Por Rennan Martins
O início do mês de abril foi marcado pela boa notícia de um crescimento representativo no setor industrial brasileiro. No período de janeiro e fevereiro, registrou-se aumento de 1,3% da produção, este resultado veio após uma queda de 23,5% desde outubro de 2013. Dos 27 ramos investigados, 19 apresentaram expansão, a liderança foi exercida pelo ramo automobilístico, que nos dois primeiros meses do ano cresceu 16,8%.
Considerando a relevância da indústria no cenário econômico e a acentuada desindustrialização que o Brasil sofre há anos, necessário é que o poder público e a sociedade civil encontrem uma estratégia de dar novo impulso a indústria nacional, uma ação coordenada neste sentido tem o poder de desenvolver o país e aquecer a economia.
Visando contribuir para este debate, realizei esta entrevista com Gustavo Santos, doutor em economia e funcionário do BNDES, ele vê a indústria brasileira estagnada desde 2011, e diz que as políticas internas favorecem essa retração. Considera ainda que a indústria é setor chave para o desenvolvimento nacional, que é preciso estatizar a infraestrutura e os insumos básicos e que, ao contrário do que temos feito, precisamos baixar os juros a fim de incentivar a produção da economia real.
Confira, na íntegra:
Depois de quedas sucessivas, a produção industrial nacional voltou a crescer e acumulou 1,3% de alta nos dois primeiros meses do ano. Como explicar esta retomada?
Retomada é uma palavra forte. A produção industrial brasileira está estagnada desde 2011. O que acontece são oscilações e eu vejo esse aumento de 1,3% como uma oscilação, porque no passado recente ouve queda. Para chamar de retomada é necessário muitos meses de crescimento contínuo. Se você quer saber as razões dessa oscilação positiva é uma pergunta um pouco mais difícil, está associada a recomposição de estoques que estavam baixos e alguns resultados podem estar vindo do dólar um pouco mais alto. Porém, estamos falando apenas de uma oscilação. Estamos muito distantes de uma retomada.
E quanto a queda anterior de 23,5%. É a conjuntura internacional que a causou ou foram as políticas internas as responsáveis? Como?
A conjuntura internacional sempre afeta todos os países, mas como ela afeta cada país depende de suas políticas internas. Por exemplo, em 2010, quando a crise estava ainda pior no mundo, o Lula fez o Brasil crescer 7,5%. O que foi um crescimento efetivamente chinês. A média dos países em desenvolvimento, sofrendo a mesma crise, estão crescendo mais do que o Brasil. Assim posso dizer que o principal culpado são as políticas internas. Mas não pelo motivo que a imprensa e os neoliberais alegam, mas exatamente pelo contrário. Nosso baixo crescimento decorre do governo Dilma ter seguido os ditames da imprensa, especialmente o superavit primário e os juros anormalmente elevados.
Qual é a importância do fortalecimento do setor industrial brasileiro? Que vantagens esta medida traria a nossa economia?
Nação desenvolvida em qualquer dicionário é sinônimo de nação industrializada. A indústria é a base de uma economia, porque é o setor que possui mais produtividade e é onde surge as inovações tecnológicas. A renda dos outros setores deriva da renda industrial.
A produtividade e participação da indústria no PIB determina a renda e o nível de salários de toda economia, porque a produtividade dos serviços em todo o mundo é relativamente igual em termos de produção física. Mas o valor dos serviços decorre dos salários que aindústria paga. Por exemplo, não há nenhuma diferença entre a produtividade de um cabeleireiro na Alemanha e no Brasil, mas a renda do cabeleireiro na Alemanha é muito maior. Por que? Porque se a renda dos prestadores de serviços no Brasil fosse tão alta quanto na Alemanha a importação de produtos industriais seria tão alta que o Brasil não teria dólares para pagá-las e a economia quebraria. Isso acontece porque nossa indústria não tem nem produtividade nem capacidade instalada de produção para suprir toda a demanda de importações decorrente de um salário alemão para todos nossos prestadores de serviço, ou seja, o tamanho do PIB de um país é definido pelo tamanho e produtividade da sua indústria.
Dos setores industriais do parque nacional, qual deles seria o mais adequado a estimular no atual cenário? Porque?
Os setores básicos essenciais para o desenvolvimento industrial de uma nação são o metalmecânico, o químico e o eletroeletrônico. Eles não são muito competitivos sem a presença um do outro. Entretanto, eles são hoje 70% do comércio internacional de manufaturas, ou seja, para um país grande como o Brasil só uma base industrial diversificada focada nesses 3 setores é possível se tornar desenvolvido.
Que medidas, em específico, são relevantes para retomarmos a industrialização?
a)Estatizar toda a infraestrutura e setores de insumos básicos (metais brutos e petroquímica) para poder vender a baixos custos para a indústria;
b) impor impostos à exportação de matérias primas para baratear o preço delas no mercado interno;
c) subsidiar a educação técnica e de engenharia;
d) reduzir os juros aos patamares dos países desenvolvidos;
e) desvalorizar o câmbio e torná-lo fixo. O câmbio flutuante prejudica nosso desenvolvimento; porque estimula os especuladores a manipular o câmbio em prol de sua valorização toda vez que a economia melhora. o câmbio flutuante tem feito com que nossa economia só tivesse o que os economistas chamam de voo de galinha desde que foi implantado.

Por Luana Lourenço, via 
