Arquivo mensais:abril 2014

A indústria da difamação

Por Paulo Metri, em seu blog

Em um salão amplo, em torno de uma grande mesa de reunião, será tomada a decisão da pauta do próximo número de um dos maiores periódicos do país. O editor chefe, os chefes de editorias setoriais e, o que é incomum para este tipo de reunião, o próprio dono da editora estão presentes. Em geral, ele recebe a pauta gerada nestas reuniões e ainda interfere nas decisões. Mas, desta vez, ele está interessado em mostrar ao seu filho, um dos mais recentes diplomados em jornalismo, como funciona o negócio da família. Por isso, trouxe o rebento para a reunião. O editor chefe está com a tarefa, determinada pelo dono, de presidir a reunião e com a recomendação de esquecer a sua presença. Assim, falando mais alto, ele abafa o bate papo do grupo e inicia a reunião.

Editor chefe – Quero sugestões para a matéria principal e para as demais matérias. Vamos começar com a matéria principal, com direito à chamada da capa.

Jornalista 1 – Pasadena, depoimentos, Petrobras, Paulo Roberto Costa ….

Editor chefe – Para matéria principal, não. Precisamos de um furo, algo novo ou de uma nova declaração sobre um tema antigo.

Todo mundo fica em silêncio, até que uma jornalista, que só tem dois meses na editora, pede para falar.

Jornalista 2 – Eu tenho a informação de uma fonte que outro diretor da Petrobras também está envolvido em superfaturamentos, negócios não bem explicados etc.

Editor chefe – É algum dos que nós já fizemos matérias?

Jornalista 2 – Não. É outro.

Editor chefe – É coisa séria?

Jornalista 2 – Minha fonte foi apresentada por um amigo, que diz que ela é séria. Mas, até agora, não tive nenhuma confirmação.

Editor chefe – Então, vá à luta e descubra o máximo que puder. Antes da edição do novo número, vamos ter mais uma reunião e, sempre que precisar, fale comigo.

Jornalista 2 – Só tenho medo de não conseguir comprovar as denúncias. Aliás, têm muitas pessoas que dizem exatamente o contrário. Dizem que quem conhece o tal diretor não pode acreditar que as acusações sejam verdadeiras.

A jornalista 2 não sabe ainda como as coisas funcionam nesta editora. Por isso, o editor chefe olha para o dono, esboça um ligeiro sorriso e responde para a jornalista.

Editor chefe – Busque a história e as comprovações. Mas, mesmo que você não consiga comprovar, fale comigo, porque há chance de se utilizar o material.

Jornalista 2 – Como assim?

Editor chefe – Se só faltar um link óbvio, você não precisa de comprovação. A própria obviedade é a validação da informação. Além disso, muitas vezes, o leitor quer ouvir mais versões do que realidades. E temos, também, que satisfazer o leitor!

Jornalista 2 – Mas, tem a chance de grupos com interesses na empresa estarem querendo “queimar” este diretor e, por isso, estariam “plantando” estas notícias falsas na nossa publicação.

Editor chefe – Colha todo o material e, depois, venha na minha sala com ele.

Neste ponto, o filho do dono se dirige ao pai, falando baixinho.

Filho – Agir como ele propõe não pode resultar em um processo futuro de difamação, que poderá trazer prejuízos?

Em ato incontinente, o dono se levanta e diz para o grupo continuar com a reunião, mas ele terá que se ausentar, devido a tarefas inadiáveis. A seguir, sai da sala, acompanhado do filho. Chegando a sua sala, dirige a palavra para o filho.

Dono – Você sabe qual o negócio mais rentável nesta empresa?

Filho – Edição das nossas publicações, incluindo o carro-chefe, em cuja reunião de pauta, nós estávamos?

Dono – Não!

Filho – A publicação de livros?

Dono – Também não. Você não vai descobrir. É o lançamento de acusações, verdadeiras ou não. Através delas, há a possibilidade de se ganhar dinheiro de várias formas. Em primeiro lugar, porque a venda da publicação com denúncias é sempre alta. Depois, os grupos econômicos por trás do corrupto, beneficiários das suas falcatruas, ou seja, os corruptores, ficam propensos a abrir os cofres para que paremos a linha de investigação. Muitas vezes, estes grupos ficam sabendo, antecipadamente, as nossas investigações e …

Filho – Como podem?

Dono – Eles têm espiões na nossa redação. E, aí, eles oferecem valores consideráveis para as investigações serem paralisadas.

Filho – E nós aceitamos?

Dono – Se o valor oferecido garantir uma boa lucratividade e dependendo, também, da inconsistência das acusações que temos, sim!

O filho fica pensativo. O pai continua com a sua explicação.

Dono – Têm as encomendas de calúnia para “queimar” adversários políticos. Por fim, os governos, às vezes, ficam sabendo antecipadamente também, e oferecem, por exemplo, a compra de publicidade para não publicarmos determinadas denúncias.

Filho – Isto não seria proibido?

Dono – É. Mas, é muito difícil de ser detectado.

Filho – E o caso que lhe perguntei na reunião? São publicadas acusações não comprovadas e o cidadão, que se julga difamado, vai à Justiça. Se esta der ganho de causa ao reclamante, não vai nos dar prejuízo?

Dono – Têm dois fatores a se levar em consideração. O primeiro é que ganhar uma causa na Justiça não depende, necessariamente, de se estar fazendo justiça. Se você está sendo representado por bons advogados, suas chances de ganhar aumentam muito. Por isso, nós trabalhamos com um dos melhores escritórios existentes. O outro ponto a considerar é que, mesmo que percamos a causa, o total das penalidades ainda pode ser menor que o lucro gerado pela edição caluniosa. E o pagamento das penalidades só acontece anos depois da receita do fato calunioso ter entrado no nosso caixa.

O filho continua pensativo e o pai complementa da seguinte forma.

Dono – Eu prefiro trabalhar com fatos verdadeiros, até porque com eles você não é desmascarado e não tem a chance de perder a credibilidade. Mas, o nosso negócio é o escândalo. E, às vezes, os escândalos reais ficam escassos.

Filho – E os difamados injustamente? Como ficam?

Dono – São acidentes de percurso. Não há nada pessoal contra eles.

A austeridade grega causou mais de 500 suicídios entre os homens

Manifestantes, funcionários do setor público, se chocam com a polícia durante um ato contra a austeridade em frente aos Ministério das Finanças. Athenas 28/02/2014 (Reuters/Reprodução)

Via RT

Os cortes orçamentários na Grécia causaram mais de 500 suicídios entre os homens desde o início da implementação de acordo com novo estudo divulgado. A pesquisa encontrou correlação positiva entre a austeridade e os índices de suicídio, enquanto a ligação com outros fatores não foi provada.

O estudo possui 30 páginas e é intitulado “The Impact of Fiscal Austerity on Suicide: On The Empirics of a Modern Greek Tragedy” foi publicado na Social Science and Medicine Journal, e é assinado por Nikolaos Antonakakis e Alan Collins da Universidade de Portsmouth.

Os índices de suicídio na Grécia (e outros países europeus) tiveram um notável aumento após a recessão global de 2008 e da crise de soberania da dívida europeia de 2009,” assinala a introdução do estudo.

O decréscimo de 1% dos gastos governamentais resultou numa subida de 0,43% nos suicídios entre os homens de acordo com este estudo. Entre 2009 e 2010 ocorreram 551 mortes “de responsabilidade única da austeridade fiscal,” constatou a publicação.

Índices de suicídio por grupos de idade e gênero na Grécia, 1968-2009 (OMS/Reprodução)

 

Isto representa quase uma pessoa por dia. Considerando que em 2010 ocorreram em torno de dois suicídios por dia na Grécia, há uma subida de 50% causada pela austeridade,” disse Nikolaos Antonakakis ao The Guardian.

Antonakakis, que é grego, disse que foi motivado a examinar a ligação entre austeridade e índices de suicídio após assistir reportagens jornalísticas e ouvir histórias de conhecidos sobre amigos que suicidaram.
Enquanto estudos que atentam na ligação entre saúde e o impacto do encolhimento da atividade econômica já foram realizados, ainda não haviam sido realizados estudos ligando a austeridade à saúde precária e ao suicídio.

Nosso experimento encontrou indícios que sugerem que a austeridade fiscal, os altos níveis de desemprego, o encolhimento da atividade econômica e índices de fertilidade reduzida levaram a acréscimos significativos nos índices de suicídio de maneira geral na Grécia, enquanto o aumento do consumo de álcool e do índice de divórcios não demonstraram qualquer influência significante nos índices de suicídio,” discorreu o estudo.
Antonakakis e Collins consideram em expandir este trabalho examinando os efeitos da austeridade econômica em outros países da zona do euro que foram muito impactados pela crise. Este trabalho pode ser realizado na Espanha, Portugal, Itália e Irlanda.

Estas constatações têm fortes implicações aos políticos e as agências de saúde,” disse Antonakakis. “Nós falamos muito sobre o efeito multiplicados da austeridade, sobre o que ele faz com o PIB. Mas e quanto a saúde?” questionou.

O estudo identificou também diferenças de gênero e idade, homens de idade entre 45 à 89 anos são os mais expostos aos efeitos por conta do corte de salários e pensões. Não houve ligação direta entre o suicídio feminino e a austeridade.

A especificação de gênero e idade que encontramos pode ajudar agências de saúde na hora de considerar seus objetivos,” disse Antonakakis.

Tradução: Rennan Martins

 

“A Paixão de Cláudia”: ato relembra morte de mulher arrastada por PMs do Rio

Concentração do ato será na Igreja Nossa Senhora da Consolação, em São Paulo; dos três policiais presos pela morte da auxiliar de serviços gerais, dois já responderam por homicídio

Da Redação, via Brasil de Fato

Um ato público, político e cultural, batizado de “A Paixão de Cláudia”, em referência à “Paixão de Cristo”, na Semana Santa, homenageará Cláudia da Silva Ferreira, 38, alvejada à tiros por policiais militares do Rio de Janeiro no último 16 de março. Após ter sido baleada, Cláudia ainda foi arrastada, com vida, por uma viatura da PM por cerca de 350 metros. Porém, chegou ao hospital morta e com partes de seu corpo em carne viva.

A concentração do ato será na Igreja Nossa Senhora da Consolação, em São Paulo, nesta sexta-feira (18), às 14 horas. Ao som de atabaques, a caminhada prosseguirá até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada no Largo do Paissandu.

Nos reuniremos para celebrar a mãe preta do Brasil, as famílias negras, as famílias coloridas, o direito à vida, ao respeito ao cidadão, à cidadã, aos acessos básicos ao direito de ir e vir, à saúde, à educação, à moradia, ao fim dessa condição de cidadania de segunda classe a qual está relegada parte expressiva da população brasileira”, afirma Renata Felinto, uma das organizadoras do evento.

Negra, mãe de quatro filhos biológicos e educadora de quatro sobrinhos, a tragédia de Cláudia fortaleceu a ocorrência de debates e reflexões sobre a relação que existe hoje entre a Polícia, os criminosos e as comunidades nas favelas.

O ato está sendo organizado pela empresa Cubo Preto Ensino de Arte e Cultura Ltda., organizações não governamentais, meios de comunicação, artistas e outros interessados. Os organizadores pedem que a população compareça ao evento vestida com roupas brancas ou pretas, e traga rosas vermelhas.

A versão e os fatos: lágrimas que alimentam meu ódio

Por Mauro Iasi, ao jovem Jefferson, via Boitempo
O jovem Jefferson Rodrigues da Silva, de dezoito anos, foi morto a tiros por fuzileiros navais no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Na versão oficial, trocou tiros com os soldados que responderam ao fogo causando a baixa.

A Polícia Militar e o Exército ficam sempre muito bravos quando se coloca em dúvida as versões oficiais. Mas, vejam bem, outras versões oficiais que nos foram apresentadas: Amarildo, pedreiro sequestrado, torturado e assassinado por policiais militares da UPP da Rocinha, teria, na versão oficial, sido morto por traficantes; Claudia, atingida por dois disparos da polícia e que foi jogada na parte de trás de uma viatura e acabou sendo arrastada pelas ruas do Rio, teria sido apenas socorrida pela polícia; Giovanni, jovem que foi atingido por tiros pelas costas ao sair de casa de bermuda e boné quando a Polícia Militar entrava em seu bairro, e que, já caído, ao seu lado foi deixada uma quantidade de drogas e um revolver que não lhe pertencia, na versão das autoridades é um traficante que trocou tiros e tentou fugir; Herzog se enforcou em sua cela, mesmo que de uma altura na qual seria impossível tal ato; o golpe burguês e militar de 1964, que rompeu a Constituição e abriu décadas de terror e arbítrio, teria sido, na versão oficial, a reação das forças democráticas contra a provocação de comunistas que queriam fazer reformas de base, que ameaçavam a família, a religião e os bons costumes.

Há uma perversidade extra na guerra das versões. Jefferson tinha 18 anos, morava em uma enorme área abandonada desde sempre pelos poderes públicos, sem condições mínimas de saneamento, tampouco acesso a serviços essenciais, esquecida pelas verbas de infraestrutura, na qual impera o medo permanente, seja do crime organizado, seja do aparato policial corrupto e violento que vive em simbiose com a criminalidade e dela se alimenta.

O fato de Jefferson ser um trabalhador – alvejado como um efeito colateral (como tantos já foram) e agora tornado criminoso para ocultar sua morte – ou um jovem que naquela situação descrita vivia dos rendimentos da lucrativa atividade do tráfico e estava armado defendendo-se da invasão militar, não muda a tragédia do caso. Para boa parte da juventude estas são as opções: sobreviver em precárias condições e morrer de “bala perdida”, ou resistir armado e morrer em conflito com o aparato repressivo. Muitos decidem viver menos e viver melhor com os ganhos do tráfico, o prestígio e poder de, pelo menos, estar armado.

O BOPE quando subia os morros com o malfadado “caveirão” tocava em seus alto-falantes uma mensagem que dizia: “em bandido a gente atira com fuzil, em trabalhador é tapa na cara”. É compreensível que alguns decidam por estar, pelo menos armados, ao invés de tomar tapa na cara, levantar as mãos e virar para o muro enquanto são revistados.

Ali mesmo, no Complexo da Maré, que margeia a Linha Vermelha que leva os turistas do Galeão privatizado até a cidade maravilhosa, o poder público tomou uma iniciativa paradigmática. Não foram obras de infraestrutura, de implantação de serviços, ou mesmo de segurança pública (de uma verdadeira segurança… pública), do desenvolvimento dos serviços básicos como saneamento, educação ou saúde; foi, ao invés disso, o levantamento de anteparas sobre a murada da via que cobriam a visão das favelas e nestes painéis foram colocadas reproduções de desenhos, muitos feitos por crianças, com uma imagem idealizada e idílica do Rio e da própria favela.

Parece que esta iniciativa representa bem uma concepção. Esconder o real com uma representação idealizada que oculta e inverte a realidade. Nós, marxistas, chamamos isso de ideologia.

Ocorre que o real oculto segue existindo e suas contradições um dia explodem, fica impossível escondê-las. Já tiramos do centro e jogamos para a periferia, já ocultamos por painéis, já amenizamos com políticas pontuais, fragmentárias e insuficientes, já tentamos calar as vozes dissidentes a golpes de balcão de projetos e ONGs, bem ou mal intencionadas, mas simplesmente cresce o trafico, a repressão policial, as mortes, os autos de resistência… Como nada parece dar certo, então, eles mandam o exército, seus tanques de guerra e seus soldados, treinados no Haiti – que, Caetano já alertava, é aqui.

Na Portaria Normativa n. 3.461 do Ministério da Defesa, que estabelece as chamadas Operações de garantia da Lei e da Ordem (OpGLOs), encontramos uma espécie de confissão quando afirma que tais operações “tem por objetivo a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio em situações de esgotamento dos instrumentos para isso previstos no art. 144 da Constituição ou em outras em que se presuma ser possível a perturbação da ordem” [grifos meus].

Ocorre que o “esgotamento” não é dos instrumentos previstos, é de toda a concepção de sociedade sobre a qual eles se assentam. Como é difícil encarar esta verdade, vamos nos enganando que um intensificação da mesma lógica pode um resolver nosso problema. É como se nós tivéssemos um grande vazamento de água em nossa casa, causado pelo rompimento de uma tubulação, e acreditássemos que o problema é o tamanho do balde e a qualidade do pano que usamos para enxugar o chão.

O arremedo de política social e gotas de empreendedorismo, assim como a presença repressiva militar não deu certo, ora, mandamos o BOPE, não deu certo, ora mandamos as Forças Armadas. E se não der certo? Vamos fazer campos de concentração e fornos crematórios? Para que nenhum cidadão de bem seja confundido com um “marginal” vamos cortar seus cabelos, obrigá-los a usar pijamas listrados e pregar estrelas amarelas em seus peitos?

A ordem capitalista já resolveu este dilema. A segregação espacial de classes já criou os guetos modernos, a herança escravista colonial já pintou de preto as classes perigosas facilitando o trabalho da polícia e das forças armadas. Às vezes se mata uma dona de casa, uma criança, um jovem trabalhador, mas são efeitos colaterais na sagrada “guerra” contra o crime em defesa da lei e da ordem. Ninguém mandou eles parecerem tanto com as “forças oponentes”, são pobres, pretos, andam provocativamente de bermuda e chinelo, moram nas favelas, olham para a polícia com medo ou, pior, com o que lhes sobra de dignidade.

Certo, nos sabemos que tem gente rica no comando, organizando e lucrando muito com o tráfico de drogas e armas. Quando aparece na televisão o “grande chefe” do tráfico, morando na favela, mesmo os mais convictos em sua ingenuidade não acreditam que por trás dele não tem algum figurão com conexões em altos escalões, contatos com a própria polícia e políticos influentes. Bom, então, porque não vemos os tanques cercando a Vieira Souto, os condomínios de luxo na Barra, o caveirão entrando no Congresso Nacional e aqueles deputados e senadores com a mão na parede e pernas abertas sendo revistados sob a mira de um fuzil?

É que eles andam de terno, parecem gente de bem, da nossa “melhor sociedade”. Guardamos a forma repressiva, violenta e arbitrária para nossa “pior sociedade”. Enquanto o lixo humano, os dejetos incômodos de uma sociedade de riquezas e ostentação de luxo, estiverem escondidos e em ordem, tudo bem. Mas, se quiserem ocupar um terreno no centro, abandonado por uma pirata (ou corsária, já que pratica pirataria oficialmente… Oi?) das telecomunicações, aí não, enfeia a cidade maravilhosa. Aí chama a guarda pretoriana, chama a SS, chama os camisas pretas, chama a Gestapo e tira esse povo feio, preto e mau vestido, sem senso arquitetônico adequado, sem licitação e, pior, sem caixinha ou financiamento de campanha para as autoridades constituídas.

No fundo é o mesmo princípio da reforma do prefeito Pereira Passos que eliminou os cortiços no início do século e tentou imitar Paris e seus belos jardins, ou de outros que jogavam mendigos no mar, ou de Clinton que mandou tirar os pobres desempregados que dormiam sob a marquise do local no qual os democratas queriam fazer sua convenção e anunciar medidas importantes para combater a pobreza.

Para realizar estas medidas de ocultamento da pobreza estruturalmente determinada, até pela violência explicita que envolve tal ato, é preciso, assim como na Maré, um tapume ideológico. A mesma portaria normativa citada prevê isso naquilo que denomina de “Batalhão de Operações Psicológicas” (B Op Psico) que teria, entre seus objetivos “obter a cooperação da população diretamente envolvida na área de operações, desenvolvendo uma atitude contrária às F Opn [Forças Oponentes] e outra favorável às forças empregadas”.

Um enorme tapume entorno da pobreza e das áreas de conflito, cercas protegendo os lugares nos quais se darão os grandes eventos esportivos, placas que impedem a visão da favela por toda a rota que leva os turistas até os hotéis e ruas cercadas até os estádios. O problema é que vai ser difícil esconder todas as contradições embaixo do tapete ideológico, mesmo com as Forças Armadas no comando da vassoura repressiva. Os pobres insistem em estar por todos os lados, como disse certa vez a rainha Elizabeth da Inglaterra “Pauper ubique jacet” (o pobre está prostrado em toda parte). Que fazer, então? [ver: Karl Marx,O capital, livro I, p. 793]

Bom, sugerimos óculos com telas de cristal líquido e imagens editadas e transmitidas diretamente do centro de operações da Policia Militar e da central Globo de jornalismo, que seriam distribuídos a cada um que chegasse ao Brasil. Melhor seria distribuí-los antes do desembarque para já operarem vendo aeroportos com as reformas concluídas e funcionando perfeitamente.

No país da Copa não pode ter pobre sendo espancado pela polícia. Não pode um representante da Lei e da Ordem chamar uma menina de “macaca favelada” e desferir um murro em sua boca quebrando seus dentes, não pode um policial atirar e deixar uma pessoa cega ou mutilada, como na desocupação do terreno da Oi. Não pode ter greves, manifestações e ônibus incendiados. Não pode uma filha chorando com sua mãe baleada nos braços e perguntado ao policial que ria “por que… minha mãe não era bandida… por que?” Não pode o exército assassinar a tiros um jovem de 18 anos, seja ele ou não um infrator.

Não sei se o jovem Jefferson era ou não um criminoso. Recolho seu corpo e sinto em mim mesmo sua dor, é meu sangue que se esvai no chão da Maré. Sinto o tiro do fuzil assassino varando seu peito e abrindo um abismo de dor no coração de seu pai. Posso, em um relance, ver os filhos que não irão buscar seu abraço fantasma, as bocas que nunca sentirão o calor de seus lábios. Recolho mais este sacrifício no interminável martírio de nossa classe e o engulo com as lágrimas que alimentam meu ódio profundo. Eu os acuso!

Não apenas o infeliz soldado que puxou o gatilho e seu comandante, engrenagens da máquina de morte, mas também aqueles que se escondem atrás de seus cargos: Senhor Ministro da Defesa que pediu aos militares que escrevessem a portaria, senhor Ministro da Justiça de um pais injusto que permite que a Constituição seja suspensa e desfigurada, senhora Presidente Dilma Rousseff que assinou os atos que tornou legal o massacre, senhor governador (o ex e o atual) escondido covardes em seus escritórios: eu os acuso! A vergonha os acompanhará para sempre. Suas mãos estão sujas de sangue… jamais conseguirão lavá-las desta ignomínia.

Privataria avança sobre a água que você bebe e a previsão do tempo

Os capitalistas dizem coisas incríveis (Viomundo/Reprodução)

Por Pete Dolack no Systemic Disorder

Tradução: Heloisa Villela, via Viomundo

O lucro deve ser o único direito humano já que é uma necessidade tão básica, o que a água não é. Apesar da moderna indústria de relações públicas ter tido sucesso rebatizando barões ladrões de “capitães da indústria”, nem mesmo o mais bem preparado batalhão de artilharia pode impedir, o tempo todo, os executivos das corporações de dizerem acidentalmente ao mundo o que realmente pensam.

Não é segredo que algumas das maiores corporações do mundo estão drenando aquíferos e revendendo água potável com grandes lucros. Mas eles querem ir mais longe e tornar obrigatório pagar pela água. A água é simplesmente mais uma “commodity de mercado” na visão deles – mais notoriamente propagada pelo presidente do Conselho diretor da Nestlé S.A., Peter Brabeck-Letmath em um vídeo de seis minutos divulgado por sua empresa.

É justo dizer que a aparente tentativa da Nestlé de projetar uma imagem de empresa que sobriamente lida com os problemas mundiais com uma racionalidade severa saiu pela culatra espetacularmente.

A linguagem corporal do Sr. Brabeck-Letmathe transforma em tolice a argumentação da Nestlé, apresentada após a divulgação do vídeo, de que ele não queria dizer o que disse. Começando na marca dos 2 minutos e 7 segundos, ele aparece dizendo:
“A questão é se devemos privatizar o suprimento normal de água para a população. E existem duas opiniões a esse respeito. Uma opinião, que eu acho radical, de ONG (organização não governamental) que martela a declaração de que a água é um direito público”.

O Presidente torce o rosto à ideia da água ser considerada um direito, depois deixa escapar um sorriso afetado demonstrando desprezo indisfarçável pelo que se segue imediatamente:

Isso significa que como seres humanos vocês devem ter direito à água. Essa é uma solução extrema. E a outra visão diz que a água é um alimento como outro qualquer e como qualquer outro alimento ela deve ter um valor de mercado. Pessoalmente eu acredito que é melhor dar um valor ao alimento para que todos nós tenhamos conhecimento de que ela tem um preço e que é preciso tomar medidas específicas para a população que não tem acesso a essa água e aí existem várias possibilidades”.

O direito à água é “radical”!

Essa opinião pode ser considerada “radical” em muitas salas de reuniões de corporações, mas essas opiniões não estão livres de interesses corporativos.

Se o caminho para aumentar os lucros depende de privatizar bens comuns e serviços públicos, esse é o sistema de crenças que surgirá. Graças ao seu incansável trabalho de combater essas crenças “radicais”, 0,1% está vivendo muito bem, obrigado.

A diferença de perspectiva dos industriais e financistas e do resto do mundo é exemplificada pelo Sr. Brabeck-Letmathe na marca dos 5’34” do vídeo:

Nós nunca estivemos tão bem. Nunca tivemos tanto dinheiro. Nunca fomos tão saudáveis. …Nós temos tudo que queremos e ainda vamos por aí como se estivéssemos de luto por algo”.

Talvez as coisas não sejam assim tão cor de rosa.

Sim, pare de choramingar somente porque os salários estão declinando em todo o mundo, o desemprego continua alto, a desigualdade está atingindo níveis nunca vistos desde os anos 20, o meio ambiente está perigosamente poluído, o aquecimento global está fadado a fugir de controle, o poder dos grandes capitalistas e de suas corporações multinacionais transformou a participação democrática em uma piada, trabalhadores mais velhos são jogados para fora de seus trabalhos e suas pensões são cortadas unilateralmente, existem poucos empregos para os trabalhadores jovens que estão mergulhados em dívidas, os custos de moradia e educação aumentarem bem mais rapidamente do que a inflação, e os governos mundiais dão as mãos aos capitalistas em uma corrida global ao fundo do poço sem prestar contas a seus eleitores.

Se sua ideia de democracia não é nada mais do que ter mais sabores de refrigerantes cola para escolher, então, com certeza, você tem tudo que quer.

Em um esforço para reduzir o estrago, a Nestlé subsequentemente divulgou um release alegando que seu presidente “pensa que a água é um direito humano”.

Acontece que, se fossemos acreditar na propaganda da Nestlé, ele estava meramente “tentando conscientizar a respeito de tema da falta de água. … Ele não é a favor da privatização, mas defende mais eficiência na administração da água para indivíduos, indústrias, agricultura e governos”.

Isso não casa com que o presidente da Nestlé disse claramente no vídeo. Nem leva em conta o papel da Nestlé em tornar a água ainda mais escassa.

A água, na verdade, é um grande negócio. A água engarrafada é dominada por três das maiores indústrias do mundo: a Coca-Cola Company (Dasani), a PepsiCo Inc. (Aquafina) e a Nestlé (Poland Springs, Deer Park, Arrowhead e outras).

As duas maiores empresas privadas de administração de água do mundo, Veolia Environment e Suez Environment, têm receita somada de US$ 51 bilhões. Muito para abocanhar, com certeza.

Pagando pela mesma coisa que sai da sua torneira

As empresas que vendem água engarrafada não estão necessariamente enviando equipes para montanhas remotas. Uma reportagem no AlterNet, de Michael Blanding, diz:

Muitas vezes a água engarrafada é água da pia. Ao contrário da imagem da água cristalina brotando na montanha, mais de um quarto da água engarrafada, na verdade, vem de suprimentos municipais de água. … Tanto a Coca quanto a Pepsi usam exclusivamente água da torneira como fonte, enquanto a Nestlé usa água da torneira em algumas marcas. É claro que a Coca e a Pepsi fazem propaganda das medidas adicionais que tomam para purificar a água depois que ela sai da torneira, as duas empresas filtram a água várias vezes para remover partículas antes de tratá-la com técnicas adicionais como ‘osmose revertida’ e tratamento de ozônio. Osmose revertida, entretanto, não é nada sofisticado – consiste essencialmente do mesmo tratamento aplicado por filtros comerciais de água disponíveis para residências, enquanto ozonização (um processo de tratamento de água) pode incluir problemas adicionais como formação do químico bromato, suspeito de ser carcinogênico”.

Um estudo do Conselho de Defesa das Riquezas Naturais analisou mais de 1.000 garrafas que representam 103 marcas de água engarrafada e encontrou, em um terço, níveis de contaminação que ultrapassam os limites permitidos. Entre esses contaminantes existiam químicos sintéticos, bactérias e arsênico.

Não é apenas o engarrafamento e o empacotamento de água da bica que dá lucro – fornecer água da bica também é se ela for privatizada.

Um estudo da Food & Watch descobriu que:

Serviços privatizados tipicamente cobram 33% mais pela água e 63% mais pelo esgoto do que serviços de governos locais.

Depois da privatização, o preço da água aumenta cerca de três vezes mais do que o índice de inflação, com um aumento médio de 18% a cada dois anos.

O lucro das corporações, dividendos e impostos podem somar outros 20 a 30% aos custos de operação e manutenção.

Dúzias de municípios na França, Alemanha e Estados Unidos estão tomando de volta seus sistema de água e esgoto, revertendo privatizações anteriores. Governos locais consistentemente descobriram que a privatização levou a preços mais altos, reduziu os serviços e deteriorou as condições de trabalho para os funcionários que permaneceram em seus cargos.

As corporações que operam esses sistemas estavam apenas colocando em prática o que o presidente da Nestlé disse em seu vídeo: a água é uma mercadoria a ser comprada pelos que estiverem dispostos a pagar mais caro.

Em um caso notório, o Banco Mundial forçou a privatização do sistema de água na cidade boliviana de Cochabamba, em 1999. A Bechtel, empresa que recebeu o sistema de água depois de ter sido a única que apresentou proposta de compra em um processo secreto, cobrou uma quantia igual a um quarto da renda familiar média dos moradores e impôs um contrato que proibia a coleta de água da chuva. Depois que foi obrigada a deixar a cidade por causa de protestos massivos, que contaram com o apoio de uma campanha global, a Bechtel processou a Bolívia exigindo US$ 50 milhões por danos e lucros perdidos, apesar de seus investimentos serem estimados em menos de US$ 1 milhão e o faturamento da Bechtel ser seis vezes o tamanho do produto interno bruto da Bolívia.

Espera-se até que a previsão do tempo gere lucro

Outros serviços governamentais, que se considera garantidos, como a previsão do tempo, não são exceção. Apesar de soar bizarro, executivos de serviços privados de previsão do tempo como o AccuWeather vêm argumentando, há anos que o Serviço Nacional do Tempo do governo dos Estados unidos deve ser proibido de divulgar previsões meteorológicas.

O Serviço Nacional do Tempo é o que tem as previsões mais confiáveis do país e os contribuintes gastam milhões de dólares nele. Ainda assim, nós supostamente temos que eliminar este benefício público, convertê-lo completamente em subsídio corporativo para que um capitalista possa lucrar!

O conceito de que o conhecimento de uma tempestade que se aproxima deva ser revertido para aqueles dispostos a pagar foi defendido pelo AccuWeather e por um grupo lobista que se auto intitula Associação Comercial de Serviços do Tempo, com uma das luzes mais fracas do senado dos Estados Unidos, o fundamentalista Rick Santorum, que promoveu um projeto de lei em 2005 que impediria o Serviço Nacional do Tempo de divulgar previsões do tempo com exceção durante emergências específicas.

De acordo com a lei, a agência continuaria coletando dados e daria todos eles a empresas privadas.

O AccuWeather divulgaria as previsões sem arcar com o ônus de coletar seus próprios dados os recebendo de graça às custas do contribuinte.

Como salientou uma reportagem na revista eletrônica Slate, o texto da lei dizia:

Dados, informação, direção, previsão e alertas devem ser divulgados … através de um portal de dados desenhado para acesso de volume por provedores comerciais de produtos e serviços”.

A velhacaria dessa lei foi revelada claramente naquele momento por Jeff Masters em seu blog Weather Underground:

A indústria privada da previsão do tempo faz suas próprias previsões, mas em geral checa suas previsões contra o que diz o Serviço Nacional do Tempo antes de divulgá-las. Se a previsão do SNT é muito diferente, eles frequentemente fazem ajustes na direção das previsões do SNT, o que resulta em uma previsão de melhor ‘consenso’. Então, de acordo com a proposta de lei, não apenas perderíamos a melhor previsão do tempo disponível, mas as previsões das empresas privadas também piorariam”.

Mas um par de capitalistas teria um grande lucro – e daí se mais gente morreria em enchentes ou desastres naturais? Essa é a mágica do mercado em ação.

O acordo UE-Mercosul e a integração regional esquecida: Entrevista com Adhemar Mineiro

O acordo comercial entre os blocos tem potencial, mas é preciso promover primeiro a integração do próprio Mercosul (Unimercosul/Reprodução)

Por Rennan Martins

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia voltou a pauta dos blocos este ano, depois de 14 anos do início das negociações. Este, que envolve reduções tarifárias em 90% das transações realizadas entre blocos, é assunto de grande interesse mundial por conta de sua capacidade de mudança da configuração econômica em escala global.

Denominado Acordo de Associação Bi-regional, teve suas discussões iniciadas ainda em 1999, com negociações interrompidas em 2004 e retomadas em 2010. É de relevância ímpar as mudanças econômicas ocorridas no mundo nesse período, seguramente as condições são bem diversas das do início.

Nestes novos esforços há grande vontade por parte do governo federal em concretizá-los, isto se dá por conta de estarmos há 15 anos sem um acordo de grande porte, o que move a iniciativa privada a pressionar o governo, por sentir que perde oportunidades internacionais.

Os marcos normativos são a pauta, quesitos como acesso a mercado em bens, defesa comercial, solução de controvérsias, concorrência, investimentos, serviços, barreiras técnicas, medidas sanitárias e fitossanitárias serão redefinidas no intuito de facilitar as movimentações comerciais.

Mineiro considera que esse acordo pode ser uma camisa de força para políticas de desenvolvimento nacionais (Youtube/Reprodução)

Considerando o potencial de impacto deste acordo e suas consequências à economia brasileira entramos em contato com Adhemar Mineiro, economista, técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), assessor da Rede Brasileira de Integração dos Povos (REBRIP) e integrante da Secretaria de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores a fim de obtermos um quadro mais apurado desta questão.

Mineiro considera que ao contrário do dito comumente, a Argentina não é a parte mais resistente em apresentar sua lista de desoneração, que este acordo possivelmente contribuirá na aceleração da desindustrialização brasileira, que a agressividade da União Europeia será ainda maior por conta da crise que vivem desde 2008 e que o Brasil deveria “ter uma clara estratégia de desenvolvimento, priorizando a integração regional a meu ver, para aí sim negociar acordos de comércio, inclusive este com a UE. Sem uma estratégia clara, o país vira parte da estratégia de outro que a tenha, e a dos europeus nesse momento é bem clara: avançar em mercados externos para tentar sair da crise”.

Confira a íntegra:

A União Europeia e o Mercosul estão negociando um acordo de livre comércio que pretende entregar a lista de mercadorias até o meio de maio. Quais as vantagens e desvantagens deste acordo? Algum dos lados se beneficiará mais?

A troca da lista de ofertas, se acontecer, será o momento para uma avaliação mais precisa de vantagens e desvantagens de um possível acordo. Entretanto, há que considerar que os termos gerais do acordo, na sua essência, são bem complicados para o Mercosul, pois se cristaliza o papel dos países do Mercosul como fornecedores de “commodities” e, nas hipóteses mais generosas, fornecedores subordinados de cadeias produtivas hegemonizadas por transnacionais europeias. Além disso, a abertura em áreas como serviços, propriedade intelectual e compras governamentais, coloca limites claros às possibilidades de levar adiante políticas de desenvolvimento em cada país da região e na região como um bloco. Por tudo isso, o processo negociador deveria ser conduzido com muito mais cuidado e transparência, tanto para a sociedade civil, como para o meio empresarial e o próprio Parlamento brasileiro. Um ponto importante a ser considerado é o fato de que a crise hoje é muito mais dura na Europa do que nos países do Mercosul e, portanto, os países europeus estão muito mais propensos a serem agressivos em avançar sobre novos mercados, e defensivos em relação a seus próprios mercados, o que deve se refletir nas propostas, como se poderá verificar em breve, com a apresentação das ofertas.

É sabido que a Argentina é a parte mais resistente. Que razões os levam a adotar essa postura?

Apesar dos setores mais conservadores no Brasil tentarem criar essa imagem, é difícil que a Argentina seja de fato a parte mais resistente, do ponto de vista do Mercosul. A liberalização avançou muito mais na Argentina do que nos demais países do bloco ao longo dos anos 1990, e apesar da mudança de orientação depois da crise à que a liberalização comercial e financeira e a paridade cambial conduziram a Argentina na virada do novo século, não se pode dizer que muito dessa liberalização da última década do século passado efetivamente tenha retrocedido. É muito mais provável que o Brasil, com mais interesses industriais, e que manteve mais capacidade de fazer políticas nacionais de desenvolvimento, seja de fato a parte mais resistente a um acordo, mesmo que os negociadores do governo brasileiro não expressem essa resistência.

O Sistema Geral de Preferências Tarifárias (SGP) europeu está finalizando sua vigência, este era uma iniciativa unilateral da UE que beneficiava os produtos do Mercosul. Que impactos esta medida terá sobre a economia brasileira?

Terá que se verificar de fato o que vai acontecer nessa área. A estimativa é que pouco mais de 10% das exportações brasileiras para a UE se beneficiariam do SGP anteriormente existente, mas em alguns dos setores que estão aí dentro, como autopeças, plásticos e químicos, por exemplo, os “exportadores” brasileiros são em realidade parte das cadeias produtivas de transnacionais europeias, na condição de fornecedores, quando não são os próprios exportadores empresas europeias. Tudo isso deverá ser verificado para uma avaliação mais objetiva, até aqui o que se faz é criar uma ameaça retórica comum em processos de negociação com essa história do fim do SGP.

O Mercosul resiste em abrir seu setor industrial enquanto a UE o agrícola. Nessa queda de braço, o que seria mais interessante para o Mercosul?

O mais interessante seria o Mercosul avançar no seu processo de integração, desenvolver suas cadeias produtivas regionais, ganhar escala e musculatura econômica e diplomática (na medida em que minimize as tensões entre os parceiros dentro do bloco) e a partir daí negociar em uma situação menos assimétrica com a União Europeia. A expansão do comércio tem que ser uma possibilidade a ser avaliada dentro da estratégia de desenvolvimento, e não o país condicionar seu desenvolvimento à prioridade de abertura comercial, em especial quando o que se negocia hoje não é basicamente comércio, mas espaço para políticas públicas e desenvolvimento, na medida em que pontos sensíveis como serviços, propriedade intelectual e compras de governo estão entre os itens da negociação.

Em relação a indústria brasileira que já vem encolhendo nos últimos anos. Este possível acordo é positivo ou negativo? Em que aspectos?

Não teria muita dúvida em dizer que, apesar de uma avaliação precisa só poder ser feita a partir do conhecimento das ofertas que serão trocadas, em dizer que será basicamente negativo, por pelo menos três pontos. O primeiro, como já foi dito, é o fato de que os europeus estão neste momento muito mais impactados pela crise internacional que eclodiu em 2007/2008, e por isso muito mais agressivos em termos de avançar nos espaços de comércio. Outro ponto é o fato de que os dois lados da negociação são fundamentalmente assimétricos, a economia europeia é muito mais pujante do que o Mercosul, e empresas europeias estão dos dois lados do processo (atuam nos dois espaços econômicos, e por isso podem pressionar os dois lados do processo de negociação), o que faz diferença na relação de forças entre os lados negociadores. Finalmente, também como dito antes, as negociações não são meramente “comerciais”, são mais do que tudo negociações que envolvem elementos, como serviços, propriedade intelectual e compras governamentais, entre outros, que podem definir políticas de desenvolvimento, e o Brasil e o Mercosul têm muito a perder com limitações a sua política de desenvolvimento, particularmente o setor industrial. Além desses três itens, vale ainda considerar que a principal barganha envolve a abertura de mercados agrícolas para os países do Mercosul na União Europeia, em troca exatamente de entregar “parcelas’ nos setores de bens industriais, serviços, compras de governo e propriedade intelectual, ou seja, vem mais desindustrialização por aí. Vale a pena uma olhada rápida na balança comercial do Brasil: para os países do Mercosul, o Brasil exporta mais manufaturados, para a UE bens intensivos em recursos ambientais (“commodities” agrícolas, minerais e/ou energéticas, e semimanufaturados). Menos Mercosul e mais comércio com a UE significa aprofundar esse perfil.

Finalizando. Que postura e medidas o Brasil deveria adotar pra se beneficiar deste possível acordo em sua opinião?

De fato, o Brasil precisaria ter uma clara estratégia de desenvolvimento, priorizando a integração regional a meu ver, para aí sim negociar acordos de comércio, inclusive este com a UE. Sem uma estratégia clara, o país vira parte da estratégia de outro que a tenha, e a dos europeus nesse momento é bem clara: avançar em mercados externos para tentar sair da crise (não querendo dizer que isso vá dar certo ou não, mas pelo menos é uma estratégia definida). Se o Brasil, o principal país do bloco, não tem uma estratégia clara, imagine se o Mercosul como um todo, com todas as suas diferenças, vai ter. O outro ponto é a questão da transparência, as negociações acontecem sem que as sociedades dos países do Mercosul tenham claro o que está acontecendo, e isto é um problema.

 

Para a oposição, Pasadena que deveria ter comprado a Petrobras

Por Diogo Costa, via GGN

Pasadena representa um acréscimo no patrimônio da Petrobras, no coração do mercado mundial de petróleo e refino. Adquirir patrimônio ao invés de vendê-lo na bacia das almas, este é o problema da oposição em relação à Petrobras de Lula e Dilma.

Pasadena foi um bom negócio na época e em função das mudanças no setor petrolífero e de refino nos EUA, do Crash de 2008 e da posterior descoberta do pré-sal, tornou-se um negócio com baixa rentabilidade. Está em plena operação, refinando 100.000 barris diários de petróleo. É um ativo da Petrobras como qualquer outra refinaria de propriedade da empresa.

Desastre de fato e de direito foi a alienação de patrimônio público (CSN, VALE, etc) feita pelos neoliberais no Brasil. Adquirir patrimônio não é um desastre, muito antes pelo contrário.

A Petrobras vale hoje 98 bilhões de dólares, valia em 2002 apenas 15 bilhões de dólares.

A Petrobras fez a maior capitalização da história do capitalismo mundial em 2010 (70 bilhões de dólares) e lucrou aproximadamente 150 bilhões de reais nos últimos 06 anos.

A disputa de fundo em torno da Petrobras é a questão do petróleo do pré-sal. A oposição fracassada não admite e jamais admitirá que a empresa tenha construído o regime de partilha para a exploração do pré-sal. Queriam manter a concessão tucana e entregar tudo de mão beijada para as multinacionais.

O regime de partilha do Lula, empreendido por Dilma, garante participação mínima da Petrobras em TODOS os poços de petróleo do pré-sal, através da PPSA (empresa 100% estatal). A PPSA é a OPERADORA ÚNICA de todos os poços de petróleo do pré-sal, além de ter poder de veto e voto de minerva em TODAS as decisões relativas à exploração e à comercialização dos barris do pré-sal. A oposição quer destruir o regime de partilha.

Há uma enorme pressão por parte dos acionistas privados da Petrobras, que lutam por mais lucros e dividendos. Para tanto, forçam o discurso falso e fictício do “endividamento” da empresa, bem como clamam todo o santo dia por um reajuste, de preferência brutal, no preço dos combustíveis.

A batalha crucial que estamos assistindo nada tem a ver com Pasadena, mas sim com o futuro da Petrobras enquanto alavanca do desenvolvimento nacional. Ou será que o PSDB e a mídia venal, que apoiaram entusiasticamente a quebra do monopólio estatal da empresa, de uma hora para outra estão preocupados com a mesma? Mais fácil acreditar em duendes e fadas.