Arquivo mensais:junho 2014

A ascensão liberal, a falência do modelo e o caminho a ser tomado

Casacom/Reprodução

Por Rennan Martins

O avanço da direita liberal-conservadora, iniciado após Pinochet, Thatcher e Reagan, foi de tamanho ímpeto que, na atualidade, a ascensão de um genuíno social-democrata, a saber, Rafael Correa, se dá num projeto político alcunhado Revolución Ciudadana. O espectro do debate político-econômico foi tão puxado pra direita, que propor um Estado de bem-estar social é revolucionário.

Correa, que tem mandato até 2017, já fala em emenda constitucional no tocante a reeleição. Tem consciência da dificuldade que é enfrentar a reação, cada vez mais inescrupulosa e virulenta.

Em discurso comemorativo ao aniversário da Revolução Liberal do Equador, ocorrida em 1895, as palavras mais enérgicas que proferiu foram em relação a imprensa corporativa, definida inúmeras vezes como “corrupta e corruptora”. O papel de oposição suja exercido pela grande mídia na América Latina é facilmente constatado em todos os países que questionam, ainda que minimamente, a abordagem econômica neoliberal. A própria Judith Brito, na época, presidente da Associação Nacional de Jornais, admitiu.

Saindo do país vizinho, entrando em nossas fronteiras, o assunto reeleição, projeto político e mídia está ainda mais quente. Ignacio Ramonet, em seu publicação intitulada Brasil, futebol e protestos, considerou que nas próximas eleições presidenciais brasileiras está em jogo não só o futuro do país, mas de todo o continente abaixo dos Estados Unidos. A atual conjuntura dá sinais de que somente por aqui há correlação de forças no sentido da construção de um regime mais inclusivo e participativo.

Wallerstein, no ano passado, já apontava, em seu artigo Capitalismo, austeridade e saídas, que vivemos um período de bifurcação, o qual resultará num regime mais autoritário, pra garantir a opulência do 1%, ou, no sentido inverso, atingiremos algo mais democrático e igualitário. Pontuou ele que a instabilidade que o capitalismo financeiro desregulado produz nos força a uma transição.

Soma-se a essa visão o livro Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, que já entrou pra história, ao demonstrar, com estatísticas exaustivas, que o capitalismo é um regime oposto a democracia, pois paga melhor a riqueza que o trabalho, construindo então uma oligarquia.

A imprensa-empresa lançou seu time de articulistas, que, de forma afobada têm tentado reduzir os danos dessas revelações. Porém, a histeria e insegurança que demonstram perante Piketty diz mais do que as críticas que dirigem a ele.

Em concomitante, assistimos aqui e ali declarações de mea-culpa de algumas lideranças do capital. O Valor Econômico do dia 27 do mês passado publicou artigo de Paul Polman, CEO da Unilever, e Lynn Forester de Rothschild, CEO do E.L Rothschild no qual eles diagnosticam que a exclusão social massiva ameaça a ordem social, e, de forma intrigante, assumem que somente “uma ação conjunta de empresas e outras instituições” é capaz de construir uma alternativa a nosso modelo em crise.

Mas o que importa nesse ponto é o próximo passo a ser dado. Se diante da bifurcação continuarmos seguindo receitas excludentes, o resultado será o fortalecimento do autoritarismo e a consolidação da plutocracia, extinguindo o que ainda nos resta de democrático. Se, por outro lado, encamparmos a construção coletiva de um arranjo mais inclusivo e participativo, temos uma boa perspectiva.

Aécio Neves processa e MP abre temporada de caça a internautas no Rio

O patrimônio pessoal de Aécio na mira dos parlamentares mineiros

Via Correio do Brasil

A ação movida contra supostos autores de críticas ao candidato tucano à Presidência da República, Aécio Neves, tem gerado uma verdadeira caça às bruxas contra blogueiros e ativistas digitais, com cenas que lembram os piores anos da ditadura militar no país. Casas reviradas, como no caso da jornalista Rebeca Mafra, gente perseguida e até um departamento inteiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) invadido por policiais armados.

A professora Monica Grin Monteiro de Barros, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ é uma dos cinco acusados pelo senador Aécio Neves de difamá-lo na internet. Por esta razão, a pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro, o juiz de 1ª Instância Alberto Fraga, no último dia 9, mandou que se realizasse a busca e apreensão a repartição federal, na UFRJ.

Segundo relato da professora Maria Paula Araújo, colega de Monica de Barros, no comentário feito em uma rede social, considerou a situação “absurda” e um indício de que o senador “não tolera a liberdade de expressão”. Segundo Paula Araújo, “oficiais de justiça entraram no IFCS para notificar a coordenadora do programa de Pós-graduação em História Social (PPGHIS) por crime de difamação contra o Sr. Aécio Neves”.

“Explico o absurdo da situação: a rede de internet do prédio do IFCS é um tanto precária, então, a coordenadora do PPGHIS contratou a (operadora) GVT como rede de internet, para garantir que, no segundo andar do prédio, professores e alunos tenham sempre internet. Quando a rede da UFRJ falha, pode-se recorrer à GVT. Mas, evidentemente, a coordenadora NÃO controla tudo o que os professores, alunos e funcioários postam na rede! Alguns alunos falaram mal do Aécio (Neves), que entrou na Justiça contra todo mundo que postou opiniões contra ele. E, no caso do IFCS, a coordenadora que fez o contrato com a GVT está sendo acusada de difamação! Quero me solidarizar com a coordenadora do PPGHIS e repudiar a atitude autoritária do senador Aécio Neves, candidato à Presidência da República, que não tolera a liberdade de expressão”, afirma a professora.

Da mesma maneira que a jornalista Rebeca Mafra nega qualquer envolvimento com o mídia-ativismo ou que tenha feito críticas ao presidenciável tucano, a coordenadora do IFCS também se isenta no caso. Segundo a assessoria do PSDB, Neves não pediu que fosse realizada a busca e apreensão, alegando ignorância dos trâmites legais demandados pela promotoria, que se baseia nos termos dos artigos 240 e 245 do Código de Processo Penal, entre outros, para devassar a vida dos suspeitos.

Os neonazistas da Ucrânia aumentam dramaticamente as provocações

Via The Vineyard of The Saker, tradução Vila Vudu

Agora, vocês provavelmente já ouviram: o presidente da Gazprom, Alexei Miller, já anunciou[1] que a Rússia está trabalhando em regime de “pagamento no pedido” para venda de gás para a Ucrânia; e Lavrov anunciou[2] que “não tem o que conversar” com o palhaço Ukie[3] atualmente no papel de Ministro de Relações Exteriores, Andrii Deshchytsia, e que “não se encontrará com ele.”

Diferente do sempre calmo e impecavelmente diplomático Lavrov, Miller não fez esforço algum para disfarçar desgosto e desprezo pela junta em Kiev que, para ele, não passa de bando de chantagistas e assaltantes. Foi particularmente visível, quando disse que a quantidade de gás que os Ukies têm como ‘reservas’ é exatamente igual à quantidade de gás pelo qual se recusam a pagar.

Em português bem claro: os Ukies roubaram gás da Rússia para encher suas reservas e agora vão começar a roubar gás comprado pelos europeus. Gente fina. Muito “euro-compatíveis”…

Minha primeira reação foi de júbilo, porque Lavrov e Miller afinal manifestaram desagrado e trataram o líder da junta com o desprezo que ele merece. Mas, na sequência, ocorreu-me pensamento muito desagradável: não seria exatamente o que os Ukies desejavam?

Como já escrevi um milhão de vezes – a junta em Kiev está condenada; o Banderastão não é viável; a Ucrânia está em ruínas e terminalmente falida, e ninguém no ocidente pode mudar isso. E aposto que os Ukies também sabem disso. É por isso que, do ponto de vista deles, é vital envolverem os russos, porque a Rússia é o ÚNICO bode expiatório possível sobre o qual podem jogar todas as culpas.

E, agora, a Rússia “cortou o gás”, e o ministro de Relações Exteriores da Rússia anunciou que “não vai se reunir” com seu “contraparte ucraniano”. Sabem como a máquina de propaganda Ukie apresentará tudo isso? É. Etc. etc. etc. A imprensa-empresa repetirá tudo, tão sempre igual que já nem tem graça.

Mas há algo que me preocupa mais que isso: a tática dos Ukie é tática sólida. Por quê?

Pensem bem. Se um lado está realmente desesperado para provocar o outro lado, quais as chances de que ele fracasse? Se eu e você nos encontramos e eu me dedico integral e completamente, com toda minha energia e minha criatividade, ao único objetivo de atrair sua atenção e forçar você a responder, quanto tempo você imagina que será necessário, para eu alcançar o meu objetivo?

O mesmo se aplica aqui. A única coisa que interessa aos Ukies é escalar e escalar e escalar cada vez mais, e, dado que não interessa o que façam, as Psakis do ocidente sempre higienizarão qualquer imundície, aprovarão e até elogiarão, não há limite para o que a junta neonazista pode fazer. Reproduzo aqui um pequeno trecho do que “Juan” escreveu-me hoje:

Kramatorsk como já escrevi está sendo literalmente demolida, a cidade inteira está sendo bombardeada intensamente, com Grad e Hurricane MLRS. Tudo: áreas industriais, shopping-centers, infraestrutura, áreas residenciais, tudo está sendo demolido à bomba. Serão centenas, se não mil, ou mais, civis mortos. É a atrocidade necessária para trazer os russos? Não sei. Ainda não.

Duas cidades europeias estão sendo convertidas em novas Oradour-sur-Glane,[4] e ninguém no ocidente faz caso.

Alemanha e França aprovam leis que proíbem a pesquisa histórica honesta sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial, e ao mesmo tempo não apenas negam, mas, sim, apoiam e promovem novas atrocidades nazistas, num país que, dizem eles, é parte da Europa. Até que ponto essa loucura ainda chegará?!

Está melhorando. Todos – e significa todos-mesmo – sabiam perfeitamente que os Ukies, mais cedo ou mais tarde, começariam a roubar gás europeu. Era portanto bem evidente que a solução certa seria ter um gasoduto Ramo Norte e um gasoduto Ramo Sul que contornasse o Banderastão, para garantir que gás EUROPEU (é gás europeu, porque foi pago pelos europeus, que o compraram!) chegasse ao comprador. Mas, não! A União Europeia critica a Bulgária, McCain faz uma viagenzinha a Sofia e, voilà, os búlgaros suspendem a construção do Ramo Sul, suspensão que, é claro, só prejudicará a União Europeia (não a Rússia nem os EUA).

Assim sendo, resumamos o que temos:

A junta neonazista em Kiev não pode sobreviver e sabe disso;

Tio Sam está desesperado para empurrar a Rússia para uma intervenção militar; e

A União Europeia é o que, nas prisões norte-americanas, se chama delicadamente de “Mariazinha”.

Assim sendo, quais as reais chances de os russos não se deixarem provocar nesse contexto? Na minha avaliação: essas chances são bem perto de zero.

O que Lavrov e Miller fizeram hoje ou, melhor dizendo, foram forçados a fazer hoje, é só um primeiro passo. Na essência, ainda que Miller e Lavrov tenham feito a coisa certa, apenas deram aos Ukies exatamente o que os Ukies queriam. E isso é assustador. Porque esse ‘sucesso’ alimentará a fúria dos Ukies e virão novas tentativas para forçar a Rússia a reagir. O que mais acontecerá?

Como escrevi ontem, “Não descarto que ataquem com bombas ou, até, com mísseis, digamos, um jardim de infância na Crimeia ou até em Belgorod. Podem também sequestrar o office-boy de uma empresa russa que ainda esteja operando em Kiev ou, em ato de extremo heroísmo, podem massacrar um miniônibus com uma tripulação da Aeroflot a caminho do aeroporto.” Podem também atacar um posto russo de fronteira, bombardear um barco russo no Mar Negro, ou, até, explodir uma igreja do Patriarcado de Moscou. Ok. E então? A Rússia persistirá nos protestos verbais?

Não estou inventando nada. Houve pelo menos um caso, de um Su-25 ucraniano que penetrou espaço aéreo russo para atacar um posto de fronteira controlado pelas Forças de Defesa de Novorossyiia. Os russos poderiam *facilmente* derrubar o Su-25 (têm a tecnologia necessária para fechar grande parte de todo o espaço aéreo da Novorossyiia, sem nem precisar mover uma única bateria de mísseis ou radar através da fronteira). Mas decidem não fazê-lo, simplesmente porque se o fizerem terão de provar que o invasor estava em espaço aéreo russo; mas muito antes que possam prová-lo, a versão Ukie (covarde agressão russa, é claro) já estará na primeira página de todos os veículos de todas as empresas-imprensa do mundo.

Lembram-se de o quanto demorou até que o ocidente afinal, e muito relutantemente, admitisse que “sim, está bem: foi o lado da Geórgia que atacou primeiro”? E quantos, até hoje, sequer ouviram falar dessa admissão de culpa?

Tenho total certeza de que o pessoal no Kremlin sabe perfeita e totalmente disso tudo e, a julgar por o que o Kremlin anda dizendo, a decisão já foi tomada em Moscou: esperar o máximo possível, para obter justificação para a intervenção russa (inevitável), e que seja a mais absolutamente clara possível. Entendam, por favor, que a Rússia não precisa organizar qualquer movimento específico de preparação para intervir na Novorossia. Toda as bobagens que a OTAN repete, sobre movimento de tropas russas e concentração de soldados ao longo da fronteira é só propaganda dirigida aos civis.

Fato é que Putin pode ordenar e, em 30 minutos, todo o espaço aéreo do Donbass estará protegido por uma zona aérea de exclusão; nos 60 minutos seguintes praticamente todas as posições de artilharia ucraniana e postos de comando estarão destruídos por mísseis, depois do que as Forças de Defesa da Novorossia (NDF) (apoiadas por mais alguns voluntários) serão basicamente suficientes para assumir total controle no Donbass. Quanto aos esquadrões-da-morte dos Ukie, terão de escafeder-se o mais depressa que consigam. O único problema é acertar o momento certo.

O Kremlin espera ansiosamente por qualquer sinal de que os europeus estejam começando a perceber o mostro que libertaram na Ucrânia. Pessoalmente, não acredito que os europeus criarão, de repente, consciência ou espinha dorsal, e tomarão conhecimento da operação de assassinato em massa que está em andamento na Novorossia. Continuo com a opinião de que a intervenção russa é inevitável.

Enquanto isso, as provocações continuarão. Acabo de ver um vídeo de dois jornalistas do canal russo de TV Zvezda News, que foram sequestrados por um esquadrão-da-morte ucraniano, em troca dos quais os Ukies estão pedindo resgate de $200 mil. Não há muitos detalhes; os dois foram terrivelmente espancados, um tinha um inchaço sob o olho, o outro estava surdo do ouvido esquerdo. Também há notícias de uma tentativa de explodir o consulado russo em Odessa, mas foi evitada (pela polícia local?) e a coisa terminou em pancadaria. E, claro, nesse momento continuam a chover bombas e foguetes sobre Kramatorsk e Slaviansk – os terroristas continuam em plena atividade.

Os Ukies ‘vencerão’, no sentido de que conseguirão disparar uma intervenção russa, que eles farão o possível para converter em guerra. Se conseguirem, será guerra curta, mas o dano político será imenso. Por tudo isso, suponho que o argumento definitivo para que Putin espere o mais que possa é obter a máxima porcentagem possível de indignados na população russa, antes de se mover, de forma que se veja que não foi “decisão de Putin”, mas “exigência do povo russo”.

Assim sendo, concordo plenamente com “Juan”: ainda vai piorar muito, antes de começar a melhorar, e muita gente vai morrer. Mas no final a Rússia – e nós todos – venceremos. Disso, não há dúvida alguma.

The Saker

Referências:

[1] 16/6/2014, BBC, http://www.bbc.com/news/world-europe-27862849

[2] http://en.itar-tass.com/russia/736278

[3] http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2014/06/kindergarten-nuthouse-zoo-you-pick.html

[4] Oradour-sur-Glane (Occitano: Orador de Glana) é uma comuna no departamento de Haute-Vienne, na região de Limousin no centro oeste da França. A população da cidade foi morta dia 10/6/1944, todos, inclusive mulheres e crianças, por uma companhia da Waffen-SS alemã. Uma nova cidade foi construída depois da guerra em área próxima, por ordem do então presidente da França, Charles de Gaulle; as ruínas da cidade original foram preservadas como museu e memória da guerra. (Em http://en.wikipedia.org/wiki/Oradour-sur-Glane) [NTs].

Governo golpista da Ucrânia mata 8 civis após bombardear a cidade de Lugansk

A cidade de Lugansk, um dos pólos separatistas da Ucrânia, foi bombardeada pelo governo de Kiev, que assumiu controle do país após um golpe de Estado, apoiado pela União Europeia e os Estados Unidos. O ataque, realizado no último dia 2, teve como alvo um prédio público da administração da cidade e resultou em 8 mortos segundo a agência RT.

Em encontro na Bolívia, países emergentes pedem reforma da estrutura financeira mundial

Via Opera Mundi

Cúpula foi convocada para celebrar sua primeira reunião há 50 anos. Agência Efe/Reprodução

Durante encontro do G-77, países criticaram economia “orientada ao lucro” e apoiaram Cuba contra o bloqueio econômico mantido pelos EUA

A Cúpula do G-77 mais China, realizada em Santa Cruz de la Sierra, reativou o organismo internacional após meio século de sua fundação. Trata-se de um “relançamento para que siga trabalhando com políticas de complementaridade e solidariedade”, disse o presidente boliviano e anfitrião da reunião, Evo Morales. A erradicação da pobreza, a luta contra a desigualdade, as críticas a uma economia “orientada ao lucro” e o “direito universal aos serviços básicos” deram a tônica do encontro liderado por presidentes, primeiros-ministros e altos funcionários que representam 60% da população mundial.

O grupo aprovou, em sua declaração final de 242 pontos, que a defesa da soberania das nações sobre seus recursos naturais, a importância de tornar mais leve o peso da dívida externa e a necessidade de um maior compromisso internacional perante os efeitos da mudança climática são prioridades para os Estados em desenvolvimento. O encontro de dois dias foi concluído neste domingo (15/06).

Entre os latino-americanos, além do presidente anfitrião, Evo Morales, estiveram presentes os mandatários da Venezuela, Nicolás Maduro; de Cuba, Raúl Castro; da Argentina, Cristina Kirchner; de Equador, Rafael Correa; do Peru, Ollanta Humala; de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén; do Uruguai, José Mujica; e do Paraguai, Horacio Cartes.

“O neoliberalismo gerou uma crise econômica global que empurrou milhões de pessoas para a pobreza extrema. É hora de caminhar em outro sentido para construir uma ordem social mais justa”, declarou o presidente cubano, Raúl Castro em seu discurso no evento.

Outro mundo

Evo defendeu, em sua fala, nove tarefas para “construir a irmandade planetária dos povos”. Entre os princípios aprovados pelo documento estão a erradicação da pobreza, a promoção da multipolaridade, a descolonização, a integração e a cooperação sul-sul. No âmbito financeiro, os participantes defenderam a soberania dos Estados e povos sobre os recursos naturais e exortaram a realização de uma reforma da atual estrutura financeira mundial.

O texto final convoca o respeito à “independência dos Estados, a soberania nacional, a integridade territorial e a não ingerência em assuntos internos dos Estados”.

Os participantes do G-77 também condenaram a “continuação da ocupação militar israelense no território palestino” e reafirmaram os direitos do povo palestino à autodeterminação, à independência e à disposição sobre os recursos naturais, incluindo a terra, a água e os recursos energéticos. Os emergentes também condenaram e pediram o fim do bloqueio econômico e comercial que os Estados Unidos mantêm contra Cuba.

Na mesma linha, a presidente argentina, Cristina Fernández, afirmou que o “anarco capitalismo” é responsável pela “unilateralidade dos organismos internacionais hegemômicos”. Os países presentes apoiaram a demanda da Argentina pelo restabelecimento da soberania sobre as ilhas Malvinas, hoje sob domínio da Grã Bretanha.

Entre as propostas apresentadas por Evo estão a criação de um “Instituto para a descolonização”. Agência Efe/Reprodução

Em sua exposição, o mandatário uruguaio, José Pepe Mujica, ressaltou que é necessário instaurar uma “mudança cultural”: “não é fácil mudar as relações de propriedade como as culturais, (mas) é preciso fazê-lo, porque se não há mudança cultural, não há nada”.

Outros temas

Também foram tratadas questões como meio ambiente, o combate à pobreza e Direitos Humanos. Como a reunião não abordou o controle dos recursos naturais e a industrialização, será realizado um novo encontro, com os ministros de mineração e hidrocarbonetos em agosto na cidade boliviana de Tarija.

O grupo também decidiu que uma nova reunião será realizada com a coordenação da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, e organismos econômicos de América Latina e Caribe, África, Ásia e Pacífico e Ásia Ocidental.

Por que a direita anda mais raivosa do que nunca?

Por Antonio Lassance*, via Carta Maior

Vitor Teixeira/Reprodução

Os barões das grandes corporações midiáticas perceberam que, para haver uma oposição de direita forte, é preciso uma ampla opinião pública direitista

Faz tempo que as campanhas eleitorais são espetáculos dantescos, movidos por baixarias sem limites. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral fica muitas vezes cuidando da perfumaria, os dinossauros reinam.

Mas há algo de novo nesta campanha.

A começar do fato de que boa parte da perversidade de campanha seguia, antes, o seguinte roteiro: denúncias na imprensa, primeiro em jornais e revistas, que depois se propagavam na tevê e no rádio e, finalmente, ganhavam a rua pela ação dos cabos eleitorais.

Agora, o roteiro é: denúncias pela imprensa, mas divulgadas primeiro via internet; propagação pelas redes sociais; repetição pela tevê e pelo rádio e, por último, sua consolidação pelo colunismo e editorialismo da imprensa tradicional.

Embora essa imprensa ainda seja, normalmente, a dona da informação, seu impacto é cada vez menos medido pela audiência do próprio meio – que anda em declínio em praticamente todos os veículos tradicionais – e mais pela sua capacidade de propagação pela internet – blogs, redes sociais e canais de vídeo, principalmente pelo Youtube. E a versão que se propaga da notícia acaba sendo tão ou mais importante do que a notícia em si.

Antes, as pesquisas de opinião calibravam os rumos das campanhas. Nesta eleição, a internet é quem tende a ditar o ritmo. As pesquisas vão servir para aferir, tardiamente, o impacto de alguns assuntos que ganharam peso na guerrilha virtual.

Antes, o trabalho de amaldiçoar pra valer os adversários políticos era feito pelos cabos eleitorais que batiam de porta em porta. Agora, os cabos eleitorais que caçam votos perambulam pelos portais de internet, pelos canais de vídeo e entram nos endereços dos eleitores pelas redes sociais.

Uma outra diferença, talvez tão decisiva quanto essa, é que a direita resolveu aparecer. Antes, o discurso da direita era de que não existia mais esse negócio de “direita x esquerda”.

A direita, finalmente, saiu do armário e anda mais raivosa do que nunca. Em parte, a raiva vem do medo de que, talvez, ela tenha perdido o jeito de ganhar eleições e de influenciar os partidos.

Por outro lado, a direita imagina que a atual campanha petista está mais vulnerável que em outras épocas. A raiva é explicada, nesse aspecto, pelo espírito de “é agora ou nunca”.

Os bombardeios midiáticos raivosos têm assumido feições mais pronunciadamente ideológicas.

Ao contrário de outras eleições, os ataques têm não só mentiras, xingamentos e destemperos verbais de todos os tipos. Têm uma cara de pensamento de direita.

Querem não apenas desbancar adversários. Querem demarcar um campo.

Não é só raiva contra um partido. É ódio de classe contra tudo e contra todos os que se beneficiam (e nem tanto quanto deveriam) de algumas das políticas governamentais.

É ódio contra sindicatos de trabalhadores, organizações comunitárias, movimentos de excluídos (Sem Terra, Sem Teto), grupos em defesa de minorias e de direitos humanos que priorizam a crítica a privilégios sociais e aos desníveis socioeconômicos mais profundos.

A mídia direitista tem desempenhado um papel central. Sua principal missão é orientar os ataques para que eles tenham consequência política e ideológica no seio da sociedade brasileira.

Como sempre, a mídia é diretamente responsável por articular atores dispersos e colocá-los em evidência, conforme uma pauta predeterminada.

Embora seja uma característica recorrente, no Brasil, a mídia tradicional comportar-se como partido de oposição, nos últimos anos ela parece seguir uma nova estratégia.

Os barões das grandes corporações midiáticas brasileiras, com a ajuda de seus ideólogos, perceberam que, para haver uma oposição de direita forte, é preciso formar uma ampla opinião pública direitista.

Antes mesmo de cobrar que os partidos se comportem e assumam o viés de direita, é preciso haver uma base social que os obrigue a agir enquanto tal.

A mídia tradicional entendeu que os partidos oposicionistas são erráticos em seus programas e na sua linha política não por falta de conservadorismo de suas principais lideranças, mas pela ausência de apelo social em sua pregação.

Em função disso, coisas como o Instituto Millenium se tornaram de grande importância. O Millenium tem, entre seus mantenedores e parceiros, a Abert (controlada pelas organizações Globo) e os grupos Abril, RBS e Estadão. O instituto é também sustentado por outras grandes empresas, como a Gerdau, a Suzano e o Bank of America.

O Millenium tenta fazer o amálgama entre mídia, partidos e especialistas conservadores para gerar um programa direitista consistente, politicamente atraente e socialmente aderente.

O colunismo midiático, em todas as suas frentes, é outro espaço feito sob medida para juntar jornalistas, especialistas e lideranças partidárias dedicadas a reforçar alguns interesses contrariados por algumas políticas públicas criadas nos últimos 12 anos.

A estratégia midiática de reinvenção da direita brasileira representa, no fundo, uma tentativa desesperada e consciente dessa mesma mídia de reposicionar-se nas relações de poder, diante da ameaça de novos canais de comunicação e de novos atores que ganharam grande repercussão na opinião pública.

Com seu declínio econômico e o fim da aura de fonte primordial da informação, o veneno em seus anéis tornou-se talvez seu último trunfo no jogo político.

(*) Antonio Lassance é cientista político

 

Leonardo Boff: Uma democracia que se volta contra o povo

Por Leonardo Boff, em seu blog

Uma grita geral da mídia corporativa, de parlamentares da oposição e de analistas sociais ligados ao status quo de viés conservador se levantou furiosamente contra o decreto presidencial que institui a Política Nacional de Participação Social. O decreto não inova em nada nem introduz novos itens de participação social. Apenas procura ordenar os movimentos sociais existentes, alguns vindos dos anos 30 do século passado, mas que nos últimos anos se multiplicaram exponencialmente a ponto de Noam Chomsky e Vandana Shiva considerarem o Brasil o país no mundo com mais movimentos organizados e de todo tipo. O Decreto reconhece esta realidade e a estimula para que enriqueça o tipo de democracia representativa vigente com um elemento novo que é a democracia participativa. Esta não tem poder de decisão apenas de consulta, de informação, de troca e de sugestão para os problemas locais e nacionais.

Portanto, aqueles analistas que afirmam, ao arrepio do texto do Decreto, que a presença dos movimentos sociais tiram o poder de decisão do governo, do parlamento e do poder público laboram em erro ou acusam de má fé. E o fazem não sem razão. Estão acostumados a se mover dentro de um tipo de democracia de baixíssima intensidade, de costas para a sociedade e livre de qualquer controle social.

Valho-me das palavras de um sociólogo e pedagogo da Universidade de Brasília, Pedro Demo, que considero uma das mentes mais brilhantes e menos aproveitadas de nosso país. Em sua Introdução à sociologia (2002) diz enfaticamene: ”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Político (com raras exceções) é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniquados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333). Não faz uma caricatura de nossa democracia, mas uma descrição real daquilo que ela sempre foi em nossa história. Em grande parte possui o caráter de uma farsa. Hoje chegou, em alguns aspectos, a níveis de escárnio.

Mas ela pode ser melhorada e enriquecida com a energia acumulada pelos centenas de movimentos sociais e pela sociedade organizada que estão revitalizando as bases do país e que não aceitam mais esse tipo de Brasil. Por força da verdade, importa reconhecer, que, entre acertos e erros, ele ganhou outra configuração a partir do momento em que outro sujeito histórico, vindo da grande tribulação, chegou à Presidência da República. Agora esses atores sociais querem completar esta obra de magnitude histórica com mais participação. E eles têm direito a isso, pois a democracia é um modo de viver e de organizar a vida social sempre em aberto – democracia sem fim – no dizer do sociólogo português Boaventura de Souza Santos.

Quem conhece a vasta obra de Norberto Bobbio, um dos maiores teóricos da democracia no século XX, sabe das infindas discussões que cercam este tema, desde do tempo dos gregos que, por primeiro, a formularam. Mas deixando de lado este exitante debate, podemos afirmar que o ato de votar não é o ponto de chegada ou o ponto final da democracia como querem os liberais. É um patamar que permite outros níveis de realização do verdadeiro sentido de toda a política: realizar o bem comum através da vontade geral que se expressa por representantes eleitos e pela participação da sociedade organizada. Dito de outra forma: é criar as condições para o desenvolvimento integral das capacidades essenciais de todos os membros da sociedade.

Isso no pensar de Bobbio – simplificando uma complexa discussão – se viabiliza através da democracia formal e da democracia substancial. A formal se constitui por um conjunto de regras, comportamentos e procedimentos para chegar a decisões políticas por parte do governo e dos representantes eleitos. Como se depreende, estabelecem-se regras como alcançar a decisões políticas mas não define o que decidir. É aqui que entra a democracia substancial. Ela determina certos conjuntos de fins, principalmente o pressuposto de toda a democracia: a igualdade de todos perante a lei, a busca comum do bem comum, a justiça social, o combate aos privilégios e a todo tipo de corrupção e não em último lugar a preservação das bases ecológicas que sustentam a vida sobre a Terra e o futuro da civilização humana.

Os movimentos sociais e a sociedade organizada, devido à gravidade da situação global do sistema-vida e do sistema-Terra e na busca de um caminho melhor para o Brasil e para o mundo querem oferecer a sua ciência, as experiências feitas, seus inventos, suas formas próprias de produzir, distribuir e consumir, em fim, tudo aquilo que possa contribuir na invenção de outro tipo de Brasil no qual todos possam caber, a natureza inteira incluída.

Uma democracia que se nega a esta colaboração é uma democracia que se volta contra o povo e, no termo, contra a vida. Daí a importância de secundarmos o Decreto presidencial sobre a Política Nacional de Participação Social, tão irrefutavelmente explicada em entrevista na TV e em O Gl0bo (16 /6/2014) pelo Ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência Gilberto Carvalho.