Edição por Rennan Martins
Intrigados e perplexos diante de uma certa má inserção e compreensão do desenvolvimentismo perante a sociedade brasileira, os colaboradores Bruno Galvão, Gustavo Santos e André Luís, todos economistas, com carreira no BNDES, debateram esta interessante questão.
Destaco o trecho “O problema, o erro teórico de desenvolvimentistas foi não ter investido nos sindicatos como a base social do desenvolvimentismo e permitir que a esquerda conseguisse convencer os sindicatos que o crescimento econômico favorecia principalmente os industriais e não os trabalhadores.”
Segue o debate:
Bruno Galvão – É impressionante que o desenvolvimentismo – e seu parente sindical, o trabalhismo – seja tão irrelevante politicamente no Brasil, o país que por algumas décadas teve o mais bem sucedido projeto desenvolvimentista do Terceiro Mundo. Ninguém é desenvolvimentista. Francamente, o partido brasileiro mais próximo do desenvolvimentismo, o PDT, não é lá muito sério.
Os militantes da esquerda detestam o desenvolvimentismo porque o associam à ditadura militar, aos projetos de expansão na Amazônia, grandes projetos que provocaram muito sofrimento à população local e ao aumento da desigualdade no Brasil. A direita não gosta porque está associado à intervenção estatal, ao nacionalismo e outras instituições ultrapassadas.
O desenvolvimentismo não tem base social no Brasil porque primeiramente os desenvolvimentistas nas décadas de 50 acreditavam que não era preciso lutar por isso, porque os ganhos do crescimento seriam visíveis a todos. Não me lembro nos trabalhos da Cepal e de outros falarem na necessidade de engajar a população. Em segundo lugar, muitos (desenvolvimentistas e antidesenvolvimentistas) erraram o obvio: acreditou-se que os industriais seriam a base social do desenvolvimentismo. Isso é muito equivocado.
Como Kalecki fala indiretamente em seu artigo clássico de 1944, quem mais tem a ganhar com o desenvolvimento são as massas dos trabalhadores e, como vimos, historicamente, eles são os únicos que lutaram para defender o desenvolvimento. Não é à toa que todos os projetos desenvolvimentistas na América Latina foram realizado por governos populistas.
O problema, o erro teórico de desenvolvimentistas foi não ter investido nos sindicatos como a base social do desenvolvimentismo e permitir que a esquerda conseguisse convencer os sindicatos que o crescimento econômico favorecia principalmente os industriais e não os trabalhadores.
Em terceiro lugar, na ditadura militar, houve um completo desvinculamento entre projeto de desenvolvimento e a sociedade, afinal, estávamos em regime de exceção e não era necessário o consentimento da população. Em quarto lugar, o crescimento econômico acelerado pareceu ter vindo muito fácil. Os problemas do Brasil pareciam ser distribuir a renda, melhorar os serviços públicos, democratizar o país, mas não garantir uma taxa de crescimento elevada.
É incrível que depois de quase 40 anos de economia praticamente estagnada, o crescimento econômico não seja uma prioridade no país. É mais importante manter a inflação dentro do centro da meta (diversos países africanos sempre mantiveram a inflação baixa) do que triplicar a renda per capita em uma geração. Aos olhos dos economistas do pós-guerra, a situação brasileira ia ser completamente surpreendente. Como entender, por exemplo, que o mais bem sucedido modelo de substituição de importações de um país periférico seja visto como tão fracassado pela atual opinião pública brasileira e o fracasso econômico retumbante dos últimos 20 anos (desde o Plano Real) seja visto como um progresso?
Apesar de perdermos todos os anos participação no PIB do antigo Terceiro Mundo, estaríamos progredindo. Essa situação inusitada – de ver o período em que éramos um dos países que mais cresciam no mundo como um fracasso e o período que crescemos bem menos que nossos pares como um progresso – é a maior expressão da derrota do desenvolvimentismo.
O PIB não é mais um indicador digno do desenvolvimento. E entender isso é, na minha opinião, o primeiro desafio para qualquer desenvolvimentista e trabalhista. É uma grande vitória da direita e da esquerda antidesenvolvimentista.
A nível mundial, um argumento fundamental é a dissociação entre crescimento econômico, desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano. Mas, os dados mostram, PIB per capita e desenvolvimento humano estão profundamente relacionados. Ao contrário de todo o discurso demagogo, neoliberal e antipolítico, o argumento de que a capacidade financeira do Estado nada tem a ver a qualidade dos serviços públicos, basta a corrupção e a ineficiência é falso.
Há uma correlação muito grande entre gastos públicos em educação e em saúde e a qualidade do serviço prestado nessas áreas. A obviedade disso para mim é tão grande que me parece somente a demonstração do poder que os antidesenvolvimentistas, no caso aqui os neoliberais, têm de falsificar a situação. A situação é para mim mais gritante – e irritante – porque tenho plena convicção de como o desenvolvimentismo pode ser benéfico à população.
Podemos até ter que mudar de nome, mas não temos qualquer responsabilidade com os erros do projeto desenvolvimentista da ditadura, com seu autoritarismo, com as mortes associadas a esses projetos de expansão agrícola, com a destruição da Amazônia e os prejuízos sofridos pela população local.
O desenvolvimentismo é simplesmente a combinação de keynesianismo com planejamento estatal. Acho que ninguém de esquerda razoável pode acreditar que deixar o mercado decidir irá resolver enquanto a população oprimida com as ONGs resolverão os problemas.
Se a prioridade é o meio ambiente, não tem ninguém melhor para resolvê-lo que a combinação de planejamento democrático e capacidade financeira do Estado. Ou alguém acredita na solução marinista (da anti-política e a favor das empresas) cada um com sua própria consciência irá resolver o problema ecológico?
André Luís - A história do Brasil viu se manifestar um desenvolvimentismo de direita e este foi aplicado na ditadura militar embasada na teoria de segurança nacional.
O governo Geisel é o maior exemplo e participaram deste movimento alguns dos economistas que conhecemos como Roberto Campos, Delfim Neto e João Paulo Velloso.
O desenvolvimentismo não tem uma ideologia política, é um grupo de economistas que pensam no Brasil como potência econômica, com excelentes condições de vida para toda a população e com níveis elevados de renda, as diferenças se apresentam no meio de se chegar a este nível.
Gustavo Santos - A burrice insistente a longo prazo em uma pessoa é comum. Mas a burrice insistente a longo prazo em uma sociedade é planejada pelo sub mundo do poder.
O anti desenvolvimentismo é muito burro, qualquer um. Mas é alimentado diariamente.
Além disso não estamos em uma democracia, mas em um sistema altamente autoritário controlado de fora. O desenvolvimentismo é vetado por ele porque é sinônimo da libertação, da verdadeira independência.
Sobre os aspectos históricos. Desde a II guerra que os serviços de inteligência e o grande capital investem diariamente contra o desenvolvimentismo.
Nos anos 70 o PT foi criado para dividir o apoio social ao desenvolvimentismo do brizola. E deu certo. O PT no governo foi anti desenvolvimentista até que o Lula com o grande baque do mensalão e com a crise de 2008 percebeu que seria politicamente destruído se não passasse a adotar estas políticas. O fez com demasiado comedimento, mas deu muito certo, como era esperado por nós.
O desenvolvimentismo vai voltar a crescer mas se será suficiente para virar o jogo ninguém sabe.
O desenvolvimentismo é necessário mas precisamos muito mais do que isso. Está ficando claro que o mundo está em estado de guerra.
E ela vai chegar aqui.