Arquivo mensais:junho 2014

Bob Fernandes: Copa, quebrou a cara quem apostou contra por cálculo político

Por Bob Fernandes, via facebook

“Imagina na Copa!” Por anos esse bordão carregou a promessa e o medo do fracasso, da vergonha.

A Copa traria o caos, aéreo e urbano, o vexame diante do mundo …

A Copa está na metade. Tudo, inclusive de ruim, ainda pode acontecer.

Mas, até aqui, o que dizem “os estrangeiros”, que alguns brasileiros tanto temiam?… Ou buscaram influenciar.

O Guardian, o grande jornal inglês, já aposta: “Pode ser a melhor (…) e a mais emocionante Copa da história”.

O Telegraph conta que passou por 6 aeroportos, “na maioria excelentes”, e lamentou “as histórias de terror” pré-Copa.

Mundo afora a mídia revê suas opiniões e repete… “uma linda festa … a grande Copa… a melhor da história…”.

E, claro, a mídia honesta mostra os protestos. Lembra que o Brasil é desigual, injusto, que moradores foram desalojados por conta da Copa e Olimpíadas.

Imprensa séria registra que tanto o governo federal como governos da oposição se irmanaram na bilionária farra dos estádios.

Qualquer um, óbvio, tem o direito de ser a favor ou contra a Copa. Não faltam motivos.

Mas quem apostou contra apenas por cálculo político errou, e quebrou a cara.

Dizer agora que o catastrofismo foi obra da imprensa estrangeira é cinismo. É dobrar a aposta na falta de inteligência de quem recebe informações.

Técnicos, como Capello, dizem: “É a Copa de maior nível técnico da história”. Capello resumiu: no imaginário do planeta futebol, o “estádio do mundo é o Maracanã”.

O alemão Podolski escreveu: “Não teria melhor lugar para uma Copa (…) o país do futebol”.

Certamente por isso jogadores e seleções estão jogando tudo que sabem… Muitos, até mais do que podem.

Até aqui uma seleção não jogou futebol à altura da sua história e conquistas: o Brasil.

Por muitos motivos… inclusive a descomunal tarefa de carregar um país, um povo nas costas.

Povo que por anos repetiu um bordão: “Imagina na Copa!”

 

Síria: Obama prolonga a guerra

Via Moon Of Alabama

Obama pede dinheiro ao Congresso para treinar rebeldes sírios “adequadamente selecionados”:[1]

“O presidente Obama pediu $500 milhões ao Congresso na 5ª-feira, para treinar e equipar “membros da oposição síria adequadamente selecionados”, como disse a Casa Branca, mostrando crescente preocupação com o ‘respingamento’ do conflito sírio sobre o Iraque.”

É ideia de doidos e movimento lunático. Injetar mais armas e mais rebeldes armados no conflito sírio só fará aumentar o conflito e afetará negativamente a situação da segurança na Síria, no Iraque, no Líbano, na Turquia e na Jordânia. Assim se comprova que ninguém está preocupado com qualquer ‘respingamento’.

Em agosto do ano passado, Edwald Luttwak escreveu que os EUA ganham, se os dois lados continuarem a lutar; e que os EUA portanto deveriam estender o conflito o mais possível:[2]

“O objetivo dos EUA deve ser manter o impasse. E o melhor meio possível para conseguir manter o conflito é armar os rebeldes quando parecer que as forças do Sr. Assad estejam em ascensão; e cortar o suprimento, se os rebeldes parecerem estar realmente vencendo.”

Tudo sugere que Obama, mesmo ao preço de fracasso regional mais amplo, está seguindo essa política.

Os porta-vozes de Obama merecem outra medalha Orwell:

“Apesar de continuarmos a crer que não há solução militar para essa crise e que os EUA não devem pôr soldados norte-americanos em combate na Síria, esse pedido marca mais um passo para ajudar o povo sírio a defender-se contra ataques do regime” – disse Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, em declaração.

O maior perigo para os civis e para o Exército Sírio Livre, cujo principal comandante oficial foi (outra vez) demitido por corrupção,[3] não são as forças do governo de Assad, mas os terroristas jihadistas.

Os EUA já treinam e armas rebeldes “adequadamente selecionados” há, no mínimo, dois anos! E já entregaram a eles toneladas de armas. Aquelas armas acabaram em mãos dos terroristas jihadistas e os rebeldes “selecionados” estão hoje ou mortos ou já se uniram a grupos associados à AlQaeda. O novo treinamento tomará seis meses, antes de os ‘treinados’ estarem, digamos, ‘prontos’. Em seis meses, o exército sírio legal estará em melhor posição do que está hoje e o principal inimigo para todos naquele campo de batalha será o ISIS.

Não será surpresa para mim quando os tais rebeldes “adequadamente selecionados” e já treinados se unirem ou às tropas de Assad ou às tropas do ISIS, tão logo retornem à Síria, no final do ‘treinamento’ que os EUA desejam que tenham.

Referências:

[1] http://www.nytimes.com/2014/06/27/world/middleeast/obama-seeks-500-million-to-train-and-equip-syrian-opposition.html

[2] http://www.nytimes.com/2013/08/25/opinion/sunday/in-syria-america-loses-if-either-side-wins.html?_r=1&

[3] https://news.yahoo.com/syria-opposition-sacks-rebel-command-over-graft-allegations-093619778.html?soc_src=mediacontentsharebuttons

 

Robben merecia ser punido como Suárez

Por Scott Moore, via DCM

DCM/Reprodução

Ladies & Gentlemen:

Um escritor afirmou que o pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado.

Foi o que ocorreu hoje com Robben, o atacante holândes.

Depois de uma série infindável de mergulhos para simular pênaltis, ele admitiu a uma tevê holandesa que pelo menos uma vez tentou enganar o árbitro.

Diante da repercussão dessa confissão desconcertante, ele emendou posteriormente que não foi o caso do pênalti que afinal classificou a Holanda.

Neste caso, segundo ele, foi mesmo pênalti – uma afirmação que as imagens colocam claramente sob dúvida. O zagueiro mexicano teria pisado no seu pé, segundo os crédulos. Ora, isto tivesse mesmo ocorrido, o pé pisado, e portanto preso, impediria o voo de Robben. Elementar.

Ladies & Gentlemen: minha tia Mimi dizia, de um certo ator, que era muito bom apesar de careca. (Nota da tradutora: in spite of being bald.)

Sigo tia Mimi e digo que Robben é um grande jogador, apesar de careca.

Mas é também um fanfarrão. Assim como Suárez é um mordedor serial, Robben é um mergulhador serial, compulsivo.

Também como Suárez, é um caso psiquiátrico, mais que futebolístico. Ele sabe que age errado, e mesmo assim não consegue se corrigir.

Nós, europeus, conhecemos bem essa característica detestável de Robben. Não é a primeira vez que ele se desculpa publicamente por trapacear.

O que espanta é que o juiz tenha caído na armadilha de Robben. Não teria informações suficientes sobre ele? É possível.

O técnico mexicano tem razão: Robben já deveria ter recebido cartão amarelo pelas simulações antes do lance fatal. Dificilmente ele teria dado aquele último mergulho que eliminou o bravo México.

Suarez foi punido. E Robben, réu confesso, não deveria ser também?

Tenho certeza de que não será. E sei a razão: ele não é uruguaio, ou sul-americano, ou africano.

É europeu.

Sincerely.

Scott

Tradução: Erika Kazumi Nakamura

PS: Corre nesta segunda a informação de que a Fifa poderia punir Robben por encenação.

 

A agonia do jornalismo

Por Cristina Mestre, via Voz da Rússia

Há dez anos atrás, costumava comprar uma revista de informação publicada em Portugal, a Visão. Mas houve um dia em que a “minha” revista mudou em tudo. Passou a exibir uma capa vermelha apelativa com letras maiores, os artigos passaram a ser muito mais pequenos, passou a haver mais notícias sobre “fait divers”, mais fotos e menos texto. As reportagens de investigação com várias páginas passaram a ser mais raras. Comecei a perder o interesse.

Eu, sem saber, estava presenciando a “revolução no jornalismo” ou, segundo outros, a “agonia do jornalismo”. Ao longo desta última década muitas coisas aconteceram: dezenas de jornais e revistas deixaram de existir, centenas ou milhares de jornalistas foram despedidos, muitas pessoas deixaram de comprar jornais e passaram a obter a informação de forma gratuita na Internet.

Não sendo eu jornalista e arriscando ser criticada pelo meu diletantismo, vejo o desespero de uma classe profissional que está desaparecendo; os que ainda permanecem adaptam-se como podem, condescendem, praticam a autocensura.

Há quem invente desculpas: o jornalismo é hoje uma indústria cuja mercadoria – a informação – se orienta prioritariamente para o mercado, sujeita às leis da oferta e da procura, lutando pela sobrevivência como qualquer outro setor da economia. Será mesmo assim? Ou será que o jornalismo ainda se orienta pelos valores da procura da verdade, da independência e da equidistância face aos diversos poderes?

Muitos apontam a causa desta revolução: A Internet. Antes, a imprensa escrita (para além da rádio e da TV) praticava um “caminho de sentido único”, só ela dispunha do monopólio da divulgação da informação. Hoje, essa supremacia acabou. Não há emissores puros nem recetores puros que tenham de resignar-se com tal função. A revolução que vivemos é que cada receptor pode ser também emissor. Todos podem fazer uma página na Internet, publicar textos no Facebook ou Twitter, manter um blogue. Agora, como consequência das mudanças técnicas e culturais, o leitor, a audiência, têm um poder como nunca tiveram.

A estrutura da indústria da informação e a maneira de produzir informação estão a ser transformadas. Muitos jornais passaram para o suporte digital. O jornalismo de investigação, o gênero mais nobre, está a desaparecer.

Dizem que não há recursos para fazer investigação jornalística, menos ainda para enviar uma equipe a outra parte do mundo para produzir notícias. Os donos das empresas jornalísticas queixam-se que as receitas da publicidade estão caindo. Em Portugal, por exemplo, o mercado publicitário contraiu 50% nos últimos anos.

A crise da comunicação social tem origem, outros afirmam, na opção pelo simplismo e o sensacionalismo, que veio acompanhada por cortes abruptos na qualidade.

Jornalismo e democracia

O declínio do jornalismo acompanha (e também provoca) o declínio da democracia.

Porque a democracia só pode funcionar se surgem críticas e reivindicações da sociedade, que sempre foram transmitidas e denunciadas pelo quarto poder. Quando este não cumpre a sua função, a sociedade e a democracia começam a degradar-se.

É possível ver a agonia do jornalismo na forma de funcionamento dos jornais regionais portugueses (embora tal deva acontecer também em muitos outros países).

“O jornalista está algemado aos interesses do cacique, do partido político dominante, da Câmara Municipal local, dos grandes e médios empresários da zona, e tudo por causa da publicidade. São eles que dão dinheiro aos jornais e às rádios, e são eles que, com esse dinheiro, chantageiam os diretores, chefes de redação e até jornalistas a seguirem as suas linhas de orientação, pois, caso assim não seja, os cortes financeiros serão acentuados e o próprio órgão de informação correrá o risco de desaparecer. A liberdade de expressão está, como se sabe – mas poucos querem assumir – regrada, obstaculizada, condicionada e, por vezes, adulterada nos grandes órgãos de comunicação social. O assédio psicológico sobre os jornalistas é uma constante em algumas dessas empresas. As tais empresas que controlam os jornais e rádios regionais.” Este é o testemunho de José Gonçalves, um jornalista português de um jornal regional.

“O jornalismo tornou-se sensacionalista e deixou de interessar aos cidadãos porque os jornalistas não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade”, afirma o jornalista Nuno Ramos de Almeida.

Deixou de interessar aos cidadãos ou será algo mais grave?

A verdade é que vivemos num mundo com constante fluxo de informação, através de múltiplos canais. Houve uma altura em que se pensava que a Internet e as redes sociais tornariam a informação não só mais variada mas também mais fidedigna e isenta, que “democratizariam” as mentalidades e ajudariam as pessoas a analisar as notícias de forma mais racional. Isso aconteceu mas só parcialmente.

Com o aumento exponencial da informação na Internet, a sociedade parece estar cansada e ter deixado de distinguir entre o que é verdade e o que é simulação da verdade, o que faz com que seja mais fácil divulgar informação manipulada ou apenas não rigorosa.

Uma jovem jornalista, Susana Valente, escreve algo que é tanto uma confissão como um lamento:

“Deixamo-nos apanhar, nós jornalistas, esta espécie em vias de extinção, pela vacuidade dos dias, onde a informação é só mais um bem perecível e, cada vez mais, um bem terciário, relegado para o fundo da lista de prioridades do público. Creio que muitos dos leitores/espectadores/ouvintes não desejam sequer uma informação isenta e imparcial; esperam, simplesmente, por notícias que enformem as suas “vidinhas”, que vão ao encontro daquilo que são os seus desesperos e as suas esperanças. Não querem uma perspectiva desinteressada e clara da realidade, mas antes um ponto de vista que justifique a sua condição. Não querem ser elucidados, preferem ser iludidos. E se há esta divergência nítida entre o dever do jornalista e o interesse do seu público, como sustentar o futuro da profissão?”

Embora o drama de ser posto à margem do sistema seja vivido por muitos jornalistas, julgo que estes têm o futuro nas suas mãos. O futuro e o poder.

Basta recordar, como uma das formas possíveis de ultrapassar a situação atual, os projetos de auto-organização de jornalistas, que já existem em vários países como os EUA, a França, a Espanha ou o Brasil.

Não, não se trata de os jornalistas criarem empresas a partir do modelo de negócios baseado na publicidade. O financiamento, questão central de qualquer meio de imprensa, pode revestir-se de formas inovadoras, ou seja, ser público mas não estatal, isto porque um jornalismo de interesse público não pode depender do Estado (ou seja, do governo) e também não deve depender de determinados grupos privados, onde há conhecidos conflitos de interesses. Já há, em vários países, jornalistas que se juntam trabalhando em regime de financiamento coletivo (crowdfunding), geralmente sem fins lucrativos.

O crowdfunding permite uma total independência sob o ponto de vista do financiamento e poderá ser uma das respostas. Mas para que este modelo tenha sucesso resta explicar às pessoas que a isenção e a independência não se alcançam facilmente e precisam do apoio de todos nós.

A bomba destinada a explodir serviços públicos no mundo todo, TISA, mais um tratado negociado em segredo

Por Bruno Odent, via l’Humanité e Resistir

Resistir/Reprodução

Os Estados Unidos, os países da UE e uma vintena de outros Estados encetaram em Genebra negociações sobre o comércio de serviços. Estas negociações deveriam permanecer secretas durante cinco anos. A WikiLeaks conseguiu em parte levantar o véu acerca do seu conteúdo.

Tudo devia permanecer totalmente secreto. Nada devia transparecer das negociações acerca do acordo sobre o comércio dos serviços (ACS) encetadas desde há dois anos na embaixada da Austrália em Genebra entre os Estados Unidos, a União Europeia e uma vintena de países. Um vasto empreendimento de liberalização que afecta até os serviços públicos fundamentais. Foram tomadas medidas assegurando uma confidencialidade total das discussões, numa linguagem digna de um cenário de James Bond. Os textos que estabelecem o avanço das conversações foram “classificados”, conforme um jargão geralmente utilizado para os dossiers secretos da defesa. Eles devem ser “protegidos de toda divulgação não autorizada” e armazenados num sistema de computadores ele próprio classificado e mantido “num edifício ou num contentor fechado” sob alta vigilância. O objectivo declarado é que nada possa transpirar do conteúdo destas negociações “até cinco anos após a conclusão do acordo” ou o fim das negociações se estas acabarem por não se concluir.

Isto era ignorar a perícia dos lançadores de alerta da WikiLeaks, que conseguiram recuperar uma parte dos textos superprotegidos. Assim, a 19 de Junho, eles publicaram no seu sítio o anexo do tratado em preparação que trata dos serviços financeiros: https://wikileaks.org/tisa-financial/

Estas revelações sublinham, de facto, a amplitude da ofensiva iniciada por Washington, seguida pelos Estados membros da União Europeia, para permitir às multinacionais açambarcar, quando chegar o momento, o comércio dos produtos financeiros assim como o de todos os serviços nos grandes mercados transatlântico e transpacífico, cujas negociações, sabe-se avançam ao mesmo tempo na maior discrição.

Contornar as resistências populares e os refractários à OMC

As conversações secretas para chegar a um acordo sobre o comércio dos serviços (ACS) arrancaram em 2012 e seus iniciadores pretendem fazer todo o possível para concluí-las antes do fim de 2015. Elas são de facto destinadas a contornar o obstáculo que constituíam as resistências de forças progressistas, de movimentos sociais, de sindicatos e de vários países em desenvolvimento para a conclusão de um acordo global sobre o comércio dos serviços (AGCS) no seio da Organização Mundial de Comércio (OMC). Diante da paralisia do processo multilateral lançado em 2001 no quadro do ciclo dito de Doha da OMC, um grupo de países decidiu, sob o impulso dos Estados Unidos e dos Estados membros da UE, encetar, há dois anos, uma negociação paralela.

Dito de outra forma: repudiado democraticamente e portanto saído pela porta, o AGCS podia assim entrar pela janela sob o impulso de cerca de 50 governos. Os autoproclamados negociadores têm a esperança de definir normas num quadro plurilateral para que elas se impunham, a prazo, como referência internacional única. Eles apostam evidentemente no seu peso económico – representam em conjunto cerca de 70% do comércio mundial – para no final das contas arregimentar os países recalcitrantes da OMC que seriam curto-circuitados. O lugar geográfico das negociações foi simplesmente transferido de algumas ruas em Genebra, passado na sede da OMC para o edifício da embaixada da Austrália, país oportunamente inteiramente dedicado à liberalização.

Principal fonte de inspiração do grupo: os “peritos” da “coligação global dos serviços” (GSC) no seio da qual encontram-se, do lado estado-unidense, os gigantes do sector (banca, Internet, energia) mas também, do lado europeu, o Medef [1] ou peso pesado francês Veolia [2] . O documento divulgado pela WikiLeaks, que corresponde ao sumário da negociação de 14 de Abril último, revela o forçamento desenvolvido para banalizar o comércio dos produtos financeiros, como se nada houvesse sido retido das causas do crash devastador que se verificou há apenas sete anos.

Intercâmbios financeiros, o retorno do delírio

As normas propostas no anexo do texto secreto dedicado ao comércio dos produtos financeiros visam em primeiro lugar restringir a capacidade de intervenção do poder público e fixam abertamente como objectivo um modelo “auto-regulador” da finança. Os Estados signatários do futuro ACS praticamente já não seriam autorizados a aprovar leis que limitassem as transacções transfronteiriças (artigo X 3.2.).

Em nome da livre concorrência os “monopólios de Estado em matéria de fundos de pensão” – tradução: os sistemas públicos de Segurança Social – seriam, a prazo, desmantelados. Mesmo “os seguros para calamidades naturais” não deveriam mais funcionar sob controle público.

A aprovação da autorização de produtos financeiros inovadores é investigada (artigo X 2.1.). Sabe-se quanto o laxismo organizado em relação a eles alimentou o inchaço financeiro que explodiu, há sete anos. “Os CDS (credit default swaps), que foram considerados como produtos inovadores, estiveram no cerne da crise”, observou com justeza Jane Kelsey, professora da faculdade de Auckland, Nova Zelândia, no sítio da WikiLeaks.

As empresas Internet estado-unidenses fazem pressão para transmitir sem verdadeiro resguardo os dados dos seus clientes. Estas são em particular apresentadas nos sistemas ditos “clouds” (nuvens) que permitem armazenar documentos fora do disco duro do computador. Esta informação desde o dia da sua revelação pela WikiLeaks, em 19 de Junho, uma viva reacção na imprensa alemã onde as revelações de um outro lançador de alerta, Edward Snowden, sobre a espionagem em massa praticada pela NSA (National Security Agency), com a cumplicidade dos gigantes estado-unidenses da Internet, já haviam provocado muitas inquietações na opinião pública.

Privatizações proibidas

As orientações do texto secreto estipulam que as sociedades estrangeiras não poderiam ser vítimas de um tratamento dito “discriminatório”. Dizendo o mesmo de outra forma: elas devem ter acesso ao mercado dos países signatários exactamente nas mesmas condições que a firmas locais, quer forneçam ou não um serviço público à população.

Assim, um gigante do fornecimento de água ou de gás, como os franceses Veolia ou GDF Suez, não teria apenas o direito de se instalarem em mercados terceiros. Eles poderiam também fazer valer uma cláusula em relação à concorrência para exigir beneficiarem-se de subvenções de um montante igual àquele dado pelo Estado em causa ao serviço público de água ou de energia.

Além disso o retorno a uma nacionalização de um serviço público privatizado, ainda que fosse parcial, seria estritamente proibido aos Estados signatários em nome das garantias concedidas aos investidores a fim de favorecer, explica-se, a fluidez dos intercâmbios. Assim tornar-se-ia impossível uma remunicipalização da água decidida em muitos lugares da França, como em Paris, após a fraude a explosão das facturas dos particulares provocada pelos vigaristas da Générale de Eaux e da Lyonnaise des Eaux, que durante muito tempo partilharam o mercado da capital francesa.

Educação, saúde, transportes, nada escaparia ao apetite privado

O ACS deve-se aplicar a todos os domínios capazes de fornecer um serviço à escala internacional. Segundo a Public Services International (PSI), que reúne 669 sindicatos no mundo inteiro, ele engloba um campo imenso: o fornecimento transfronteiriço (o modo 1 da ex-AGCS) – tal como a tele-medicina, a formação a distância ou as apostas na Internet –, o turismo (modo 2 da ex-AGCS), o investimento directo estrangeiro com os princípios e as consequência que se acaba de expor (modo 3 da ex-AGCS). O objectivo de acordos como este cuja negociação é tramada secretamente, denuncia Rosa Pavanelli, a secretária geral da PSI, é “institucionalizar os direitos dos investidores e proibir toda intervenção dos Estados num vasto leque de sectores”.

Saúde, educação, transportes, nada escaparia a esta lógica que aceleraria, em dimensões inéditas, a liberalização dos serviços públicos. Segundo uma lógica de desnatamento pelo capital privado em dificuldade para adquirir novos recursos na fase actual da crise em que as aberturas se contraem. Ele procura açambarcar os sectores financeiramente mais prometedores. Assim, os ferroviários franceses em luta perceberam perfeitamente a ameaça que poderia conduzir a uma polarização dos investimentos privados sobre os percursos de viagens mais rentáveis quando dezenas de vias ditas secundárias, e portanto estações, seriam condenadas ao desaparecimento. O 4º pacote ferroviário da Comissão Europeia não é certamente o tratado secreto em vias de negociação. Nem por isso adopta menos a linha devastadora para o futuro dos serviços públicos e, de passagem, para… um certo modo de construção europeia. Como se deveria saber, pelo menos desde a eleição de 25 de Maio, a ferocidade liberal, pronta a negar a democracia a ponto de agir às escondidas contra os interesses dos cidadãos, põe a Europa em perigo.

[1] Medef: confederação patronal francesa.

[2] Veolia: transnacional do fornecimento de água.

 

BC francês fecha acordo para estruturar sistema de pagamento em moeda chinesa

Via Correio do Brasil

O yuan vale cerca de 1/5 do dólar. CdB/Reprodução

O Banco Central (BC) francês disse neste domingo que assinou um memorando de entendimento com a China para estabelecer um sistema de pagamento do renminbi em Paris.

“Este memorando é o primeiro passo para a criação de uma infraestrutura de câmara de compensação e liquidação para o renminbi em Paris”, disse o BC francês, em comunicado.

A concorrência é feroz entre os principais centros financeiros da Europa para operar a moeda chinesa. Frankfurt e Luxemburgo estão disputando com Londres, favorita de muitos analistas, e a Suíça está tentando fortalecer seu caminho para a competição.

O sistema de pagamento acordado entre a França e a China vai funcionar com base em um banco de compensação, que será designado pelo Banco do Povo da China (PBOC), disse o banco central francês.

A China intensificou os planos de aumentar a utilização internacional de sua moeda em outubro passado , com um acordo entre o BC Europeu e o PBOC, para trocar euros e iuanes.

 

 

Chile: Uma democracia servil ao capital?

Por Micaela Lobos, via El Mostrador

Nos dias posteriores a vitória de Salvador Allende, Richard Nixon pedia a seu secretário de Estado, Henry Kissinger, para “fazer gritar a economia do Chile” no sentido de impedir a chegada da Unidade Popular ao poder. Esta declaração, que faz parte de um dos 350 documentos desclassificados há algumas semanas pela CIA, retrata a resistência do primeiro governo eleito sob uma democracia liberal que abertamente dizia não defender os interesses do capital. A história que se seguiu é bastante conhecida.

Em um artigo recente, o professor Boaventura de Sousa Santos analisa a relação entre capitalismo e democracia, assinalando que “o capitalismo só se sente seguro se é governado por quem tem o capital ou se identifica com suas ‘necessidades’”. No caminho contrário está a democracia, entendida, em sua definição mais perfeita, como um governo das maiorias “que não tem capital nem razões para identificar-se com as ‘necessidades’ do capitalismo”. Ademais, ressalta-se que as necessidades minoritárias do capital “colidem” com as necessidades das classes trabalhadoras, criando um conflito distributivo entre os que concentram a riqueza e os que reivindicam repartição mais equitativa dela.

Frente a isto, como é possível que a democracia sobreviva em sistemas dominados por uma minoria acumuladora de capital? Houve períodos em que esta simplesmente sucumbiu, quando as elites dominantes viram ameaçados seus interesses. Sem embargo, em grande parte do mundo instalou-se uma democracia liberal, utilizada – segundo argumenta o autor – para evitar que as maiorias pobres cheguem ao poder, recorrendo para isso a uma séria de dispositivos legais e legitimados, tais como restrições ao sufrágio, leis de lobby, consagração e supremacia do direito à propriedade privada e repressão da atividade política fora da institucionalidade, entre outros.

Sob o governo da Unidade Popular houve o golpe de Estado, 17 anos de ditadura cívico-militar e 24 de governos eleitos em normas democráticas. Pode a democracia chilena sobrepor-se aos interesses das minorias? Quem são os que tem governado o Chile e que interesses representam? Esta não é uma pergunta que se responde facilmente. Porém, é interessante esboçar uma aproximação para o caso chileno a luz de evidências recentes que parecem consenso e amplamente aceitas entre os diversos setores políticos.

Recentemente houve a apresentação do informe da Auditoria da Democracia no Chile, elaborado prlo PNUD, em que colaboraram distintos centros de pensamento (Centro de Estudos Públicos, Corporação de Estudos para a América Latina, Liberdade e Desenvolvimento, Projeto América, Instituto Liberdade, Fundação Jaime Guzmán e Fundação Chile 21). O informe, que analisa a democracia qualitativamente, reconhece que, em sua extensão formal, os princípios e ideais da democracia, tais como igualdade e controle popular do governo, seguem distantes.

Um importante elemento para esboçar uma resposta é saber quais figuras tem sido eleitas governantes. A supremacia dos partidos políticos em ocupar os cargos de eleição popular deixou pouco ou nenhum espaço a candidaturas independentes e, com elas, seus eleitores. Esta elitização do espaço para tomada de decisões aumenta com a baixa rotação e alternância de autoridades em seus cargos, informa o relatório. No caso do congresso, o sistema eleitoral binominal contribuiu para representar exageradamente certos setores políticos em detrimento de outros, os processos eleitorais “desde o retorno à democracia têm sido altamente previsíveis e com escassa competência efetiva de percepção dos eleitores”. Importante acrescentar neste ponto que nas últimas eleições, partidos e movimentos políticos que haviam sido excluídos de cargos de representação popular ganharam espaço, incluindo na coalizão governante. Ainda que, salvo exceções, grande parte se deu por negociações e pactos com os grupos políticos dominantes.

A crise de representatividade é evidenciada também nos baixos níveis de confiança que as pessoas têm no congresso e nos partidos políticos; em 2013, somente 15% manifestou ter muita confiança nos partidos. Ainda maios se faz a distância ao contatarmos que a identificação das pessoas com os partidos é baixa: em 2013, só 35% dos entrevistados manifestou identificação com algum partido político. 51% deles crê que os partidos compõem-se de políticos que atuam em causa própria.

O paradoxo se materializa quando a cidadania se vê forçada a eleger e sentir-se representada por políticos os quais não se têm confiança nem identificação.

Estas percepções parecem ter correlação com o comportamento eleitoral. O relatório demonstra um nível cada vez menor de participação das pessoas em idade de voto desde 1989, quando 86% da população foi às urnas, cifra que chegou a 59,5% em 2009, e a 51,7% na eleição presidencial de 2013. Esta tendência não se reverteu com a institucionalização da inscrição automática e do voto voluntário, a realidade é que as eleições se dão com cada vez menos eleitores, o que deixa o poder de decisão nas mãos de uns poucos. Talvez a abertura do espaço a novos grupos políticos seja uma oportunidade de aumento da participação.

Diante disto, não é de se estranhar que o capital se sinta seguro em um sistema político que está longe do controle popular. Tampouco surpreende que a institucionalidade laboral, instaurada na época da ausência democrática, permaneceu inalterada, favorecendo os grandes interesses econômicos e a desigualdade social. Atualmente os trabalhadores têm praticamente nula capacidade de incidir sobre a distribuição da riqueza (baixa sindicalização, negociação coletiva) e, por isso, menos influência nas decisões que pesam sobre suas próprias condições de vida.

Os dados demonstram a existência de um espaço político que está cada vez mais distante do alcance popular, dominado por partidos cada vez mais alheios aos interesses da sociedade e que servem muito bem aos interesses de uma minoria. Essa é a pedra fundamental de onde devemos construir alternativas distintas.

Tradução: Rennan Martins