Um ano dos protestos na Turquia: Carta de uma cidadã turca, para o Brasil

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Policial à paisana detendo ativistas na avenida Istiklal, no último dia 31 (Hurriyet Daily News/Reprodução)

Por Rennan Martins

No último dia 31 o levante da população da Turquia na praça Taksim e no parque Gezi completou um ano. Em memória dos mortos nestes atos e numa forma de reafirmar a pauta de indignação contra o autoritarismo governamental, personificado na figura do primeiro-ministro Tayyip Erdogan, os ativistas mobilizaram mais demonstrações.

Desta vez, as autoridades foram autocráticas já de antemão, pois, alertaram que não seriam permitidos protestos, mobilizaram também 25.000 policiais, 5 canhões d’água, além de helicópteros e um vasto arsenal de bombas de gás pimenta.

O uso massivo de gás de pimenta pela polícia turca, nas proximidades da praça Taksim (Hurryet Daily News/Reprodução)

Como podem ver nas imagens, a repressão foi brutal e totalmente desproporcional, o número de policiais era maior que o contingente de cidadãos e jornalistas somados. Esta é a forma que o governo turco tenta resolver as insatisfações populares.

A fim de obter um quadro apurado do que ocorre na Turquia entrei em contato com uma cidadã turca, de etnia curda, a qual preservo a identidade tendo em vista o alto grau de violência com que age o governo. Ela enviou-me esta carta na qual traça um panorama histórico e sociopolítico do país, comentando ainda os últimos acontecimentos. Em sua opinião, o primeiro-ministro Erdogan é muito autoritário e tem como único instrumento de resolução de conflitos a violência.

Manifestantes desacordados por conta da aspiração do gás pimenta, nas proximidades da praça Taksim, no último sábado. (Hurryet Daily News/Reprodução)

Confira a carta, na íntegra:

O panorama sociopolítico e histórico

Eu poderia dizer-lhes muito sobre os protestos da Turquia e nas regiões curdas. Primeiro, deve-se ter em mente a divisão do país em lado oeste e leste. Os turcos vivem no lado oeste, enquanto os curdos no leste. Porém, milhões de curdos emigraram para o lado ocidental.

Antes de falar sobre as manifestações em si é preciso saber algumas coisas sobre o passado dos turcos para então entender algumas situações.

Há mais de 30 anos os curdos lutam contra o governo turco por conta da tirania com que tratam o povo curdo. Desde o ano passado também os turcos se manifestam contra o governo, pois, o primeiro-ministro Erdogan tentou destruir um grande parque conhecido como Parque de Gezi, que quer dizer “parque onde você pode caminhar”.

Mas, o maior problema é que entre os ativistas turcos há em torno de metade deles, seja no Parque de Gezi ou na praça Taksim que seguem a ideologia de Mustafa Kemal Ataturk, e, portanto, clamam ser socialistas ou revolucionários.

Entre os curdos Ataturk é considerado um assassino, em sua época, ele praticou genocídios contra o povo curdo. Mas entre os turcos ele é visto como um herói, alguém que salvou os turcos do imperialismo britânico. Ataturk foi um líder que tentou unificar os povos desta região sob uma bandeira, uma linguagem e uma religião (mesmo tendo sido contra expressões religiosas em espaço público). Sob sua liderança, há os turcos e ninguém mais. Não se podia falar em público outra língua que não fosse a turca, independente desta ser a língua curda ou armênia, e se você não se vê como turco então enfrentaria sérios problemas como ser preso ou até mesmo morto. Esta ideologia nacionalista ainda possui influência atualmente, há quase 80 anos de sua morte.

Devo ressaltar neste ponto que as condições mudaram para as outras etnias, não há mais tanta brutalidade como há 30 anos.

Continuemos a traçar o panorama sociopolítico. Na Turquia existem 4 grandes partidos, AKP, MHP, CHP e BDP.

AKP é o partido governista, trata-se de uma mistura de islamismo, nacionalismo, capitalismo e militarismo.

O MHP é ultranacionalista, eles pregam que a origem do mundo deu-se na Turquia e no povo turco, desejam também restaurar o império otomano.

O CHP é o partido de Mustafa Kemal Ataturks, são nacionalistas e socialistas.

E então temos o último grande partido, o BDP, que é o único que verdadeiramente luta pelos direitos dos diversos povos da Turquia e principalmente pelos curdos, tendo em vista que das minorias, os curdos são a parte majoritária. O BDP também luta pela liberdade religiosa e pela liberação das mulheres.

Os últimos acontecimentos

Há três semanas ocorreu uma tragédia por aqui, a qual uns consideram um acidente e outros um assassinato em massa. Em Soma, na região de Izmir, uma mina de carvão incendiou e mais de 300 mineiros morreram pois não haviam compartimentos de segurança nem máscaras de oxigênio. A maioria das mortes se deu por intoxicação com monóxido de carbono, outros foram carbonizados. Todo o país levantou-se contra o governo e a grande corporação que explora a mina e até mesmo estes protestos foram brutalmente reprimidos pela polícia turca. Em Soma, o primeiro-ministro Erdogan proibiu atos públicos e comparou este acontecimento a um acidente parecido que houve na Inglaterra ainda no século 19, disse ainda que esta tragédia se deu por destino.

Ontem, dia 31, foi o aniversário do Parque Gezi em Istambul e muitas pessoas se dirigiram pra lá. Alguns foram pra praticar leituras e outros pra protestar. Infelizmente, os turcos ainda não estão indignados o bastante e por aqui, a polícia pode fazer o que bem entende. A violência das autoridades foi brutal, usaram gás de pimenta em larga escala.

Em Gazi Mahallesi, um distrito de Istambul em que a maioria é curda, houve grandes manifestações, inclusive com coquetéis molotov, barricadas e fogos caseiros, em memória dos que faleceram no levante de Gezi do ano passado.

Na Turquia oriental, ou Curdistão, também ocorreram manifestações. Há uma semana alguns jovens em Lice, região de Diyarbakir, protestaram contra os postos de polícia que estão sendo construídos em todas as regiões curdas. Mais de 130 já foram construídos. No ano passado, uma jovem de 19 anos, Medeni Yildirim, foi baleada durante ato público de mesma pauta.

Ainda hoje alguns curdos foram atacados porque tentaram colher assinaturas a favor da libertação do líder da PKK, Abullah Ocalan.

Ano passado 9 pessoas foram baleadas ou agredidas e morreram nos protestos de Gezi. Nas manifestações da tragédia dos mineiros 3 foram atingidos, dois destes morreram.

Aqui na Turquia, o governo tenta resolver tudo do mesmo jeito. Se alguma coisa acontece fora da vontade de Erdogan este envia seus policiais e soldados, qualquer um que queira democracia sofre violência.

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