
Eric Hobsbawm, um dos grandes expoentes da esquerda contemporânea. Carta Maior/Reprodução
Edição por Rennan Martins
O artigo intitulado O que estará em jogo nas eleições, do colaborador da Associação, Flavio Lyra, doutor em economia, gerou uma repercussão muito representativa para o debate político brasileiro. Nele, Lyra faz a comparação de projetos de país que os principais candidatos e partidos apresentam para o país, principalmente no tocante a visão de Estado de bem-estar social contra a concepção do Estado mínimo.
Além disso, seguiu-se um debate enriquecedor, de caráter teórico, entre o autor e Paulo Timm, também economista. Nesta discussão são levantados pontos sobre os tipos de democracia e a representatividade destas, além dos pontos de divergência da esquerda e seus desafios perante a configuração dos poderes na sociedade atual.
Destaco o trecho “A representação indireta é a forma mais eficaz da classe proprietária manter o controle do governo, acenando para o povo com instrumentos meramente formais de participação no poder (voto e representação política), com o poder real controlado pela classe proprietária (burguesia), através do financiamento de campanhas e da preservação da propriedade privada dos meios de produção.” (Parte 2 aqui)
Confira:
Flavio Lyra – Sobre o texto em que sou questionado sobre o significado do conceito de democracia burguesa, incluído em meu texto “O Quê Estará em Jogo nas Eleições”. Como sabemos, etimologicamente, o significado é o governo do povo. Mas, ao longo da história dito conceito tem servido para significar formas de governo diferenciadas. Daí se falar em democracia direta e democracia indireta, democracia social, democracia popular etc. No meu texto, estive fundamentalmente preocupado em caracterizar o tipo de democracia cujas instituições prestam-se fundamentalmente para preservar a propriedade privada dos meios de produção, pertencentes à classe burguesa. Nada mais é do que a democracia liberal. A representação indireta é dominante nesse tipo de democracia. A introdução de formas diretas de participação torna esse a democracia burguesa mais propensa a atender os interesses populares, ainda que mantenha-se sua condição de guardiã do sistema capitalista. A oposição à democracia burguesa seria a democracia proletária ou popular.
Veja, o alvoroço, quase pânico, que tomou conta da classe proprietária do país e de seus representantes na imprensa e na política com a possibilidade de maior coordenação dos movimentos sociais (Decreto recente do governo) e com o aceno de uso de mecanismos de democracia direta, ou de participação, (plebiscito e referendo) que já estão previstos em nossa Constituição. A representação indireta é a forma mais eficaz da classe proprietária manter o controle do governo, acenando para o povo com instrumentos meramente formais de participação no poder (voto e representação política), com o poder real controlado pela classe proprietária (burguesia), através do financiamento de campanhas e da preservação da propriedade privada dos meios de produção.
Paulo Timm – Partimos, ambos, de uma mesma matriz: o marxismo. Mas hoje em dia há muitas interpretações do velho Marx.
Eu, decididamente, nada mais tenho a ver com a visão que, à falta de outro nome, chamarei de ortodoxa, ou clássica, ou proto-marxista.
Primeira divergência
O marxismo está inscrito no Iluminismo, como uma filosofia crítica da modernidade.
O pós-marxismo, ou meta marxismo, como quer Castoriadis, distanciou-se desta filosofia, cujo núcleo teórico fundamente está em Kant: Um sujeito eticamente constituído é capaz de legislar sobre seu destino. Ao longo do século XXI a filosofia e a psicanálise liquidaram este sujeito cada vez mais convertido num indivíduo à mercê de razões que sua própria razão desconhece.
Segunda divergência
Utopia socialista: Todas as filosofias são datadas. As utopias, também. A principal utopia – salvadora – presente no marxismo é a ideia de que a humanidade evolui por etapas, correspondentes aos modos de produção, sendo o socialismo o ponto final desta trajetória. O pós-marxismo abandonou o princípio evolucionista e tem no Socialismo não a redenção da humanidade, mas uma indispensável técnica civilizatória. Zizek, aliás, propõe o retorno a Hegel para que se entenda melhor este ponto e afirma, claramente, que os marxistas devem abandonar a ideia de que o capitalismo dará lugar ao que chamamos de Socialismo.
Terceira divergência
Tese clássica: O fundamento do valor é a Mais-valia que corresponde à apropriação da burguesia num regime de intercambio de equivalente. Para os pós marxistas isto correspondeu a um momento da história do capitalismo , que poderíamos chamar de clássico. Hoje, o fundamento da acumulação capitalista é o roubo praticado pela violência das nações mais poderosas sob controle do capital financeiro. Isso não é mais nem capitalismo. É rapina internacional, sob argumentos de mercado. O capitalismo degenerou-se – e degenerou algumas das instituições civilizatórias caras à humanidade, como a democracia – transformando-se numa máquina voraz de acumulação pós-primitiva. Saqueio e violência. Não contra povos, mas contra nações inteiras.
Quarta divergência
Classe e Povo: O marxismo clássico, a partir da contração K/T privilegiou toda uma concepção estratégica de luta anticapitalista a partir da organização da classe trabalhadora. Isto foi muito importante no século XX, embora sujeito à imperiosa necessidade de introdução do conceito de vanguarda, com o partido de classe. Na verdade com o tempo e com a evolução das condições de vida dos trabalhadores no centro do capitalismo, a classe trabalhadora e suas organizações foram aburguesando-se e se convertendo em instrumento exclusivo de defesa corporativa, sem qualquer atenção às questões gerais que afetavam o meio ambiente, os direitos de minorias, as questões do colonialismo e neocolonialismo. Marcuse já falava nisso nos anos 60. Hoje Losurdo e outros não deixam por menos. Hobsbawm mesmo, antes de morrer, também falou na necessidade de voltarmos a falar em povo e não em classe.
Quinta divergência
Democracia: A visão tradicional do marxismo-leninismo consagrou a ideia de que a democracia não só intrinsecamente burguesa como se qualificava como cretinismo parlamentar. A ação dos velhos comunistas frente aos desafios da representatividade sempre foi, até Gramsci, “oportunista”, tática, nunca estratégica. Jamais abandonaram a ideia do assalto ao poder para edificação de uma economia centralmente planificada com a expropriação da burguesia. Os modelos da Coreia e Cuba ainda ilustram esta concepção. Um autor teve importante papel no Brasil, o introdutor de Gramsci entre nós, lamentavelmente muito restrito em sua influência apenas a S.Paulo e Rio: Carlos Nelson Coutinho. Para todos os meta marxistas a democracia é um valor universal e que passa pela construção não de um sujeito de direitos, mas de um regime de garantia irrestrita destes direitos.
Sexta divergência
PT no Governo: Aqui não se trata mais de divergência entre marxistas. Até porque há mais marxistas, proto marxistas, meta marxistas fora do Governo do que dentro dele. Mas de visão sobre o PT e sua ação no Governo. Quase todo mundo está de acordo com o fato de que o PT hegemonizou a esquerda ao longo da brilhante carreira do Lula. Mas nem todo mundo converte tal concepção no dogma de tipo gaulista de que après moi, le caos. Se o PT perder as eleições, será uma ruptura de uma trajetória inequívoca de avanço popular em termos de cidadania e consumo. Mas não bastam resultados para vencer uma eleição. Um galo sozinho não faz uma madrugada. E o PT vem confundindo cada vez mais a governabilidade com o aprofundamento de sua hegemonia na sociedade brasileira. A meu juízo, e posso estar errado porque vivo muito à distância de tudo, cá com minhas memórias, a ideia de hegemonia não pode partir de um conflito mecânico de Trabalhadores x Elite branca. Isto vai dar errado. Até porque nosso grande problema não são os médicos que são contra o Mais Médicos, nem grande parte da classe média tradicional ou da imensa pequena burguesia espalhada pelas grandes cidades. Nosso inimigo frontal é o capitalismo financeiro internacional e suas grandes corporações. Ou juntamos todo o povo brasileiro para uma verdadeira revolução democrática contra esta, sim, elite financeira, ou vamos pro brejo.
Sétima divergência
Ações e Valores: Aqui também uma questão que concerne não a divergência teóricas entre marxistas, mas de caráter filosófico mais geral. O PT e seus defensores insistem na sua politica de resultados favoráveis às classes menos favorecidas. E rejeitam todo o tipo de debate franco sobre o caráter republicano de sua atuação, num regime de base aliada ao qual concorrem os mais funestos personagens do nosso atraso politico. Ora, com isso esquecem uma máxima de que “O valor moral não advém das ações visíveis em jogo – ou seus resultados materiais –, mas de princípios íntimos que não se vêm” – (Kant). A legitimação, portanto, do PT, não passará, apenas, à luz dos eleitores, pelas realizações inequívocas da era petista, mas de um conjunto de ações e intenções a elas relacionadas.
Oitava divergência
Marxismo e Ciências Humanas: O marxismo tradicional continua aferrado ao cientificismo do fim do século XIX. O meta marxismo procurou se ajustar metologicamente a um novo tempo de inovação tecnológica + cosmovisão + forma de comunicação, marcado pelo advento de cibernética, que não é apenas um avanço mas um salto civilizatório, tal como a fala, a escrita e a imprensa. Neste sentido acompanha também uma separação das Ciências Humanas das Naturais, incorporando, dentre outras as dimensões da subjetividade/individualidade, do simbólico e do significante.
Nona divergência
Black Blocs: O Governo do PT, em coro com o PIG e com toda a consciência conservadora do país, insiste em que esse grupo é de bagunceiros, vândalos, criminosos comuns. Ora, isso é um absurdo. Esse grupo é um grupo político radical, que deve ser combatido a partir do entendimento deles como tal, jamais como criminosos comuns. Quando denominados algo por um nome chegamos perto daquilo que este realmente é. Esse é o primeiro passo para a identificação de cada coisa, cada movimento político, cada instituição, cada governo, ou o que for. E da identificação, o apoderamento. Ou senão, daqui a pouco, vamos querer prender todos eles, ou o que é pior: liquidá-los.
Enfim, noto que é muito difícil discutir alternativas quando os pontos metodológicos são tão diferentes. Mas, mesmo desacreditando da possibilidade de reunificar o marxismo como filosofia crítica do presente modificado, acho que temos aquilo que os cristãos chamam de as mesmas bases para pensar e agir sobre o presente, para mim, cada vez maior do que no Sermão da Montanha e no Manifesto Comunista, do que todas as Igrejas, Partidos e Doutrinas que lhe sucederam.
