Por Pepe Escobar, via Asia Times Online
A principal manchete dessa terça são os BRICS, grupo de potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que se encontram reunidos em Fortaleza, nordeste do Brasil, lutando contra a (neoliberal) (des)ordem mundial por meio da criação de um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reservas que visa socorrer crises financeiras.
O demônio está, é claro, nos detalhes de como farão isso.
Foi uma longa e sinuosa estrada desde Yekaterinburg, 2009, primeira reunião do bloco, até o muito esperado contragolpe no consenso de Bretton Woods – O FMI e o Banco Mundial – assim como no submisso Banco de Desenvolvimento Asiático, dominado pelo Japão.
O Banco de Desenvolvimento dos BRICS – com capital inicial de US$50 bilhões – será destinado não somente aos BRICS, mas investirá em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em escala global. O modelo referenciado é o BNDES, que apoia empresas brasileiras, investindo em toda a América Latina.
Temos ainda o acordo estabelecendo um montante de $100 bilhões em reservas correntes – o Contingente Reserve Arrangement (CRA), descrito pelo Ministro das Finanças russo, Anton Siluanov como “uma espécie de mini-FMI”. Este constitui um mecanismo não alinhado ao Consenso de Washington que proteção a crises de capital. A China contribuirá com $41 bilhões, Brasil, Índia e Rússia com $18 bilhões cada, e a África do Sul, com $5 bilhões.
A sede do banco será em Shangai – a despeito da tentativa de Mumbai de puxá-la para si.
Longe de tratar de economia e finanças, estas medidas são essencialmente geopolíticas – são as potências emergentes oferecendo uma alternatica ao falido Consenso de Washington. Ou, como dizem os apologistas do consenso, os BRICS talvez serão uma forma de “aliviar os desafios” que estes enfrentam frente ao “sistema financeiro internacional”. A estratégia também é um dos pontos-chave da fortificação da aliança entre China e Rússia.
Joguemos a bola geopolítica
Após a realização por parte do Brasil, contra todas as expectativas, de uma inesquecível Copa do Mundo – mesmo com a não correspondência de sua equipe nacional – é hora dos vizinhos Vladimir Putin e Xi Xinping chegarem pra uma partida de geopolítica em alto nível.
O Kremlin enxerga a relação bilateral com Brasília como altamente estratégica. Putin não só assistiu a final da Copa no Rio; distanciado da presidente Dilma Rousseff, ele também encontrou a chanceler alemã Angela Merkel (eles discutiram pormenorizadamente a questão ucraniana). Mesmo assim, o membro chave da comissão russa é Elvira Nabiulin, presidente do Banco Central do país; ela está empunhando a bandeira de que todas as negociações entre os BRICS passem ao largo do dólar.
O encontro de extrema força simbólica foi o de Putin com Fidel Castro, em Havana, assim como o perdão da dívida cubana de $36 bilhões. Este perdão que pode não ter um impacto tão significativo na América Latina, se comparado ao perene embargo imposto pelo Império do Caos.
Na América do Sul, Putin encontrará não só com o presidente uruguaio Pepe Mujica – para discutirem, entre outras coisas, a construção de um porto de águas profundas – mas também com o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, e ainda com Evo Morales, presidente da Bolívia.
Xi Jinping também se encontra em tour. Visita o Brasil, Argentina, Cuba e Venezuela. O que Pequim diz complementa Moscou; a América Latina é vista como altamente estratégica. O que pode ser traduzido em mais investimentos chineses e aprofundamento da integração Sul-Sul.
Esta ofensiva comercial/diplomática russa-chinesa é compreendida como um impulso no sentido de um mundo multipolar – lado a lado com líderes sul-americanos do campo político/econômico. A Argentina é um forte exemplo. Enquanto Buenos Aires enxerga a recessão no horizonte e luta contra fundos abutres norte-americanos – a epítome da especulação financeira – nas cortes de Nova York. Putin e Xi surgem oferecendo investimentos nos mais variados setores, desde o ferroviário até o energético.
O setor de energia industrial russo necessita, é claro, de investimentos e tecnologia das transnacionais ocidentais, assim como a China desenvolve-se com investimentos ocidentais, que lucram sobre a mão de obra barata. Porém, o que os BRICS tentam dar ao sul global é uma escolha; de um lado, especulação financeira, fundos abutres e a hegemonia dos Mestres do Universo; de outro, o capitalismo produtivo – uma alternativa estratégica de desenvolvimento capitalista, quando comparado a tríade EUA, União Europeia e Japão.
Assim mesmo, será um longo caminho para os BRICS que projetam um modelo produtivo e independente do cassino que é o capitalismo especulativo, ainda se recuperando da massiva crise de 2007/2008.
Alguns talvez vejam os BRICS como uma crítica construtiva ao capitalismo; uma forma de purgar o sistema do financiamento perene ao deficit fiscal norte-americano assim como da síndrome de militarização global – relacionada ainda ao complexo Orwelliano/Panóptico – subordinado à Washington. Como o economista argentino Julio Gambina pontuou, a questão não é ser emergente, mas independente.
Neste artigo, Claudio Gallo introduz o que pode ser a questão definitiva de nossos tempos: como o neoliberalismo – ditando direta ou indiretamente o rumo da maior parte do mundo – está produzindo uma desastrosa mutação antropológica que nos arrasta num totalitarismo global (enquanto todos discursam solenemente sobre suas “liberdades”)
É sempre muito instrutivo tornar os olhos à Argentina. A Argentina se encontra emprisionada por uma crônica dívida estrangeira imposta pelo FMI há 40 anos – e agora perpetuada pelos fundos abutres.
O banco dos BRICS e seu fundo de reservas são uma alternativa ao FMI e ao Banco Mundial para diversas outras nações, um escape das amarras nas quais estão a Argentina. Isto sem mencionar a possibilidade de que outras nações emergentes como Indonésia, Malásia, Irã e Turquia venham a contribuir.
Não há dúvida de que a gangue hegemônica dos Mestres do Universo resistiram em ceder suas cadeiras. Esta publicação do Financial Times sumariza a visão londrina do caso – Londres, que é um notório paraíso do cassino capitalista.
Estes são dias impetuosos na América do Sul. A hegemonia atlântica permanecerá parte do quadro, é claro, mas é a estratégia dos BRICS que se posta na estrada. E é a roda do mundo multipolar que o faz girar.
Tradução: Rennan Martins

