Jacob Gorender, Salomão Malina, Chael Charles Schraier, Iara Iavelberg, Ana Rosa Kucinski e tantos outros.

Nunca os esqueceremos.

(*) Marco Aurélio Garcia é assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais

Diálogos Desenvolvimentistas: As prisões dos ativistas e a ameaça antidemocrática

Edição por Rennan Martins

Como esperado, a Copa do Mundo nas ruas se deu repleta de violações de direitos. Violações estas consideradas, pelo governo, como necessárias para garantir o lucro da FIFA e seus amigos e a propaganda da Copa das Copas. Pois bem, houve Copa e também autoritarismo.

A surpresa dessa vez foi a evolução do grau de refinamento do esquema repressivo. O que assistimos foi um conluio entre a polícia, o judiciário e a imprensa, todos eles orquestrando a criminalização dos movimentos sociais e a legitimação da violação de direitos e garantias fundamentais de um regime democrático.

No sábado anterior a final da Copa, deflagrou-se a operação Firewall II, a qual emitiu mandados de prisão para 23 ativistas, os quais sendo soltos alguns dias após, foram novamente encaminhados a prisão preventiva, sempre a mando do juiz Flávio Itabaiana da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro.

Quando da segunda expedição de mandados, somente 5 dos 23 foram presos, os outros 18 se mantiveram foragidos, entrando com pedidos de habeas corpus. Nesse espaço de tempo 3 deles entraram com pedido de asilo político ao Uruguai, o qual negou-os.

O mais impressionante de todo o desenrolar destes acontecimentos foi a atuação da Rede Globo, a qual sabe-se lá como teve acesso ao processo antes do advogado dos ativistas e antes mesmo do desembargador Siro Darlan. O que se viu foi uma campanha massiva, uma cruzada que exibia mais de 5 vezes ao dia uma reportagem manipulada a qual tentava de todo modo convencer a sociedade de que estes manifestantes tratavam-se da escória, um perigo o qual não podíamos admitir.

Após os documentos chegarem ao desembargador, o que se viu foi um habeas corpus o qual afirmava não haver provas, somente conjecturas e ilações contra os acusados. Tratou-se de pura perseguição política.

Movidos pelo absurdo dos fatos os colaboradores Paulo Timm, Luiz Carneiro, Rennan Martins, Atenágoras Oliveira e André Luís debateram e analisaram o assunto.

Confira:

Paulo Timm – A virulência da mídia, com apoio dos Governos Federal e Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, da Polícia e, agora, do Judiciário contra os Black Blocs me desconcerta. Começando pela classificação deles como vândalos. Lembro-me, a propósito, da forma como a mídia, o governo e a sociedade alemãs trataram os membros do Grupo Baader Meinhoff nos anos 70. Era um grupo político radical que recorreu à violência para cumprir seus ideais. Todos muito preparados e conscientes do que faziam. Até chegaram a assassinar um alto executivo, Schleyer, um ex-nazista triunfante nos anos pós-guerra. O grupo foi estigmatizado, caçado, preso e – supostamente – assassinado na prisão. Na ocasião, vários diretores de cinema, intelectuais críticos que também procuravam com seus filmes sacudir a sociedade alemã forçando-a a se enfrentar com seu passado, se manifestaram criticamente e rodaram um documentário: Deutschland Im Herbst (Alemanha no Outono). Não apoiavam o radicalismo do Baader Meinhoff mas se escandalizaram com a maneira como a Sociedade e o Estado os trataram. Volto aos nossos Black Blocs: Imagine se uma menina como essa, a Sininho, acaba morta no Presídio. Que horror! Então, acho que devemos exigir que se classifique os Black Blocs como um grupo político e não de meliantes, sem deixar de condenar seus métodos. E tratar, sobretudo, como diria Spinoza: “Nem chorar, nem sorrir, mas compreender”. Ou seja, situar o renascimento da violência política no cenário nacional em decorrência da falência das organizações de esquerda, dentro ou fora do poder, de se oferecer como alternativas capazes de impedir este recrudescimento. E não faltarão razões. Antes, pois, de situar os Black Blocs como uma questão policial, deve-se exigir que sejam definidos e compreendidos politicamente. “O resto é silêncio”.

Luiz Carneiro – Mas quebrar bancos, incendiar ônibus, usar gasolina fora dos tanques e depredar patrimônio público não me parece movimento político. Por exemplo: eu participei da marcha dos 100 000 na Rio Branco. Houve, de fato alguns problemas com gente arrancando pedra portuguesa para atacar a polícia, mas não houve depredações. Na outra marcha, quando só foi liberada a metade das pistas da Rio Branco, não houve problema algum.

A situação, agora, é totalmente diferente.

Rennan Martins – Realmente, quebra de patrimônio público e privado constituem crimes. Porém, não há materialidade contra os presos e as próprias autoridades envolvidas neste processo admitiram que os mandados foram emitidos no sentido de “prevenir” atos violentos no dia da final da Copa do Mundo. Isto não existe, é claramente uma exceção. Todo o desenrolar do processo está cheio de vícios e o que há contra estes jovens não passa de conjecturas e ilações. Não constituem prova material, e, portanto, o que está ocorrendo é pura perseguição macartista.

Luiz Carneiro – Nós reclamamos tanto porque não há um trabalho de inteligência (é a palavra da moda).

Há uma diferença grande entre os pensamentos, aqui: não participo de situações abstratas. Sou ruim nisso. Sou pragmático. Se for bom para o Brasil, estou dentro.

Atenágoras Oliveira – A prisão de pessoas “preventivamente” não tem nada de abstrato. É uma situação concreta. Ocorreu e pode ocorrer de novo. A pergunta é: pessoas devem ser presas pela suposição de que elas, em uma manifestação política, venham a cometer vandalismo? E um detalhe interessante: deve-se considerar como prova “robusta” e “convincente” o porte de “máscaras contra gás lacrimogêneo, viseiras, máscaras de carnaval, computadores, livros de capa vermelha”? Segundo consta abaixo, o revólver encontrado era do pai do acusado (que tem porte legal de armas). O porte de máscaras contra gás lacrimogêneo prova apenas que a polícia joga bombas de gás contra os manifestantes. Não prova absolutamente nada quanto ao que fazem ou deixam de fazer os manifestantes.

André Luís – Estão tentando fazer desse pessoal bode expiatório, ontem vi a covardia e o rancor com que o Jornal Nacional (com gravações ilegais) atacarou estes manifestantes. Foi uma reportagem raivosa porque não aceita as humilhações impostas a Globo pelos manifestantes, fazendo seus jornalistas se esconderem durante os atos para não apanhar.

Esse pessoal tem todo o direito de manifestação e conhecendo o governo Cabral e sua polícia, fica muitas perguntas sem resposta: a) quem atacou quem? (a polícia que reprimiu e provocou reações ou o inverso? ninguém fala nada?); b) quem pagou quem? (conhecendo determinadas figuras do PMDB do Rio, pode até ser que sejam eles que estejam pagando “manifestantes” para provocarem a baderna).

Eu se fosse esta “Sininho” ficaria orgulhoso, pois daqui a pouco irão compará-la com algumas personagens históricas do marxismo, como Rosa Luxemburgo, La Passionara, Olga Prestes, ou no Brasil mais recentemente Yara Iavelberg.

O livre mercado é uma utopia impraticável

Por Henry Farrel, via The Washington Post

Fred Block – pesquisador e professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em Davis – e Margaret Somers – professora de sociologia e história da Universidade de Michigan – lançaram um novo livro. “The Power of Market Fundamentalism: Karl Polanyi’s Critique” (O Poder do Fundamentalismo de Mercado: A Crítica de Karl Polanyi, tradução livre). Este livro defende a tese de que as ideias de Karl Polanyi, o autor da obra “The Great Transformation” (A Grande Transformação), um clássico da política econômica do século XX, são cruciais quando se pretende compreender a recessão e suas consequências. Seguem alguns questionamentos que fiz aos autores.

HF – Seu livro argumenta sobre a relevância do trabalho de Karl Polanyi, em especial o livro “The Great Transformation”. Quais são as principais ideias de Polanyi?

FB & MS – A tese central de Polanyi é a de que não há algo como o livre mercado; que nunca o alcançaremos, que é algo que inexiste. De fato, o que ele sustenta é que uma economia independente do Estado e das instituições políticas é uma “utopia severa” – é utópico porque é irrealizável, e o esforço no sentido de fazê-lo nos levará inevitavelmente a consequências distópicas. Sem desvencilhar da premissa de que mercados são necessários a uma economia funcional, Polaniy defende que a tentativa de criar uma sociedade toda baseada nas leis de mercado é em si ameaçador aos humanos e ao bem comum. Em primeira instância, o mercado é somente uma das diversas instituições sociais; no segundo momento, quando se aplica o esforço de submeter não somente as commodities reais (computadores e widgets) aos princípios de mercado, mas virtualmente a tudo o que faz a vida social possível, incluindo o ar puro, a água, a educação, a saúde, o sistema legal, a segurança social e o direito de ter uma vida digna. Quando estes bens públicos e necessidades sociais (o que Polanyi define como “commodities fictícias”) são tratados como algo que produzimos visando a venda no mercado, e não como direitos, nossas bases sociais são abaladas e advém a crise.

A doutrina do livre mercado tenta liberar a economia das “interferências” estatais, Polanyi, por sua vez, contesta a ideia de que os mercados e os Estados são entidades autônomas separadas. A ação estatal não constitui um tipo de “interferência” na esfera autônoma da atividade econômica; simplesmente porque não há economia sem Estado, leis e instituições. Não é somente a sociedade que depende de estradas, escolas, um sistema de justiça, e outros bens públicos os quais só o poder público pode prover. Se trata de que todos os elementos-chave numa economia – terras, trabalho e moeda – são criados e sustentados por ações governamentais. O sistema de emprego, os arranjos de compra e venda de patrimônio, os suplementos de moeda e crédito são organizados e mantidos pelo exercício de regras estatais, regulações e poderes.

E então, Polanyi sustenta que os que pedem o livre mercado são os verdadeiros utopistas, explana que o livre mercado tem um apelo enganoso: Ele projeta um mundo ideal, perfeito, onde não há coerção nas atividades econômicas, enquanto ignora que o próprio mercado possui poder e força coerciva.

HF – De que maneira estas ideias nos ajudam a entender os desconcertantes problemas econômicos os quais enfrentamos hoje?

FB & MS – Pondo o governo e a política no centro das análises econômicas, Polanyi torna claro que nossos atuais problemas econômicos são majoritariamente de ordem política. Esta tese tem o poder de mudar radicalmente o debate político moderno: A esquerda e a direita foca hoje na dita “desregulação” – para a direita, trata-se de uma batalha contra os impedimentos do governo; para a esquerda, é a chaga por trás dos problemas econômicos. Enquanto diferem dramaticamente no que projetam, as duas posições assumem a possibilidade de um mercado “não-regulado” ou “não-político”. Polanyi rejeita veementemente a ilusão de uma economia “desregulada”. O que aconteceu, em nome da “desregulação” foi, na verdade, uma “reregulação”, desta vez por meio de regras e políticas radicalmente diferentes das do New Deal. Ainda que comprometidas pelo racismo, estas regulações deram o subsídio para uma maior igualdade e uma grande classe média. O Estado continua a regular, porém, em vez de proteger os trabalhadores, consumidores e cidadãos, as novas políticas favorecem as grandes corporações e as instituições financeiras, maximizando seus ganhos por meio da revisão das leis anti-truste, salvando os bancos da falência, e dificultando a atuação dos sindicatos.

As implicações desta ideia no discurso político são cruciais: Se a regulação é sempre necessária aos mercados, a discussão não gira mais em torno da regulação versus desregulação mas sim que tipo de regulação preferimos. As projetadas para a riqueza e o capital? Ou as que visam o público e o bem comum? Similarmente, considerando de que os direitos ou a falta dele aos empregados são sempre designados pelo sistema legal, não devemos perguntar se a lei deve ou não regular o mercado de trabalho, mas sim que tipo de regras e direitos devem ser definidos nas leis – as que reconhecem os atributos e talentos dos empregados e tornam a firma produtiva, ou as que tornam o jogo favorecedor aos empregadores e aos lucros privados?

HF – Polanyi se levanta contra a linha de pensamento que ele define como “fundamentalismo de mercado”, que talvez tenha iniciado na argumentação de Malthus, há dois séculos. Porque o pensamento malthusiano continua a ressoar nos debates políticos norte-americanos quando se trata de bem-estar e “reforma” econômica?

FB & MS – A contribuição malthusiana às políticas sociais se deu tornando o conceito de escassez a primeira necessidade disciplinar quando abordamos a força de trabalho. Polanyi explica que a ideia original de uma economia de mercado funcionando independente ao Estado se encontra primeiramente não no liberalismo de Hobbes, Locke ou Adam Smith, mas sim na nova política econômica de Malthus e Ricardo. Esta forma de pensar, denominada naturalismo social, concebe a sociedade organizada sob as mesmas leis que operam a natureza – o conceito que é necessário pra fazer a ideia de mercado auto-regulado minimamente plausível. O naturalismo social retirou a racionalidade e a moralidade da essência da humanidade, e pôs em seu lugar os instintos biológicos, tornando as motivações humanas algo não diferente do resto do reino animal: Somos incentivados ao trabalho (e as remunerações) somente porque nossos instintos biológicos primários nos levam dão fome; e levados a descansar, em contrapartida, quando satisfazemos a fome.

Nesta perspectiva, são as condições “naturais” de escassez que disciplinam o desempregado a, voluntariamente, aceitar trabalhos mal pagos. Se alguém remove a escassez por meios “artificiais” – por meio de assistência alimentar, seguro-desemprego, e um salário-mínimo adequado – então os incentivos ao trabalho desaparecem. É neste ponto que surge o famoso chavão da eleição de 2012 a qual caracteriza 47% dos americanos como “encostados”, afirmando que o alívio da pobreza inevitavelmente transformará a rede social em algo que os sustenta; acrescentando ainda que programas de segurança alimentar e outras intervenções relacionadas a fome provocam uma “cultura de dependência”. Sem dúvida esta premissa pressionaria alguém a levantar diferenças entre a retórica conservadora atual da que floresceu no século 19 quando Malthus liderou uma campanha contra medidas de segurança social. A realidade é que, assim como hoje, os pobres sempre batalharam contra forças de ordem estrutural as quais não podem fazer frente.

HF – Vocês sugerem que o conceito de “double movement” (impulso duplo, em tradução livre) de Polanyi nos ajuda a entender a união entre o tea party e os conservadores. O que diz o conceito do “double movement” e que forças o levam a ascensão na política norte-americana atual?

FB & MS – Polanyi defende que os devastadores efeitos sociais aos mais vulneráveis trazidos pelas crises de mercado (como na Grande Depressão em 1930) tende a criar contramovimentos de luta por seus padrões de vida, por suas vizinhanças e pelas culturas ameaçadas pelas forças destrutivas da mercantilização. A ocorrência dessas dinâmicas opostas é o dito impulso duplo, que sempre envolve o esforço politico de luta contra as forças do mercado. O grande perigo o qual Polanyi nos chama atenção, é o de que a mobilização política fervorosa pode ter o viés reacionário e conservador, ou o progressista e democrático. Exemplifica ele que o New Deal possuiu caráter democrático, enquanto o fascismo foi um contramovimento reacionário; que promoveu proteções sociais a alguns destruindo as instituições democráticas.

Este entendimento é subsídio o qual nos permite compreender o tea party como um contramovimento frente as mazelas que a globalização trouxe aos americanos brancos, particularmente no sul e no meio oeste. Quando a população se levanta contra o Obamacare dizendo “mantenha seu governo longe do meu seguro” o que eles querem é proteger os seus benefícios de saúde frente a mudanças que interpretam como ameaça ao que possuem. Quando são extremamente hostis a imigrantes e as reformas imigratórias, estão respondendo ao que percebem como uma ameaça a seus recursos – agora consideravelmente menores devido a desindustrialização e as importações. Polanyi nos ensina diante das falhas e instabilidades de mercado devemos ser vigilantes em torno da democracia, que não são imediatamente aparentes nas mobilizações políticas, devido ao impulso duplo.

HF – A moeda única da União Europeia cria diversas tensões entre as leis internacionais e a sociedade doméstica, assim como fez o padrão ouro há um século. Quais são as consequências políticas destas tensões?

FB & MS – Acabamos de assistir as eleições europeias em que a extrema-direita assumiu a ponta na França e no Reino Unido. Esta é uma resposta as contínuas políticas de austeridade da Comunidade Europeia, as quais mantém altos níveis de desemprego e bloqueiam esforços nacionais de estímulo a um crescimento forte. Talvez estes constituam em grande parte votos de protesto – um sinal aos partidos de que eles precisam abandonar a austeridade, criar empregos, e reverter os cortes de gasto público. Porém, a menos que haja sérias iniciativas por parte da Comunidade Europeia em nível global a fim de assumir um novo curso, podemos esperar que a ascensão da direita nacionalista e xenófoba se tornará mais forte.

Tradução: Rennan Martins

Como pensa a elite brasileira

Por Antonio Lassance, em seu blog

A elite brasileira comprou o livro de Piketty, O Capital no Século 21. Não gostou. Achou que era sobre dinheiro, mas o principal assunto é a desigualdade.

A elite brasileira é engraçada. Gosta de ser elite, de mostrar que é elite, de viver como elite, mas detesta ser chamada de elite, principalmente quando associada a alguma mazela social. Afinal, mazela social, para a elite, é coisa de pobre.

A elite gosta de criticar e xingar tudo e todos. Chama isso de liberdade de expressão. Mas não gosta de ser criticada. Aí vira perseguição.

Quando a elite esculhamba o país, é porque ela é moderna e quer o melhor para todos nós. Quando alguém esculhamba a elite, é porque quer nos transformar em uma Cuba, ou numa Venezuela, dois países que a elite conhece muito bem, embora não saiba exatamente onde ficam.

Ideia de elite é chamada de opinião. Ideia contra a elite é chamada de ideologia.

A elite usa roupas, carros e relógios caros. Tem jatinho e helicóptero. Tem aeroporto particular, às vezes, pago com dinheiro público – para economizar um pouquinho, pois a vida não anda fácil para ninguém.

A elite gosta de mostrar que tem classe e que os outros são sem classe.

Mas, quando alguém reclama da elite por ser esnobe, preconceituosa e excludente, é acusado de incitar a luta de classes.

Elite mora em bairro chique, limpinho e cheiroso, mas gosta de acusar os outros de quererem dividir o país entre ricos e pobres.

O negócio da elite não é dividir, é multiplicar.

A elite é magnânima. Até dá aulas de como ter classe. Diz que, para ser da elite, tem que pensar como elite.

Tem gente que acredita. Não sabe que o principal atributo da elite é o dinheiro. O resto é detalhe.

A elite reclama dos impostos, mesmo dos que ela não paga. Seu jatinho, seu helicóptero, seu iate e seu jet ski não pagam IPVA, mesmo sendo veículos automotores.

Mas a elite, em homenagem aos mais pobres e à classe média, que pagam muito mais imposto do que ela, mantém um grande painel luminoso, o impostômetro, em várias cidades do país.

A elite diz que é contra a corrupção, mas é ela quem financia a campanha do corrupto.

Quando dá problema, finge que não tem nada a ver com a coisa e reclama que “ninguém” vai para a cadeia. “Ninguém” é o apelido que a elite usa para designar o pessoal que lota as cadeias.

A elite não gosta do Bolsa Família, pois não é feita pela Louis Vuitton.

A elite diz que conceder benefícios aos mais pobres não é direito, é esmola, uma coisa que deixa as pessoas preguiçosas, vagabundas.

Como num passe de mágica, quando a elite recebe recursos governamentais ou isenções fiscais, a esmola se transforma em incentivo produtivo para o Brasil crescer.

A elite gosta de levar vantagem em tudo. Chama isso de visão. Quando não é da elite, levar vantagem é Lei de Gérson ou jeitinho.

Pagar salário de servidor público e os custos da escola e do hospital é gasto público. Pagar muito mais em juros altos ao sistema financeiro é “responsabilidade fiscal”.

Quando um governo mexe no cálculo do dinheiro que é reservado a pagar juros, é acusado de ser leniente com as contas públicas e de fazer “contabilidade criativa”.

Quando o governo da elite, décadas atrás, decidiu fazer contabilidade criativa, gastando menos com educação e saúde do que a Constituição determinava, deram a isso o pomposo nome de “Desvinculação das Receitas da União” – inventaram até uma sigla (DRU), para ficar mais nebuloso e mais chique.

A elite bebe água mineral Perrier. Os sem classe se viram bebendo água do volume morto do Cantareira.

A elite gosta de passear e do direito de ir e vir, mas acha que rolezinho no seu shopping particular é problema grave de segurança pública.

A elite comprou o livro de um francês, um tal Piketty, intitulado “O Capital no Século 21″. Não gostou. Achou que era só sobre dinheiro, até descobrir que o principal assunto era a desigualdade.

A pior parte do livro é aquela que mostra que as 85 pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente à da metade da população mundial. Ou seja, 85 bacanas têm o dinheiro que 3,5 bilhões de pessoas precisariam desembolsar para conseguir juntar.

A elite não gostou da brincadeira de que essas 85 pessoas mais ricas do mundo caberiam em um daqueles ônibus londrinos de dois andares.

Discordou peremptoriamente e por uma razão muito simples: elite não anda de ônibus, nem se for no andar de cima.

Ariano Suassuna: Esquerda e direita

Por Ariano Suassuna, via Pragmatismo Político

Ariano Suassuna

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Ariano Suassuna (1927 – 2014)

O teatro midiático e político na perseguição a ativistas

Por Raphael Tsavkko, via Correio da Cidadania

Os veículos de comunicação do Grupo Globo têm dado não apenas repetidas amostras de jornalismo rasteiro ou mesmo de anti-jornalismo, mas ainda não conseguiram explicar as informações privilegiadas a que têm acesso, num processo que sequer os advogados de defesa dos acusados o conseguem.

O caso dos 23 perseguidos políticos, que tem em Elisa Quadros, a Sininho, o principal alvo da mídia global, demonstra quão perigosa para a democracia pode ser a relação entre um grupo de comunicação e governos, a polícia e setores do judiciário. Sininho tem sido alvo de acusações que parecem roteiro de novela de péssima qualidade, algo que a Globo tem experiência em produzir.

Roteiro macarrônico de novela de quinta em que uma única pessoa parece ter tomado a frente em uma campanha para queimar edifícios públicos, tocar o terror e tudo isso sem que o real propósito sequer fosse mencionado.

O que moveria Sininho? Qual sua motivação e objetivos? Isto os veículos do Grupo Globo não conseguiram ainda bolar. Os personagens e a trama estão dispostos em um cenário quase apocalíptico, mas ainda não conseguiram encaixar detalhes fundamentais à trama.

Tampouco conseguiram explicar como pessoas que nunca se viram na vida estão relacionadas e como elementos anarquistas teriam função de direção em organizações hierárquicas. O enredo da novela global simplesmente não bate com a realidade, ainda que esta nunca tenha sido a preocupação.

O mais grave, para além da tentativa de criminalização de movimentos sociais – algo corriqueiro na história deste grupo de comunicação que, como outros, apoiou de maneira entusiasmada o golpe militar, os anos de chumbo, as torturas e desaparecimentos políticos, e que com a redemocratização adotou automaticamente a posição de defender a repressão e o aparato policial –, está no acesso privilegiado deste grupo de comunicação ao processo contra os acusados.

Mesmo o desembargador Siro Darlan, responsável pelo habeas corpus de parte dos ativistas ha alguns dias, reclamou da falta de colaboração do delegado responsável pelo caso e que até ele não teve acesso aos documentos. Circulam pelas redes (também redes de amigos e de apoio aos presos políticos e refugiados, como estão sendo considerados) comentários inúmeros de que os advogados de defesa encontram dificuldade para ter acesso ao processo e que a Globo, simplesmente, conhece mais detalhes da acusação do que eles, que têm o dever de defender seus clientes e são impedidos de fazê-lo.

Estivesse o grupo Globo interessado em praticar algo semelhante ao jornalismo, buscaria saber por que do interesse em ligar ativistas dispersos, e muitos sem qualquer conexão entre si, a crimes próximos ao terrorismo, exatamente durante a Copa do Mundo (vale lembrar que as primeiras prisões deste grupo se deram um dia antes da final da Copa), um dos eventos mais importantes para o governo Dilma e considerado essencial enquanto propaganda, em meio a uma grave crise de confiança e governabilidade.

Sininho, esta que sem dúvida é vítima de perseguição midiática que vai além da do grupo Globo, mas conta com a participação da Veja – o protótipo do panfleto de extrema-direita sem qualquer comprometimento com a verdade factual – e de outros meios, foi presa em Porto Alegre. Ela sequer participaria dos protestos durante a final, no Rio de Janeiro, e sua prisão em outro estado denuncia a participação de agentes ou forças muito além que simplesmente as do Rio de Janeiro. Além do mais, os interesses em jogo vão além da Copa, ou mesmo dos interesses imediatos do Rio de Janeiro.

Os protestos que tomaram o país desde junho de 2013 são o alvo. O direito ao protesto em si, à indignação e à insatisfação. O interesse é maior que do Rio ou de São Paulo, é um interesse das elites políticas nacionais e, em especial, da federal, que foi inegavelmente o principal alvo dos protestos que continuaram a varrer o país depois de junho (este que tinha foco muito mais local, ainda que tenha se espalhado, nos preços das passagens do transporte público).

Ações nas mídias sociais como o #NãoVaiTerCopa e o #CopaPraQuem causaram reação raivosa de parte da militância ligada ao governo federal e do próprio governo, que logo criaram “respostas” de gosto e efeito duvidoso, como o #VaiTerCopa ou o mais agressivo, #VaiTerCopaSim, que abriu espaço para mensagens com tom até mesmo ameaçador.

Se por um lado quem estava nas ruas buscava também um diálogo, por outro este espaço nunca existiu. A grande mídia, capitaneada neste caso por Folha de S. Paulo e pela Globo, correu para criminalizar os protestos, mesmo com seus jornalistas sendo alvos preferenciais da barbárie policial. Barbárie esta que chegou a forçar uma mudança de tom da mídia. Porém, não durou muito.

Começado o novo ano, os protestos passaram a atingir algo mais do que os brios ditatoriais de amplos setores midiáticos, mas passaram a atingir o bolso. A Globo (mas não só) investiu pesado na Copa do Mundo e não podia ver seus interesses serem prejudicados por alguns jovens revoltados (sic) que estavam nas ruas. Era o momento de agir.

Não surpreende que hoje o grupo midiático busque chamar os protestos de 2013 de “junho negro”, numa tentativa de deslegitimar a origem mais imediata da insatisfação que explodiu.

Enquanto policiais gravados em vídeo forjando provas e flagrantes ou até participando ativamente de atos de brutalidade contra manifestantes (ou mesmo transeuntes) não causam furor junto à mídia, mas são denunciados e divulgados quase que exclusivamente pelas mídias sociais e veículos alternativos, ativistas são criminalizados.

E a criminalização não vem apenas da mídia, como não vem apenas das autoridades cariocas e fluminenses. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já deixou claro seu apoio à repressão, alegando que não há qualquer ilegalidade, pelo contrário. Mesmo a presidente Dilma Rousseff já se manifestou. Seja de forma indireta, usando seu espaço na internet para louvar a “integração” das forças de segurança (sic) em uma imagem do mapa do Brasil coalhado por policiais e militares (uma imagem de causar calafrios) e o resultado desta nas ruas, seja declarando com todas as letras que seus esforços junto aos de governos estaduais contribuíram para “garantir um padrão de segurança”. Sem dúvida, o padrão do Estado de Exceção.

Como se vê, há um circo montado que vai além das fronteiras do Rio de Janeiro, mas que interessa a diferentes esperas de poder e governo. E interessa à mídia que, neste momento, se alia ao governo federal (e ao PT) na criminalização dos protestos. Os movimentos que estão hoje nas ruas são, em geral, aqueles que o PT não conseguiu cooptar após 12 anos de poder, oferecendo favores e verbas ou à moda antiga, tomando para si ou para aliados direções em sindicatos e movimentos.

Chegamos a ver militantes destacados do Partido dos Trabalhadores criminalizando a greve dos metroviários em São Paulo – uma greve, em tese, contra o PSDB, partido, em tese, inimigo – apenas porque se dava próxima à abertura da Copa do Mundo! Os interesses internos e de manutenção do próprio poder são mais importantes que os interesses de classe e de trabalhadores que historicamente eram apoiados pelo partido.

A mídia em geral possui interesses opostos aos de tais grupos, assim como, neste momento, o PT e o governo federal, que não aceitam verem movimentos além de seu controle, muito menos causando problemas e prejuízos à imagem de Dilma e demais aliados. Neste ponto, há convergência mesmo com o PSDB, historicamente avesso a qualquer tipo de atividade nas ruas que não sejam carros passando – ou parados em engarrafamentos.

O momento é ainda mais dramático porque não apenas verificamos essa confluência de interesses de diversas partes, de diversas esferas e mesmo entre os maiores partidos políticos do país, como também vemos poucas saídas.

Eloisa Samy, David Paixão e Camila Nascimento, três dos 23 perseguidos políticos neste momento, buscaram asilo para fugir da criminalização que enfrentam. O asilo foi negado pelo Uruguai, país com fortes laços com o Brasil, sob argumentos pífios, como chegou a explicar em seu Facebook a professora Daisy Ventura. Os argumentos foram do risível (de que um consulado não seria local para pedido de asilo) ao inacreditável (de que dar o asilo seria reconhecer que o Brasil não seria um país democrático). Oras, o Equador garantiu asilo a Julian Assange, do Wikileaks, em sua embaixada em Londres e em momento algum se aventou a possibilidade de o Equador estar anunciando que a Inglaterra não seria uma democracia. O mesmo vale para a Rússia, que garantiu asilo/refúgio a Edward Snowden.

No fim, os conchavos políticos parecem ter saído mesmo da esfera nacional. Para deleite da mídia, Globo em particular, que pôde narrar toda a saga de Eloisa e demais refugiados para uma audiência ávida e não necessariamente crítica.

A situação dos direitos humanos no Brasil vai de mal a pior (em diversas áreas, desde a questão indígena, passando pelos direitos das mulheres e LGBTs, até culminar na total criminalização do direito ao protesto) e, infelizmente, amplos setores da grande mídia demonstram, entusiasmados, que concordam com tudo. Não aprenderam nada do período em que apoiaram a ditadura. Lembrando que a Rede Globo sequer se desculpou pelo apoio dado – e recebido.

Cabe aos democratas, aos defensores dos direitos humanos e a todos aqueles que ainda acreditam nestes valores, e também na possibilidade de se fazer um jornalismo comprometido com causas sociais e com os interesses da população, lutar contra essa nuvem negra que estacionou sob nossas cabeças. Antes que seja tarde.