Arquivo mensais:abril 2014

Os 40 anos da Revolução dos Cravos, que pôs fim a 48 anos de ditadura em Portugal

Capa do República de 25 de abril de 1974 (Sul21/Reprodução)

Por Milton Ribeiro, via Sul21

Durou décadas a ditadura em Portugal. A rigor, foram 48 anos entre os anos de 1926 e 1974. Só Antônio de Oliveira Salazar governou por 36 anos, entre 1932 e 1968, e a Constituição de 1933, que implantou o Estado Novo nos moldes do fascismo italiano com seu Partido Único, permaneceu até o último da ditadura, tendo durado 41 anos.

A ditadura acabou em 25 de abril de 1974 numa revolução quase sem tiros. Morreram apenas quatro pessoas pela ação da DGS (Direção-Geral de Segurança), ex-PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), espécie de DOPS português. A adesão aos militares que protagonizaram o golpe na ditadura foi tão grande que as cinco mortes mais pareceram um desatino final. O nome de “Revolução dos Cravos” foi devido a um ato simbólico tomado por uma simples florista. Ela iniciou uma distribuição de cravos vermelhos a populares e estes os ofereceram aos soldados, que os colocaram nos canos das espingardas.

Tudo fora bem planejado. A ação começou em 24 de abril de forma musical. Um grupo militar anti-salazarista instalou-se secretamente em um posto no quartel da Pontinha, em Lisboa. Então, às 22h55, foi transmitida por uma estação de rádio a canção E depois do adeus, de Paulo de Carvalho. Este era o sinal para todos tomarem seus postos. Aos 20 minutos do dia 25, outra emissora apresentou Grândola, Vila Morena, de José Alfonso. Ao contrário da primeira canção, que era bastante popular, Grândola estava proibida, pois, segundo o governo, era uma clara alusão ao comunismo.

Passados 40 anos, todos reclamam em Portugal. Tendo no centro do cenário a atual crise econômica, a esquerda considera que o espírito da revolução se perdeu, assim como várias das conquistas dos primeiros anos, enquanto a direita chora as estatizações do período pós-revolucionário, afirmando que esta postura prejudicou o crescimento da economia. O ex-presidente Mário Soares afirma que tudo o que ocorreu nos últimos 40 anos pode ser discutido e reavaliado, mas que a comparação entre o passado e o presente é comparar “um passado de miséria, de guerra e de ditadura” com um país onde há “respeito pela dignidade do trabalho, pelos sindicatos e pela democracia pluralista”.

A ditadura

Deus, Pátria e Família (Sul21/Reprodução)

A ditadura iniciou em 1926 com o decreto que nomeou interinamente o general Carmona para a presidência da República. Após a dissolução do parlamento, os militares ocuparam todas as principais posições do governo. A ditadura teve o condão de unir todos os partidos que antes disputavam entre si. Eles enviaram uma declaração conjunta às embaixadas dos EUA, Inglaterra e França, informando que não reconheciam o novo governo. Em resposta, a repressão policial foi acentuada e todos os que assinaram a declaração foram presos em Cabo Verde, sem julgamento.

Todas as revoltas foram sufocadas, enquanto os militares se viam às voltas com uma crise econômica. Havia duas correntes: uma representada pelo ministro das finanças, o general Sinel de Cordes, que desejava recorrer a um empréstimo externo e outra, de um professor de finanças da Universidade de Coimbra, Antônio de Oliveira Salazar, que pensava não ser necessário o empréstimo externo para resolver a difícil situação financeira do país. O empréstimo não foi feito em razão de que as condições exigidas eram inaceitáveis – quase as mesmas que a “troika” (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Européia) exigiu e levou em nossos dias. O resultado final do episódio foi o pedido de demissão de Sinel de Cordes e o convite a Salazar para a pasta das finanças.

O ditador solitário (Sul21/Reprodução)

Salazar impôs austeridade e rigoroso controle de contas. Obteve o equilíbrio das contas de Portugal em 1929. Na imprensa, controlada pela censura, Salazar era chamado de “o salvador da pátria”. O prestígio ganho junto ao setor monárquico e católico, além da propaganda, consolidaram pouco a pouco a posição de Salazar, abrindo espaço para sua ascensão. Ele se tornou o esteio dos militares, que o consultavam para tudo, principalmente para as reformas ministeriais. Enquanto a oposição era dizimada, Salazar recusava o retorno ao parlamentarismo e à democracia da Primeira República, criando a União Nacional em 1930, uma preparação para a instalação do regime de partido único.

Em 1932, foi discutida uma nova Constituição que seria aprovada no ano seguinte. Nela, foi criado o Estado Novo, um regime que dizia defender “Deus, a Pátria e a Autoridade”, principalmente a terceira, que depois foi alterada para Família. A ditadura portuguesa foi muitíssimo pessoal e revelava claramente o caráter de seu chefe.

Salazar era uma estranha espécie de misantropo que governava um país ao mesmo tempo que amava a solidão e posava de inacessível. Suas palavras são surpreendentes, mesmo para um ditador. “Há várias maneiras de governar e, a minha, exige isolamento… O isolamento muito me ajudou a desempenhar minha tarefa e permitiu-me, no passado como hoje, concentrar-me, ser senhor do meu tempo e dos meus sentimentos, evitar que fosse influenciado ou atingido”. Muito católico, Salazar nunca casou e vivia entre padres. O cardeal de Lisboa, D. Manuel Gonçalves, disse dele: “é um celibatário austero que não bebe, não fuma, não conhece mulheres”, mas, a fim de afastar qualquer inclinação homossexual, ressaltou: “mas ele aprecia a companhia das mulheres e a sua beleza sem, no entanto, deixar de levar uma vida de frade”.

Salazar e Franco: colaboração e frieza (Sul21/Reprodução)

Tal como fazia na vida privada, Salazar criou uma curiosa política e um bordão não menos. Praticava uma política de isolacionismo internacional sob o lemaOrgulhosamente sós. Atuava de forma tortuosa. Apoiou Franco na Guerra Civil de 1936, mas manteve com este uma relação fria e desconfiada. Durante a Segunda Guerra Mundial, agarrou-se à neutralidade como se disto dependesse sua vida. Talvez tivesse razão. Próximo ideologicamente do fascismo italiano, Portugal não hostilizou o eixo Roma-Berlim-Tóquio, apesar de ter tornado ilegais os movimentos fascistas, prendendo seus líderes. Comprou armas, mesmo durante a Guerra, tanto na Alemanha quanto da Inglaterra, evitando o confronto e a adesão. Acendendo uma vela para cada um dos lados, Salazar aceitava dar vistos a judeus em trânsito vindos da Alemanha e da França. Também concedeu aos Aliados uma base nos Açores.

Dentre as muitas curiosas decisões deste isolacionista, está a de proibir a Coca-Cola em Portugal. O país só veio a conhecer a bebida em 1977. A lenda diz que, em 1928, um publicitário chamado Fernando Pessoa — sim, o poeta — criou o seguinte slogan para o lançamento da bebida no país: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.  O austero e poderoso ministro das Finanças proibiu a bebida com o argumento peculiar de que os americanos visavam criar “habituações” (vícios) nos portugueses. Pessoa não ficou ressentido, apesar de detestar Salazar, tanto que o homenageou:

Antonio de Oliveira Salazar

Três nomes em sequencia regular…
Antonio é Antonio.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…

Bebe a verdade
E a liberdade,
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné,
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
Mas ninguém sabe porquê.

Mas, enfim, é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé:
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

Após a Segunda Guerra Mundial, manteve a política do Orgulhosamente sós, mas nem tanto assim, pois Salazar desejava permanecer orgulhosamente só, mas com suas colônias. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional e a ONU passaram a defender políticas de autodeterminação dos povos em regiões colonizadas. Salazar ignorou o fato, levando o país a sofrer consequências negativas tanto do ponto de vista econômico como culturais.

Charge de 1957, publicada em jornal clandestino (Sul21/Reprodução)

Internamente, a violência da democracia de fachada de Salazar não ficava nada a dever a suas congêneres latino-americanas. O Estado Novo tinha sua polícia política, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), a qual era antes chamada de PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e depois de DGS (Direção-Geral de Segurança). Em comum, a perseguição e morte aos opositores do regime. O regime autoritário, mas sem violência é uma fantasia que muitos católicos portugueses gostam de manter, pois a Igreja Católica sempre era citada por ele. Até hoje, alguns saudosos de Salazar misturam fascismo e catolicismo.

Em março de 1961, ocorreu uma chacina de colonos civis no norte de Angola. A resposta de Salazar foi uma Guerra Colonial chamada Para Angola rapidamente e em força. Depois, novas guerras em Guiné e Moçambique, sempre com o propósito de permanecer orgulhosamente só, mas com as províncias ultramarinas sob sua bandeira. As Guerras Coloniais tiveram como consequências milhares de vítimas e forte impacto econômico sobre o país, tendo sido uma das causas da queda do regime.

Salazar foi afastado do governo em 27 de Setembro de 1968, após uma grave queda em casa, o que lhe causou uma trombose cerebral. Seu fim foi digno de opereta: naquele 1968, o então Presidente da República, Américo Tomás, chamou Marcello Caetano para substitui-lo. O curioso é que, até morrer, em 1970, Salazar continuou a receber “visitas oficiais” como se fosse ainda o presidente do país, nunca manifestando sequer a suspeita de que já o não era. Tudo para não contrariar o homem.

Marcelo Caetano não quis unir-se ao movimento mundial de descolonização e sustentou a tese de que Portugal era um Estado pluricontinental e plurirracial. Dizia que os territórios situados fora da Europa não eram colônias, mas, sim, parcelas integrantes do território nacional, e, como tal, inalienáveis. Este argumento não obteve a aprovação da opinião pública internacional, que via os territórios ultramarinos portugueses como simples colônias, sujeitas, portanto, ao mesmo processo de descolonização já realizado por outras nações africanas de língua inglesa, por exemplo. Esta recusa de Portugal em aceitar a realidade dos fatos tornou o país objeto de sanções cada vez mais duras por parte das Nações Unidas.

Negociações para a rendição da PIDE/DGS, no dia 26 de Abril de 1974. Fotografia de Joaquim Lobo.

O longo inferno externo e interno foi finalizado pelo 25 de Abril, tal como o conhecem os portugueses. O Movimento das Forças Armadas (MFA) foi composto por oficiais intermediários da hierarquia militar. Na maioria, eram capitães que tinham participado na Guerra Colonial e que foram apoiados por oficiais e estudantes universitários. Este movimento nasceu por volta de 1973, baseado inicialmente em reivindicações corporativistas das forças armadas envolvidas nas guerras coloniais, acabando por se estender a protestos contra a ditadura. Sem grande apoio e com a adesão em massa da população à Revolução dos Cravos, a resistência do regime foi praticamente inexistente, registrando-se apenas cinco mortos em Lisboa pelas balas da famigerada DGS.

Após o 25 de abril, foi criada a Junta de Salvação Nacional, responsável pela nomeação do presidente da República. Assim, em 15 de Maio de 1974, o general António de Spínola foi nomeado presidente.

Estabilizada a conjuntura política, prosseguiram os trabalhos da Assembleia Constituinte para a nova constituição democrática, que entrou em vigor no dia 25 de Abril de 1976, o mesmo dia das primeiras eleições legislativas da nova República.

Sul 21 Reprodução

Comemorações de hoje

A Revolução dos Cravos será celebrada com eventos culturais e conferências, promovidos pela Presidência da República, o parlamento e os partidos.

A Presidência da República já anunciou que vai assinalar o 40º aniversário do 25 de Abril de 1974 com uma conferência internacional sobre a data, centrada “no espírito da democracia, a cultura de compromisso e os desafios do desenvolvimento”. A conferência, que integra os Roteiros do Futuro da Presidência da República, tem como tema as Rotas de Abril e convida os portugueses a refletirem “sobre os novos caminhos que se pretendem trilhar, de forma a concretizar o espírito que presidiu à instauração da democracia em Portugal”. João Lobo Antunes será o comissário da conferência.

Na Assembleia da República, o gabinete da presidente, Assunção Esteves, disse que é ideia é a de estender as comemorações “ao longo de uma semana” e incluir cinema, exposições, concertos e teatro abertos ao público, assim como um “ciclo de conferências com universidades e centros de reflexão e ideias”.

Entre os partidos, o PSD vai comemorar duplamente os 40 anos da revolução dos cravos e os 40 anos do partido. “Decorrerão várias comemorações e eventos em que comemoraremos Abril, a democracia e também o PSD e a social-democracia”, disse à Lusa o secretário-geral do partido, Matos Rosa.

Os comunistas festejarão o centenário de Álvaro Cunhal e os 40 anos do 25 de Abril. Entre as iniciativas previstas, está previsto o lançamento, pelas edições Avante!, do tomo V das obras escolhidas de Álvaro Cunhal, “que incide no período em torno do 25 de Abril”. A festa do Avante! será “um momento privilegiado das comemorações”, que contarão também com um “conjunto de iniciativas temáticas sob a ideia dos valores de Abril no futuro de Portugal”.

O Bloco de Esquerda quer que os 40 anos do 25 de Abril sejam um momento de festa, mas também de reflexão e produção de “pensamento crítico”, disse o gabinete de imprensa do grupo. Os bloquistas promovem um encontro cultural em torno do tema da ‘Revolução’, que reunirá personalidades nacionais e internacionais do meio artístico e cultural, historiadores, ativistas, entre outros.

Tanto Mar, de Chico Buarque

Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

 

Dez perguntas e respostas para entender a compra de Pasadena

Via Blog Fatos e Dados, da Petrobras

1 – Qual foi o objetivo da compra da refinaria de Pasadena?

O propósito da Petrobras era capturar as altas margens do petróleo processado nos Estados Unidos na época. Como o petróleo proveniente do campo de Marlim era pesado e valia menos, era necessário processá-lo em uma refinaria mais complexa. Assim, após o refino tradicional, seria possível transformar os derivados pesados em produtos mais leves e mais valorizados.

Foi realizado um mapeamento de oportunidades nos Estados Unidos e duas consultorias de renome apontaram efetivas oportunidades de operação no Golfo do México. Essas informações indicavam a viabilidade da compra da refinaria de Pasadena. Logo em seguida, a planta deveria ser modernizada e ampliada para processar o petróleo de Marlim.

2 – Quanto a Petrobras pagou pela refinaria?

Foram desembolsados US$ 554 milhões com a compra de 100% das ações da PRSI-Refinaria e US$ 341 milhões por 100% das quotas da companhia de trading (comercializadora de petróleo e derivados), totalizando US$ 895 milhões.

Adicionalmente, houve o gasto de US$ 354 milhões com juros, empréstimos e garantias, despesas legais e complemento do acordo com a Astra. Desta forma, o total desembolsado com o negócio Pasadena foi de US$ 1,249 bilhão.

3 – Qual foi o preço pago pela Astra pela refinaria?

A Comissão de Apuração Interna, instaurada em março pela companhia, apurou que a Astra não desembolsou apenas US$ 42,5 milhões pela compra da refinaria. Este suposto valor, a propósito, nunca foi apresentado pela Petrobras.

Até o momento, análises da Petrobras indicam que a Astra desembolsou pelo conjunto de Pasadena aproximadamente US$ 360 milhões. Deste valor, US$ 248 milhões foram pagos à proprietária anterior (Crown) e US$ 112 milhões correspondem a investimentos realizados antes da venda à Petrobras.

Cabe destacar que a operação não envolvia apenas a compra da refinaria, mas sim um negócio bem mais amplo e diversificado. A unidade industrial de refino era parte menor de um complexo empreendimento que envolvia, também, um grande parque de armazenamento, estoques nos tanques, contratos de comercialização com clientes e contratos com a infraestrutura de acessos e escoamento. Envolvia, ainda, conhecimentos sobre o mercado e demais competências para operar no mercado norte-americano, em uma das zonas mais atrativas dos Estados Unidos.

4 – Afinal, a compra foi um bom ou um mau negócio?

Na época da compra, o negócio era muito vantajoso para a Petrobras, considerando as altas margens de refino vigentes e a oportunidade de processar o petróleo pesado do campo de Marlim no exterior e transformá-lo em derivados (produtos de maior valor agregado) para venda no mercado americano.

Posteriormente, houve diversas alterações no cenário econômico e do mercado de petróleo, tanto brasileiro quanto mundial. A crise econômica de 2008 levou à redução do consumo de derivados e, consequentemente, à queda das margens de refino. Além disso, houve a descoberta do pré-sal, anunciada em 2007. Assim, o negócio originalmente concebido transformou-se em um empreendimento de baixo retorno sobre o capital investido.

5 – Como a compra da refinaria foi aprovada?

O Conselho de Administração da Petrobras aprovou em 2006 a compra de 50% de participação em Pasadena, pelo valor de US$ 359 milhões. A operação estava alinhada ao planejamento estratégico vigente, que determinava a expansão internacional da Petrobras, contribuindo para o aumento da comercialização de petróleo e derivados produzidos pela companhia.

6 – As cláusulas “Put Option” e “Marlim” estavam no resumo executivo?

O resumo executivo originado pelo Diretor da Área Internacional e apresentado ao Conselho de Administração sobre a compra da refinaria de Pasadena não citava as cláusulas de “Marlim” e “Put Option”, nem suas condições e preço de exercício.

7 – Por que a Petrobras comprou os outros 50% da refinaria?

A partir de 2007, houve desentendimentos entre a Petrobras e a Astra em relação à gestão e ao projeto de expansão da refinaria. Em dezembro daquele ano, a Astra enviou à Diretoria Internacional da Petrobras uma carta de intenções para a venda dos outros 50%. Em março de 2008, a Diretoria da Petrobras apreciou e submeteu a proposta de compra ao Conselho de Administração, que não a autorizou. A Astra exerceu sua opção de venda (“Put Option”) e a Petrobras assumiu o controle da integralidade da refinaria ainda em 2008, após disputa judicial. Em 2012, tomando por base laudo arbitral confirmado judicialmente, houve uma negociação final entre as partes, considerada completa e definitiva.

8 – Qual foi a razão do desentendimento entre Astra e Petrobras?

A Astra não concordou em fazer investimentos na ampliação e modernização do parque de refino. A intenção era ampliar a capacidade de Pasadena para 200 mil barris por dia, que era a solução desejada pela Petrobras e que se mostrava mais interessante para processar o petróleo de Marlim.

 9 – Qual é a situação atual da refinaria?

A refinaria, que tem capacidade de refino de 100 mil barris por dia, está em plena atividade, opera com segurança e vem dando resultado positivo este ano. A unidade tem localização privilegiada, num dos principais centros de petróleo e derivados dos Estados Unidos. Opera com petróleo leve, disponível nos Estados Unidos a partir do crescimento da produção local de óleo não-convencional (tight oil).

A Petrobras já recebeu propostas pela compra de Pasadena, mas decidiu manter a refinaria fora do pacote de desinvestimentos até que sejam concluídas as investigações em curso. Só então decidirá o que fazer, considerando as condições do mercado.

10 – Como o caso está sendo apurado na Petrobras?

No dia 24 de março, foi instaurada uma Comissão Interna de Apuração na Petrobras sobre a aquisição da refinaria de Pasadena para esclarecer todas as questões que vêm sendo discutidas na sociedade. Além disso, a companhia é fiscalizada e colabora com os órgãos de controle como o TCU, a CGU e o Ministério Público. Desde novembro de 2012, foram respondidas 16 solicitações do TCU e cinco da CGU sobre Pasadena.

Assange: “Não existe mais diferença entre internet e sociedade”

 

Assange participa, via Skype, do debate sobre Soberania Digital e Vigilância na era da Internet. (Foto: Eduardo Aigner)

Por Ivan Longo, via Revista Fórum

Para o debate sobre Soberania Digital e Vigilância na era da Internet, no terceiro e último dia do ArenaNET Mundial, foram convidados nomes de peso na militância pela internet livre. Jacob Appelbaum, especialista e pesquisador americano em segurança de computadores; Natália Viana, jornalista e responsável pelo Wikileaks Brasil; Sérgio Amadeu, sociólogo e militante do software livre, e Roy Singham, CEO da ThoughtWorks, estavam entre eles. O nome mais esperado para esta tarde, no entanto, foi o de Julian Assange, jornalista e ciberativista australiano, criador da rede WikiLeaks.

Diretamente da embaixada do Equador em Londres, onde vive em asilo desde 2012, Assange participou da mesa via Skype. Vestindo uma camiseta da seleção brasileira de futebol, o criador do WikiLeaks agradeceu a oportunidade de fazer parte do evento e disse estar muito satisfeito com a aprovação do Marco Civil da Internet. “Sei que houve concessões para a aprovação, mas acho, ainda assim, que é um passo importante estabelecer isto em um país tão grande como o Brasil, que está encontrando o seu caminho no mundo”, afirmou.

A qualidade da transmissão de Assange via Skype estava oscilando muito, o que o fez até brincar com a possibilidade de estar sendo boicotado pela NSA, a agência de espionagem norte-americana. “É só falar algo polêmico que a conexão cai…”, ironizou.

Durante sua fala, Assange, além de enaltecer a importância do ArenaNET Mundial e do NETMundial para trilhar os novos caminhos da internet no mundo, atentou para o fato de que os eventos representam um novo impulso político, e que se trata de uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos. Por isso, o Brasil deve continuar lutando para não ceder às pressões. “Estados Unidos e Reino Unido têm sido colonizadores do espaço da internet, e eles reconhecem a ameaça que os esforços feitos pelo Brasil, na criação de ambientes alternativos, representa. O NETMundial e o Arena NETMundial estão sob forte pressão dos EUA e seus aliados. Então, vamos fazer nosso brado de guerra contra essa pressão geopolítica”, convocou.

O jornalista destacou ainda que existe um novo campo de jogo pelo poder no mundo e que esse campo é a internet. Por isso, segundo ele, “existe uma guerra mundial acontecendo e essa guerra é para controlar a web”. Assange explicou que isso ocorre já que, na sua opinião, a internet e a sociedade se transformaram em uma coisa só. “Quando não existe nenhum tipo de limitação entre as sociedades da internet, ocupar a web torna-se a mesma coisa que ocupar a sociedade. Não existe mais diferença entre a internet e a sociedade. As pequenas diferenças que existem estão desaparecendo. O controle sobre a internet é o controle sobre as economias do mundo”, disse, esclarecendo ainda que, por conta do jogo de poder que representa a rede, é de suma importância promover debates sobre internet livre como o Brasil está fazendo.

Em relação ao Marco Civil da Internet, o criador do WikiLeaks foi só elogios, mas aproveitou alertar as pessoas de que nem sempre uma lei, quando aprovada, é aplicada, e que por isso é essencial a sociedade não ter medo e continuar lutando. “Em relação ao Marco Civil, ele é ótimo. Mas quando algo é aprovado, nem sempre é aplicado. Só é aplicado com pressão política. Precisamos nos estruturar para ter poder político e colocar as coisas em prática”, disse. “Não se assustem quanto aos poderes dos EUA, o que muitas vezes impede as pessoas de se engajarem. A realidade é que a NSA é uma agência muito incompetente. Por isso que Snowden teve a possibilidade de hackear. O Pentágono tem sido muito amedrontado pelos espaços alternativos como esse, e nós estamos lidando com instituições nada democráticas. Se construirmos nossas próprias associações, iremos muito mais longe”, analisou.

Ao final do debate, com uma transmissão um pouco melhor, Assange voltou a falar sobre os riscos que o Marco Civil da Internet corre, em relação à vigilância, pela pressão das corporações e dos Estados Unidos, mas concordou com o professor e sociólogo Sérgio Amadeu, que convocou a sociedade a se aproximar da criptografia para dificultar a vigilância da NSA. “Concordo com todas as palavras do Sérgio. Quando aprovamos uma legislação sempre há o risco que ela seja corrompida com o tempo. Se a pressão das grandes corporações e a pressão dos EUA continuarem, essa legislação será corrompida. A única maneira de impedir é com o nosso trabalho, nossa solidariedade e nossa pressão. Precisamos da criptografia, do software livre… Podemos construir um sistema diferente. Não vamos parar de lutar, e esse é o momento”, finalizou.

Marchinhas de carnaval: Atuais desde 1954

O fantasma do racionamento volta a assombrar a população brasileira (Bahia Comenta/Reprodução)

Por Rennan Martins

A cultura popular brasileira e suas marchinhas de carnaval são emblemáticas quanto a irreverência e a crítica política. Estamos em 2014 e quando olhamos para letras que já fazem 60 anos, percebemos o quão atuais e pertinentes elas continuam.

A sabedoria do povo, avessa a conceitos “objetivos” e tecnocráticos, diagnostica muito bem as mazelas que enfrenta e as transforma em versos. A despeito do discurso neoliberal que nos empurra goela abaixo que tudo que é privado é eficiente, podemos notar nas letras destas duas marchinhas a falta de veracidade dessa afirmação.

Este ano o estado de São Paulo enfrenta uma grave crise de escassez de água e o Brasil volta a ser assombrado pelo fantasma do racionamento de energia. Enquanto isto, a Sabesp distribui grandes dividendos a seus acionistas e os leilões de energia do “livre mercado” vendem megawatts a preço de banana.

Nos versos que deixo abaixo, fica a crítica a abordagem mercadológica dada a recursos tão importantes quanto a água e a luz.

Acende a vela (1954)

“Acenda a vela, Iaiá

Acende a vela

Que a Light cortou a luz

No escuro eu não vejo aquela

Carinha que me seduz.

 

Ó seu inglês da Light

A coisa não vai all right

Se com uísque não vai não

Bota cachaça no ribeirão.”

 

Café Soçaite (1955)

 

“Rio de Janeiro

Cidade que nos seduz

De dia falta água

De noite falta luz.

 

Abro o chuveiro

Não cai nem um pingo

Desde segunda

Até domingo.

 

Eu vou pro mato

Ai! pro mato eu vou

Vou buscar um vagalume

Pra dar luz ao meu chatô.”

Economista francês vem ao Brasil debater a crise do neoliberalismo

Via Carta Maior

O economista francês Gérard Duménil, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), estará no Brasil nas próximas semanas para o lançamento de A crise do neoliberalismo, pela Boitempo Editorial, obra escrita em parceria com o também pesquisador Dominique Lévy, que apresenta um tratamento ambicioso e original da atual crise econômica global e um relato criterioso dos fatores que levaram a esse declínio. Ele se apresenta em São Paulo no dia 24/04, às 19h, na Biblioteca Mario de Andrade.

Em recente entrevista, Duménil afirmou que a crise econômica mundial iniciada em 2008 poderá se estender por um período superior a dez anos. Esse prazo longo, maior do que ocorreu com outras crises no passado, deve-se, segundo ele, ao fato de não ser possível ainda ver uma saída para Europa e Estados Unidos, que têm problemas com o significativo aumento da dívida pública. O economista destaca no livro as políticas econômicas cada vez menos liberais nos Estados Unidos pós-crise, como o aumento do protecionismo no comércio internacional e uma política econômica mais intervencionista, mas descarta que essas mudanças estejam levando os Estados Unidos, ou mesmo o mundo, para um compromisso mais à esquerda e fala do avanço de um “capitalismo neogerencial”.

No dia 6 de maio, Duménil estará em Foz do Iguaçu, onde dará uma palestra, às 18h30min, no Auditório da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu. No dia 8 de maio, o economista falará em Porto Alegre, às 14h30min, no auditório da Fundação de Economia e Estatística.

A crise do neoliberalismo

Em A crise do neoliberalismo, Gérard Duménil e Dominique Lévy, dois dos mais influentes pesquisadores sobre o neoliberalismo, recontam a história desse novo estágio do capitalismo: do colapso dos subprimes à dita “Grande Contração”. Ao discutir a financeirização econômica, a reestruturação produtiva, as lutas de classes e as relações internacionais às portas de uma nova ordem global multipolar, os autores propõem uma reflexão fundamental à compreensão da história e dos rumos da economia.

O livro traz uma análise da chamada “Grande Contração” de 2007-2010 no contexto da globalização neoliberal iniciada nos primeiros anos da década de 1980. Com uma abordagem crítica não dogmática, Duménil e Lévy articulam uma enorme quantidade de dados perturbadores para revelar, como saldo da globalização neoliberal, o enriquecimento dos 5% norte-americanos mais ricos, em paralelo à redução de 40% para menos de 10% do PIB dos Estados Unidos em trinta anos.

A queda do investimento interno na indústria, uma dívida doméstica insustentável e a crescente dependência de importações, aliados ao financiamento e ao desenvolvimento de uma estrutura financeira global frágil e impraticável, ameaçam a força do dólar. A menos que haja uma alteração radical da organização político-econômica do país, os autores preveem um declínio agudo da economia norte-americana – e não hesitam em diagnosticar: “Sair da crise vai ser muito difícil”.

A do neoliberalismo é a quarta crise estrutural do capitalismo desde o fim do século XIX. A comparação com as crises anteriores – das décadas de 1890, 1930 e 1970 – coloca em perspectiva a análise profunda e detalhada que os autores fazem da situação atual. Contrapondo-se a diversas explicações sobre a crise econômica vigente, eles defendem a tese ousada de que a contração econômica em curso, à semelhança da Grande Depressão de 1929, é uma crise da hegemonia financeira.

Em vez de lançar a culpa sobre indivíduos isolados, como o fazem, por exemplo, Alan Greenspan e Ben Bernanke, Duménil e Lévy concentram-se nas forças estruturantes da economia. Para eles, a presente crise é resultado direto das contradições inerentes ao próprio projeto neoliberal. Suas tendências abalaram as fundações da economia da “base segura” – isto é, a capacidade dos Estados Unidos de crescer, manter a liderança de suas instituições financeiras em todo o mundo e assegurar a posição dominante de sua moeda –, uma estratégia imperial e de classe que resultou em um impasse. Segundo os autores, consertar a quebra da economia norte-americana exige a imposição de limites sobre o livre comércio e a livre movimentação de capitais, além de políticas destinadas a aprimorar a educação, a pesquisa e a infraestrutura; a reindustrialização e a fixação de tributação das rendas mais altas.

A privatização é uma porta para a corrupção e a indiferença uma porta para a guerra

Por Paul Craig Roberts, via Resistir

A ideologia libertária favorece a privatização. Contudo, na prática habitual a privatização dá resultados muito diferentes dos postulados pela ideologia libertária. Quase sempre, a privatização torna-se um caminho para que interesses com boas ligações saqueiem tanto os fundos públicos como o bem-estar geral.

A maior parte das privatizações, tais como aquelas verificadas em França e no Reino Unido durante a era neoliberal [NR] e na Grécia hoje e na Ucrânia amanhã, são saqueios de activos públicos por interesse privados com conexões políticas.

Outra forma de privatização é entregar funções tradicionais de governo, tais como a operação de prisões e muitas funções de abastecimento dos serviços armados, tais como alimentar as tropas, a companhias privadas com um grande aumento no custo do serviço. Basicamente, a ideologia libertária é utilizada para providenciar contratos públicos lucrativos para umas poucas pessoas favorecidas as quais então retribuem aos políticos. Isto é chamado de “livre empresa”.

A privatização de prisões nos EUA é um exemplo do extraordinário custo e injustiça da privatização. A privatização de prisões exige taxas de encarceramento mais altas a fim de proporcionar lucratividade. Os EUA, supostamente “uma terra de liberdade”, tem de longe a mais alta de encarceramento de todos os países do mundo. Os “livres” EUA têm não só a mais alta percentagem da sua população na prisão como também o mais alto número absoluto.

A “autoritária” China, com quatro vezes a população dos EUA, tem menos cidadãos na prisão.

Este artigo mostra quão bem a privatização das prisões funciona para interesses privados com boas ligações:

http://www.globalresearch.ca/privatization-of-the-us-prison-system/5377824

Ele mostra também a vergonha extraordinária, a corrupção e o descrédito que a privatização das prisões trouxe para os EUA.

Alguns anos atrás escrevi acerca da condenação de dois juízes que eram pagos por centros privatizados de detenção juvenil para sentenciar garotos a destinados às suas instalações.

Como disseram Alain de Lille e posteriormente Karl Marx, “Dinheiro é tudo”. Na América, o dinheiro é tudo o que é importante para o sistema político e para a maior parte da população. Basicamente, a América não tem outros valores.

Outra grande fantasia libertária é a Wall Street. Na mitologia libertária a Wall Street é a mãe dos empresários e do arranque de companhias que florescem em gigantes industriais, manufactureiros e comerciais. Nos factos reais, a Wall Street é a mãe de enorme corrupção. Como mostra Nomi Prins em All The President’s Bankers, isto sempre se verificou.

Ultimamente tem havido uma enchente de denunciantes da Wall Street. Muitos são relatados por Pam Martens, no seu sítio Wall Street On Parade:

wallstreetonparade.com/

Ao contrário dos ideólogos libertários, Prins e Martens são antigos iniciados da Wall Street e sabem do que estão a falar.

Todos os mercados financeiros americanos são manipulados em benefício de uns poucos. Tivemos a revelação do trading de alta frequência a correr na frente [dos outros] ordens de compra e venda. Tivemos a revelação dos grandes bancos a manipularem a taxa de juro LIBOR e a cotação (fix) do preço do ouro em Londres. Tivemos a revelação da manipulação do Federal Reserve, através dos seus bancos dependentes, a manipularem o preço do ouro nos mercados de futuros. Tivemos a revelação em audiências no Congresso da manipulação de preços de metais e de commodities. O valor cambial do dólar é manipulado. E assim por diante. Mas nenhuma cabeça rolou. Recentemente um promotor da SEC, James Kidney, aposentou-se. Após a sua aposentação, ele proclamou que os seus casos contra grandes bancos criminosos haviam sido suprimidos pelas mais altas instâncias da SEC, as quais tinham os olhos cravados em grandes empregos junto aos bancos que estavam a proteger enquanto permaneciam ao serviço do governo.

Assim são as coisas. O governo dos Estados Unidos é tão esmagadoramente corrupto que mesmo as agências reguladoras das finanças foram corrompidas pelo dinheiro dos capitalistas privadas que elas deveriam regular.

América, a corrupta. Foi no que se tornou.

Nem mesmo Vladimir Putin entende quão totalmente corrupta e insensível para com a humanidade é Washigton.

A resposta de Putin à crise criada na Ucrânia pelo golpe de Washington em Kiev é confiar nos “parceiros ocidentais da Rússia”, na ONU, no regime Obama, em John Kerry, etc, para elaborar uma solução razoável para a crise.

A esperança de Putin numa solução diplomática é irrealista. Os governos da NATO são comprados e pagos por Washington. Exemplo: a Alemanha não é um país. A Alemanha é uma mera peça do império de Washington. O governo alemão fará como Washington disser. O governo alemão representa a agenda de Washington. Os governos europeus a quem Putin está a falar não estão a ouvir.

Paul Wolfowitz, o neoconservador que como vice-secretário da Defesa presidiu a orquestração da falsa evidência utilizada pelo regime Bush para lançar guerra de Washington no Médio Oriente, declarou a minimização do poder russo como o “primeiro objectivo” da política externa e militar dos EUA.

“Nosso primeiro objectivo é impedir a re-emergência de um novo rival, tanto no território da antiga União Soviética como alhures, que apresente uma ameaça da ordem daquela apresentada pela antiga União Soviética. Isto é uma consideração dominante subjacentes à nova estratégia de defesa regional e exige que nos esforcemos para impedir qualquer poder hostil domine uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam suficientes para gerar poder global”.

O que Wolfowitz quer dizer com “poder hostil” é qualquer poder independente da hegemonia de Washington.

Washington derrubou o governo eleito da Ucrânia a fim de orquestrar uma crise que distrairia a Rússia das aventuras washingtonianas na Síria e no Irão e a fim de demonizar a Rússia como um invasor a reconstruir um império que é um perigo para a Europa. Washington utilizará esta demonização a fim de romper os crescentes relacionamentos económicos entre a Rússia e a Europa. O objectivo das sanções não é punir a Rússia, mas sim romper relacionamentos económicos.

A estratégia de Washington é audaciosa e implica risco de guerra. Se no Ocidente os media fossem independentes, o plano de Washington falharia. Mas o Ocidente tem um Ministério da Propaganda ao invés de media. O New York Times encontrou mesmo um substituto para Judith Miller. Como pode ter esquecido ou nunca sabido, Judith Miller era a repórter do New York Times que recheou o jornal com mentiras neoconservadoras do regime Bush acerca de armas iraquianas de destruição em massa. Ao invés de examinar e denunciar as afirmações falsas do regime Bush, o New York Times reforçou a argumentação do regime em favor da guerra ao utilizar a credibilidade do jornal para promover a agenda de guerra neoconservadora.

O novo Judith Miller é David M. Herszenhorn, tendo como cúmplices Andrew Roth, Noah Sneider, and Andrew Higgins. Herszenhorn descarta a totalidade dos relatos dos media russos quanto aos acontecimentos na Ucrânia como “uma extraordinária campanha de propaganda” destinada a ocultar da população russa o facto de que toda a crise ucraniana é culpa do governo russo. “E assim começou mais um dia de arrogância e hipérbole, de desinformação, exageros, teorias conspiratórias, retórica acalorada e, ocasionalmente, absolutas mentiras acerca da crise política na Ucrânia que provêm dos mais altos escalões do Kremlin e repercutem na televisão russa controlada pelo estado, hora após hora, dia após dia, semana após semana”.

www.nytimes.com/

Nunca havia lido uma peça de propaganda tão descarada como esta de Herszenhorn. Ele baseia sua reportagem em duas “autoridades”: Lilia Shevtsova do Carnegie Moscow Center, financiado pelos EUA, e Mark Galeotti, professor da Universidade de Nova York.

Segundo Herszenhorn, os protestos generalizados no Leste da Ucrânia são totalmente por culpa dos manifestantes que estão a encenar um show para finalidades de propaganda. Os protestos não são uma resposta às palavras e feitos do governo fantoche que Washington instalou em Kiev. Herszenhorn descarta relatos de extrema russofobia neonazi como “afirmações sinistras” e encara o governo não eleito imposto por Washington em Kiev como legal. Contudo, Herszenhorn encara governos constituídos em resultado de referendos como sendo ilegais a menos que aprovados por Washington.

Se acreditar em Herszenhorn, terá de descartar todas as reportagens como mentiras e propaganda, como estas abaixo:

rt.com/news/eu-no-russian-interference-ukraine-844/

news.antiwar.com/

rt.com/news/ukrainian-tanks-kramatorsk-civilians-840/

rt.com/news/putin-ukraine-military-operation-740/

www.globalresearch.ca/

rt.com/news/ukraine-troops-withdraw-slavyansk-940/

O Mundo Ocidental e o Mundo da Matrix protegido pelo Ministério da Propaganda. As populações ocidentais são subtraídas à realidade. Elas vivem num mundo de propaganda e desinformação. A situação real é muito pior do que a realidade do “Big Brother” descrita por George Orwell no seu livro, 1984.

A ideologia conhecida como neoconservadorismo, a qual tem controlado os governos dos EUA desde o segundo mandato de Clinton, atiçou o mundo num caminho de guerra e destruição. Ao invés de levantar perguntas acerca deste caminho, os media ocidentais apressam nesse caminho. Leia o que médicos relataram, resultado da crença dos neoconservadores do regime Obama de que a guerra nuclear pode ser vencida:

original.antiwar.com/lawrence-wittner/2014/04/14/your-doctors-are-worried/

O governo chinês apelou à “desamericanização” do mundo. Os parlamentares russos entendem que fazer parte do sistema de pagamentos dólar é um subsídio russo ao imperialismo americano. O legislador russo Mikhail Degtyaryov disse ao Izvestia que “O dólar é diabólico. É um papel verde sujo tingido com o sangue de centenas de milhares de cidadãos civis do Japão, Sérvia, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Coreia e Vietname”:

rt.com/politics/russian-dollar-abandon-parliament-085/

Contudo, porta-vozes da indústria russa, possivelmente na folha de pagamento de Washington mas mais provavelmente apenas pessoas despistadas, disseram que a Rússia estava obrigada por contratos para com o sistema dólar e que talvez em 10 ou 15 anos a Rússia pudesse adoptar uma abordagem mais inteligente. Isso é assumir que a Rússia ainda seria capaz de actuar nos seus próprios interesses depois de sofrer mais 10 ou 15 anos do imperialismo financeiro dos EUA.

Todo país que deseje ter uma existência independente sem ter de viver sob o polegar de Washington deveria imediatamente afastar-se do sistema de pagamento dólar, o qual é uma forma de os EUA controlarem outros países. Este é o único objectivo a que serve o sistema dólar.

Muitos países são afligidos por economistas treinados nos EUA na tradição liberal.

Sua educação estado-unidense é uma forma de lavagem cerebral que assegura que os seus conselhos tornem seus governos impotentes contra o imperialismo de Washington.

Apesar das ameaças óbvias que Washington apresenta, muitos não reconhecem as ameaças por causa da pose de Washington como “a maior democracia”. Contudo, académicos à procura da democracia não conseguem encontrá-la nos EUA. A evidência é de que os EUA são uma oligarquia, não uma democracia:

www.globalresearch.ca/the-u-s-is-not-a-democracy-it-is-an-oligarchy/5377765

Uma oligarquia é um país que é dirigido por interesses privados. Estes interesses privados – Wall Street, o complexo militar/segurança, petróleo e gás natural e agronegócio – procura a dominação, um objectivo bem servido pela ideologia neoconservadora da hegemonia estado-unidense.

Os Oligarcas Americanos ganham mesmo quando perdem. Finalmente, a infame prisão de torturas de Washington, Abu Ghraib, foi encerrada. Mas não por Washington. A cidade iraquiana caiu na semana para a “derrotada” al-Qaeda. Lembre-se, nós vencemos a guerra no Iraque. US3 milhões de milhões desperdiçados, mas esse não é modo como o complexo militar/segurança vê as coisas. A guerra foi uma grande vitória para os lucros.

news.antiwar.com/…

Quanto tempo mais americanos estúpidos sucumbirão à fraude da bandeira a tremular?

Os republicanos utilizaram as guerras a fim de criar enormes défices orçamentais e dívida nacional que agora estão a ser utilizadas para desmantelar a rede de segurança social, incluindo a Segurança Social e o Medicare. Há conversas de privatizar a Segurança Social e o Medicare. Mais lucros para Oligarcas em oferenda. A credulidade da população americana é realmente sem igual.

A credulidade do público americano condenará o mundo à extinção.

Uma carta aberta a FHC que merece ir para os livros de história

Via blog do Rovai

Segue uma Carta Aberta de Theotonio dos Santos, economista, cientista político e um dos formuladores da Teoria da Dependência. Hoje é um dos principais expoentes da Teoria do Sistema Mundo. Mestre em Ciência Política pela UnB e doutor “notório saber” pela UFMG e pela UFF e Coordenador da cátedra e rede UNU-UNESCO de Economia Global e Desenvolvimento sustentável – REGGEN.

O texto é um primor e contribui tanto para entender o quanto o governo do PSDB  foi deletério para o Brasil como ajuda a impedir que a mídia tente “lavar branquinho” a história e produzir uma nova versão do que foram os anos FHC.

THEOTONIO DOS SANTOS: CARTA ABERTA A FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Meu caro Fernando,

Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960.

A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete contudo este debate teórico. Esta carta assinada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação.Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000). Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartilhar com você… Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário. No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”. ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese? Conclusões: O plano Real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito – Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade. E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. Um governo que chegou a pagar 50% ao ano de juros por seus títulos para, em seguida, depositar os investimentos vindos do exterior em moeda forte a juros nominais de 3 a 4%, não pode fugir do fato de que criou uma dívida colossal só para atrair capitais do exterior para cobrir os déficits comerciais colossais gerados por uma moeda sobrevalorizada que impedia a exportação, agravada ainda mais pelos juros absurdos que pagava para cobrir o déficit que gerava. Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou drasticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. Vergonha, Fernando. Muita vergonha. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identificar com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição os 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem nenhuma garantia. Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em consequência deste fracasso colossal de sua política macroeconômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este país.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso fazê-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entrou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional. Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o verdadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista. E dessa política vocês estão fora.Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a frequentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.

Com a melhor disposição possível, mas com amor à verdade, me despeço.