Arquivo mensais:junho 2014

A sociedade sob códigos empresariais e religiosos

Por Laurez Cerqueira*

Os sintomas são cada vez mais evidentes. A sociedade brasileira está sendo regida fundamentalmente por códigos empresariais e religiosos. Valores que inspiraram a República e a Democracia estão se afogando na água turva que brota de fontes medievais.

A democracia e as instituições estão ameaçadas pela força dos grandes negócios e das organizações confessionais com suas ramificações ideológicas, que solapam o Estado laico e a cidadania de forma assustadora, levando o país a retroceder, a ver aviltados direitos conquistados na história recente, inscritos na Constituição de 1988.

As igrejas se expandem no vácuo das deficiências da educação, da escola laica que não consegue se firmar como pilar da democracia, da cidadania e da República. O grande capital se impõe operando por meio dos imperativos ideológicos, econômicos e tecnológicos, monopolizando o tempo, a consciência, esterilizando vidas.

Partidos políticos e instituições populares, que historicamente promoveram a cidadania e as lutas libertárias estão, na prática, perdendo espaço para as igrejas. Tornaram-se reféns dos poderes empresariais e religiosos.

No Congresso Nacional essas forças atuam à luz do dia. Bloqueiam a aprovação de leis fundamentais para consolidação de direitos humanos, da laicidade do Estado, e de muitas outras iniciativas que teriam como finalidade ampliar as conquistas democráticas e a cidadania.

Igrejas tentaram impedir a aprovação até do Plano Nacional de Educação (PNE) por não aceitarem que as escolas abordassem a questão de gênero em sala de aula e, entre outras ações, apoiaram aberrações como a aprovação do projeto da “cura gay” na Comissão de Direitos Humanos, na época presidida pelo pastor e deputado Marcos Feliciano.

Bloqueiam a aprovação de todos os projetos de reforma política que põem fim ao financiamento empresarial de campanhas eleitorais porque o poder econômico e confessional não abrem mão do controle político do Congresso e dos governos. Aqui, vale ressalva à CNBB, que integra o conjunto de entidades que apóiam o projeto de lei da OAB, de reforma política.

As forças políticas empresariais e religiosas têm projeto de poder e estratégia. Pelo andar da carruagem, o risco maior é, em breve, efetivarem uma aliança suficiente para promover ampla reforma na Constituição, suprimir direitos e garantias consagradas ou até mesmo convocar uma Assembleia Constituinte e fazer outra Constituição de caráter teocrático e plutocrático. A continuar os ataques aos setores democráticos, a tendência é de um perigoso retrocesso institucional.

O poder das organizações empresariais e religiosas não são nenhuma novidade nas relações econômicas, sociais, culturais e políticas numa sociedade capitalista selvagem e de herança colonial como a nossa. Mas avança como nunca, turbinado com os oligopólios de mídia.

Na história recente, os anos 1990 foram o período de maior investida do grande capital na apropriação indiscriminada, quando aqui a campanha contra o Estado se estabeleceu já no governo de Fernando Collor e ganhou força no governo Fernando Henrique Cardoso.

O Estado passou a ser o diabo e o mercado, Deus, senhor das soluções de todos os problemas do país.

Evidente que o Estado não é panaceia para solução dos nossos problemas. Se fosse não teríamos chegado ao Século XXI com cerca de 50 milhões de pessoas ainda vivendo na pobreza e a riqueza concentrada nas mãos de uma minoria opulenta que vive no topo da pirâmide social.

Até porque não há capitalismo sem Estado. Mas as investidas contra a “Constituição cidadã”, como a denominou o ex-presidente da Constituinte, deputado Ulysses Guimarães, para suprimir dela garantias econômicas e sociais, tornou-se uma obsessão do poder econômico e das igrejas desde o início dos anos 1990, com Fernando Collor.

Ganhou uma dimensão inimaginável nos últimos tempos com a expansão de meios de comunicação, novas tecnologias, conglomerados empresariais de mídias, e a adesão voluntária de setores das classes média e média-alta a ideais neoliberais e religiosos.

Empresas que monopolizam as concessões do Estado, de meios de comunicação, como, por exemplo, as organizações Globo, cujos proprietários se tornaram os mais ricos do país, segundo a revista Forbes, assumiram publicamente em recentes editoriais em tv e jornais, que apoiaram o golpe civil-militar em 1964, mas não disseram que apoiaram a ditadura durante 21 anos.

Cinicamente pediram desculpa ao país e agora apostam todas as fichas na definição do pleito eleitoral deste ano apoiando desavergonhadamente, juntamente com os donos do grupo Abril, do grupo Folha, do grupo Estado, e outros, o candidato escolhido por setores do capital financeiro nacional e internacional para que possam retomar o projeto interrompido em 2002 com a eleição de Lula.

Guardadas as devidas exceções, a grande mídia tornou-se uma espécie de “Feitor”, de chicote em punho, dos grande negócios, pregadora ideológica do projeto do grande capital e das religiões.

Submete instituições ao açoitá-las com suas manchetes. Constrói versões de fatos com o jornalismo manipulativo e se estabelece como instrumento político dos grandes negócios na coação do poder republicano e democrático.

Como fez com o Ministério Público e o STF no episódio do julgamento dos réus da AP-470 ao transformá-lo num espetáculo midiático.

A maioria do STF, sob a presidência do ministro Joaquim Barbosa, se curvou ao “Feitor”. Se curvou à versão dos fatos. Imagina se o STF tivesse absolvido os réus por falta de provas. Estaria hoje na vala de esgoto da história.

A manipulação da informação corre solta, opera no subliminar, instala nos confins dos corações e das mentes dos desavisados o ódio, preconceitos generalizados, a negação da política, como se a política fosse para a sociedade o mal dos novos tempos.

A cidadania está sendo sorrateiramente esterilizada, o debate interrompido e a participação da sociedade nas decisões, na escolha do futuro, desmobilizada.

As manifestações de junho parecem ter sido muito mais um fenômeno das redes sociais, principalmente do Facebook.

Tanto que os manifestantes, passado o furor, não se organizaram, não se associaram para outras jornadas. Nada de novo aconteceu. O que se viu foi uma desconfiança generalizada de que os usuários foram vítimas de algo estranho. Esse sentimento foi manifestado em grande escala, logo depois, nas redes sociais.

O que querem com a tentativa de destruição da política? Que todos baixem as cabeças, trabalhem, consumam, e deixem o futuro nas mãos do mercado, o “senhor dos destinos”? Como despertar a nova geração para a política se a política, como querem impingir os manipuladores, representa “o mal para a sociedade?”.

A política é a mais perfeita invenção do ser humano para resolver os problemas da sociedade e do Estado, para fazer avançar no processo de civilização. Matar a política é matar a democracia, a cidadania e o desenvolvimento.

As grandes redes de tv/rádio, os portais de internet, ganharam níveis de alcance e sofisticação inimagináveis com a expansão e os novos recursos tecnológicos.

Os donos das grandes empresas de comunicação, na política, têm lado, usam e abusam das concessões a favor de suas ideologias, de seus negócios e de seus correligionários, sempre foi assim. Chega de hipocrisia. Isso é uma realidade.

As concessões de canais de serviços de rádio e tv passam de pais para filhos como capitanias hereditárias. As empresas se agigantaram e se tornaram as mais poderosas armas para a manutenção do poder econômico e político no país.

Nenhum governo, em 26 anos da nova Constituição, ousou regulamentar os artigos 221 e 222 da Carta Magna, que definem a prestação de serviços de comunicação.

O monopólio dos meios de comunicação continua intacto. Esses veículos são, na sua grande maioria, das mesmas famílias que manipularam o povo e levaram Getúlio Vargas ao suicídio e multidões às ruas para derrubar o ex-presidente João Goulart, em 1964.

São os mesmos grupos que hoje atuam, na política, em parceria com a oposição ao governo, e formam a opinião de gerações.

O atraso organizado retoma posições semelhantes às de antes do golpe militar de 1964. Quem tiver curiosidade histórica pode ir aos arquivos dos jornais daquela época para ver a semelhança da forma pela qual a imprensa de hoje, que serve à oposição, trata o governo atual, com a imprensa que derrubou o ex-Presidente João Goulart.

Em outras palavras, “a UDN saiu do armário”, mostra a cara com ranço conservador e ideológico inimaginável, numa clara reação pela manutenção do status quo a qualquer custo.

A reação dos setores conservadores é visível no ódio de classe que permeia as relações sociais, trazendo à tona conflitos ancestrais da colonização, cristalizados na disputa política e no medo da perda de poder no atual ciclo de democracia. Na democracia eles perdem sempre.

É perceptível, na histeria cotidiana, a gana pela ressubordinação dos trabalhadores, que estão se libertando do domínio da aristocracia senhorial. Querem recolocá-los nos lugares de antes, colocá-los para fora dos shoppings, como fizeram no episódio dos “rolezinhos” em São Paulo, com decisão judicial; para fora dos aeroportos, como desejou a “glamourosa” professora de letras da PUC-Rio ao ver um senhor saboreando um sanduíche na sala de embarque; para fora do salão de beleza, como tentou uma moradora de um condomínio de luxo em Brasília, ao ver a empregada doméstica de uma amiga cuidando das unhas e dos cabelos no mesmo salão frequentado por ela.

A reconfiguração de classe está levando a arquitetura a mudar a ordem residencial colonial. O modelo sala, cozinha e dependência de empregados (senzala) não cabe mais na realidade brasileira.

Estão tendo que retirar a senzala de dentro de casa, cubículo onde famílias senhoriais enfiam os empregados domésticos. Os empregados domésticos conquistaram igualdade de direitos com a “lei das domésticas”. Ou seja, tudo junto e misturado está causando um grande incômodo à elite.

Essa obsessão da oposição, e da mídia que serve a ela, pela destruição do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, não é de agora. O PT sempre foi tratado como um intruso na política brasileira desde quando nasceu, no final dos anos 1970.

A elite não o perdoa, por ter sido capaz de organizar a base da pirâmide social e dar voz e ação aos trabalhadores.

Garantiu um governo que aprofundou a cidadania, cria condições para libertação da população oprimida do domínio de aristocratas, exploradores e opressores de todo tipo; retira da pobreza extrema dezenas de milhões de pessoas, reduz a desigualdade em tempo recorde, como reconheceu a ONU, e promove a inclusão social com acesso aos serviços públicos. Sem desconsiderar os demais partidos de esquerda, PT é o que restou de maior força organizada da luta democrática do pais.

Tristes trópicos, que tem uma elite branca que sequer admite a construção da cidadania. Ela continua desenraizada, com os olhos para além do Atlântico e para o hemisfério norte. De mentalidade ainda colonial, se interessa apenas pelos grandes negócios na colônia.

A “velha UDN” está por aí, travestida, clandestina. Dispõe ainda de uma cultura política e ideológica poderosíssima. Hoje, nos salões, nos cafés, nas redações, ricaços, celebridades, artistas, jornalistas, âncoras de TV e de rádio, comentaristas, pessoas expressivas dessa tendência, diria, exemplares da nova versão da UDN, pessoas muito bem pagas, fazem a pregação conservadora.

Têm microfones e câmeras à disposição para destilar preconceitos generalizados e ódio contra os agora empoderados pela participação popular na política, nos movimentos das últimas décadas, e incluídos socialmente.

Comentaristas de economia malham o governo dia e noite, nas grandes redes de TV, radio e jornais, com um discurso surrado, atrasado, da década de 1990, fora do contexto, na defesa cega de ideias derrotadas, superadas na crise internacional.

Organizações empresariais multinacionais, principalmente do sistema financeiro, não admitem que nenhum pais de porte econômico como o Brasil esteja fora da malha e da estratégia de negócios delas.

Por ter conseguido, em parte, certa autonomia, com um projeto de desenvolvimento sustentável, tendo o Estado como indutor, o Brasil sofre uma ofensiva virulenta dessas organizações, que tentam reconduzi-lo aos desígnios do sistema financeiro internacional com a ajuda de gente daqui, operadores do mercado financeiro, donos de grandes corretoras de fundos de grandes negócios dos maiores conglomerados internacionais.

Para eles, o Estado é o inimigo número um. Têm um candidato à Presidência da República e prestam assessoria a ele. Vêem as imensas jazidas de petróleo, recém-descobertas na camada do pré-sal, como as maiores oportunidades de negócios do país e do mundo fora da malha do sistema financeiro internacional e a Petrobras como entrave por controlar a produção.

O senador Aécio Neves bradou no dia do lançamento da sua candidatura à presidência da República que quer varrer o PT do poder com um tsunami. Diz ele que quer tirar o PT porque o PT ocupa órgãos do Estado. Disse isso deixando claro sua visão patrimonialista que considera o Estado uma propriedade da Elite.

Ou seja, a “Casa Grande” mandou um recado à “Senzala”.

Resta aos setores democráticos da sociedade brasileira defender intransigentemente a Constituição, a República, a Federação, articular um movimento capaz de deter o avanço das forças dos grandes negócios, das religiões e dos “feitores” da grande mídia, para que possamos avançar na consolidação da democracia, na superação da desigualdade e na inclusão social.

(*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes – vida e obra; e O Outro Lado do Real.

Aécio fracassa em entrevista à Globonews

Por Sergio da Motta e Albuquerque, via Observatório da Imprensa

Pragmatismo Política/Reprodução

Aécio Neves, o senador e agora candidato à Presidência da República pelo PSDB, não pôde evitar o sorriso sem graça e o desconcerto trazido pelas perguntas sobre o planejamento no setor elétrico que Renata Lo Prete (14/6), da GloboNews, dirigiu a ele no segundo bloco da entrevista que a jornalista fez com o político mineiro. Renata foi direto ao ponto ao afirmar com toda segurança que a oposição costuma criticar muito a atual administração quando o tema é a gestão do nosso sistema de geração e distribuição de energia.

Ela lembrou ao candidato que “quando o PSDB esteve no poder federal, as tarifas explodiram muito acima da inflação, e um apagão, seguido de racionamento, decretou o fim prematuro do segundo governo Fernando Henrique”. Logo depois veio a pergunta: “O que os tucanos têm a ensinar nesta matéria, senador?”

Aécio começou a esboçar uma resposta, corrigindo a entrevistadora e afirmando que “não era correto comparar momentos tão diferentes da vida nacional, quando as prioridades eram outras”. O senador (PSDB) tentou continuar com sua explicação, mas Lo Prete não o deixou continuar, e interrompeu a fala de seu entrevistado: “Mas será que não, senador?”, questionou a jornalista, sem deixar muito tempo para as reflexões pobres de Aécio: “A gente fala muito de falta de planejamento, e se há uma coisa que a gente sabe bem é que não houve planejamento naquela situação”, afirmou a jornalista. A crise do “apagão” de 2001-2002 custou ao Brasil R$ 45,2 bilhões, de acordo com dados do TCU publicados na revista Época Negócios, em 16/7/2009.

O abismo e o desgoverno

Aécio então deu aquele sorriso peculiar de quem perdeu o rumo da prosa. Foi apanhado desprevenido por uma entrevistadora astuta. Por um momento pareceu perdido. Mas logo continuou, explicando que “não era advogado de Fernando Henrique Cardoso”. Depois tentou corrigir a ambiguidade que lançou sobre o nome de seu companheiro de partido e garantiu que ele “não precisa um” (advogado). Elogiou os governos de FHC, disse que sem eles Lula nada teria feito e ainda tentou lembrar à editora de política do Jornal das 10 da GloboNews que em 2001 “houve muito pouca chuva”.

Não era o dia de Aécio: Renata lembrou que o governo Dilma também viveu um período de estiagem muito longo. Aécio então partiu para uma série de acusações ao PT: sectarismo, irresponsabilidade fiscal, intolerância política com a oposição, mas foi outra vez pressionado pela jornalista. Que quis saber “por que tantas pesquisas, públicas e privadas, registram uma imagem muito ruim dos governos do PSDB”. Aécio finalmente admitiu as derrapadas no segundo mandato de FHC, e afirmou que “mesmo assim ainda restou crédito ao seu governo, graças as suas conquistas anteriores”.

O candidato do PSDB tentou usar a entrevista para aproveitar o mau momento da atual administração. Veio para atacar, mas com retórica frágil e sem o preparo intelectual de FHC, ele só desperdiçou tempo precioso de exposição pública. Nada do que o candidato disse ajudou seu partido ou sua candidatura. É verdade que a administração de Dilma Rousseff não deu a sequência esperada aos melhores momentos dos dois governos de Lula, mas querer estabelecer como verdade absoluta que caminhamos para o abismo e o desgoverno é inaceitável, se partirmos de pontos de vistas factuais.

Dever de casa

A verdade estava lá, na expressão de desamparo de Aécio Neves interrogado sobre FHC e seu fracasso na gestão do setor elétrico. O candidato esperava uma acolhida mais hospitaleira e favorável, em uma emissora que faz oposição ao PT de forma sistemática e muitas vezes desleal. O grande erro de Aécio foi acreditar que as grandes corporações de mídia são entidades monolíticas e os profissionais que trabalham nelas são lacaios dos patrões e seguem a linha editorial imposta por eles sem reflexão. A coisa não é tão simples assim.

A chamada “grande mídia” é complexa e tem muitas faces. Desacreditar tudo aquilo que é produzido por ela é uma imprudência pueril. Nos jornais mais conservadores trabalham profissionais com visões de mundo e opiniões que nem sempre coincidem com as dos seus empregadores. O contrário também é verdadeiro: publicações liberais podem ter em seus quadros gente conservadora que não segue a linha editorial de seus chefes. Jornalistas e editores experientes sabem trabalhar nos limites da autonomia relativa que a imprensa permite. Sabem usar as brechas nas emissoras e publicações onde trabalham.

Aécio Neves ignorou isso e por pouco a entrevista não “azedou” totalmente: em certo momento no segundo bloco, a entrevistadora afirmou que o PT reconhece as conquistas de FHC. O político mineiro replicou: “O PT não reconhece nada”. O candidato quis polemizar. Tentou provocar discussão. Renata Lo Prete mostrou profissionalismo, não aceitou a provocação e foi em frente com a entrevista. E o candidato desperdiçou a oportunidade de mostrar as alternativas de seu partido para o atual governo. O aspirante a presidente não fez o dever de casa, veio mal preparado para a entrevista e ainda deixou bem claro que não tem frieza para enfrentar quem o contrarie com boa argumentação.

Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

Diálogos Desenvolvimentistas: Ainda sobre o insulto à presidenta

Edição por Rennan Martins

Ceci Juruá – As minhas são palavras de solidariedade a Dilma. A vaia pouco me importa, faz parte da vida pública e sobretudo da política. É justo, é lícito, vaiar.

O problema foi o palavreado, a ofensa gratuita, em grito que parecia ser o do ódio contido durante muito tempo. Para mim, as expressões truculentas usadas refletem o inconsciente coletivo de membros da oligarquia endinheirada, de homens animados pela cultura do senhor de escravos, para quem a mulher deve ser submissa, uma escrava sexual, objeto para servir aos desejos mais mesquinhos e animalescos. Dilma é o oposto disso, sua antítese. Sua vida simboliza a luta revolucionária da mulher brasileira, o feminismo ao estilo europeu, que busca a emancipação do sexo sem se colocar contra o homem, vendo nele um companheiro diferente que a respeita e a trata em pé de igualdade. É por isto, mais do que por razões políticas, no meu entendimento, que a elite endinheirada detesta nossa presidente, ela é uma mulher digna e que não se corrompe nem baixa a cabeça, mesmo diante dos poderosos como provou há pouco tempo quando assumiu a defesa da soberania nacional perante as escutas ilícitas de agentes do Império. Como falou Galeano há pouco tempo “os homens têm medo da mulher que não tem medo”. E Dilma é uma dessas mulheres, exemplo da dignidade feminina no Brasil. Por isto eles a odeiam e extravasaram seu sentimento naquele grito truculento, em flagrante desrespeito a um símbolo da Pátria.

Mas aquela elite endinheirada não representa a totalidade da elite brasileira. Na direita e na esquerda do espectro político, temos homens de bem em todas as classes sociais. Mesmo quando membros da elite, sobretudo na elite intelectual, cultural e artística. Aquela voz que se ergueu no estádio, foi a voz dos coronéis, assassinos de índios e negros, estupradores das mulheres não brancas. Não suportam a mulher emancipada, soberana, digna.

Adriano Benayon – Considero muito boa sua ideia de assinalar que Dilma deveria deixar de privilegiar os que a insultam.

Mais ainda: embora não saiba que percentual das 62 mil pessoas participou do coro indecente, a amplitude dele, que parece ser indubitável, corrobora a certeza de que a sociedade brasileira, para se recuperar, precisa de uma revolução que não seja de brincadeira, uma revolução inclusive cultural, para educar, se não todos que estão precisando ser educados, pelo menos a maioria dos que estão nesse caso, inclusive aplicando, no dia a dia, duras regras e lições de que estão carecendo os indivíduos que se portaram de modo tão vergonhoso no estádio.

Minhas palavras não decorrem de solidariedade a Dilma nem a Lula, porque esses têm feito muito mal ao País – embora provavelmente não tão grande como o de seus antecessores. Elas procedem, inclusive, da certeza de que Dilma foi desrespeitada, não por causa dos danos que têm causado ao País, mas por algumas coisas que fez de tolerável.

Além disso, não foi só Dilma a desrespeitada, mas todos os brasileiros decentes e o próprio País.

De qualquer forma, o nível de educação escancarado pelos manifestantes deixa claro que não são esses os que deveriam protestar. De resto, deveriam protestar contra o sistema de poder e o regime de falsa democracia que este usa para saquear os brasileiros, e não apenas contra o atual e acuado ocupante do Palácio do Planalto.

Ceci Juruá, economista, doutora em políticas públicas, membro do Conselho Consultivo da CNTU

Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento

Petrobras foi a única grande operadora de petróleo a crescer produção nos últimos 6 anos, diz estudo

Via Opera Mundi

Sede da Petrobras, no Rio; empresa foi a única entre as grandes a registrar aumento de produção de barris de petróleo nos últimos 6 anos. Jim Killock/Flickr

Produção subiu da média de 1,918 milhão de barris de petróleo por dia em 2007 para 2,059 milhões em 2013, de acordo com consultoria britânica

A Petrobras foi a única empresa entre as grandes do setor a registrar aumento de produção de barris de petróleo nos últimos seis anos, de acordo com um estudo da consultoria britânica Evaluate Energy. O dado foi divulgado pela companhia no último sábado (14/06).

De acordo com o levantamento, a produção de petróleo da Petrobras subiu da média de 1,918 milhão de barris por dia em 2007 para 2,059 milhões em 2013. Isso representa um aumento de cerca de 140 mil barris por dia, se forem levados em conta os campos operados dentro e fora do Brasil.

A companhia também prevê chegar ao final de 2014 com crescimento de 7,5% em relação a 2013 (com este número podendo variar 1 ponto percentual para mais ou para menos).

A produção na província do pré-sal tem acompanhado essa tendência de crescimento, informou a Petrobras. Segundo a companhia, a produção nesta província já ultrapassou a marca de 480 mil barris diários nos campos das bacias de Campos e Santos.

O número, que é recorde, se deve à entrada em operação do poço CRT-49, que interligado à plataforma P-48, no campo de Caratinga – localizado, por sua vez, na bacia de Campos.

Mauro Santayana: Europa e seu tiro no pé

Por Mauro Santayana, em seu blog

(Hoje em Dia) – Plamen Oresharski, o Primeiro-Ministro da Bulgária, acaba de anunciar a suspensão das obras de um gasoduto a ser construído pelos russos, que serviria para levar gás à Europa, sem passar pela Ucrânia.

A decisão foi tomada após reunião de membros do governo búlgaro com uma “delegação” chefiada pelo Senador republicano John Mcain, que se deslocou com numerosos diplomatas para a capital búlgara, Sofia, para pressionar o governo .

Washington quer impedir a construção do gasoduto que passa pela Bulgária, por uma razão simples. Com ele, os russos teriam rota alternativa para levar seu gás à Europa, e poderiam fechar o gasoduto que passa pela Ucrânia quando quisessem, usando dessa prerrogativa para manipular os ucranianos.

Surpreendentemente, em um gesto de abjeta sujeição aos Estados Unidos, a União Europeia apoiou a suspensão das obras, sob alegação de que há dúvidas sobre o processo de escolha dos vencedores da concorrência, e que é preciso assegurar que a obra esteja em conformidade com a legislação européia.

Gennadi Timechenko, que lidera o consórcio vencedor, é um dos empresários russos que está na lista das personalidades sancionadas pelos Estados Unidos depois dos conflitos na Ucrânia.

Sem alternativas para a obtenção de energia, a Europa confia demais no gás de xisto norte-americano, que poderia abastecê-la no futuro. Para que esse gás chegasse ao continente europeu seria necessário gastar dezenas de bilhões de dólares em navios, terminais portuários e infraestrutura. Além disso – e mais importante – descobriu-se agora que as reservas norte-americanas desse combustível fóssil seriam pelo menos dez vezes menores do que foi divulgado inicialmente, devido a falhas da empresa que fez o levantamento de seu potencial para o governo dos EUA.

A situação da Rússia, ainda nesse aspecto, é mais confortável. Na hipótese, improvável, de que a Europa conseguisse diversificar suas fontes de suprimento, trazendo gás dos EUA, ou explorando gás de xisto diretamente, com risco de destruição do subsolo e da contaminação do meio ambiente, os russos teriam como clientes a Índia e a China, com quem acabam de assinar o maior contrato de fornecimento de gás da história, e seus bilhões de habitantes.

Ao endossar a pressão norte-americana sobre o governo búlgaro, a Europa não se tornará menos, mas ainda mais dependente do gás russo, e de um único caminho para obtê-lo. O que ocorrerá se, daqui a alguns meses, a situação na Ucrânia evoluir para uma guerra civil aberta e esse gasoduto for sabotado, e tiver seu funcionamento interrompido em pleno conflito? Os russos ficarão sem receber, a cada mês, o seu dinheiro, mas os europeus congelarão, no inverno, até a medula, sem a alternativa que poderia haver, dentro de um ano, com a construção do ramal que passaria pela Bulgária.

Brasil e México iniciam segunda rodada da Copa em Fortaleza

Por Pedro Peduzzi, via Agência Brasil

Arena Castelão sediará jogo entre o Brasil e o México nesta terça-feira. Lance Net/Reprodução

Começa hoje (17) a segunda rodada da Copa do Mundo, com a partida entre o Brasil e o México, às 16h, pelo Grupo A no Castelão, em Fortaleza. Também nesta terça-feira, fechando a primeira rodada do torneio, Bélgica e Argélia se enfrentam às 13h no Mineirão, em Belo Horizonte; e Rússia e Coreia do Sul jogam às 19h na Arena Pantanal, em Cuiabá.

Brasil e México saíram na frente no Grupo A e disputam a liderança isolada e a classificação antecipada para a próxima fase da competição. Até o momento, o time brasileiro lidera a chave pelo saldo de gols após a vitória de virada por 3 a 1 contra a Croácia. Na primeira rodada, o México derrotou a seleção de Camarões pelo placar de 1 a 0.

A partida entre o Brasil e o México marca a reedição da final nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Na ocasião, a seleção mexicana venceu a brasileira por 2 a 1. Quatro titulares da seleção que disputa o Mundial estavam presentes: o capitão Thiago Silva, o lateral Marcelo, o atacante Neymar e o atacante Hulk.