Arquivo mensais:junho 2014

Pepe Escobar: Geopolítica da Copa do Mundo

Por Pepe Escobar, via Portal Vermelho

Seleção alemã confraterniza com índios Pataxó na Bahia. Vermelho/Reprodução

Numa das imagens que, até aqui, definem a Copa do Mundo, vê-se a Mannschaft alemã – a seleção alemã de futebol – confraternizando com índios pataxó, a poucas centenas de metros de distância de onde o Brasil foi “descoberto”, em 1500. Praticamente, um redescobrimento dos trópicos exóticos.

E há também a Seleção Inglesa, deitando e rolando à beira-mar, numa base militar, com o Pão de Açúcar como deslumbrante pano de fundo, sob uma parafernália de equipamentos e respectivo especialista científico em umidade e ventiladores industriais (afinal, haverá o “Duelo na Selva” contra a Itália, no próximo sábado, “nas profundezas da Floresta Tropical Amazônica”, como dizem tabloides britânicos).

A Copa do Mundo – o maior espetáculo da Terra – começa no momento em que uma incansável campanha de propaganda de demonização contra-China e contra-Rússia, inventada no Ocidente (estados-fregueses incluídos), fez subir ao topo os níveis de histeria universal.

Significa que o Brics estão no olho do alvo; no caso do Brasil, é a potência emergente localizada estrategicamente sobre a parte mais rica da Floresta Tropical Amazônica, em tempos em que uma integração progressista da América Latina ousou reduzir a papel higiênico (Marca Registrada) a Doutrina Monroe.

Nos anos recentes, o Brasil tirou pelo menos 30 milhões de pessoas da miséria. A China investe em atenção pública à saúde e à educação. A Rússia recusa-se a se deixar abusar, como nos anos de Ieltsin, o bebum. Nos anos recentes, a Copa do Mundo tem sido assunto, sempre, de países BRICS: África do Sul em 2010, Brasil agora, e Rússia em 2018. Qatar em 2022 – como acontece sempre – parece mais um programa de chantagem movido a petrodólares do Golfo, que saiu pela culatra.

É interessante verificar como a City de Londres – que ama o dinheiro russo, anseia por investimentos chineses e tem uma quedinha pelo poder soft do Brasil – está analisando o quadro. Com um toque de humor britânico, poderiam facilmente interpretar o Duelo na Selva, como a OTAN combatendo na muito ambicionada floresta tropical (pensem nas guerras da água que virão em futuro próximo).

E então, apenas dois dias depois de iniciada a Copa do Mundo, a Bolívia, vizinha do Brasil, estará hospedando nada menos que uma reunião de cúpula do G-77+China – de fato, é reunião das 133 nações-membro da ONU, a coisa toda lá presidida pelo presidente Evo Morales, da Bolívia, que é uma espécie de primo andino distante dos Pataxós que tanto fascinaram os alemães.

Trata-se, pode-se dizer, de uma reunião da Alba (Aliança/Alternativa Bolivariana para as Américas e que inclui Cuba) e do Brics (só a Rússia não estará presente). Os excepcionalistas norte-americanos estão furiosos, porque o Brics estão conduzindo a transição na direção de um mundo multipolar – que já existe no futebol (pense em Espanha, Alemanha, Itália, de um lado; e Brasil, Argentina e Uruguai, do outro).

E tem a ver também com promover o futebol, com uma espécie de contragolpe Sul-Sul à hegemonia do norte industrializado. Brasil, China e Rússia, com suas diferentes estratégias, todos apostam em mais integração sul-sul – do Banco do Sul, ao banco de desenvolvimento do Brics, em constituição (há reunião de cúpula do Brics, crucialmente importante, mês que vem, em Fortaleza), na via para um sistema mais igualitário que, idealmente, poderia ser financiado por uma porcentagem da dívida externa, uma porcentagem dos gastos militares e um imposto global sobre transações financeiras especulativas.

E sempre vale a pena recordar que o G77 é sobre descolonização; nada de Império de Bases; nada de interferência pelo complexo orwelliano/Panopticon da Agência de Segurança Nacional dos EUA no Sul Global.

Agora comparem tudo isso com a Copa do Mundo: Adidas; Coca-Cola; Hyundai; Kia Motors; Emirates; Sony; Visa; Anheuser-Busch InBev (Budweiser); Castrol; Continental; Johnson & Johnson; McDonald’s; Itaú; Fifa, festa e entretenimento de 2014-Brasil, que a bíblia da indústria, Advertising Age apresentou como “um Super Bowl todos os dias, o mês inteiro”.

Em firme oposição, há uma coorte de movimentos Sul-Sul sociais/de solidariedade que denunciam tudo que, de ruim, esteja envolvido na super empreitada, de neocolonização pós-capitalista hardcore a furiosa criminalização dos mais pobres.

E entre esses movimentos, não surpreendentemente, lá está o ícone do Sul Global, Diego “Mão de Deus” Maradona, que disse essa semana que:

“… a Fifa tira US$4 bilhões (da Copa) e a nação campeã só US$35 milhões. Não está certo. É a empresa desfechando golpe mortal contra o futebol.”

Futebol é guerra

Muito se tem ouvido sobre o paralelo entre a globalização hiper-capitalista – como se vê bem graficamente na Copa do Mundo e nos meganegócios do futebol contemporâneo – e o nacionalismo.

Ora, o mundo não é e jamais será plano. É um Himalaia/Pamir/Hindu Kush de diferentes altitudes da desigualdade, exposto a avalanches de neve, de comércio, trocas, fluxos de imigrantes e terremotos tecnológicos. Nada disso desfaz os tecidos/fibras nacionais. Ainda é “nós” contra “eles”, com o Sul Global a definir norte-americanos e europeus como “gringos”, tanto quanto levas do Norte industrializado a patrocinar/lucrar no/do “exótico” Sul Global.

Nada há de pós-nação ou pós-nacional na Copa do Mundo. No terreno da geopolítica mais hardcore, a supercentralizada União Europeia vai-se fragmentando sob o peso de um bando de partidos nacionalistas de direita ou de extrema-direita; no futebol, a maior diferença, na comparação com a geopolítica hardcore, é que não há só uma potência excepcionalista, mas um punhado, de Espanha ao Brasil, de Alemanha a Itália, de Argentina a França.

Rinus Michels, técnico do “Carrossel Holandês”, seleção nacional que deslumbrou o mundo em 1974 (mas não levou a taça), disse certa vez que futebol é guerra (feito Samuel Fuller, diretor de cinema e gênio solitário, que disse que o cinema é um campo de batalha). A Copa do Mundo é guerra por outros meios; um duelo oficial, permitido, ritualizado, entre nacionalismos. É questão, só, de escolher sua tribo; só depois que sua tribo já tiver saído da competição, escolha uma tribo substituta – que, para qualquer epicuriano afetado atenderá provavelmente pelo nome de Itália. Afinal, é o mais entusiasmante hino nacional. A melhor comida. Os melhores ternos. E, claro, eles também têm Andrea “O Mago” Pirlo.

Novo jeito de jogar bola?

Brasil, justamente elogiado como Terra do Futebol, é também líder mundial na redução das emissões de carbono, segundo pesquisa recentemente publicada na revista Science – e simultaneamente conseguiu aumentar a produção agrícola, ao mesmo tempo em que diminuiu o desmatamento, salvando mais florestas.

Mas, como sempre em tudo que tenha a ver com Brasil e Copa do Mundo, tudo se misturou – metáfora ao vivo do típico conjunto variado de problemas que o Sul Global tem de enfrentar. A presidenta Dilma Rousseff do Brasil foi forçada a apelar ao estereótipo do brasileiro “homem cordial”, e falou muito de tolerância, diversidade, necessidade de diálogo e até de sustentabilidade, tanto quanto condenou o racismo e os preconceitos, para exortar a população a dar um tempo nas dificuldades locais e do dia a dia, para receber bem uma legião de visitantes estrangeiros.

Quase desnecessário, se se considera que o brasileiro médio é naturalmente caloroso e muito amigável; mas o demônio está nos detalhes – por exemplo, em pelo menos 200 mil pessoas deslocadas de onde moravam, ou, no mínimo, ameaçadas de expulsão, para dar lugar a grandes obras para aumentar a “mobilidade urbana”. Ok. Só 10% dessas obras foram concluídas, em vários casos por culpa da corrupção massiva. No Rio de Janeiro, não se investiu um único real num sistema de transportes caótico usado pelo crescente proletariado das periferias urbanas.

Lula, o ex-presidente ainda super, super, super popular, disse, quando estava na presidência, em 2009, que não seria gasto nenhum dinheiro de impostos, na Copa do Mundo. De fato, não, diretamente. Os financiamentos saíram do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, que empresta dinheiro a bancos. E as empresas que construíram os novos estádios também se beneficiaram de várias isenções de impostos.

Resumo da história é que o governo da presidenta Dilma acabou perdendo a batalha “midiática”. Várias vezes a presidenta teve de explicar que a Copa custaria o correspondente a uma pequena fração do que é investido em saúde e educação (tema sobre o qual ainda cabe discussão). Pode dizer que metade da população brasileira ou não entendeu ou não foi convencida.

E nada garante, até agora, que uma vitória do Brasil na Copa do Mundo garanta automaticamente a reeleição da presidenta Rousseff. [1] Mas é preciso dizer que as recentes ondas de protesto, onda após onda, começaram, de fato, antes do governo da presidenta Rousseff. É como se todos esses diversos movimentos sociais estivessem manifestando agora, concentradamente, o mais radical e utópico dos desejos: apagar, de uma só varrida, séculos de injustiças perpetradas pelas elites brasileiras notoriamente rapinantes e arrogantes e ignorantes – as quais mesmas elites sempre implementaram políticas de total exclusão política e econômica, baseadas na mais abjeta segregação racial e de classe.

Significa que o drama todo não é simplesmente sobre tendências “antineoliberais” ou “anticapitalistas”. Vai muito além do nacionalismo. E bem pode ser muito mais profundo e importante que um manual de revolução que use o futebol como pretexto. Seja qual for o resultado dessa guerra que se trava em torno do futebol, mesmo assim o Brasil ainda poderá ensinar boa lição a todo o Sul Global.

Na vitória, ou mesmo na derrota gloriosa, talvez o Brasil encontre a estamina necessária para tentar uma nova abertura estratégica – um novo modo, novo, não arrogante, não neocolonial, não armado, não excepcionalista de liderar e usar o poder, para construir alianças e firmar grandes acordos geopolíticos em mundo multipolar. Um jeito novo de jogar o jogo. Que comece, então, o Novo Grande Jogo.

Nota dos tradutores:

[1] 8/6/2014, The Guardian em: “Brazil’s politicians banking on World Cup victory to help soothe unrest”

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Livros:

- Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007.

- Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.

- Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Fonte: Rede Castorphoto. Traduzido pelo coletivo Vila Vudu

Eduardo Campos, a “nova” política e as velhas práticas

Click Monteiro/Reprodução

Por Rennan Martins

Eduardo Campos, presidente do PSB, candidato à presidência no próximo pleito, ex-ministro de ciência e tecnologia do governo Lula e ex-governador do estado de Pernambuco, se apoia num discurso de campanha o qual se apresenta, na chapa com Marina Silva, como alguém que faz a “nova política”. Essa expressão passa a impressão de práticas guiadas por princípios, no lugar do pragmatismo eleitoreiro que visa mais cargos, mais poder.

Porém, um exame mais apurado e atencioso da movimentação do pessebista põe em cheque as alegações de renovação. Campos dá a impressão de ainda não ter achado uma via entre as polarizadas candidaturas de Dilma e Aécio e sinaliza diversas vezes à direita do atual governo. Examinemos então alguns rumos deste candidato.

No último dia 21 de abril, Campos foi entrevistado pela publicação norte-americana Wall Street Journal, vinculada ao setor financeiro de Nova Iorque. Nela, além de alegar ser partidário de uma “revisão” do atual modelo da Petrobras, se posiciona favorável à independência do Banco Central.

Na revisão de nossa maior estatal que Campos propõe não se fala propriamente em privatização, mas de afastá-la de influências políticas. Quanto ao BACEN, a proposta de torná-lo independente constitui claro favorecimento aos bancos privados internacionais, que usam do discurso tecnocrata neoliberal da economia pura, uma falácia, tendo em vista que decisões econômicas sempre adentram à esfera política.

Ainda no campo econômico e tocando num assunto mais palpável ao cotidiano da sociedade, a inflação, contatamos que em entrevista ao programa Poder e Política, gravado no dia 29 de abril, o herdeiro de Miguel Arraes defendeu uma meta de inflação de 3% ao ano. É ponto comum que a inflação é um incômodo a qualquer economia, mas, indo mais a fundo no tópico, nota-se que para uma inflação desta magnitude medidas recessivas teriam de ser adotadas, o que seria sentido no aumento do desemprego.

Passemos agora pro campo político, atentemos as práticas internas do partido e nas alianças regionais que o PSB tem firmado.

Campos tem dito reiteradamente que Dilma não consegue dar prosseguimento aos avanços da gestão Lula, que o atual governo retrocede em relação ao anterior. Encampa, portanto, uma alegada volta ao lulismo, o que também não resiste à análise.

Observando os apoios e alianças que o PSB realizam em três estados, o que se vê é a velha política.

Em Pernambuco, que, como dito anteriormente, já foi governado pelo próprio Campos, o PSB se aliou a legendas controversas como PSDB e DEM.

No Espírito Santo os pessebistas se aproximam também dos tucanos em torno da candidatura ao governo do estado. A Tribuna do último dia 14 noticia que o candidato ao senado, Luiz Paulo Vellozo, do PSDB, definiu a conversa em torno desta aliança “está muito avançada”.

Indo um pouco mais ao sul, chegando em São Paulo, o PSB se aliou a candidatura do controverso e autocrático Geraldo Alckmin (PSDB) o que fez até mesmo o porta-voz nacional da Rede, Walter Feldman, dizer que essa medida assemelha Campos ainda mais à Aécio.

Por fim temos a retirada da candidatura da prima de Eduardo, a vereadora do Recife, Marília Arraes. No último dia 6, quando anunciou que desistia do pleito ao cargo de deputada estadual, Marília alegou que o partido presidido por Campos se movimenta em oposição a democracia e que “existe uma tendência à imposição de ideias em lugar do diálogo”.

Os fatos aqui listados demonstram a fragilidade da propaganda pessebista que tenta se distanciar da velha política. Os alinhamentos a setores reacionários, as medidas impopulares propostas e as práticas opostas a democracia sinalizam um candidato que se opõe aos anseios nacionais de ampliação da participação política e da inclusão social.

A esquizofrenia da mídia diante da Copa

Por Laurindo Lalo Leal Filho, via NINJA

NINJA/Reprodução

Ao voltar ao Brasil depois de 64 anos a Copa do Mundo revelou diferenças no mínimo curiosas no comportamento da mídia em relação às Copas passadas, jogadas no exterior.

Nelas o foco estava na seleção brasileira, coberta em todos os detalhes.

Eventos paralelos ligados à organização do evento aos problemas existentes no pais sede, quando mencionados, ficavam num plano bem secundário.

Aqui isso se inverteu, pelo menos até os dias que antecederam os jogos. Notícias sobre obras em atraso, por exemplo, tinham muito mais destaque do que as informações sobre a competição e os seus participantes.

Tal comportamento revela a relação esquizofrênica da mídia brasileira com a Copa do Mundo. Ao mesmo tempo que a defende, de acordo com os seus interesses mercadológicos, enfatiza as criticas, especialmente contra o governo federal, nitidamente por interesses políticos.

Creio até que gestores e mentores dessa mídia torçam contra a seleção na esperança de que uma derrota crie o clima capaz de dar à oposição um último alento. Ainda que custem um período de relativas baixas nas receitas publicitárias advindas do ufanismo futebolístico.

Se for assim será mesmo o derradeiro ato de desespero. Foi-se o tempo em que política e futebol contaminavam-se reciprocamente. Não estamos mais em 1950 quando candidatos aos mais diferentes cargos circulavam entre os jogadores da seleção, considerada invencível antes da hora, tentando tirar uma casquinha do prestígio por eles conquistado nos gramados até minutos antes da derrota no Maracanã diante do Uruguai.

Ou da ditadura, em seu momento mais sinistro durante a Copa de 1970, tentando sufocar os gritos das masmorras com marchinhas do tipo “prá-frente Brasil, salve a seleção”.

De lá para cá o país mudou muito. Foi campeão do mundo mais duas vezes, passou dos “90 milhões em ação” para mais 200 milhões de habitantes e, na última década, tornou-se uma das mais importantes economias do mundo.

Não há futebol que possa contaminar as conquistas populares como o aumento das redes de proteção social, a universalização do acesso ao ensino fundamental, a expansão do ensino superior e, principalmente, a ampla redução do desemprego.

O “complexo de vira-lata” pregado na testa dos brasileiros pelo escritor Nelson Rodrigues, logo após a derrota de 50, e que aplicava-se não só ao futebol mas a toda a auto-estima do país, desapareceu.

Mesmo as mazelas que persistem na insegurança das ruas, no trânsito caótico, na prisões medievais, nas habitações precárias deixaram de ser consideradas destinos manifestos da gente brasileira. Ao contrário, mostram-se como desafios a serem enfrentados e superados pela ação política, institucionalizada ou não.

A mídia tentará, uma vez mais instrumentalizar essas lutas, juntando-as ao futebol, tanto em caso de vitória como de derrota na Copa. Se vencermos o mérito será da seleção, se perdermos o ônus ficará com o governo.

Serão as últimas cartadas oferecidas por ela ao seus candidatos numa tentativa de utilizar esses temas, neste ano, da mesma forma irresponsável como pôs em debate o aborto nas eleições de 2010.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP.

O insulto dos imbecis e o omelete de Dilma

Via Outras Palavras

Xingamentos à presidente partiram de quem pagou R$990 por ingresso. Não seria hora de parar de fazer concessões a essa turma?

Todo mundo viu. Literalmente todo O mundo. Centenas de milhões assistiram ao vivo um estádio com 62 mil pessoas gritar: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. Desculpem escrever o palavrão, mas é necessário mostrar a gravidade do que ocorreu. Dilma também viu e ouviu, várias vezes. Na transmissão da Globo o coro invadiu o áudio pelo menos três vezes.

Em um evento como o desta quinta 12, vaias a mandatários são comuns, quase a praxe. O que aconteceu em São Paulo na abertura da Copa do Mundo, contudo, foi além. Não foi uma vaia, como na abertura da Copa das Confederações, em Brasília. Foi uma monumental grosseria made in Brazil. Uma falta de educação abissal e carregada de simbolismo. A plateia que pagou até R$ 990 para estar ali xingando Dilma, e os mais ricos e famosos não pagaram nada. Zero. Estavam, como por exemplo Angélica e Luciano Huck, na área VIP.

E o que Dilma achou disso, o que pensou antes de dormir?

Difícil saber como Dilma registrou essa agressão, mas espero que tire uma lição do que presenciou em Itaquera.

Não faz o menor sentido continuar governando prioritariamente para essas pessoas. E não é uma questão de “gratidão”, nada disso. Dilma é, claro, a presidenta de todos os brasileiros. Mas não se justifica o número de concessões e agrados que ela se obriga a fazer para poderosos em geral, sejam eles do agronegócio, evangélicos fundamentalistas, banqueiros ou donos de redes de televisão.

Para chegar ao poder e conseguir governar, Lula fez tais concessões –que já existiam desde sempre, diga-se. Escolheu um grande empresário para a vice, aliou-se a partidos conservadores, discursou várias vezes para os donos do dinheiro prometendo não ameaçar seu poderio –como de fato não o fez. Naquele momento histórico, entretanto, essa atitude era estratégica, defensável até. Não é mais.

O quadro é outro, o país é outro. Ninguém mais, a não ser os delirantes que enxergam sombras de Chávez e Fidel embaixo da cama, acha que o PT vai colocar sem-tetos em seu apartamento ou implantar uma ditadura comunista no Brasil.

No dito popular, “sem quebrar ovos não se faz uma omelete”. Alguns argumentarão: “mas no Brasil isso é impossível, as estruturas estão aí há séculos, não dá para mudar tudo de uma vez”. Concordo. Tudo é muita coisa, e de uma vez é muito rápido. Mas entre o chavismo e os Estados Unidos há muitas possibilidades. Temos que criar nosso próprio modelo. E aí não tem jeito: Dilma tem que quebrar alguns ovos. E se não dá para quebrar a caixa inteira, pelo menos alguns têm que ir para a frigideira. Por exemplo:

Reforma política profunda, minando o próprio sistema que a faz refém de picaretas históricos por um par de minutos na TV;

Taxação de grandes fortunas, começando pelas astronômicas e inaceitáveis heranças que perpetuam a desigualdade no país;

Reforma agrária real, abandonando o incômodo posto de governo que menos assentou famílias;

Democratização real da comunicação, revendo concessões públicas e alocando melhor as verbas publicitárias governamentais;

Direitos humanos de verdade, encarando de forma contundente o racismo, a homofobia e o machismo;

E por aí vai, o número de “ovos” a ser quebrado no Brasil dava para fazer uma omelete pro país todo. “Ah, mas não vai dar para fazer tudo isso”, dirão alguns. É óbvio que não será possível fazer tudo o que realmente tem de ser feito em nosso país de uma vez e ao mesmo tempo. Mas para valer a pena um segundo mandato, ou Dilma encara de frente esses desafios ou seguirá governando para estes que a xingaram de forma grotesca na abertura da Copa.

O que você escolhe, Dilma?

Vannuchi: ‘Melar a Copa pode ser motivo da postura de Alckmin com metroviários’

Via Rede Brasil Atual

Analista diz que governo tucano agiu pensando em segmento da população ‘órfão do período ditatorial’ em contraposição ao ‘exemplo democrático’ utilizado pelo governo federal com o MTST

São Paulo – Para o analista político Paulo Vannuchi, a intransigência do governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), na negociação com os metroviários, indica interesse político em “melar” a inauguração da Copa do Mundo. Ele aponta ainda que a truculência policial contra a greve é reflexo da defesa do eleitorado “órfão da ditadura” que o tucano representa, em contraponto à postura de diálogo que o governo federal adotou com as demandas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

“A dúvida que fica é se haveria algum interesse do governo de São Paulo escondido em melar a festa da Copa para poder emanar o brilho durante o evento que acaba sendo do governo federal, da presidenta Dilma.”

Vannuchi considera que, embora Alckmin não seja diretamente vinculado a períodos ditatoriais, é uma liderança política que se tornou herdeira do segmento da sociedade que pede mais repressão, ordem e disciplina e que, em vésperas de eleições, o tucano não quer correr o risco de perder esse eleitorado. “O que o governo tucano fez nas negociações com os grevistas? ‘Não vamos recuar’. Talvez pensando nesse segmento da população, que é órfão do período ditatorial, que, na hora da eleição, tende a votar em Geraldo Alckmin”, pontuou, recordando que o tucano não aceitou nem mesmo readmitir os 42 metroviários demitidos ontem (9), apesar do compromisso da categoria de voltar ao trabalho.

Segundo o comentarista, o governo federal tem 48 horas para tentar dialogar e pressionar o governo estadual para negociar com os metroviários. “O Conlutas não é o poder público. O poder público em São Paulo é Geraldo Alckmin e está com a palavra para responder se vai seguir o exemplo democrático de diálogo, acordo e intermediação que o governo federal acaba de fazer com os sem-teto ou se vai persistir e lembrar, mais uma vez, a intransigência da ditadura”, reflete, lembrando as medidas anunciadas pelo governo federal para atender às reivindicações do MTST, principalmente no terreno batizado “Copa do Povo”, próximo à Arena Corinthians, o Itaquerão, na zona leste d capital.

Vannuchi acredita que há duas conduções políticas para lidar com os movimentos – a do diálogo, ou a policial, “das balas, do processo, e da demissão”. O analista também questiona a estratégia de greve da CSP-Conlutas, central sindical que representa os metroviários, ligada ao PSTU. Na opinião dele, a ação tem a intenção política de abalar o evento, levando em conta que a data-base para reajuste salarial da categoria seria em 1º de maio e a greve ocorreu perto da abertura da Copa.

“Fazer a greve chegar às vésperas do 12 de junho, da abertura da Copa do Mundo no Brasil, tem um evidente toque político, em que a direção dos metroviários entendeu que isso era bom, pois aumentava o poder de pressão.”

Copa, Fifa e mercantilização do futebol

Por Jaciara Itaim*, via Carta Maior

Oxalá que as trapalhadas e os escândalos da Copa abram espaço para um necessário redesenho do modelo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Pensando bem, imagino que um evento com a amplitude como essa Copa do Mundo de futebol teria todos os ingredientes para propiciar uma ampla discussão a respeito dessa modalidade esportiva em nossa terra. Seria o período adequado para que aspectos essenciais da questão do esporte viessem à tona. Afinal, todos acreditamos que ainda somos o país do futebol.

No entanto, parece que as coisas tomaram outro rumo, um pouco diverso. A natureza emocional do momento, o impacto provocado pela expectativa de ver a camiseta verde-amarela disputando as partidas em nossas cidades e a partidarização do debate em ano eleitoral são alguns dos muitos fatores que terminaram por confundir as cartas. Com isso, corre-se o risco de perder outra excelente oportunidade para que o Brasil passe a se enxergar por meio de outras lentes.

Desde junho do ano passado, temos assistido a um movimento crescente de insatisfação política generalizada pelas ruas e por todas as partes do território. E assim, amplos setores dos movimentos sociais começaram a questionar a própria realização da Copa do Mundo, em especial a partir das condições impostas e dos critérios absurdos exigidos pela FIFA.

Jornadas de junho: FIFA não deve ser prioridade

Pouco a pouco a população se deu conta da diferença de tratamento conferido às verbas orçamentárias. Ficou evidente que havia uma prioridade a ser concedida na alocação de recursos públicos para as obras vinculadas ao evento. Essa prática na condução das políticas públicas entrava em contradição com o discurso oficial, segundo o qual as verbas eram sempre inexistentes para as áreas sociais mais sensíveis. Seja no custeio de estádios que pertencem à própria administração pública, seja na concessão de empréstimos e outras benesses aos clubes e empresas quando se trata de campos privatizados.

As jornadas de junho do ano passado apenas catalisaram um sentimento generalizado de descontentamento com o “tudo que está aí” e que não havia, até então, sido bem compreendido nem canalizado pelos partidos e pelas entidades mais tradicionais do movimento estudantil e do movimento sindical. É bem verdade que essa onda surgia também nas praças espanholas, nas ruas da Grécia, na frente de Wall Street, nos movimentos der alguns países do Oriente Médio, entre tantos outros. As novidades quanto a forma e o conteúdo das mobilizações ultrapassavam os limites da fronteiras tupiniquins.

Talvez inclusive por esse grau de imaturidade e inexperiência com a história dos movimentos políticos, também por aqui eles parecem ter se deixado caminhar por palavras de ordem um pouco ineficientes do ponto de vista da estratégia de ampliação das próprias mobilizações. É o caso típico do “Não vai ter Copa!” ou das exigências de políticas públicas com o “padrão FIFA!”.

Todos sabíamos que a Copa da FIFA iria ser realizada. Ela nos foi enfiada goela abaixo lá atrás e não havia como evitar o estrago anunciado. A verdadeira intenção do movimento não era inviabilizar a realização do evento, inclusive porque o Brasil já havia assumido compromissos perante o mundo para tal fato. Ao que tudo indica, o que se pretendia era tão somente aproveitar a onda e o momento para denunciar os absurdos cometidos em nome da urgência e das exigências colocadas pela multinacional monopolista do “football association”. A palavra de ordem que melhor sintetiza talvez seja “Copa prá quem?”.

Saúde, educação e a submissão à FIFA

No entanto, por outro lado, todos sabemos muito bem que os serviços públicos essenciais, como educação e saúde, continuam a ser tratados à míngua, ao passo que os orçamentos para estádios e obras vinculadas eram assegurados e pagos em valores muito superiores àquilo que havia sido previsto inicialmente. Para Copa, tudo. Para o resto, quase nada.

Esse quadro confuso levou importantes líderes políticos a cometerem declarações comprometedoras, sempre que o tema vinha a debate. Foi o caso do ex Presidente Lula, falando da “babaquice” de se exigir as obras de mobilidade, pois o brasileiro estaria acostumado a andar a pé e mesmo de jumento. Ou então a fala do ex-jogador Ronaldo, lembrando que “Copa se faz com estádios e não com hospitais”. Ou ainda o Ministro Aldo Rebelo, justificando os atrasos das obras com o argumento de que “em 100% dos casamentos em que havia comparecido, a noiva chegava atrasada”. Uma loucura!

Quando o movimento dizia querer hospitais e escolas “padrão FIFA”, na verdade expressava o descontentamento com a diferença de tratamento oferecido pelo Estado brasileiro no oferecimento desses serviços. No fundo, era para dizer bem alto e em bom tom que queríamos educação e saúde públicas e de qualidade. E não muito mais! Isso porque a se orientar pelo “padrão” determinado pela corporação que manda e desmanda no futebol mundial, haveria risco de superfaturamento, alta probabilidade de corrupção e quase certeza de se cometer ilegalidades.

Esse era o cenário da preparação do evento em nosso País, 64 anos depois da Copa que havíamos hospedado e perdido. A famosa derrota para o Uruguai, no Maracanã que havia sido então inaugurado. As atuais concessões previstas nas transações efetuadas com a direção da FIFA começaram a vir à luz do dia e o descontentamento só fez aumentar. A quantidade de estádios espalhados pelo País, a serem construídos de forma faraônica em cidades quase sem nenhuma tradição de clubes disputando futebol profissional. A submissão cultural, a ponto de os nomes dos locais dos jogos serem alterados para “arenas”. A prostração de joelhos perante exigências inaceitáveis, tais como o vácuo jurídico para o período do campeonato, quando várias leis brasileiras deixarão de ter validade apenas para satisfazer os interesses econômico-financeiros dos patrocinadores e demais empresas envolvidas.

Futebol e mercantilização: cifras bilionárias e lucros astronômicos

É bem verdade que a atual mercantilização do futebol não teve início apenas com a decisão do governo brasileiro em investir esforços para trazer a Copa para cá. No entanto, é sempre bom lembrar que muitos analistas menos comprometidos com a bancada da bola já alertavam para os riscos envolvidos na operação diplomático-esportiva empreendida por Lula em 2007. A mercantilização é um processo bem anterior e guarda relação mais profunda com a oportunidade oferecida pela atividade esportiva ao processo de acumulação de capital. A transformação do conjunto das atividades envolvidas com o futebol em mercadoria pode ser verificada pelas cifras bilionárias envolvendo os contratos dos jogadores, pelos valores monstruosos das transações de compra e venda dos mesmos, pelas receitas mastodônticas de propaganda, pelos preços dos ingressos para entrar nas “arenas” e tudo o mais.

Uma das coisas que mais impressionam são os inimagináveis custos que o conjunto da população está arcando para bancar um evento tão efêmero como esse. Mal começou, já estará terminando. A Copa dura um mês e estádios de mais de um bilhão de reais foram construídos para receber menos de uma dezena de jogos. Mas o capitalismo tem uma lógica que implica a possibilidade de se acumular privadamente bilhões de dólares, sem que haja nenhum lastro na economia real em tais operações. Propaganda disputada a cada centímetro quadrado nos uniformes dos jogadores e nos espaços televisionados para todo o planeta.

Nos estádios brasileiros existe a salutar proibição de venda de bebidas alcóolicas, de acordo com disposto no Estatuto do Torcedor? “No problem!” A gente muda a lei e permite que durante o certame, as “arenas” possam vender cerveja, mas apenas uma única marca – aquela da exclusividade do patrocinador. Por outro lado, nem mesmo os moradores e comerciantes dos arredores das “arenas” tampouco terão liberdade para ir e vir ou manter suas atividades normais. A FIFA exigiu e obteve a garantia de que a área envolvendo um perímetro de 2 km em torno dos estádios passará a ser submetida aos desígnios da turma de Havelange, Teixeira, Blatter, Valcke, Marin i tutti quanti. A ponto de haverem tentado até proibir a venda de acarajé em Salvador, por suposta concorrência do famoso grupo internacional de comida rápida e de péssima qualidade.

Seleção canarinho e propaganda: cadê a popularização do esporte?

Outro aspecto relevante diz respeito à própria seleção brasileira. Quando a equipe canarinho está em campo, trata-se do time portando a camiseta de toda a Nação. Ora, trata-se de símbolo pátrio, cuja imagem não poderia jamais ser explorada comercialmente. Mas a cada entrevista coletiva de autoridades governamentais, atrás do representante público está um painel com a miríade de empresas patrocinadoras do evento. Jogo da seleção é patrimônio da União e suas imagens televisivas deveriam ser colocadas livremente para serem difundidas por qualquer órgão de comunicação interessado.

Mas o que se verifica, assim como nas negociatas envolvendo as imagens dos jogos do campeonato brasileiro, é a negociação bilionária das redes de TV e as vendas disputadas de cada segundo para os potenciais patrocinadores interessados na divulgação das imagens de suas mercadorias.

Infelizmente, esse parece ser o maior legado da Copa. O reforço da mercantilização do futebol, sem nenhuma preocupação em avançar em uma alternativa aa esse modelo esportivo, que é uma mimetização da estrutura concentradora da nossa sociedade e também marcado pela desigualdade e pela competição autofágica. As novas gerações de crianças e adolescentes mais desfavorecidos continuarão na mesma toada da disputa acirrada por um lugar ao sol, sem nenhuma preocupação com a implementação de uma política pública de esportes nas escolas públicas. Oxalá que as trapalhadas e os escândalos da Copa abram espaço para um necessário redesenho do modelo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a ser realizado daqui a dois anos. Esporte não pode mais ser encarado como mercadoria. Deveria ser, pelo contrário, estimulado como instrumento de inclusão social e cidadania.

(*) Economista e militante por um mundo mais justo em termos sociais e econômicos.