
Edição por Rennan Martins
Marina Silva e sua Rede são um todo peculiar nas eleições presidenciais. Levantando a admirada bandeira da sustentabilidade, mas flertando em concomitante com o fundamentalismo evangélico, Marina tem se mostrado uma estrategista de alto nível.
A aura de renovação que seu discurso produz é um inegável ativo político. O que não se sabe é se a “nova política” sai da retórica, tendo em vista que após uma postura firme em não “se misturar” aos antigos partidos, testemunhamos a aliança com o PSB de Eduardo Campos, onde detectamos uma veia coronelista num exame de sua gestão em Pernambuco.
No último dia 11, Carta Maior publicou um artigo intitulado “Marina Silva, jogadora de pôquer”, assinado por Wanderley Guilherme dos Santos. Este moveu um debate interessante por parte dos colaboradores Gustavo Santos, do BNDES, André Luís, do mesmo órgão e Paulo Timm, ex-técnico do Ipea, todos economistas.
Visando introduzir a ideia principal, deixo um trecho do artigo incitador e a discussão em seguida.
Confira:
Marina Silva é a única candidata que nada tem a perder nesta eleição. Disputando a vice-presidência não será dela automaticamente a derrota de Eduardo Campos. Mas em propaganda futura seus seguidores creditarão a seu prestígio todos os votos dados a ele. Atribuindo o fraco desempenho de seu candidato nas pesquisas ao ainda pouco conhecimento do eleitorado de que Marina é a vice, a própria campanha do PSB tece o tapete para ela no futuro. Marina Silva, com bastante malícia, declarou em 2010 que perdeu ganhando. De fato, tornou-se nacionalmente reconhecida como candidata competitiva e com a bolsa entupida por cerca de 20 milhões de votos. Nada garante que repita o feito em 2014, nem que, nos votos finais a Eduardo Campos, a maioria se deva a ela e não a ele. Nenhum resultado de pesquisa, neste momento, pode assegurar muita coisa a respeito de nenhum candidato, exceto que, seja o resultado qual for, Marina Silva nada tem a perder.
Gustavo Santos – Essa análise é interessante. A Marina seria o chupa-cabra do Eduardo. De fato, o Eduardo entrou em uma sinuca de bico comunicativa muito difícil de sair. Não dá para atender os financiadores de campanha do setor bancário, conseguir apoio nos descontentes do Lulismo à direta e esquerda, incorporar o discurso radical e rígido da Marina e ainda se diferenciar do Aécio Neves sem se parecer com a Dilma.
Acho que o Eduardo vai ficar torcendo por um tropeço monumental de um dos dois adversários (Aécio provavelmente). Se isso não acontecer, ele deverá começar a abrandar o discurso pensando no futuro da carreira, ou dar uma guinada para a esquerda (o que me parece impossível), porque a guinada para a direita ficou congestionada.
Mas a aposta mesmo será um erro do Aécio ou pesquisas desfavoráveis ao mineiro no segundo turno. Essa é toda a aposta dele. Enquanto isso não ocorre, ele vai tentar tatear algum discurso minimamente coerente com os olhos vendados em uma loja de cristais.
André Luís – A não ser que ele se apresente como candidato da mudança, ou algo novo, que diferencie do Aécio ou da Dilma, esta é a estratégia de Eduardo e sua única chance. Lembro que as pesquisas têm apontado que a população quer ou mudança no governo (o que não quer dizer volta aos anos 90), ou volta ao governo Lula, Eduardo pode ocupar estes dois espaços, vai depender de seus estrategistas, e de convencer aos eleitores e a seu partido.
Num segundo turno, ele é mais ameaça do que Aécio, pois participou do governo Lula e das 3 reeleições do PT, além de ter uma base sólida no nordeste e com chance de agradar a classe média do resto do país. Vai depender de como será feita sua campanha.
Paulo Timm – Um amigo (americano) meu me disse, certa vez:
-Adoro o Brasil porque aqui tudo é possível. Principalmente na política. Tem sempre algo novo, imprevisível.
A propósito:
E, se na última hora o Eduardo Campos resolver colocar a Marina como candidata?
Como dizia o Tolstoi em Anna Karenina:
Cada família infeliz tem seu jeito próprio de ser infeliz.
Eu digo:
Gratidão e suicídio político não existem no dicionário de candidatos ambiciosos. E Eduardo Campos é um deles.
