A maior economista heterodoxa no Brasil aderiu ao neoliberalismo

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Por Bruno Galvão

A Conceição é um dos maiores expoentes da escola cepalina. E o principal fundamento dessa escola era criticar a ideia de que cabia à América Latina, na divisão internacional do trabalho, a produção e exportação de produtos primários. Segundo reportagem no blog do Nassif, Conceição defende que a divisão internacional do trabalho mudou e “não há maneira de recuperar o espaço da indústria brasileira no mundo nem na economia brasileira”. Teríamos, então, que nos contentar com as exportações agrícolas. Um ponto que ela destaca é a importância de deslanchar o setor de petróleo, o que reforça a estratégia primário-exportador da Conceição.

A adesão dela ao modelo primário-exportador não se deve ao fato de que ela virou uma economista ortodoxa, mas ao fato que o mundo teria mudado. O principal argumento é que a Ásia tornou-se muito competitiva e seria impossível concorrer com a Ásia em manufaturas e que a democracia social impediria a queda do salário do trabalhador. Esse é um ponto importante que a Conceição coloca e que realmente foi deixado em segundo plano durante a era desenvolvimentista no Brasil. Ainda bem que vivemos em uma democracia onde não é possível que o governo defenda a redução do poder de compra dos trabalhadores.

Contudo, parece equivocado atribuir a falta de competitividade da indústria brasileira a altos salários no Brasil. Países com salários bem maiores que o Brasil, como Cingapura, Alemanha, Suécia, Suiça, são muito competitivos na exportação de manufaturas. Se fosse pelos salários super baixos, a África seria uma plataforma de exportações de manufaturas, o que não é e nem será. Países asiáticos, como Filipinas, com salários muito baixos (e bem menores que o da China) não estão conseguindo competir e vêm perdendo rapidamente participação nas exportações mundiais de manufaturas. De acordo com essa perspectiva de que o Brasil não conseguirá competir com a China em manufaturas porque é uma democracia social; há uma notícia boa e outra ruim. A boa é que daqui alguns anos o salário do operário na China será maior do que no Brasil. A ruim é que isso não irá alterar o fosso da competitividade entre o Brasil e a China.

Outro ponto importante da Cepal que está sendo atacado pela Tavares é a importância da indústria para o desenvolvimento da economia brasileira. Segundo ela, no Brasil, como em toda economia industrial madura, o único espaço para crescer seria por meio de serviços. Talvez para a Conceição, países, como os EUA e a Alemanha, devem ser economias industriais imaturas, dado os esforços dos dois governos em fortalecer suas indústrias. Falando sério, é risível atualmente alguém definir o Brasil como uma economia industrial madura. É o atraso da indústria brasileira que é a maior explicação para a indústria brasileira não conseguir competir fora das fronteiras do Mercosul. Países que pagam salários bem mais alto do que o Brasil conseguem ser bem mais competitivos em manufaturas que o Brasil exatamente porque, diferente do nosso país, tem uma indústria desenvolvida.

Sem querer ensinar padre a rezar, mas, como a Cepal sempre enfatizou, as receitas com importações têm que ser proporcionais às exportações e que a disponibilidade de recursos naturais está dada. Dessa forma, industrialização é a maneira de aumentar a economia dos países para além de seus recursos naturais. Para os padrões ocidentais que nossa sociedade almeja, a renda per capita do Brasil é muito baixa. Quando discutimos de saúde pública, pensamos nos exemplos da Suécia e da Inglaterra. Queremos ter a qualidade dos serviços de transporte público desses países; almejamos seus níveis de poder de compra; sua qualidade de serviços públicos e proteção social. Acredito que o que a democracia social do Brasil pede é a combinação de desenvolvimentismo com Estado do bem-estar social. Não será com a renúncia a industrialização que será possível atender ao padrão de vida que a população almeja, pois esse padrão de vida requereria um nível de importações muito maior do que a capacidade brasileira de exportações de matérias-primas. Esse modelo primário-exportador com padrão de vida ocidental só seria possível se o Brasil tivesse a população da Austrália (25 milhões de habitantes) ou se queremos continuar a excluir a maior parte da população ao mercado consumidor. Deve-se observar que a disponibilidade de recursos naturais do Brasil é mais ou menos equivalente a da Austrália.

Por último, é incrível como uma economista cepalina venha a usar argumentos, como desindustrialização inevitável e será impossível competir com a Ásia. Se uma coisa que a história mundial mostra é que é geralmente equivocado tratar fenômenos como inevitável, inexorável, impossível. No caso específico da desindustrialização brasileira e da competição com a Ásia, essas afirmações são ainda mais absurdas. A Europa e os EUA são e continuarão sendo bem mais competitivos do que a “Ásia” em diversos setores industriais. Claramente, a Conceição está superestimando a atual e futura competitividade da “Ásia”. Ponho a Ásia entre aspas porque a Conceição equivocadamente está misturando países e fenômenos muito distintos. Com exceção do Vietnã, o Sudeste Asiático não está conseguindo competir com a China e vem apresentando uma tendência de queda ou de estagnação da participação nas exportações industriais no mundo. Falar em baixos salários, quando se fala em Tigres Asiáticos e Japão, é ignorância. E a importância desses países é muito maior do que todo o resto da Ásia, com exceção da China. Era melhor falar em China e Vietnã e não em Ásia.

Em relação ao Brasil, como se pode falar que um país com tantas condições favoráveis ao desenvolvimento industrial está fadado à desindustrialização. O Brasil tem condições de ter um custo de produção e de processamento de matérias-primas muito baixo a nível internacional. Aço, por exemplo, ainda é a base da indústria mundial. Também temos a condição de produzir alimentos a preço muito barato. Pode-se utilizar o grande mercado consumidor para termos escalas competitivas a nível internacional. E a grande disponibilidade de matérias-primas permite ao Brasil ter divisas suficientes para as exigências do desenvolvimento industrial. Nem é impossível entrar no setor de tecnologia de informação, nem é dependente de salários baixíssimos.

A conclusão desse texto é que a adesão da Conceição às teses combatidas pela Cepal não é uma evidência de que o mundo mudou e que, no contexto atual, a estratégia desenvolvimentista está equivocada. É apenas a opinião de uma economista que teve importantes contribuição ao pensamento brasileiro e coerente com a ideia, muito difundida na década de 1990, de que a globalização impediria o sucesso de estratégias nacionais de desenvolvimento. Felizmente, a China veio demonstrar que a globalização pode, inclusive, ser favorável a estratégias desenvolvimentistas. Tudo isso pode ser útil para nós, heterodoxos, entendermos o prejuízo intelectual de respeitarmos demais “vacas sagradas”.

2 ideias sobre “A maior economista heterodoxa no Brasil aderiu ao neoliberalismo

  1. Bruno Galvão

    Leonor,

    Imagino que um texto bizarro demais deve ter vários pontos de conteúdo a ser criticado. Gostaria de ouvir algumas críticas de conteúdo ao texto.

    Responder

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