
Via Simongros
“Sabe porque penso que ele é utópico? De certa forma ele está certo. O capitalismo do século XXI realmente não funciona, mas neste ponto, ele generaliza e implicitamente, aceita, como bom Keynesiano, que o capitalismo é o último jogo da cidade; todas as alternativas foram um fiasco, portanto devemos mantê-lo. É quase um social-democrata no estilo de Peter Mandelson, conhecemos também o lado escuro de Blair quando este afirmou que (em economia) somos todos Thatcheristas. Tudo que podemos fazer é em nível de distribuição; um pouco mais pra saúde, educação e blá blá. Então, o que digo é que ele me parece utópico pois simplesmente diz que o modo de produção deve permanecer o mesmo; vamos só mudar a distribuição, de modo nada original, aumentando radicalmente os impostos.
É aí que começam os problemas, onde estamos em utopia. Não digo que não devamos fazer isso. Digo somente que fazer isso e nada mais é impossível. Que é utopia. Temos o capitalismo atual, que basicamente é uma maquinaria que favorece o patrimonialismo e vamos somente taxar em 80% aqueles que têm bilhões. Não acho plausível. Imagine um governo fazendo isso, e Piketty ainda alega que esta medida precisa ser global, porque se você faz isso em um só país o capital se move para outro e blá blá. Este é outro aspecto utópico. Meu ponto é que se imaginamos um mundo onde é possível tomar estas medidas, então os problemas já estarão resolvidos. Então já temos uma total reorganização econômica, um poder global que efetivamente controla o capital, já vencemos.
Portanto, penso que ele trapaceia neste ponto, o verdadeiro problema é criar as condições para que esta medida aparentemente modesta sejam implementadas. E é por isto que, de novo, não sou contra ele, maravilhoso, taxemos em 80%. A questão que levanto é que fazemos isso, descobriremos em seguida que seremos levados a mudanças ainda mais profundas e por aí vai. Digo que isto é uma verdadeira utopia, e isso é o que Hegel quer dizer com pensamento abstrato, que é imaginar que possamos tomar uma medida sem mudar nada mais. Claro, seria ótimo termos o capitalismo, como toda sua dinâmica, mudando somente em nível de distribuição, mas isto é utópico. Não podemos fazer isso, porque uma mudança na redistribuição teria efeito sobre o modo de produção, sobre o capitalismo em si. Sustento que, por vezes, a utopia não é anti-pragmática, posar uma pretensa modesta também é uma grande utopia.”
Tradução: Rennan Martins

A maior parte da esquerda, em nível mundial, ficou desprovida de um modelo pelo qual lutar, após a queda da União Soviética e seu bloco. A grande imprensa também ajudou muito para firmar essa desilusão ao propagandear diuturnamente que o sonho havia definitivamente sido enterrado e que não haveria mesmo nenhuma alternativa ao capitalismo neoliberal, exceto, no máximo, alguma atenuação de seus males intrínsecos, através da aplicação pelos governos de alguns programas sociais, a chamada social-democracia. Mas a propaganda neoliberal conseguiu iludir as pessoas, no Ocidente, apenas por uns vinte e poucos anos. Enquanto isso, na prática, em inúmeros países um novo modelo foi nascendo e se firmando como altamente eficiente, modelo esse chamado pelos chineses de Socialismo de Mercado, onde a maior parte da produção é mantida com as empresas privadas, sob as leis do mercado, mas os bancos – o capital financeiro – são na maioria estatizados – passam ao controle do estado. Com o capital financeiro controlado pelo estado, esse passa a ter as principais rédeas da economia em mãos da sociedade, através do crédito. Não existe capitalismo sem o controle privado do capital financeiro! Portanto, é um outro sistema, não mais o capitalismo. A produção continua em mãos privadas, mas fortemente controlada pela sociedade – através do crédito. Nesse sistema, a sociedade domina coletivamente quase toda a produção, mas indiretamente (não diretamente como na antiga URSS), pelo controle do capital financeiro, fazendo uso das boas qualidades da economia de mercado em proveito de todos. China, Rússia, Índia, Vietnã, Irã, Iraque, Síria, toda a Ásia Central ex Soviética, Sri Lanka, entre outros, e até mesmo Brasil (em parte), Indonésia e Taiwan adotaram esse novo sistema econômico e com enorme sucesso, já quase ultrapassando as antigas potências ocidentais – neoliberais – em PIB – PPP. Não demorará para que a maior parte da esquerda ocidental consiga observar esse novo modelo e venha a implantá-lo também em seus países, abarcando todo o planeta, consumando a grande revolução que derrocará o capitalismo, conforme previsto por Marx.