Edição por Rennan Martins

Ceci Juruá – As minhas são palavras de solidariedade a Dilma. A vaia pouco me importa, faz parte da vida pública e sobretudo da política. É justo, é lícito, vaiar.
O problema foi o palavreado, a ofensa gratuita, em grito que parecia ser o do ódio contido durante muito tempo. Para mim, as expressões truculentas usadas refletem o inconsciente coletivo de membros da oligarquia endinheirada, de homens animados pela cultura do senhor de escravos, para quem a mulher deve ser submissa, uma escrava sexual, objeto para servir aos desejos mais mesquinhos e animalescos. Dilma é o oposto disso, sua antítese. Sua vida simboliza a luta revolucionária da mulher brasileira, o feminismo ao estilo europeu, que busca a emancipação do sexo sem se colocar contra o homem, vendo nele um companheiro diferente que a respeita e a trata em pé de igualdade. É por isto, mais do que por razões políticas, no meu entendimento, que a elite endinheirada detesta nossa presidente, ela é uma mulher digna e que não se corrompe nem baixa a cabeça, mesmo diante dos poderosos como provou há pouco tempo quando assumiu a defesa da soberania nacional perante as escutas ilícitas de agentes do Império. Como falou Galeano há pouco tempo “os homens têm medo da mulher que não tem medo”. E Dilma é uma dessas mulheres, exemplo da dignidade feminina no Brasil. Por isto eles a odeiam e extravasaram seu sentimento naquele grito truculento, em flagrante desrespeito a um símbolo da Pátria.
Mas aquela elite endinheirada não representa a totalidade da elite brasileira. Na direita e na esquerda do espectro político, temos homens de bem em todas as classes sociais. Mesmo quando membros da elite, sobretudo na elite intelectual, cultural e artística. Aquela voz que se ergueu no estádio, foi a voz dos coronéis, assassinos de índios e negros, estupradores das mulheres não brancas. Não suportam a mulher emancipada, soberana, digna.
Adriano Benayon – Considero muito boa sua ideia de assinalar que Dilma deveria deixar de privilegiar os que a insultam.
Mais ainda: embora não saiba que percentual das 62 mil pessoas participou do coro indecente, a amplitude dele, que parece ser indubitável, corrobora a certeza de que a sociedade brasileira, para se recuperar, precisa de uma revolução que não seja de brincadeira, uma revolução inclusive cultural, para educar, se não todos que estão precisando ser educados, pelo menos a maioria dos que estão nesse caso, inclusive aplicando, no dia a dia, duras regras e lições de que estão carecendo os indivíduos que se portaram de modo tão vergonhoso no estádio.
Minhas palavras não decorrem de solidariedade a Dilma nem a Lula, porque esses têm feito muito mal ao País – embora provavelmente não tão grande como o de seus antecessores. Elas procedem, inclusive, da certeza de que Dilma foi desrespeitada, não por causa dos danos que têm causado ao País, mas por algumas coisas que fez de tolerável.
Além disso, não foi só Dilma a desrespeitada, mas todos os brasileiros decentes e o próprio País.
De qualquer forma, o nível de educação escancarado pelos manifestantes deixa claro que não são esses os que deveriam protestar. De resto, deveriam protestar contra o sistema de poder e o regime de falsa democracia que este usa para saquear os brasileiros, e não apenas contra o atual e acuado ocupante do Palácio do Planalto.
Ceci Juruá, economista, doutora em políticas públicas, membro do Conselho Consultivo da CNTU
Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento
