Edição por Rennan Martins
No último dia 29, Jânio Freitas, colunista da Folha de São Paulo, usou de seu espaço para desferir dura crítica a postura do presidenciável pessebista Eduardo Campos quanto a lei da anistia. A saber, o presidente do PSB considera que a lei, em seu atual estado, que anistia tanto aos que na época cometiam crimes políticos quanto aos agentes da ditadura que praticavam crimes contra a humanidade como política de Estado, é o mais justo que temos a fazer.
No texto, intitulado Muito à vontade, Jânio considera que Campos adotou a linguagem dos próprios militares acusados de torturas, assassinatos e desaparecimentos ao falar de “anistia para os dois lados” e ainda desafia este a apontar que crimes seu avô, Miguel Arraes, exilado pela ditadura e um dos protagonistas da redemocratização, cometeu à época.
Campos redigiu sua resposta, que foi publicada no mesmo veículo no dia seguinte. Ele afirma nela que os crimes de lesa-humanidade são imprescritíveis e que é preciso trazê-los a luz pelas comissões da verdade para que o Judiciário os aprecie, e que isso não implica necessariamente a revisão da lei, entre outras coisas.
Estes acontecimentos, que envolvem a história e a atualidade da política nacional, tendo em vista que ainda podemos observar resquícios da exceção praticada oficialmente até 88, moveram nossos associados e colaboradores ao debate. As pertinentes análises podem ajudar a muitos dos que não se sentem representados a construir sua posição política para as eleições vindouras.
Entraram nesta edição comentários dos colaboradores Flávio de Lyra, Rômulo Neves e Gustavo Santos. Dou destaque a uma oportuna colocação de Lyra: “Os candidatos populares podem trair suas bases sociais, mas os candidatos da elite nunca o fazem.”
Confira:
Flávio de Lyra – Confesso-lhes que tenho ficado surpreso com certos posicionamentos adotados por Eduardo de quem esperaria maior respeito pela história de seu avô. Fui assessor de Miguel Arraes por dez anos, além de Secretário da Fazenda de seu governo iniciado em 1987. Tenho seríssimas dúvidas que ele subscreveria muitas das colocações que Eduardo Campos tem feito, de claro teor neoliberal, e muito menos sua declaração de colocar no mesmo nível moral e político os “dois lados” que se opuseram na ditadura. Quem tiver dúvida a respeito sobre as posições de Arraes a respeito da realidade brasileira procure ler seu livro de 2009, ” O Jogo do Poder no Brasil” editado pela Fundação João Mangabeira. Cito abaixo, trechos do citado livro:
“A Luta Atual.
Sob variadas formas, o autoritarismo exercido a nível nacional estadual ou local, sempre subjugou grandes parcelas da população.[...] A luta é pela democracia e não pela redemocratização, já que a democracia real e global nunca tivemos. [...] A confrontação política que se dá desde então, assumindo por vezes conotações militares, tem como centro os rumos do desenvolvimento, o que se deve entender ‘por construção nacional’. [...] A confrontação persiste, dado que a sua causa reside na existência de interesses conflitantes irreconciliáveis. [...] De um lado, os que entendem necessária e imprescindível a aliança com o capital internacional, pelo fato de se beneficiarem do limitado sistema de exploração voltado sobretudo para o exterior. De outro, a imensa maioria, cujos interesses residem na organização de uma sociedade em que os mecanismos econômicos e sociais estejam voltados para a satisfação de suas necessidades[...] Uma verdadeira alternativa começa pela recusa em aceitar tais premissas (confundir o problema com opções circunstanciais, para administrar a crise em que se afoga o país, F.L.). Uma verdadeira alternativa começa pela recusa em aceitar tais premissas… Secundarizar os fatores externos, tornando-os complementares e privilegiar os internos – o trabalho do povo e as riquezas do país – A hora não é de torcer por siglas, disputar postos ou pedaços do poder, embora tudo isso possa ser feito como táticas que se ajustem ao combate geral [...] A construção da Nação não pode ser confundida com o atendimento dos interesses de grupos que hoje dominam a economia. Estes agem como meros ocupantes de um espaço que lhes foi aberto e que interessa à sua busca de maiores lucros”.
Deixo à avaliação dos colegas o exame da conduta de Eduardo Campos em sua luta pelo Poder frente ao que pensava seu avô, Miguel Arraes.
Rômulo Neves – Qual dos candidatos está empunhando todas as bandeiras do Miguel Arraes? Nenhum.
Infelizmente, os discursos dos candidatos estão muito próximos. Não venha me dizer que o da Dilma está mais à esquerda do que o do Eduardo. Sinto muito, mas não está. Infelizmente, não é pelo discurso que vamos diferenciar os candidatos.
Em relação à truculência, à falta de diálogo, acho que não dá para comparar a Dilma, nem com o Aécio, nem com o Eduardo. Ela dá de lavada, e esse é um dos principais problemas hoje, pelos quais as políticas não avançam. Na hora de dialogar, ela dá bordoada, aí, depois, quando o “aliado” de direita se arma e começa a boicotar, tem de fazer mais concessões do que no primeiro momento, para obter novamente aquele apoio. O pior dos mundos.
Se Aécio e Eduardo levam vantagem em relação à Dilma nos quesitos capacidade de diálogo e de delegação, o Eduardo leva vantagem em sobre o Aécio programaticamente. Por mais que os apoiadores da Dilma tentem aproximar o Eduardo do Aécio, não há como. Chega a ser desonesto dizer que o Eduardo é mais à direita do que o atual Governo. Podemos até reclamar que as posições do Eduardo não são as do PSOL, mas dizer que elas são mais conservadoras do que a do atual Governo, truculento, aí não dá.
Gustavo Santos – O governo da Dilma não é bom. Mas ela ao menos promete melhorar. O Eduardo promete piorar. Ele promete algo parecido com o que foi FHC e não tem dignidade nem para diferenciar seu discurso do de Aécio.
Agora me digam a semelhança com o discurso do Aécio é por falta de criatividade ou por falta de respeito ao seu avô e ao povo brasileiro? Existe um grande espaço eleitoral para ele fazer um discurso bem-sucedido um pouco à esquerda do PT e ele nem tenta. Porque?
Flávio de Lyra – Desculpem a franqueza, simpatizemos ou não com a Dilma e os deslizes do PT, está na hora de pensarmos seriamente sobre o que acontecerá ao país com a volta da elite ao poder com toda a força do voto popular. A verdadeira disputa será entre a elite que quer voltar ao governo e as forças sociais ligadas à classe trabalhadora. Do ponto de vista das forças sociais organizadas que dão suporte aos candidatos, não há muita diferença entre Aécio e Eduardo. Estes representam os anseios das forças de centro-direita de retomarem o poder e acabarem com as conquistas sociais do povão, pois estas conflitam com os interesses do grande capital. O ódio da elite ao PT não é porque o PT é corrupto, como eles propalam, é porque o PT é uma ameaça real aos seus interesses.
Também fico frustrado com certas condutas do PT e de seu governo, mas sei perfeitamente que será muito pior se os candidatos da elite chegarem ao poder, pois vão fazer a política que interessa à oligarquia empresarial. Qual é a base social organizada que Eduardo tem para fazer mudanças em favor da classe trabalhadora? Voto não cria base social organizada para dar suporte a mudanças, apenas dá representação política a essa base. Será que estamos imaginando que vamos ter um novo salvador da pátria, nos moldes de Collor?
Queiramos ou não, o PT é a única organização que tem base social para resistir às ações da elite do país para favorecer os interesses do capital em detrimento da classe trabalhadora. O PSB ainda é um simulacro de partido político representativo dos interesses populares. Para finalizar, gostaria de alertar para a conveniência de não gastarmos muita energia discutindo sobre os traços pessoais dos candidatos, e passarmos a pensar mais nas bases sociais de cada um, pois são estas que vão determinar sua conduta depois de eleitos. Aécio e Eduardo, são os típicos representantes das elites empresariais e, por essa razão, nunca poderiam governar em favor dos interesses populares. Não sejamos ingênuos, as classes sociais não desapareceram e continuam tendo interesses contraditórios como sempre. Imaginar que a luta política é determinada pelo voto é história da carochinha. Maioria eleitoral sem suporte político em forças sociais organizadas não leva a mudanças em favor do povão. O maior problema do atual governo é a falta de suporte político em suas bases para aprofundar as reformas.
Será que vocês acreditam que se Marina Silva tivesse sido eleita no último pleito as reformas sociais teriam avançado mais? O desafio agora é impedir que as elites voltem ao poder, pois elas têm muito claros seus objetivos de acabar com as poucas conquistas da classe trabalhadora durante os governos do PT. Não nos iludamos com programas de governo, pois estes normalmente vão para a lata do lixo, depois das eleições. O que vale mesmo é a estrutura do poder e dos interesses que está por trás de cada candidato. Os candidatos populares podem trair suas bases sociais, mas os candidatos da elite nunca o fazem.
