Arquivo mensais:abril 2014

A estagnação da indústria e a importância de desenvolvê-la: Entrevista com Gustavo Santos

 

Por Rennan Martins

O início do mês de abril foi marcado pela boa notícia de um crescimento representativo no setor industrial brasileiro. No período de janeiro e fevereiro, registrou-se aumento de 1,3% da produção, este resultado veio após uma queda de 23,5% desde outubro de 2013. Dos 27 ramos investigados, 19 apresentaram expansão, a liderança foi exercida pelo ramo automobilístico, que nos dois primeiros meses do ano cresceu 16,8%.

Considerando a relevância da indústria no cenário econômico e a acentuada desindustrialização que o Brasil sofre há anos, necessário é que o poder público e a sociedade civil encontrem uma estratégia de dar novo impulso a indústria nacional, uma ação coordenada neste sentido tem o poder de desenvolver o país e aquecer a economia.

Visando contribuir para este debate, realizei esta entrevista com Gustavo Santos, doutor em economia e funcionário do BNDES, ele vê a indústria brasileira estagnada desde 2011, e diz que as políticas internas favorecem essa retração. Considera ainda que a indústria é setor chave para o desenvolvimento nacional, que é preciso estatizar a infraestrutura e os insumos básicos e que, ao contrário do que temos feito, precisamos baixar os juros a fim de incentivar a produção da economia real.

Confira, na íntegra:

Depois de quedas sucessivas, a produção industrial nacional voltou a crescer e acumulou 1,3% de alta nos dois primeiros meses do ano. Como explicar esta retomada?

Retomada é uma palavra forte. A produção industrial brasileira está estagnada desde 2011. O que acontece são oscilações e eu vejo esse aumento de 1,3% como uma oscilação, porque no passado recente ouve queda. Para chamar de retomada é necessário muitos meses de crescimento contínuo. Se você quer saber as razões dessa oscilação positiva é uma pergunta um pouco mais difícil, está associada a recomposição de estoques que estavam baixos e alguns resultados podem estar vindo do dólar um pouco mais alto. Porém, estamos falando apenas de uma oscilação. Estamos muito distantes de uma retomada.

E quanto a queda anterior de 23,5%. É a conjuntura internacional que a causou ou foram as políticas internas as responsáveis? Como?

A conjuntura internacional sempre afeta todos os países, mas como ela afeta cada país depende de suas políticas internas. Por exemplo, em 2010, quando a crise estava ainda pior no mundo, o Lula fez o Brasil crescer 7,5%. O que foi um crescimento efetivamente chinês. A média dos países em desenvolvimento, sofrendo a mesma crise, estão crescendo mais do que o Brasil. Assim posso dizer que o principal culpado são as políticas internas. Mas não pelo motivo que a imprensa e os neoliberais alegam, mas exatamente pelo contrário. Nosso baixo crescimento decorre do governo Dilma ter seguido os ditames da imprensa, especialmente o superavit primário e os juros anormalmente elevados.

Qual é a importância do fortalecimento do setor industrial brasileiro? Que vantagens esta medida traria a nossa economia?

Nação desenvolvida em qualquer dicionário é sinônimo de nação industrializada. A indústria é a base de uma economia, porque é o setor que possui mais produtividade e é onde surge as inovações tecnológicas. A renda dos outros setores deriva da renda industrial.

A produtividade e participação da indústria no PIB determina a renda e o nível de salários de toda economia, porque a produtividade dos serviços em todo o mundo é relativamente igual em termos de produção física. Mas o valor dos serviços decorre dos salários que aindústria paga. Por exemplo, não há nenhuma diferença entre a produtividade de um cabeleireiro na Alemanha e no Brasil, mas a renda do cabeleireiro na Alemanha é muito maior. Por que? Porque se a renda dos prestadores de serviços no Brasil fosse tão alta quanto na Alemanha a importação de produtos industriais seria tão alta que o Brasil não teria dólares para pagá-las e a economia quebraria. Isso acontece porque nossa indústria não tem nem produtividade nem capacidade instalada de produção para suprir toda a demanda de importações decorrente de um salário alemão para todos nossos prestadores de serviço, ou seja, o tamanho do PIB de um país é definido pelo tamanho e produtividade da sua indústria.

Dos setores industriais do parque nacional, qual deles seria o mais adequado a estimular no atual cenário? Porque?

Os setores básicos essenciais para o desenvolvimento industrial de uma nação são o metalmecânico, o químico e o eletroeletrônico. Eles não são muito competitivos sem a presença um do outro. Entretanto, eles são hoje 70% do comércio internacional de manufaturas, ou seja, para um país grande como o Brasil só uma base industrial diversificada focada nesses 3 setores é possível se tornar desenvolvido.

Que medidas, em específico, são relevantes para retomarmos a industrialização?

a)Estatizar toda a infraestrutura e setores de insumos básicos (metais brutos e petroquímica) para poder vender a baixos custos para a indústria;
b) impor impostos à exportação de matérias primas para baratear o preço delas no mercado interno;
c) subsidiar a educação técnica e de engenharia;
d) reduzir os juros aos patamares dos países desenvolvidos;
e) desvalorizar o câmbio e torná-lo fixo.
O câmbio flutuante prejudica nosso desenvolvimento; porque estimula os especuladores a manipular o câmbio em prol de sua valorização toda vez que a economia melhora. o câmbio flutuante tem feito com que nossa economia só tivesse o que os economistas chamam de voo de galinha desde que foi implantado.

Eleições 2014: três tenores sem partitura

Por Luis Nassif, via jornal GGN

As próximas eleições presidenciais se farão em um vácuo inédito de ideias econômicas e políticas.

Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso foram eleitos com a bandeira da liberalização econômica. Lula foi eleito com a bandeira social. Dilma Rousseff foi eleita com a bandeira do desenvolvimentismo, após a bem sucedida estratégia de enfrentar a crise mundial com crescimento.

Agora, se tem o vácuo.

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No plano das ideias econômicas, há uma luta histórica entre liberalismo e desenvolvimentismo, o primeiro defendendo a ampla liberação dos fluxos de capital e da atividade econômica; o segundo propondo o ativismo do governo para definir políticas de desenvolvimento.

Nenhum grande país se desenvolveu sem estratégias claras de políticas públicas, visando dotar a economia interna de competitividade para enfrentar a concorrência internacional.

Quando não se tem, copia-se sem adaptações, como foi o caso do liberalismo superficial do governo FHC.

Tais estratégias passam por políticas macroeconômicas visando criar um ambiente saudável e por práticas protecionistas para os chamados setores infantes, até que se desenvolvam e tenham condições de competir.

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A grande crítica que se faz é quanto ao risco do intervencionismo ser utilizado de forma  voluntarista, sem uma visão estratégica de desenvolvimento, sem regras claras que impeçam o uso discricionário das ferramentas de estímulo.

A maneira de evitar o voluntarismo é o envolvimento da sociedade, o estímulo a um debate amplo que introjete as bandeiras em todos os setores do país, na burocracia pública, nos empresários, nos trabalhadores, na academia.

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O governo Dilma não conseguiu fugir da sina do voluntarismo latino-americano, embora em nível menos drástico do que o que ocorre hoje em dia na Argentina ou na Venezuela.

O estímulo ao setor automobilístico, sem nenhuma exigência de contrapartida, a distribuição de desonerações da folha, sem nenhum critério de seleção de setores, os campeões nacionais do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), em setores de baixo atrativo tecnológico, a maneira como tentou reduzir as tarifas de energia e de combustíveis, tudo decidido de forma autocrática, sem ouvir ninguém, acabou reforçando os críticos do desenvolvimentismo, sem despertar o entusiasmo dos desenvolvimentistas.

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Na outra ponta – dos candidatos de oposição – o panorama não é mais alentador.

O candidato do PSDB Aécio Neves busca apontar o futuro recorrendo ao passado: o governo inerte de Fernando Henrique Cardoso. O candidato do PSB, Eduardo Campos, acena com a independência do Banco Central e a liberalização dos fluxos financeiros, em um momento em que todos os países do mundo esmeram-se em definir estratégias cambiais e monetárias para enfrentar os novos tempos.

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Quando se compara a posição dos três candidatos com os modelos de intervenção que balizaram o desenvolvimento de grandes potências – da Inglaterra e Estados Unidos à China de hoje – constata-se que dificilmente o Brasil cumprirá a vocação de se tornar uma potência.

Não é questão de ideologia: é de falta de preparo institucional do país e dos candidatos.

Dilma sanciona Marco Civil da Internet

Por Luana Lourenço, via Agência Brasil

A presidenta Dilma Rousseff sancionou hoje (23) o Marco Civil da Internet durante a abertura do Encontro Global Multissetorial sobre o Futuro da Governança da Internet – NET Mundial, em São Paulo, que reúne representantes de governos, sociedade civil, técnicos e usuários da rede de vários países. A nova lei será publicada em edição extra do Diário Oficial ainda hoje.

O marco civil, aprovado pelo plenário do Senado na noite de ontem (22), define os direitos e deveres de usuários e provedores de serviços de conexão e aplicativos na internet. A aprovação abre caminho para que os internautas brasileiros possam ter garantido o direito à privacidade e à não discriminação do tráfego de conteúdos.

Após assinar a sanção, Dilma iniciou seu discurso defendendo o respeito aos direitos humanos, à privacidade e à liberdade de expressão na internet. “Os direitos que as pessoas têm offline também devem ser protegidos online”, comparou.

Ontem (22), pelo Twitter, Dilma avaliou o marco civil como “um passo fundamental para garantia da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos do usuário da internet”, além de destacar o papel da lei na garantia da neutralidade do caráter livre e aberto da rede mundial.

A presidenta também destacou os mecanismos de defesa dos direitos dos usuários estabelecidos com a nova legislação. “O novo marco civil estabelece que as empresas de telecomunicações devem tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados. Além disso, o marco civil veda bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados. O nosso modelo de marco civil poderá influenciar o debate mundial na busca do caminho para garantia de direitos reais no mundo virtual”, escreveu Dilma em sua conta pessoal no Twitter.

Empresários querem reduzir custo Brasil antes da abertura de mercado a europeus

Segundo os empresários, o Brasil não consegue competir em igualdade com os países europeus (Agência Senado/Reprodução)

Via Agência Senado

O Brasil terá de se tornar mais competitivo no mercado internacional ao mesmo tempo em que se prepara para maior abertura de seu próprio mercado. Essa foi a principal mensagem transmitida nesta quarta-feira (23) aos integrantes da Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul (Parlasul) por empresários da Coalizão pela Competitividade da Indústria de Transformação, durante café da manhã realizado no Senado, que teve como tema principal o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.

Até o final de maio, representantes dos dois blocos econômicos deverão trocar cartas com as respectivas ofertas para o acordo de livre comércio. Caso as negociações sejam bem-sucedidas, haverá um prazo de 15 anos até que 90% do comércio entre os blocos se tornem livre de tarifas. Esse prazo, segundo representantes da indústria, será fundamental para que se reduza o chamado “custo Brasil”, que diminui a capacidade de competição da indústria nacional por meio de alta tributação, complicada burocracia e precária infraestrutura.

Se hoje entrássemos no ringue para uma luta greco-romana, seríamos como um lutador com febre e pé quebrado enfrentando o gigante europeu. Como a luta vai começar mesmo em 15 anos, precisamos alcançar hoje um compromisso interno de enfrentar o custo Brasil, que retira a competitividade sistêmica do país – disse o presidente eleito da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Carlos Pastoriza, integrante da coalizão.

A metáfora da luta greco-romana foi considerada “apropriada” pelo ministro Ronaldo Costa, diretor do Departamento de Negociações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores e principal negociador brasileiro do acordo com a União Europeia. Em sua opinião, o governo, os parlamentares e os representantes do setor privado estão em sintonia na negociação com os europeus, que, por sua vez, como informou, também temem a competição com os países do Mercosul no mercado agrícola.

O presidente da Representação Brasileira no Parlasul, deputado Newton Lima (PT-SP), considerou a negociação do acordo uma “oportunidade extraordinária” para a ampliação do comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Ele concordou com os empresários, no entanto, sobre a necessidade de se promover um esforço para garantir maior competitividade à indústria nacional.

Vamos ter que trocar os pneus com o carro andando – alertou Lima.

O vice-presidente brasileiro no Parlasul, senador Roberto Requião (PMDB-PR), demonstrou, por sua vez, preocupação com o acordo em negociação. Em sua opinião, os países europeus, ainda em crise, estão buscando nos mercados dos países que integram o Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela – uma saída para a exportação de seus produtos.

Vice-presidente da representação, o senador Paulo Bauer (PSDB-SC) observou, durante o debate, que no caso da negociação entre os dois blocos econômicos, “não há oposição ou situação”, mas sim a defesa dos interesses brasileiros. A seu ver, é preciso criar uma “relação comercial duradoura”, com regras estáveis, para não impor dificuldades aos empresários. Também participaram da reunião os senadores Wilder Morais (DEM-GO) e Ana Amélia (PP-RS).

Diálogos Desenvolvimentistas: A crise econômica argentina e suas soluções

Edição por Rennan Martins

A crise econômica que a Argentina tem enfrentado é preocupante. A inflação não dá sinais de desaceleração, as estatísticas governamentais são questionadas e a perda de confiança mina o funcionamento pleno das atividades. Os preços de mais de 300 bens de consumo se encontram congelados.

Por outro lado, os grandes veículos de mídia, por interesses escusos, escondem que no ano passado o PIB argentino cresceu 3%, que eles possuem o maior salário mínimo da América Latina, ou seja, que suas políticas econômicas, por vezes hostis aos financistas, tem dado certo sob alguns parâmetros.

Sabendo do ataque midiático a economia argentina e dos reais problemas os quais o país passa, Bruno Galvão, doutor em economia e funcionário do BNDES, Gustavo Santos, de mesmos atributos e Eduardo Crespo, argentino, doutor em economia e professor da UFRJ travaram um rico debate no tocante as propostas de solução da inflação dos hermanos. Por conta da extensão do conteúdo e de sua complexidade, desmembrei os diálogos.

Confira o debate:

Bruno Galvão – O ataque ortodoxo tem sido feroz e não estou vendo resposta dos heterodoxos. Segundo o texto Colômbia, Peru, México e Chile e até Paraguai estão apresentando elevada taxa de crescimento econômico, enquanto Brasil, Venezuela e Argentina são um fracasso.

Qual seria a explicação? Os primeiros são liberais, aberta e ortodoxa, enquanto os outros seriam intervencionista.

Contudo, deve-se falar o seguinte:

1. Em primeiro lugar, o México tem apresentado taxas de crescimento econômico muito baixas. Entre as 15 maiores economias emergentes é a que menos cresceu nos últimos 20 anos (desde que o país entro no Nafta).

2. O sucesso colombiano é basicamente resultado do uso mais intensivo de suas reservas de petróleo (a não ser que se descubram grandes quantidade de petróleo, eles estão sacrificando o futuro do país). O valor exportado das exportações de combustíveis pela Colômbia se multiplicou por 10 nos últimos 10 anos.

3. Já há muito tempo, o crescimento do Chile não tem nada de brilhante.

4. O crescimento significativo do PIB no Peru e na Colômbia não tem nada de sustentável. A economia dos dois países é bem vulnerável ao preço das commodities e da alta de juros nos EUA. É certo que os próximos 10 anos eles crescerão menos e provavelmente terão uma crise cambial nesse período.

http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/3281471/que-economia-colombia-tem-que-brasileira-nao-tem

Eduardo CrespoNo caso da Argentina (e acho que a Venezuela é um caso parecido), o problema não é o liberalismo contra o estatismo, populismo, etc. Basicamente o governo fez várias besteiras na política financeira que impediram, por enquanto, que o país possa ter um moderado deficit de transações correntes sem que explodir o mercado cambiário. Mesmo antes de ter deficit (2013), o país já sofria una forte saída de capitais. Essa é a principal diferença como Peru, Chile, Colômbia, e mesmo o Brasil. Não tem nada no nível microeconômico, ou mesmo em um inexistente avanço no grau de industrialização dos primeiros, que explique o assunto. O tema é essencialmente macroeconômico. Agora subiram as taxas de juros e a corrida, por enquanto, parou. Sugiro a leitura dos textos de F. Amico, A. Fiorito e mesmo o meu no economista (http://www.eleconomista.com.ar/?p=6757) no qual tentamos explicar o assunto.

Gustavo SantosVocê está dizendo que a besteira do governo argentino foi a taxa de juros real negativa?

Minha solução para a Argentina é diferente:

1) ORTN (ou títulos públicos indexados em mercadorias);
2) câmbio múltiplo com 5 faixas;
Com essas 2 políticas acaba-se com a fuga de capitais, aumenta a competitividade da indústria e com juros reais muito baixos. Essas políticas sempre funcionaram.
Não sei porque a Argentina não teve ainda coragem de fazer essas políticas óbvias já que seus inimigos estão em um jogo de tudo ou nada e portanto não faz mais sentido nenhum pudor neoliberal como o Brasil ainda insiste porque ainda tem algo a perder: o crédito internacional.
A Argentina já não tem mais nada a perder, então pode fazer qualquer política Boa que desagrade o sistema bancário internacional. Aqui o PT ainda ser agarra naquela mal fadada carta ao povo brasileiro.

Eduardo Crespo – A lógica financeira que funciona na Argentina é similar à que funciona em qualquer lugar: se taxa de desvalorização esperada é maior que a taxa de juros (abstraindo riscos), tende a existir uma saída do peso para o dólar. Por quê? Porque nesse caso quem aposta ao dólar simplesmente ganha. Acho que se os títulos públicos indexados por mercadorias pagam mais que a desvalorização esperada vão a funcionar. Mas, se pagarem menos. Acho que não seria um bom remédio contra a fuga para o dólar.

 

Más a besteira principal do governo argentino foi o “cepo”, i.e., as restrições à venda de dólares. Com essa medida perdeu o controle sobre o mercado cambiário, já que com muita rapidez formou-se um mercado negro de dólares, acabou promovendo múltiplos mecanismos de fuga como a subfaturação de exportações e sobrefaturação de importações, e terminou com a entrada de capitais (IED, por exemplo). Sem dúvidas era preferível uma desvalorização controlada e não a terrível desvalorização que acabamos sofrendo de qualquer modo (60% em um ano). Por sua vez, com elevada inflação, taxas de juros reais negativas e a proibição de comprar dólares. O governo de fato transmitiu à classe média a ideia de que não tinha alternativa ao consumo. Ninguém pode ‘poupar’ em pesos, por exemplo, para comprar um imóvel. Em 2011 Cristina foi reeleita com o 54% dos votos e a economia crescia a 8% ao ano. Hoje o governo pode perder as próximas eleições e estamos muito perto de uma recessão. Os erros foram muito graves.

Gustavo Santos - Faz sentido. Porém, sua resposta é muito semelhante a que teria um ortodoxo conservador, que sei que você não é. A resposta é:

Aumente-se os juros.

Em alguma medida isso realmente funciona em situações de emergência.

Porém, a tentativa Argentina de seguir sem juros abusivamente altos desde o início do período Kirchner uma aposta muito mais progressista e bem-sucedida do que a aposta brasileira em alimentar os bancos com a gorda mesada dos juros.

Os brasileiros e mesmo os argentinos acham que Lula foi melhor do que a família Kirchner porque a imprensa buscou nos convencer disso, pois os Kirchner são muito mais hostis que o Lula aos interesses financeiros e imperiais. Mas em qualquer indicador social ou econômico a família Kirchnner ganha da família Lula.

A aposta argentina até agora foi fazer o possível para manter os juros baixos, e parece que só errou um pouco a mão recentemente.

Em termos de macroeconomia também não é tão simples o aumento dos juros. Em situações de ataque cambial muitas vezes é necessário subir os juros a mais de 40% ao ano para matar o ataque. Já vi isso acontecer algumas vezes.

E isso pode significar problemas sérios no setor bancário entre outros e também o a quebra do compromisso político que o governo tem com os setores que o apoiam. Poderia parecer uma mudança radical de linha ideológica.

Proibir a aquisição de dólares a priori não é uma medida que não funciona. Geralmente é uma boa medida. No Brasil sempre foi proibido e em larga medida ainda é. O problema da Argentina não é a proibição da compra de dólares e nem somente os juros muito baixos.

O problema é que o governo não tem crédito internacional porque é um governo realmente soberano e que não se curvou ao imperialismo.

E uma vez que não tem crédito internacional tem que gerar enorme saldo comercial e de conta-corrente no balanço de pagamentos. O que se tornou muito difícil recentemente em razão da queda das commodities e também do alto grau de sabotagem econômica que tem sofrido.

Aí a solução mais óbvia é a capitulação para o capital financeiro internacional. Mas isso seria o fim, porque o capital internacional não tem nenhuma gratidão (como podemos ver com o Lula e a Dilma). Quando fizerem uma aceno para o capital financeiro, os jornais todos exibirão o governo como um traidor aos que haviam confiado neles e o capital financeiro aproveitará a desconfiança geral para exigir coisas cada vez mais impossíveis.

A solução que eles estão buscando, a não capitulação para o império financeiro anglo-saxão, pode funcionar. Não é juros altos que os investidores argentinos em dólares estão pedindo, é reserva de valor. Querem um investimento seguro e não um investimento que promete muita rentabilidade.

Nesse caso, a melhor solução são títulos públicos indexados em mercadorias ou cestas de mercadorias, como por exemplo, os indexados e inflação. Isso por si só pode acabar com o ataque cambial caso houver bom superavit comercial e equilíbrio em conta-corrente do balanço de pagamentos com o exterior. No Brasil isso funcionou bem por uns 15 anos seguidos. Funcionou também na Alemanha por 2 vezes, nos anos 20 e nos anos 30.

Para gerar rapidamente, sem inflação, um supersaldo comercial e equilibrar a conta-corrente no balanço de pagamentos basta fazer um regime de câmbio múltiplo com umas 5 taxas de câmbio. No Brasil isso funcionou muito bem por uns 15 anos, também na Alemanha nos anos 30.

Com isso o governo consegue sair da crise rapidamente reduzindo a inflação e ainda sem aumentar os juros, ou aumentando um pouco, dependendo de como é feito.

A sanha do capital para se apropriar do nosso petróleo

Editorial da edição 582 do Jornal Brasil de Fato

Até oito anos atrás, o petróleo descoberto no Brasil mal atendia as necessidades nacionais. Mesmo assim, como o preço do petróleo é internacionalizado, suas margens de lucro eram fantásticas e despertavam interesses de todos os capitalistas. Segundo cálculo dos especialistas, o custo de produção de um barril de petróleo, do pré-sal, nas piores condições, está em torno de 15 dólares.

Com a obrigatoriedade de transferência de royalties para a União e Estados, há um custo de mais 15 dólares, totalizando 30 dólares. Como o preço internacional é de 100 dólares, o lucro extraordinário de cada barril de petróleo é de 70 dólares, ou seja 133% sobre o seu custo. A taxa média mundial do lucro na indústria é de 15%.

É essa renda extraordinária que o petróleo – e outros recursos minerais permitem – que deixam os capitalistas do mundo inteiro ensandecidos por sua apropriação privada!

As descobertas de mais petróleo no Brasil e as pesquisas do pré-sal coincidiram com o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso (FHC), totalmente subordinado aos interesses dos grandes capitalistas e das empresas transnacionais.

O governo FHC promoveu uma verdadeira dilapidação da Petrobras. Caiu o monopólio da exploração do petróleo. Mudou-se a Constituição e agora o petróleo pertence à empresa que extrair e que pode, inclusive, exportá-lo, cru. Como já estão fazendo!

Basta apenas pagarem a taxa de royalties ao Estado brasileiro. Até o ICMS sobre a exportação foi isentado pela lei Kandir.

Venderam as ações da Petrobras na bolsa de valores de Nova Iorque, e hoje se estima que o capital estrangeiro controle 40% do capital da empresa.

O Sr. Paulo Roberto Costa, agora preso pela Polícia Federal, sob acusação de corrupção e de tráfico de influência dentro da Petrobras, foi colocado lá como diretor pelo governo FHC. E até o genro do presidente FHC foi nomeado presidente da Agencia Nacional de Petróleo (ANP), para terem segurança e controle absoluto da política desejada.

O descalabro foi tanto, que chegaram a propor mudar o nome para PETROBRAX, para ser internacionalizada e mais palatável aos gringos que não conseguem pronunciar, pasmem, Petrobras. Felizmente, a reação nas ruas, barrou.

Com a eleição de Lula, em 2003 houveram mudanças significativas na política da Petrobras e o intento de recuperar o patrimônio para a nação brasileira, ainda que lentamente.

Mudou-se a lei, de novo, e recuperou-se a propriedade do petróleo para a União, e a sua exploração seria prioritariamente da Petrobras. E, em caso de parceria com outras empresas, haveria uma partilha da distribuição do petróleo em partes iguais.

Mas a descoberta de que as reservas do pré-sal chegam a 70 bilhões de barris de petróleo, o que permite uma exploração de no mínimo de 50 anos, deixou de novo os capitalistas ouriçados. Imaginem o lucro extraordinário de 133%, ou se quiserem 70 dólares multiplicados por 70 bilhões de barris?

É isso que está sendo disputado pelo capital. Por isso acionaram seus cães de guarda no Congresso para criar uma CPI, que agitasse o mercado, que fizesse as ações da empresa cair. Assim, eles cairiam em cima como hienas, para se apropriar do que sobrou da empresa.

E de sobremesa, se conseguissem tudo isso, ainda poderiam afetar as pesquisas eleitorais, e quem sabe, derrotar a presidenta Dilma. Mas isso é sobremesa, o que eles querem mesmo é o lucro extraordinário. Basta perguntar ao candidato Aécio Neves qual o seu programa para a Petrobras.

O objetivo é privatizá-la e entregar as reservas do pré-sal ao capital estrangeiro. Como os quintas- -colunas da ANP já foram antecipando, com a entrega de 60% das reservas do campo de Libra, para a Shell, Total e as empresas as chinesas CNPC e CNOOC, no último leilão, embora a lei determinasse a prioridade de exploração para a Petrobras.

Os erros existentes nos negócios da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), são apenas manipulações para esconder da opinião pública seus verdadeiros interesses. Aliás, quando Silvio Sinedino da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), eleito pelos petroleiros para o conselho de administração da empresa, exigiu ainda em 2012, em sua primeira reunião, uma auditoria do negócio, a imprensa burguesa não deu uma linha sequer. Por que retoma o assunto apenas agora?

Brasil de Fato, junto com os movimentos sociais e os trabalhadores da Petrobras, seguirá alerta em defesa da Petrobras como empresa pública. E em defesa da riqueza do petróleo para ser usado para as necessidades de todo o povo brasileiro.

Devemos honrar a mobilização de todo o povo brasileiro na década de 1950, que criou a Petrobras contraos interesses do capital estrangeiro e de seus porta-vozes locais – os mesmos de hoje – e honrar tantos batalhadores históricos, como o brigadeiro Moreira Lima e Maria Augusta Tibiriçá Miranda, que lideraram aquela campanha. A Petrobras deve ser do povo!

 

Na Ucrânia, potências imperialistas recorrem ao fascismo

Via Vermelho

Nas últimas semanas, a atenção internacional volta-se à Ucrânia, não apenas para a análise de um governo golpista, respaldado pelo Ocidente, e de suas consequências na fragmentação do país. O Leste europeu revive situações de confronto, que a grande mídia internacional, pautada pelos discursos oficiais dos Estados Unidos e da União Europeia (UE), chama de nova Guerra Fria, para retratar mais este episódio de ingerência e manipulação ocidental de uma nova crise política.

As potências encontram espaço amplo para justificar a mobilização da sua máquina de guerra, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), às portas da Rússia. Quem não superou, ideológica e oportunistamente, a lógica da Guerra Fria, foi a aliança imperialista. Afinal, é esta a imagem simbólica e politizada que a mantém viva, em um período em que as justificativas para a sua sobrevivência esgotam-se.

O presidente russo Vladmir Putin e o chanceler Serguei Lavrov não hesitam em desmascarar o discurso retrógrado e anacrônico dos EUA e da UE, evidenciando – para aqueles que se dispõem a ouvi-los fora do quadrado ideológico ocidental – a intenção política e a manipulação da história para justificar, da parte da Otan, o aumento da sua presença militar na vizinhança da Rússia.

Pois apesar das acusações sobre um acúmulo de tropas russas em sua própria fronteira com a Ucrânia, é a Otan que desloca navios de guerra pelo Mar Negro e envia caças de ataque a bases aéreas que mantém em países membros vizinhos da Rússia, o que corresponde aos brados ocidentais sobre, mais uma vez, governos que se veem “obrigados” a agir militarmente. A resposta da Rússia: mais apelos à diplomacia.

O ministro das Relações Exteriores, Lavrov, dedica boa parte das suas declarações à reafirmação da disposição do governo às negociações entre Rússia, UE, EUA e Ucrânia (com todas as suas forças políticas em oposição sentadas à mesa, sublinhe-se). Embora os EUA e a UE tenham logrado definir o rumo das coisas na Ucrânia – com o respaldo às manifestações que tomaram rapidamente contornos fascistas e neonazistas e, subsequentemente, à instalação dessas forças no governo, de forma inconstitucional, após o golpe – é a Rússia a acusada de “ingerência”, quando a província da Crimeia aprovou, através de um referendo popular com participação ampla, a sua reintegração ao território russo.

A retórica agressiva e o jogo de palavras, que é a principal arma política do Ocidente – e dos quais seria vítima fácil, caso a mídia internacional se ativesse aos fatos e ao direito internacional – voltam a dominar os discursos. Uma opção popular referendada democraticamente é usada para alegar que a Rússia “anexou” a Crimeia, um termo carregado de significado jurídico e político. Na mesma valsa, o governo interino ucraniano lançou uma operação militar “antiterrorista” para tentar conter um movimento expansivo de reivindicação, em províncias do leste, pela federalização do país ou até pela independência. Os manifestantes, então, por não reconhecerem a autoridade de um governo dominado por golpistas, após um passo que não consideram legítimo, são classificados de “terroristas” ou “pró-russos”, simplismos reproduzidos pela mídia corporativa internacional.

A legitimidade das expressões populares é definida pelo Ocidente: enquanto eram fascistas nas ruas, mas que exigiam uma adesão irresponsável à UE, eram “ativistas”. Quando são manifestantes excluídos do processo político que concedeu estatuto de “governo interino” a forças golpistas respaldadas pelo império – já que em conformidade com sua estratégia geopolítica –, tratam-se de “terroristas”.

Neste tempo, a Otan encontra terreno fértil para avançar rumo ao Leste, em movimentos claros de provocação agressiva explicados através da manipulação e da desinformação em que se baseiam as acusações contra a Rússia. A iminência de uma guerra civil na Ucrânia e a exposição do mundo à provocação militar não são barreiras para a empreitada imperialista belicosa, que parece referir-se à Guerra Fria em tom de romantismo saudoso, que ignora e rechaça a opção da diplomacia. Os povos pagam a conta, novamente.