
Telegraph
Por Paul Krugman, via NYT
Na quarta-feira da semana passada, estava eu fechando o curso que ministrei durante todo o semestre: “A Grande Recessão: Causas e Consequências.” (Os slides da aula estão disponíveis em meu blog) E, enquanto ensinar foi divertido, flagrei-me no fim das contas agonizando numa dúvida: Porque, no momento em que foi mais necessário, e quando poderíamos ter feito o melhor, a economia quebrou?
Não quero com isso alegar que a economia foi inútil aos tomadores de decisão. Pelo contrário, a disciplina teve muito a oferecer. Também é verdade que poucos economistas viram a crise chegando – principalmente, a meu ver, porque poucos se deram conta do quão frágil o nosso sistema financeiro desregulado se tornou, e quão vulneráveis as famílias se tornaram quando abruptamente se viram com dívidas exorbitantes – o segredo que não se comenta nestes últimos anos, desde a queda do Lehman Brothers é: os livros de macroeconomia básica funcionam muito bem.
Porém, os políticos e líderes ignoraram tanto os livros quanto as lições da história. O resultado disto é a vasta catástrofe humana e econômica atual, com trilhões de dólares de potencial produtivo sendo desperdiçados e milhões de famílias vivendo pessimamente, sem nenhuma razão para isso.
Em que sentido a economia funcionou bem? Os economistas que levaram seus livros a sério rapidamente diagnosticaram a natureza de nossa doença econômica: Nós sofríamos de demanda inadequada. A crise financeira e imobiliária criou um ambiente em que todos estavam tentando gastar mais, porém, meu gasto é o seu salário e o seu gasto é o meu salário, por isso, com todos tentando cortar gastos simultaneamente houve uma queda generalizada nas remunerações. E nós sabemos que economias em baixa funcionam diferente das economias que estao próximas ou em pleno emprego.
Por exemplo, diversas pessoas de presumível conhecimento – banqueiros, líderes de negócios, funcionários do governo – alertaram que os deficits públicos resultariam em aumentos da inflação e dos juros. Os economistas, por sua vez, sabem que estes avisos fazem sentido sob circunstâncias normais, que estão longe de ser as condições que enfrentamos de fato. Os juros e inflação permaneceram baixos.
Temos de acrescentar também o fato de que o diagnóstico da demanda inadequada tem implicações políticas claras: enquanto a falta de demanda permanecer sendo o problema, viveremos num mundo em que as regras usuais não se aplicam. Em termos mais claros, não estamos em condições de nos preocupar com deficits ou cortes orçamentais, que só podem potencializar a depressão. Quando John Boehner, então minoria no congresso, declarou em 2009, que as famílias americanas deveriam apertar seus cintos, que o governo também o deveria, pessoas como eu estranharam; suas colocações evidenciaram sua ignorância econômica. Nós precisávamos de mais gastos, não menos, para assim ajustar o gap de demanda insuficiente.
No entanto, poucos meses depois, o presidente Obama começou a dizer exatamente o mesmo. Mais ainda, estas declarações tornaram-se as principais em seus discursos. E isto não foi só retórica. Desde 2010, o que assistimos é o declínio dos gastos discricionários e uma queda dos deficits públicos sem precedentes, com isso obtivemos crescimento anêmico e desemprego numa escala só comparável a da década de 30.
Então, porque não usamos o conhecimento econômico que já temos?
Uma possível resposta é que a maioria das pessoas pensam ser as políticas de uma economia em depressão contraintuitivas. O que se vê são erros de interpretação causados por analogias das finanças públicas com as de uma família, as quais Obama repetiu de Boehner.
E até mesmo pessoas supostamente bem informadas paralisam perante a noção simples de que a falta de demanda pode causar tantos danos. Certamente, insistem, devemos ter problemas estruturas mais profundos, como a falta de qualificação do trabalhador, o que soa sério e sábio, as evidências porém mostram que isso é um completo engano.
Em seu turno, algumas facções políticas supõem que essas análises econômicas negativas servem aos seus objetivos. Obviamente, as tendências atuais servem aqueles que pretendem desmantelar a segurança social, promover o pânico frente ao deficit para assim cumprir sua agenda. Os que tem os objetivos citados são auxiliados pelos que chamo de intelectuais traidores – os economistas que dizem exatamente o que os poderosos querem ouvir, como afirmar que o corte de gastos governamentais é expansivo, porque assim queremos, ou que a dívida governamental, de alguma forma, tem efeitos terríveis no crescimento econômico, mesmo que os juros permaneçam baixo.
Sejam quais for as razões que levaram a economia básica ser posta de lado, os resultados são bem trágicos. A maioria das perdas e sofrimentos os quais sofrem as economias ocidentais nos últimos cinco anos são desnecessários. Nós temos, há muito tempo, o conhecimento e ferramentas necessárias para trazer de volta o pleno emprego. Não obstante, aqueles que tomam as decisões continuam encontrando diversas razões para não fazer a coisa certa.
Tradução: Rennan Martins

A economia de mercado depende obviamente da existência e da força de um mercado comprador de produtos. Com a crescente concentração de rendas em andamento nos EUA e União Européia, o mercado vem sofrendo de crescente queda de demanda. A renda crescentemente concentrada reduz o consumo e a demanda por produtos, pois a pequena minoria bilionária não tem como gastar todo o dinheiro que ganha, jogando a maior parte na especulação financeira. Quem cria demanda e, portanto, crescimento nas economias de mercado são as classes média e mais pobre, porquê são obrigados a gastar quase tudo que ganham para atender suas necessidades vitais. A causa da crise atual norte-americana e européia é sim redução de demanda e essa, por sua vez, é causada pela concentração crescente de rendas e riquezas (e poder) em mãos do grande capital financeiro. Desse modo, é o capital matando a própria fonte de sua sobrevivência, o mercado. Curiosamente a grave crise se mostra muitíssimo menor nos países que possuem sistema financeiro predominantemente estatal, como a China, Índia, Vietnã, Brasil (em parte), bem como na África (que vem crescendo forte a base de comércio e investimentos chineses).