Brasil na Copa, um país bipolar

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Por Mário Augusto Jakobskind, via Correio do Brasil

Quem acompanhou o noticiário da mídia conservadora hegemônica, sobretudo nos últimos tempos, pôde observar que de um modo geral os editores deram maior ênfase a fatos que colocavam em questão a própria Copa.

O Estado de S. Paulo chegou a publicar entrevista com uns 16 supostos Black blocs que manifestavam o desejo de transformar a Copa num “caos” e esperavam a ajuda do chamado PCC. E isso com direito a manchete do jornal.

O Globo e a Folha de S. Paulo não ficaram atrás em matéria de bola fora em termos de cobertura sobre as manifestações em torno da Copa do Mundo. Parecia que o noticiário estava (e está) conjugado com as eleições presidenciais que se aproximam sendo o alvo preferencial a Presidenta Dilma Rousseff.

Em 2007, quando da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo houve até euforia dos brasileiros. Pouco a pouco esse estado de espírito foi dando lugar a outro extremo, ou seja, a um nervoso pessimismo, numa demonstração típica de personalidade bipolar.

Há pouco tempo, independente dos meios de comunicação, o Brasil era considerado um país com futuro garantido e exemplo para outras nações que vivem uma grave e demorada crise financeira. Mas com o passar do tempo, o otimismo exagerado, foi dando lugar à negação de tudo que era considerado do bom e do melhor.

Mais de dois milhões de brasileiros saíram às ruas, exatamente em junho do ano passado, para pedir, entre outras coisas, educação e saúde “padrão Fifa”. Surgiu então o jargão ”não vai ter Copa”.

Aí seria interessante que se aprofundasse o tema que envolveu principalmente jovens. Pode ser que boa parte dos que ecoavam o jargão estivesse em princípio até bem intencionada. Mas, como diz o dito popular, de boas intenções o inferno está cheio.

No auge do “Não vai ter Copa” houve adesões do exterior. Há indícios de que a campanha começou no exterior. Dos Estados Unidos, por exemplo, tem até a história de alguém que se apresentava como cineasta brasileira radicada em Los Angeles, uma tal de Carla Dauden. Ao tomar conhecimento das manifestações contrárias à Copa ela mandou uma mensagem pelo Youtube dizendo que “não, eu não vou para a Copa do Mundo”.

Depois de muito sucesso com a declaração, acessada por milhões de internautas, eis que um ano depois a mesma Carla Dauden, deixando de cumprir a promessa desembarca no Rio de Janeiro nesta antevéspera da competição futebolística.

É legal relembrar todos estes fatos que ajudam a entender melhor o que pode estar por trás do “Não vai ter Copa”, palavra de ordem encampada até por alguns setores considerados de esquerda.

Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Do outro lado, defensores incondicionais do governo remavam em direção contrária, ou seja, achando que tudo aqui estava, e está ótimo. Nenhum tipo de crítica à condução dos preparativos para a Copa era aceita pelos áulicos.

O próprio governo demonstrou falta de eficiência nas informações sobre o andamento dos preparativos da Copa.

Algumas obras foram superfaturadas e os atrasos na entrega delas prontas fazem parte do esquema rotineiro das empreiteiras, ou seja, quanto mais atraso, maior o faturamento delas. É a rotina do capitalismo que historicamente se repete.

Até agora ninguém respondeu como se explica que na Copa de 1950 o Maracanã abrigou cerca de 200 mil torcedores e hoje no novo Maracanã cabem 60 mil. Chama mais atenção o fato de a população brasileira ter pulado de 30 milhões para os 200 milhões de hoje.

Em todo o Brasil famílias foram removidas em função de obras da Copa. E as remoções ocorreram de cima para baixo, sem consulta aos afetados, e ajudou de alguma forma os equívocos do tipo “Não vai ter Copa”. Tão equivocados que os próprios organizadores do grupo nas vésperas da competição mudaram a palavra de ordem para “Nossa Copa é na rua”.

O governo não respondeu a altura ao fato de que os gastos com a Copa do Mundo serão compensados. Nas últimas semanas a Presidenta Dilma Rousseff chegou a falar em ”legado da Copa para os brasileiros”, mas não aprofundou a questão.

Em resposta, e no Rio de Janeiro, o jornal O Globo estampou em manchete da última edição de domingo (8) que “O Legado da Copa no Rio só fica pronto para os Jogos”, dando a entender que muitas obras não terminaram o que só acontecerá em 2016 e com mais gastos. No exterior, as críticas ao governo se aprofundaram e seguiram a tônica da mídia conservadora tupiniquim. Seria coincidência?

Nesta onda de pessimismo estimulada por grupos conservadores leitores de jornais, telespectadores e ouvintes não foram informados sobre um fato que gera muitos maiores prejuízos aos brasileiros do que gastos, mesmo excessivos, com a Copa do Mundo.

Foi quase ignorada a informação fornecida pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), segundo o qual a sonegação de impostos no Brasil ultrapassou em 25 vezes os gastos com as construções das arenas para a Copa do Mundo. Foram sonegados, claro que pelos abastados, 200 bilhões de reais só nos primeiros cinco meses deste ano de 2014.

Podem imaginar o motivo pelo qual a Rede Globo, o jornal do mesmo nome e outros órgãos de imprensa preferem não entrar em considerações sobre a sangria da sonegação?

Em suma, é muito justo que se denuncie superfaturamentos em obras para a Copa do Mundo e a arrogância dos dirigentes da FIFA, bem como a aceitação das exigências, mas também não se pode silenciar diante dos crimes de sonegação praticados no Brasil. Até porque os que praticam contam com a impunidade.

Ah, sim, e o Governador Geraldo Alckmin decidiu endurecer contra os metroviários, parecendo até que o tucano está interessado em desestabilizar São Paulo na antevéspera da Copa. E ainda por cima ao demitir trabalhadores usando o jargão direitista da ilegalidade da greve decretada pela Justiça, o Governador deu demonstração concreta do que seria o Brasil caso políticos do seu time ocupassem a Presidência da República.

Mário Augusto Jakobskind, Jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI. Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo).

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