
Richard Nixon e Giovani Benelli, subsecretário de Estado do Vaticano, 2 de março de 1969 (Corbis Images/Reprodução)
Por Rennan Martins
Um telegrama enviado por cabos submarinos ao secretário de Estado norte-americano, datado do dia 18 de outubro de 1973, expressa as preocupações do subsecretário de Estado do Vaticano, Giovanni Benelli e do próprio papa, na época Paulo VI, com a campanha promovida pela esquerda para deslegitimar o golpe de Estado ocorrido no dia 11 do mês anterior.
Este golpe militar, promovido com a liderança de Augusto Pinochet, foi largamente financiado e apoiado pelos EUA e derrubou o regime democraticamente eleito do presidente Salvador Allende. Assim como hoje o papa Francisco é visto como progressista, Paulo VI também o era. Benelli ganhou a alcunha de “Kissinger do Vaticano” pelo autoritarismo e agressividade com que conduzia a política externa do Vaticano.
As declarações contidas no documento transparecem cinismo. A despeito da consciência de toda interferência externa no Chile, Benelli assim interpreta os acontecimentos: “As forças de esquerda estancaram perdas significativas convencendo o mundo que a queda de Allende se deu exclusivamente pelas forças fascistas e estrangeiras e não pela fraqueza das políticas de Allende, como realmente foi.”
Estas informações foram divulgadas primeiramente por La Reppublica e Publico, numa campanha conjunta com o Wikileaks.
O chefe da diplomacia avançou ainda mais nas considerações, prevendo que um Golpe de Estado inevitavelmente causa mortes. A ditadura que fez desaparecer mais de 3. 000 pessoas em sua vigência, é vista pela diplomacia do Vaticano como “represálias infundadas” veiculadas pela mídia. Até mesmo o altamente conservador articulista da Veja, Reinaldo Azevedo, considerou que a tortura no Chile era prática comum.
Benelli observa que grande número dos cardeais conservadores está incapaz de ver a situação de forma “objetiva” e que a “propaganda esquerdista” criaram uma situação em que o Papa seria atacado caso “defenda a verdade”. O alinhamento de Benelli com os Estados Unidos era tão significativo que em 1969 este recebeu o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, aos pés do helicóptero, na praça São Pedro. A colaboração nos golpes realizados na América Latina foi estreita entre estes países.
O documento finaliza afirmando que o Vaticano está convencido de que Cuba armou os populares, que isto foi a causa maior de muitas mortes ocorridas e tomando partido, alegando que o Papa não receberá Isabel Allende. Agências internacionais informam que Paulo VI será beatificado em outubro, ele nunca discursou em defesa das vítimas da junta militar.
(Baseado em artigo original de The Clinic, com informações de Wikileaks e Publico.es)
