
Editorial O Globo, de 07/09/1963
Por Rennan Martins
Entra ano, sai ano. Vivemos uma ditadura e tornamos à democracia. No palácio do planalto estiveram Sarney, Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Diversas abordagens político-econômicas foram praticadas neste período. Mas algo permaneceu estático, tão nocivo quanto há meio século. Falo da postura da Globo.
Este conglomerado de comunicação, a despeito do cínico editorial em que confessa ter sido um “erro” o apoio ao golpe militar, continua utilizando de recursos vis contra seus desafetos, insiste, sob a toga da imparcialidade, em divulgar inverdades, omitir e manipular a realidade que descreve à população.
Ao lermos O Globo e seus colegas de coral, temos certeza que a estatal está com os dias contados, quebrada, sem perspectivas. Isto é também o que ouço dos colegas de baixo senso crítico que delegam o pensamento a outros. O que lemos é, por exemplo, que o lucro da Petrobras caiu 30%, parando por aí. Nenhuma menção a queda de 23% da BP, e 44% da Shell. Apresentar a conjuntura é inconveniente.
Silêncio também quanto a receita de 304,890 bi, sobre o lucro líquido de 23,570 bilhões no ano passado. Quanto ao valor de mercado de 209,151 bilhões de reais. Esta é a empresa falida caros leitores.
Não quero neste texto advogar o fim das apurações quanto a eventuais falcatruas. Sustento, na realidade, que o bombardeio midiático tem fins diversos a proteção do patrimônio brasileiro. Esta campanha é uma guerra político-econômica, que tem como entusiastas a oposição desesperada e o cartel internacional do petróleo.
Voltemos agora, para o propósito declarado no título deste artigo, que é demonstrar que O Globo mantêm a mesma atitude no cenário político que a do período pré-golpe. Pra isto pincei dois editoriais da publicação, um datado de 13/05/2014 e intitulado “Refinaria é um monumento ao uso político da Petrobras”, o outro, datado de 07/09/1963, de título “Salve-se a Petrobras!”.
Os dois editoriais têm semelhanças inegáveis, mudando somente o nível do descaramento e o uso de reciclagem de termos que intentam passar a mesma mensagem.
Enquanto em 63 declaravam que a petroleira fora reduzida a um “órgão atuante na comunização do Brasil”, hoje descrevem um suposto “jogo fisiológico do aparelhamento, por motivos político-ideológicos”.
Há 50 anos falavam sobre o General Albino Silva “cercado de comunistas por todos os lados”, nove dias atrás a mesma voz comenta o “controle de uma falange sindical do lulopetismo” sobre a empresa.
No passado lemos sobre “índices técnicos e financeiros”, “atualmente, dos mais baixos”. O discurso reciclado do último dia 13 discorre sobre “bilhões de reais de perdas”.
Meio século é o tempo entre um discurso, entre um documento e outro. Não precisamos olhar pra trás pra lembrar do resultado do uníssono midiático à época.
Continuaremos permitindo esta atuação oligárquica e golpista por parte da grande mídia?
