
Edição por Rennan Martins
Estamos cada vez mais próximos da copa e das eleições e o acirramento é visível. Enquanto as redes borbulham de militantes, fanpages e até mesmo robôs fazendo campanha, assistimos a mídia atuar cada vez mais partidariamente em defesa de interesses alheios à população brasileira.
Soubemos nos últimos dias da investida tucana sobre a Dilma Bolada, da Folha de São Paulo cada vez mais tendenciosa, principalmente quando o assunto é Haddad. Não praticam mais jornalismo, mas propaganda.
Este contexto moveu nossos colaboradores, todos economistas, a darem suas análises. Bruno Galvão, funcionário do BNDES, Atenágoras Oliveira, professor da UFPE, Gustavo Santos e André Almeida, também do BNDES.
Confira as colocações:
Bruno Galvão – Está muito forte o clima anti-PT e anti-Dilma no Brasil. O sentimento de cansaço com esse governo, com a incompetência e autoritarismo e o bombardeio de notícia de corrupção, à estagnação na renda e má qualidade dos serviços públicos e alto custo de vida. O fato do dólar estar barato e ter permitido que as pessoas fossem para o exterior só piorou essa situação. A maioria das pessoas voltam do exterior reclamando do Brasil e dos brasileiros. O pessimismo com o Brasil tem me surpreendido. Quinta-feira ouvi um cara dizendo que nunca detestou tanto o Brasil quanto agora.
Eu lembro nas eleições de 2006 e conversava com taxista do Rio e a maioria era a favor do Lula, hoje em dia, eu nem tenho conversado, mas impressão minha é que a maioria está contra. As pesquisas falam que 74% da população querem mudança, índice parecido com 2002. E converso com as pessoas sobre o que tem sentido no ar: e as pessoas falam a mesma coisa. Deve-se lembrar que na época da eleição a mídia soltará alguma coisa para bombardear a Dilma. Em 2010, a mídia contratou em fevereiro um cara recém saído da prisão para ir conversar com a Erenice Guerra e pedir um empréstimo absurdo de bilhões de reais ao BNDES (obviamente, seria negado, como realmente foi porque o BNDES exige 130% de garantia e o cara era um doleiro qualquer). Mas, a versão da mídia foi que o BNDES não concedeu o empréstimo porque o honestíssimo cara (recém saído da prisão) não aceitou pagar o suborno que o PT pediu. Colou? Colou. A Dilma que estava 20 pontos em termos de votos válidos na frente dos outros candidatos ficou 6 pontos atrás. O mesmo ocorreu em 2006, um tradicional aliado do Serra (o Vedoim) ofereceu uma denúncia contra ele por R$ 1 milhão de reais (foi descoberto) e usado muito isso na campanha. Tem interessante reportagem da Carta Capital sobre essa armação. Eu lembro que eu li Reinaldo Azevedo na época e que um tempo antes do caso estourar ele já tinha avisado que um caso muito sujo do PT ia estourar.
http://www.cartacapital.com.br/politica/aloprados-e-aloprados
Deu resultado? O Lula antes desse escândalo estava 13 pontos na frente em termos de votos válidos (ficou 6 pontos atrás). O problema para a imprensa na época foi que as pessoas cansaram e voltaram para o Lula. É impressionante, que uma semana depois do primeiro turno, o Datafolha perguntou para as pessoas quem que ela votaram e as pessoas falaram que votaram no Lula (e acreditavam nisso). Mas, no calor da emoção das denúncias, pessoas que queriam votar no Lula acabaram votando no Alckmin, mas em seguida passaram pro Lula (e acabaram até esquecendo que votaram no Alckmin e não no Lula). Acabei de olhar por exemplo que na pesquisa do Datafolha do dia 10 de outubro 52% das pessoas (em termos de votos válidos) declararam que votaram no Lula e 38% no Alckmin, sendo que o resultado da eleição tinha sido 47% e 41%. Eu lembro que isso ocorria em todas as pesquisas da época, uma proporção maior de pessoas declaravam que votaram no Lula do que realmente ele tinha recebido no primeiro turno. Eu pensava será que era um as pesquisas estavam com um viés amostral? O acerto do segundo turno parece demonstrar que não.
Só que essa eleição vai ser diferente. Provavelmente o segundo turno está garantido, então acho que o bombardeio contra a Dilma será no final do segundo turno. E acho que a Dilma não vai ter essa gordura necessária para vencer a eleição. Por isso acho que ela perderá. São 60 bilhões de barris de petróleo (US$ 6 trilhões para ser entregue). Vocês acham que está com tudo armadinho. Aécio já disse que quer mudar a lei de partilha para concessão. Acho que provavelmente a Dilma perde. Se realmente eu continuar com esse prognostico, vou começar fazer campanha para Eduardo Campos. Aécio é certo que vai entregar o Brasil, o Campos é incerto. Antes o incerto que o certo.
Atenágoras Oliveira – Entregar o pré-sal? Tipo assim… “Campo de Libra”? Entregar o BB? Tipo aumentar para 30% o percentual permitido de venda de ações a estrangeiros? Favorecer os banqueiros? Dispor instalações de Hospitais Públicos Universitários para planos privados de saúde? Privatizar a gestão e os lucros dos aeroportos? Manter o país entre as mais altas taxas de juros do mundo, com os bancos federais respaldando e não concorrendo contra as taxas do setor privado? Etc. O programa, na essência, é o mesmo, muda apenas o formato.
Posso até concordar que Dilma não seja o Plano A do grande capital no Brasil. Nem mesmo o Plano B, mas continua sendo um válido Plano C para o neoliberalismo no Brasil.
Não sou bom de cenários eleitorais, mas tenho direito a dar meu “chute”. Tenho forte impressão que Dilma deve ganhar estas eleições. Não por nada, mas exatamente por ser uma candidatura liberal “moderada” contra duas candidaturas liberais mais ortodoxas e extremistas, em um ambiente político de forte insatisfação acumulada, situação para a qual os discursos do PSDB e PSB-Rede não funcionam. Acho que Dilma ganha não tanto pelos méritos do seu governo, mas pelos defeitos de seus opositores de direita. Também acho que os 3 candidatos de esquerda (PSOL, PSTU e PCB) aumentarão seus votos em relação a 2010 – mas a estrada para a hegemonia no campo dos movimentos populares é ainda muito, muito longa. Mesmo juntos, os 3 partidos de esquerda ainda não serão uma opção viável. Paciência. O PT, quando era de esquerda, soube enfrentar um tempo difícil de construção política. O fundamental é não se perder no caminho.
Quanto a pressão da mídia. Ela é muito eficaz para empurrar o PT ainda mais para direita.
Gustavo Santos – Bruno. Sua análise é muito interessante.
Em suma há alto poder de alteração do voto no curto prazo em razão de escândalos. Ou não soa também um pouco de fraude eleitoral?
Não importa. O que importa é que haverá um golpe midiático na última semana. Concordo.
Mas você está subestimando a capacidade de reação do PT assim como a rejeição ao Aécio.
Acho que o Eduardo sim pode ser aproveitar melhor do golpe mediático. E ele também vai doar o petróleo. Então sugiro não fazer campanha para o Eduardo.
André Luís – Ou então tentar apoiar o Eduardo para tirar o Aécio do segundo turno, pelo menos vamos nos livrar do PSDB por mais 4 anos. Acho que a Dilma continua a ser a favorita. Afinal ainda tem a máquina (e isso no Brasil é uma vantagem estrondosa), mas recentemente o Professor Francisco de Oliveira deu uma entrevista ao programa “Roda Viva” em que ele relembrou de uma frase do Brizola para o PT e que hoje se aplica ao PSDB e ao DEM: “Esta é a oposição que o governo gosta!”
Retificação: Inicialmente havia feito um comentário em relação à greve dos rodoviários em São Paulo, porém, tomei conhecimento de algumas informações que me deixaram em dúvida quanto a este movimento de maneira que preferi suprimir o trecho e, eventualmente, me pronunciar sobre esta greve posteriormente.
