
Portal Vermelho/Reprodução
Edição por Rennan Martins
No último dia 15, o renomado jornalista Mauro Santayana, publicou artigo intitulado “Um tiro no pé”, no qual noticia a suspensão das obras do gasoduto proveniente da Rússia, que passaria pela Bulgária, o que constituiria uma alternativa de fornecimento do gás russo à Europa, no caso da instabilidade ucraniana impedir esta transação.
A paralisação se deu após uma comissão norte-americana, liderada pelo senador John Mccain, visitar Budapeste. É sintomático o acontecimento, tendo em vista que a Europa abre mão da garantia de fornecimento do gás que alimenta suas indústrias, casas e comércio, e se sujeita a posição dos EUA, sem ao menos ter uma alternativa palpável de outra fonte do recurso.
Nesse ínterim é relevante acrescentar que a Rússia anunciou que a venda de gás a Kiev está condicionada a pagamento prévio. Um dos blogs de mais destaque na cobertura da crise na Ucrânia, o The Vineyard of the Saker, considera que a junta golpista passará a roubar o gás comprado pela Europa, que necessariamente passa por eles. União Europeia e Estados Unidos alimentaram esta aberração, agora também sofrem com seus efeitos.
A escalada do conflito se dá incessantemente e o risco de guerra aberta se torna cada vez mais iminente. As hostilidades praticadas por Kiev, apadrinhadas pelas potências ocidentais, tornam a intervenção militar russa na região questão de tempo para alguns analistas.
Considerando que o que está ocorrendo na Ucrânia é somente parte menor de um plano de contenção de potências por parte dos EUA, nossos colaboradores Ceci Juruá, doutora em políticas públicas, Paulo Timm, economista, Carlos Ferreira, engenheiro e Adriano Benayon, doutor em economia debateram o cenário internacional da atualidade a luz de fatos históricos. Nas colocações a impressão de que essa escalada na tensão resultará numa grande guerra chama a atenção.
Confira:
Ceci Juruá – Não seria a primeira vez em que os capitalistas das potências centrais caminham cegamente em direção a uma política suicida, mas esperemos que não conduzam a uma guerra, como já o fizeram em outras ocasiões similares.
Paulo Timm – Pessoalmente, acho que dificilmente escaparemos a uma nova Grande Guerra. Todos os antecedentes, similares a I e II Guerras estão presentes: Crise da Economia, Crise do Centro Hegemônico, disputas acentuadas por áreas de influência e território. Uma grande guerra jamais começa, também, grande. Ela se inicia, deflagrada até por um incidente marginal como o famoso atentado em Sarajevo, e vai aglutinando forças em conflito. Vejo um potencial bélico muito grande entre USA x RUSSIA e, lamentavelmente, não encontro aí mais do que interesses nacionais. Sou de uma Era da internacional comunista em que reverenciávamos o internacionalismo proletário como defesa intransigente da urss, acima, até, do nacionalismo. E confiávamos, cegamente, que lá naquela luz do Kremlin, que jamais cessava de brilhar uma luz, um grande líder velava pelo destino da classe trabalhadora do mundo inteiro. Hoje sinto que isso foi um erro. Levou a muitos erros de interpretação dos comunistas, principalmente no Brasil, em 1935, depois em 1954, vésperas da morte de Vargas. Lembremo-nos que os jornais ditos comunistas não foram poupados pela ira popular no 24 de agosto fatídico. Hoje, honestamente, mesmo sem ser entusiasta do Governo PT e da Dilma, acho que eles estão à esquerda de Putin.
Mas é aquela velha história: Se eu errei antes e mesmo agora erro às vezes, posso estar enganado quanto ao caráter político da Russia atual.
Ceci Juruá – Creio que agora apoiamos Putin não mais como sobrevivente da União Soviética, mas porque ele está em defesa da paz, e não por ideologia, mas por necessidade.
Carlos Ferreira – A Primeira Guerra Mundial, foi tenazmente fomentada com o intuito da Inglaterra de bloquear o crescimento da Alemanha como potência mundial, principalmente em atendimento a doutrina inglesa de não permitir o surgimento de nenhuma Marinha de Guerra que pudesse ameaçar o poderio da marinha real britânica. Por conseguinte, a hegemonia da Inglaterra no domínio dos mares, base então de seu secular poder mundial. Justamente contra isto, a Alemanha vinha implementado um formidável programa de construção naval, provendo a marinha imperial alemã de meios navais modernos, capazes e poderosos. Soma-se a isto o desejo da França de recuperar os territórios perdidos na Guerra com a Prússia, na qual foi derrotada, bem como o desejo pueril do Tzar de dominar o estreito de Bósforos.
Utilizando os tratados de ajuda militar mútua, ficou fácil tecer e viabilizar o incidente de Sarajevo, conduzindo aquela carnificina que foi a Primeira Guerra Mundial. Ressalta-se que a Alemanha tudo vez para evitar a guerra, mas em vão contra a intransigência inglesa que prevaleceu.
Realmente, como já escrevi, vejo o momento atual como uma situação análoga aquela de 1913/1914, isto é, a manutenção de hegemonias e no momento presente, praticada pelos EUA, que aplica a ferro & fogo a sua doutrina de poder (Zbigniew/Wolfowitz). Tudo, mas tudo mesmo será feito para impedir o surgimento de uma potência ou potências, que possam rivalizar militarmente com os EUA. Neste contexto, a Rússia é a “bola da vez”, após a qual será tratada a China, que por sinal também já sofre forte processo de contenção.
Deve-se observar também os processos de desestabilização dos BRICS, que serão intensificados se na reunião programada para o próximo mês em Fortaleza, ocorrer a criação de bancos próprios e a heresia máxima, utilização de moedas nacionais nas transações entre membros.
Já há uma “Guerra Morna”, com forte possibilidade de escalar e se tornar incontrolável. A Rússia está sendo levada a um ponto insustentável de pressão política/midiática/econômica/militar. Não há como prever até onde Putin terá condições de aguentar, sem reagir militarmente e levar a guerra, que é o grande objetivo a ser alcançado.
Adriano Benayon – Não me pauto por ideologia, por considerações como se alguém está à esquerda, se é marxista, se não é etc. Claro que PT, Lula e Dilma não são esquerda.
São incaracterísticos demais do ponto de vista da filosofia política (nem tem estofo cultural para isso; e claro que tampouco o têm os vendilhões do PSDB, PMDB e de n outras siglas; aliás, ao contrário de vocês, penso que FHC não merece respeito algum, não apenas por sua carreira política caracterizada pela corrupção entreguista, mas também do ponto de vista intelectual, como demonstrei em alguns tópicos de meu livro).
Por outro lado, parece-me incontestável a superioridade de Putin em relação a esses elementos amorfos e cuja maior preocupação em suas vidas são suas próprias carreiras políticas.
Nem me parece válido sequer comparar um líder de potência que vem contribuindo para algum equilíbrio na balança de poder mundial, inclusive através de entendimentos com outras potências na direção do Oriente, com figuras que objetivamente, fazem a alegria dos banqueiros com os juros mais altos do mundo, cumulam de benefícios e subsídios os grandes concentradores, as montadoras de veículos e outras transnacionais, liberam os letais transgênicos e agrotóxicos, satisfazem o agronegócio e agravam a inserção do Brasil em posição subalterna na divisão internacional do trabalho. Além disso, são tão fracos que subsidiam também e às centenas de bilhões de reais a mídia que os vilipendia.
Se isso é ser esquerda, quero distância da esquerda. Já Putin renacionaliza empresas importantes, defende os interesses nacionais, impede que as ONGs usem a Rússia como casa da sogra, como fazem no Brasil. Se isso é ser direita, então nada contra a direita.
Quanto aos comunistas, reconheçamos e não condenemos demais os erros que cometeram no Brasil. Em momentos importantes, foram enganados pelos serviços secretos britânicos, por exemplo. Se hoje forem capazes de se juntar aos que querem defender o Brasil, cuja própria integridade está em dificuldades, sejam bem-vindos. Que os anticomunistas, também iludidos pelos serviços secretos angloamericanos não continuem a ver nos comunistas a fonte de todos os males e que aprendam as lições: foram usados pelo império e jogados fora como laranja chupada. Os empresários que temiam ser expropriados pelos comunistas, o foram pelas transnacionais.
