A reação conservadora mostra a cara em São Paulo

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A escalada da repressão nas manifestações e a atuação da polícia em São Paulo tem muito a dizer. (Advogados Ativistas/Reprodução)

Por Rennan Martins

Desde o evento histórico que ficou conhecido como Jornadas de Junho no ano passado, o Movimento Passe Livre ganhou projeção no cenário nacional. Movimento este que se caracteriza por uma base de militância considerável e pauta clara, o que o difere da organicidade e suposta obscuridade de objetivos que imputaram as massas que tomaram as ruas em 2013.

A vitória obtida, a revogação do aumento em diversas cidades do país, contrariou as expectativas dos setores dominantes. As prefeituras em conluio com as empresas mafiosas de transporte público foram obrigadas a reajustar as contas a fim de fazer a vontade do povo. A grande mídia se viu perplexa, pois, tentou manobrar a pauta, mas suas intenções foram notadas e a manipulação só funcionou em pequena proporção.

A vontade da população de aprofundar a participação nos processos decisórios é gritante e a massificação da internet catalisa a organização dos cidadãos engajados. O regime representativo não está mais a altura da sociedade brasileira.

O sucesso do MPL e de outros movimentos sociais é acompanhado atentamente pelos interessados, e, como não poderia deixar de ser, a reação daqueles que visam a manutenção de privilégios também se manifesta.

No ano passado, após ato realizado em São Paulo no dia 25/10, foi aberto o inquérito policial 1/2013. Inquérito o qual pretendem aplicar, inclusive sob coerção, à 22 integrantes do movimento. Este não visa apurar delitos individuais, suas perguntas são de cunho político e nos remetem aos terríveis dias de autoritarismo que vivemos. Vejamos algumas das questões:

Já participou de outras manifestações?

Qual seu objetivo nessas manifestações?

Participou de outros eventos que resultaram em quebra-quebra?

Como estava trajado no dia da manifestação?

Você tem perfil no Facebook ou outro meio similar de comunicação disponível na internet, redes sociais ou e-mail? Você é um Black Bloc? Por quais motivos?

Qual o objetivo e propósito dessas pessoas (Black Blocs)?

Como funcionam as manifestações?

Existe algum partido político envolvido ou que custeia o movimento?

Você é filiado a algum partido? Qual?

Existe algum lugar onde os senhores se concentram para deliberar sobre as ações do grupo?

Conhece as pessoas citadas na reportagem da revista Época de 11/11/2013?

Recebeu algum treinamento para confronto com policiais?

Soma-se a essa investida 57 ordens de busca e apreensão que vasculharão a vida destes militantes.

A criminalização de ativistas não atinge somente o MPL, está descarada em São Paulo. Na segunda-feira, Rafael Marques Lusvarghi, 29 anos, professor de inglês e Fabio Hideki Harano, 26 anos, universitário, foram presos por policiais a paisana, sem identificação e acusados por “associação criminosa”. O secretário estadual de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, alega que eles são os temidos “black blocs”, mesmo sem nem sabermos ao certo do que se trata esse termo. O padre Júlio Lancellotti, presente no acontecimento, afirma que o flagrante foi forjado e a prisão arbitrária. Disponível nas redes está, inclusive, os vídeos das detenções.

Ontem realizou-se mais uma manifestação na Avenida Paulista intitulada “Libertem nossos presos políticos!”, em favor dos citados Rafael Marques e Fabio Hideki. O grupo permaneceu grande parte do tempo cercado pela polícia, impedido de se movimentar em qualquer direção. O contingente repressivo muito provavelmente era maior que o de manifestantes.

A quebra de vidraças e patrimônio, sempre dramatizada e escandalizadora pra velha mídia, é tachada de violenta, a despeito de não causar prejuízo humano algum. Enquanto isso, essas mesmas corporações de comunicação se calam diante da brutalidade e das sistemáticas violações de direitos praticadas pela polícia, principalmente nas periferias.

Estes acontecimentos evidenciam os limites da democracia liberal. Os direitos de um cidadão são garantidos até o ponto em que suas posições não conflitam em demasiado o status quo, ultrapassando essa linha vermelha, a resposta é arbitrária e autocrática.

As forças conservadoras estão em plena ação no sentido de garantir suas posições e não hesitam se pra isso é necessário recorrer ao aparelhamento do Estado, ao autoritarismo e a violação das leis.

Cabem as forças progressistas responsáveis pela democratização iniciada em 88 e ainda não concluída resistir e responder à altura, a fim de que alcancemos democracia plena e profunda.

 

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