Arquivo mensais:abril 2014

Neruda e García Márquez: Frente a frente

Por Rennan Martins

Passados 12 dias da despedida de Gabriel García Márquez, o mundo se agita em torno de sua obra, sua vida, seu legado. E eis que, numa dessas pesquisas encontro este registro histórico, de importância ímpar para a humanidade. Trata-se do próprio Gabriel entrevistando Pablo Neruda, nobel de literatura.

Esta entrevista, denominada Neruda y García Márquez: Frente a frente, foi idealizada pelo jornalista Augusto Olivares e produzida pela Televisión Nacional, estatal de TV chilena. O ano era 1971 e Neruda havia sido agraciado com o nobel há 48 horas. Gabo então voou de Barcelona ao encontro do poeta, em Paris.

A intimidade dos dois transparece por toda a gravação, que mais parece uma conversa. Nela, os dois discutem a literatura, os papéis do romancista e do poeta em relação a ela, e a possibilidade de entendimento entre estas correntes.

Gabo estava dedicado a escrever O Outono do Patriarca, e considerou que seu trabalho, quando mais voltado a literatura, o afasta da realidade que o jornalismo o expunha de forma constante, e instiga Neruda a expor a perspectiva do poeta sobre esta questão. Este então pondera a poesia como algo mais intimista, uma visão muito particular do autor sobre o mundo.

García Márquez, 11 anos antes de ganhar o nobel por Cem Anos de Solidão, já o previa e pediu a seu amigo que o felicitasse quando isto ocorresse. Neruda não teve a oportunidade. Em 1973, 12 dias após o golpe militar que derrubou Allende e a frente socialista do governo chileno, veio a falecer.

Fiquem agora com os próprios:

Abaixo, a opção do youtube, o qual se pode habilitar as legendas em espanhol:

Bob Fernandes: Esquenta ainda mais a guerra eleitoral

Por Bob Fernandes, em seu facebook

Lá de Portugal, Lula diz que o chamado “mensalão” foi um “massacre que visava destruir o PT”. E que “80% do julgamento foi político”.

Por alguns motivos, Lula disse o que disse lá em Portugal, e não no Brasil.

Disse lá por saber da repercussão que teria dentro e fora do Brasil. E para deixar claro o que ele, Lula, já não esconde e vem repetindo em todo canto:

-A chamada “grande mídia” do Brasil tem lado. E o jogo é e será pesado, como nunca antes.

A CPI da Petrobras, cobrada pelas oposições, vem aí. Ou não vem? Com seus milhões nas manchetes, cada dia mais milhões.

O governismo anuncia contra-ataque. Com CPI dos milhões do metrô do PSDB em São Paulo e do porto de Suape, na Pernambuco do PSB.

Anuncia enquanto convoca as redes sociais para a batalha, como têm feito Lula e Dilma nas últimas semanas.

Jogo pesado e difícil, inclusive por conta da brigalhada interna.

Em meio a um embate salarial entre setores da Polícia Federal e o governo Dilma, informações estariam sendo vazadas.

Informações sobre investigação de personagens, tipo André Vargas, e de empresas como a Petrobras.

Conversei nesta segunda-feira, 28, com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso. Ele disse:

-Seja delegado ou agente, quem vazar informação será punido.

Jones Leal, presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (FENAPEF), nega que agentes estejam vazando informações. Mas não põe a mão no fogo por delegados que, diz ele, apoiam o PSDB.

Leal conta que agentes e demais categorias da PF apoiaram Lula, e depois Dilma, desde as eleições de 2002.

Ambiente diferente, o da eleição deste 2014. Talvez a mais encarniçada disputa desde a que elegeu Fernando Collor em 1989.

No entender de Lula, a luta na mídia, a “grande mídia”, é e será desigual. Por isso, cada vez mais, o ex-presidente estará na linha de frente. Com tudo que isso possa significar.

Inclusive os recorrentes rumores e ações sobre o “Volta, Lula”.

Somos todos macacos

Por Emir Sader, em seu blog

Depois da enésima vez que jogaram bananas contra jogadores negros na Europa, Daniel Alves resolveu comer a banana e Neymar declarou: Somos todos macacos.

Depois da enésima vez que jogaram bananas contra jogadores negros na Europa, Daniel Alves resolveu comer a banana e Neymar declarou: “Somos todos macacos”. É o começo da reação, que os próprios europeus parecem incapazes de fazer, contra a discriminação nos campos de futebol, que é apenas a extensão da vida cotidiana em países que se consideram “brancos e civilizados”.

A Europa “civilizada” se enriqueceu às custas da escravidão e do seu corolário – a discriminação e a redução dos negros a “bárbaros”. Vieram com a cruz e a espada a “civilizar-nos”, isto é, destruir as populações nativas e submete-las ao jugo da dominação colonial. Tiraram milhões de africanos do seu mundo para trazê-los como animais a trabalhar como escravos para explorar as riquezas daqui e enviá-las para enriquecer a Europa “civilizada”.

Todo o movimento histórico da “liberdade, igualdade, fraternidade”, foi feito em função da libertação dos servos da gleba europeus, desconhecendo a escravidão que essa mesma Europa praticava. Ninguém – salvo o solitário Hegel – tomou conhecimento da Revolução Haitiana contra a dominação da França “emancipada” por sua revolução, mas opressora da primeira Revolução Negra de independência nas Américas.

Séculos depois, quando a Europa “civilizada” termina com seu Estado de bem estar social e joga no abandono a milhões de pessoas – antes de tudo os imigrantes, que foram trabalhar em condições degradantes quando suas economias os necessitavam -, o racismo mostra toda sua força. Os partidos de extrema direita são os que mais se fortalecem, ao mesmo tempo que o racismo aparece nos também nos campos de futebol, sem que gere indignação na Europa “civilizada”.

Ao mesmo tempo, desenvolvem uma campanha discriminatória contra o Brasil, desenhando um país de “cobras, tigres, macacos”, além de ser, segundo o absurdo e estúpido informe do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha, “um país de alto risco”. Fosse assim porque estão instalando fábricas da BMW, da Mercedes, além de ampliar a da Volkswagen e várias outras?

Fazem por isso porque o Brasil de hoje incomoda os adeptos do neoliberalismo, que leva a Europa a um desastre social, enquanto nós – e vários outros países da América Latina – crescemos e diminuímos a desigualdade e a miséria. Nós os incomodamos porque estamos fora do Consenso de Washington, que eles tentaram impor-nos, nos causaram muitos danos, mas de que soubemos recuperar-nos e somos a região do mundo que se contrapõe aos descaminhos que a Europa assume.

Vamos recebê-los com a maior cordialidade no Mundial de Futebol. Comendo e oferecendo bananas a todos eles, assumindo que: “Somos todos macacos”.

 

Evo Morales segue como favorito para reeleição na Bolívia

Via Opera Mundi

Presidente lidera pesquisa com 38,3% das intenções de voto; vantagem é de 24 pontos sobre o opositor

O presidente da Bolívia, Evo Morales, que tentará sua segunda reeleição em novembro, tem uma vantagem de 24 pontos sobre o candidato opositor, o empresário Samuel Doria Medina, de acordo com um levantamento divulgado neste domingo (27/04).

Agência Efe

A pesquisa de opinião publicada pelos jornais El Deber e Página Siete revela que a intenção de voto em Evo é de 38,3%, contra 13,4% em Medina.

A vantagem do mandatário, no entanto, caiu sete pontos percentuais. A última pesquisa, realizada pela Tal Cual Comunicación Estratégica e publicada em janeiro indicava que Evo tinha a preferência de 45,7% dos eleitores. A pesquisa aponta, no entanto, que nenhum dos concorrentes foi beneficiado pela queda na intenção de voto, já que a posição dos opositores se encontra “congelada”.

Medina passou de 13,4% para 14 %; Rubén Costas de 9,1% para 9,3% e Juan del Granado de 4,4 % para 5,9 %. Muitos eleitores seguem indecisos a sete meses das eleições. A pesquisa aponta que 14,5%, “não sabe ou não respondeu” ao questionário, enquanto 13,4% afirmaram que não votarão em “nenhum” candidato.

A sondagem mostra também que o nível de aprovação do presidente segue alto. Dos 2.500 consultados, 68% disseram que aprovam muito ou pouco sua gestão. Em janeiro, o índice era de 73%.

A Constituição boliviana diz que um candidato não precisa ter a maioria absoluta nas eleições para vencê-la no primeiro turno, sendo necessário somente ter 10 pontos de diferença sobre o segundo colocado.

*com agências

 

EUA arrastam o mundo à guerra

Por Paul Craig Roberts, em seu portal

O regime Obama, chafurdando em húbris e arrogância, escalou temerariamente a crise ucraniana e fez dela uma crise com a Rússia. Intencionalmente, ou por estupidez, as mentiras de propaganda de Washington estão agora fazendo da crise, guerra. Cansada de ouvir as ameaças tresloucadas de Washington, Moscou já nem atende telefonemas de Obama e dos principais funcionários dos EUA.

A crise na Ucrânia começou quando Washington derrubou o governo democrático eleito e o substituiu por idiotas escolhidos a dedo por Washington. Os idiotas puseram-se a atacar, com palavras e à bala, as populações de ex-territórios soviéticos que líderes comunistas soviéticos anexaram à Ucrânia. Consequência dessa política de doidos, é a agitação da população que fala russo, e que escolheu voltar a ser parte da Federação Russa. A Crimeia já se uniu à Rússia. Agora, o leste da Ucrânia e outras partes do sul da Ucrânia provavelmente também se unirão à Rússia.

Em vez de ver seus próprios erros, o regime Obama estimulou os idiotas que Washington instalou em Kiev a usar de violência contra as áreas onde vivem falantes de russo, que querem organizar referendos, para que possam votar e aprovar a reintegração das áreas em que vivem, à Rússia. O regime Obama encorajou os idiotas a usarem de violência, apesar da clara declaração do presidente Putin, de que nenhuma força militar russa jamais ocuparia a Ucrânia, a menos que os manifestantes ucranianos que se opunham ao governo dos idiotas em Kiev fossem vítimas de violência.

A única conclusão possível é que ou Washington nada ouve do que lhe digam, ou, então, que Washington deseja violência.

Se nem Washington nem a OTAN estão posicionadas dessa vez para mover força militar significativa para a Ucrânia, suficientes para confrontar o Exército Russo, por que o regime Obama tanto se esforça para provocar a ação dos militares russos?

Uma possível resposta é que, agora que o plano de Washington de expulsar a Rússia de sua base naval no Mar Vermelho foi derrotado, Washington abraça o plano de sacrificar a Ucrânia a uma invasão russa, para que Washington ponha-se a demonizar a Rússia e force vasto aumento nos gastos militares e no orçamento da OTAN e deslocamento de tropas da OTAN.

Em outras palavras, o negócio é uma nova guerra fria e mais milhões de dólares em lucros para o complexo militar/de segurança de Washington.

A meia dúzia de soldados e aviões que Washington mandou para “garantir” os regimes incompetentes naqueles pontos perenes de problemas para o Ocidente – Polônia e países do Báltico – e os navios armados com mísseis enviados para o Mar Negro são nada. São só provocação simbólica.

Sanções econômicas aplicadas a funcionários e milionários russos só fazem comprovar a impotência de Washington. Sanções reais feririam os estados da OTAN, fantoches de Washington, muito mais do que feririam a Rússia.

É claro que Washington não tem qualquer intenção de acertar coisa alguma com o governo russo. As ‘exigências’ de Washington foram ‘impostas’, porque não são aceitáveis. Washington está ‘exigindo’ que o governo russo puxe o tapete debaixo dos pés dos manifestantes pacíficos no leste e no sul da Ucrânia e force populações russas na Ucrânia a submeterem-se aos idiotas de Washington em Kiev. Washington também ‘exige’ que a Rússia renegue a reunificação da Crimeia e devolva a Crimeia a Washington, para que Washington consiga, assim, completar o projeto de expulsar a Rússia de sua base no Mar Negro.

Em outras palavras, Washington quer que a Rússia cole outra vez os cacos que resultaram da loucura de Washington na Crimeia e entregue a coisa, recomposta, a Washington.

É ‘exigência’ tão irrealista, tão alucinada, que ultrapassa qualquer arrogância. O Doido da Casa Branca está dizendo a Putin: “Me danei, quando tentei invadir seu quintal. Ordeno que você, agora, invada o seu quintal e me dê o seu quintal, para que eu me safe com uma boa “ameaça estratégica” que me permita expulsar você do seu quintal.”

A imprensa-empresa prostituta, a press-tituta mídia ocidental e os estados-fantoches de Washington na Europa estão apoiando essa ‘exigência’ alucinada. Consequentemente, os líderes russos perderam qualquer confiança que tivessem nas palavras e nas intenções do ocidente, e é assim que começam as guerras.

Governos europeus estão pondo os próprios países em grave risco. E para ganharem o quê? Os líderes europeus são chantageados, ameaçados, subornados com sacos de dinheiro? Ou estão tão viciados em seguir o comando de Washington que só sabem fazer isso, obedecer Washington? O que Alemanha, Grã-Bretanha e França teriam a ganhar, por deixar que Washington os empurre a um confronto com a Rússia?

A arrogância de Washington é coisa jamais vista e pode arrastar o mundo à destruição. Que fim levou o senso de autopreservação da Europa? Por que a Europa não emite mandados de prisão contra todos os membros do governo Obama? Sem a cobertura que lhe dão a Europa e a imprensa-empresa press-tituta, Washington não conseguiria arrastar o mundo à guerra.

*Paul Craig Roberts foi Secretário Assistente do Tesouro para Políticas Econômicas e editor associado do Wall Street Journal. Foi colunista no Business Week, Scripps Howard News Service, e Creators Syndicate. Já ocupou diversas cadeiras acadêmicas. Suas colunas online atraem audiência em escala global.

Muito mais que um tiroteio

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

O assunto entra na pauta comum da violência na região metropolitana da capital paulista, mas a morte do médico Ricardo Assanome, de apenas 27 anos, ocorrida na noite de sábado (26/4)no interior de uma delegacia na cidade de Santo André, merece mais atenção da imprensa do que o mero registro de praxe.

O crime revela muito mais do que o despreparo de policiais, a falta de segurança dentro da própria delegacia e a ausência de regras para o porte de armas entre agentes públicos: é provavelmente o retrato muito claro de que há alguma coisa muito errada na política de combate à violência.

Na segunda-feira (28/4), os jornais contam a história do jovem médico, que entrou no 2º Distrito de Santo André, com a namorada, para fazer um boletim de ocorrência por causa de um acidente banal de trânsito. Os danos no carro foram apenas superficiais, mas ele teve que ir à delegacia porque o sistema para registro via internet não funcionou. Era apenas uma dessas exigências burocráticas, e lhe custou a vida no lugar onde supostamente deveria estar protegido.

O roteiro apresentado pela imprensa é de causar espanto.

Um policial militar à paisana que fugia de supostos assaltantes caiu com sua motocicleta em frente à delegacia, no momento em que Assanome, a namorada e outro cidadão, Ricardo Mahlow, esperavam para serem atendidos. Mahlow fora chamado para retirar um carro que havia sido roubado e localizado pela polícia. O barulho feito pela motocicleta assustou o agente de telecomunicações André Bordwell da Silva, que saiu de sua sala atirando a esmo.

A descrição dos jornais conta que o investigador de plantão, ouvindo os disparos, também saiu para a recepção e, julgando precipitadamente que a delegacia estava sendo atacada por bandidos, passou a atirar contra o grupo.

Ricardo Assanome, que tentava proteger a namorada, levou um tiro na cabeça e morreu antes de chegar ao hospital. Ricardo Mahlow, que fora buscar seu carro, também foi atingido. E o agente que havia começado o tiroteio terminou baleado pelo próprio colega.

O que a imprensa nos apresenta, então, é uma tragédia escrita sobre o roteiro de uma “comédia de erros” tipicamente shakespeariana.

Morto ao chegar

No entanto, o que o incidente revela é um estado de desordem no sistema paulista de segurança pública. Em primeiro lugar, segundo especialista citado pela Folha de S.Paulo, o agente de telecomunicações André Bordwell da Silva não deveria estar portanto uma arma de fogo, mesmo dentro da delegacia. Suas funções não o qualificam para lidar com situações extremas, como o atentado que imaginou estar acontecendo. Ele não é preparado para fazer avaliações de risco, e, portanto, há aqui uma suposição de irresponsabilidade por parte de quem lhe forneceu uma arma.

Em segundo lugar, o investigador que somou suas habilidades ao tiroteio iniciado pelo agente de telecomunicações saiu disparando às cegas, tanto que acabou acertando o próprio colega com um tiro no peito.

Em terceiro lugar, registre-se que as autoridades superiores claramente se recusaram a fornecer mais informações aos repórteres que tentaram contar a história, e os jornais se conformam com informações parciais. O Estado de S. Paulo não informa nem mesmo os nomes dos agentes que se envolveram no crime.

Pode ser que as redações tenham sido prejudicadas pela precariedade da cobertura nos fins de semana, que Alberto Dines costuma chamar de “jornalismo de feriado”, ou “jornalismo plantoneiro”. Veremos, nos próximos dias, se existe interesse da imprensa em destrinchar o que há por trás desse episódio grotesco.

Em circunstâncias normais, é de se esperar que a Corregedoria de Polícia Civil tome a iniciativa de vir a público apresentar explicações aceitáveis para esse assassinato. No entanto, dado o contexto de conflagração político-eleitoral que se agrava com a proximidade das urnas, essa é uma possibilidade remota.

O mais provável é que o gabinete de crise do governo paulista esteja agora trabalhando os argumentos que deverão convencer os jornalistas de que os fatos ocorridos no interior do 2º Distrito Policial de Santo André foram uma aberração, uma conjunção negativa dos astros. Então, o cidadão que considera inútil registrar ocorrências de menor perda, seguirá evitando entrar nas delegacias, o que acaba distorcendo as estatísticas que deveriam informar a estratégia de segurança pública.

Vai concluir que, além da certeza de que nada será investigado, ainda corre o risco de ser morto pela própria polícia.

Diálogos Desenvolvimentistas: A crise econômica argentina e suas soluções | Parte 2

Edição por Rennan Martins

No último dia 23, quarta-feira, iniciamos uma rodada de publicações de uma discussão em relação aos problemas econômicos que nossos vizinhos ao sul estão enfrentando. Consideramos que dada a necessidade de integração da América do Sul e das relações estratégicas de nosso país com a Argentina, a compreensão do que o que acontece por lá é relevante.

Aos que chegaram agora, sugiro a leitura da primeira parte para maior contextualização. O debate foi continuado entre Gustavo Santos, doutor em economia e funcionário do BNDES, e Eduardo Crespo, argentino, doutor em economia e professor da UFRJ.

Continue com eles:

Eduardo Crespo – Eu concordo que os governos do PT foram mais conservadores e que não aproveitaram os anos de bonança internacional para que o Brasil pudesse crescer a taxas altas. E com Brasil crescendo a taxas baixas a integração regional vira apenas uma ilusão.

Mas Argentina poderia ter evitado esta última crise. A negação do Central a vender dólares, com essas taxas e a absurda politica de desvalorizar em parcelas, foi um convite para a fuga de capitais. Mesmo com taxas muito mais reduzidas que as atuais (no final não teve jeito e tiveram de subir as taxas até 30%) poderiam ter evitado tantos problemas. A desvalorização gradual e os mecanismos ilegais de fuga foram um desastre. O governo perdeu o controle da taxa de câmbio, justamente o que queria evitar quando colocou os controles. Desde 2011 não conseguiu nenhum dos objetivos buscados. Foi um dos últimos países da AL em entrar em deficit de transações correntes (teve superavit até 2012) e foi o único com Venezuela a ter crise cambial. Alguma coisa indubitavelmente está mal. Seguramente o fato de estar excluída do mercado financeiro mundial foi o fator principal. Mas não esqueça que mesmo a Bolívia de Evo Morales colocou títulos que pagam 4% ao ano. Argentina nem teria precisado a entrada de capitais (especulativos ou IED) para sustentar sua situação externa. Se tivesse evitado a fuga desde 2007 (ou permitido fugas de proporções menores) hoje poderia ter deficit de conta-corrente sem grandes dificuldades. O problema central da macroeconomia argentina hoje é financeiro.

Gustavo Santos – Sim, como na Venezuela.

Como resolver a fuga de capitais então?

Aumentar a taxa de juros para 30% ao ano não vai resolver sozinho.

Já dei minhas sugestões.

Deixando de proibir a aquisição de dólares só aumenta a fuga e não o contrário.

Se o dólar negro explodir o problema ainda fica contornável e administrável, o problema é quando o dólar oficial explode, daí você estará a um passo da hiperinflação.

Abrir agora, simplesmente não funciona, só se perde mais divisas. a demanda por dólares por parte dos próprios argentinos é efetivamente infinita.

Eduardo Crespo – Depois da crise de janeiro-fevereiro as restrições foram relaxadas bastante e a fuga mesmo assim parou, mas com taxas nominais de 30% ao ano (a real continua a ser negativa porque a inflação é agora bem superior a 30%) e um dólar oficial fixado a 8. Isto é, a relação taxa nominal doméstica – taxa internacional – risco – expectativas de desvalorização, virou positiva, por enquanto, e o Banco Central voltou a acumular algumas reservas. A situação tranquilizou bastante.

Você diz que “Se o dólar negro explodir o problema ainda fica contornável e administrável” Isso era o que diziam muitos economistas vinculados ao governo: “é um mercado pequeno sem grandes incidências sobre a economia real” ( sugiro: http://www.urgente24.com/212129-%C2%BFa-quien-le-importa-el-dolar-libre-dijo-el-candidato-que-le-roba-alegrias-a-moreno).

Mas infelizmente não foi bem assim. O dólar oficial tendeu a gravitar na direção do dólar negro. Toda vez que o gap entre o oficial e o negro crescia, aumentava a demanda de dólares no oficial e se acelerava a queda de reservas. Muitos preços, aliás, se ajustavam diretamente pelo dólar negro. O mecanismo foi um completo fracasso. Concordo com você que a solução não é virar um puxa saco do sistema financeiro internacional, mas medidas pouco eficazes como o ‘cepo’ acabam favorecendo as politicas neoliberais e desprestigiando à heterodoxia. Agora todos os neoclássicos e conservadores da Argentina andam dizendo “Você viu? A politica de vocês é um desastre”. A medida acabou favorecendo um giro político para a direita (mesmo dentro do próprio governo). Nestes primeiros meses do ano 2014 em Argentina tivemos desvalorização + ajuste de tarifas de serviços públicos + ajuste fiscal. E o que é pior, os primeiros bancos que subiram as taxas ao público e suspenderam o crédito foram os bancos públicos. Dá para ver que esperam ordenar as contas externas mediante o efeito-renda, ou seja, com recessão.