Arquivo mensais:abril 2014

Diálogos Desenvolvimentistas: O tabuleiro geopolítico e o embate de classes

Edição por Rennan Martins

O artigo “Estamos entrando em um novo mundo? Fukuyama errou!”, que é uma tradução do original em espanhol do La Jornada, rendeu uma rica discussão por parte de nossos colaboradores.

Com os últimos acontecimentos que acirraram as relações entre as potências, parece que uma reconfiguração do tabuleiro geopolítico mundial está a ocorrer. Suscitou-se então o debate de velhas questões entre nossos colaboradores.

Tratando da polêmica questão do que interessa a sociedade e do que interessa aos que dominam, Adriano Benayon, doutor em economia e ex-diplomata, e Helio Silveira, economista e ex vice-presidente da AFBNDES nos oferecem boas reflexões em torno da problemática do emprego, das crises capitalistas e do papel dos empresários e trabalhadores nestas.

Confira:

 Adriano Benayon – Concordo. É um artigo bastante informativo, que assinala fatos recentes, demonstrativos do que sempre deveu estar claro: que a estória de “fim da História”, do tal Francis Fukuyama, jamais mereceu crédito por parte de quem tem noções de História. Se tiver tempo, vou procurar algo que publiquei, logo que se começou a propagar a tal estória.

Sempre esteve claro, para os menos mal informados, que a grande voga de Fukuyama foi uma dessas que a maioria dos meios acadêmicos e a grande mídia fomentam, no quadro de sua prestação de serviços à oligarquia cuja meta é o poder mundial totalitário.

É mais um dos inúmeros casos de famas criadas a respeito de personagens acadêmicas medíocres, promovidas por cumprirem à risca o que diz o ditado alemão:

Dessen Brot ich esse, wessen Lied ich singe. (Eu canto a canção de quem me dá o pão).

Hélio Silveira – Ótimo artigo, que ao iniciar com a citação ao Fukuyama, faz uma interessante exposição dos acordos que estão ocorrendo no âmbito asiático e permitirão a possibilidade de equilibrar uma situação geopolítica que hoje se encontra unipolar.

A mídia ocidental no episódio Ucrânia e referendo da Crimeia desaprovando a reunificação à Rússia não cita nenhuma referência ao posicionamento chinês frente ao episódio. No artigo está colocado a informação que faltava: o apoio econômico chinês à Rússia!

Quanto a citação ao Fukuyama que Adriano colocou, sempre haverá um intelectual “contratado” pelos hegemônicos, relembro uma citação de Kalecky em seu brilhante texto político de 1944 –  ”Os Aspectos Políticos do Pleno Emprego“.

No texto ele faz menção aos profissionais “contratados” para defenderem o “status quo” conservador, no caso ele faz uma previsão de como seria o futuro (ou seja, hoje) econômico das democracias capitalistas onde os conservadores (a plutocracia financista) contratariam um profissional para condenar a ação anticíclica do Estados nas recessões/depressões, vejam a seguinte citação no trecho abaixo: “Nessa situação é provável a formação de um poderoso bloco de grandes empresários e rentistas, que encontraria mais de um economista para declarar que a situação é claramente enferma”

“Essa situação é talvez sintomática do futuro regime econômico das democracias capitalistas. Na depressão, ou pela pressão popular ou mesmo sem ela, o investimento público financiado por empréstimo será adotado para evitar o desemprego em larga escala. Mas se forem feitas tentativas de aplicar esse método a fim de manter o alto nível de emprego alcançado na subsequente prosperidade, é provável que haverá uma forte oposição por parte dos “líderes empresariais”. Como já foi assinalado, um pleno emprego duradouro não é absolutamente do gosto deles. Os trabalhadores estariam “fora de mão” e os “capitães da indústria” estariam ansiosos por “ensinar-lhes uma lição”. Ademais, o aumento de preços na fase de prosperidade é desvantajoso para os pequenos e médios rentistas e os tornaria “aborrecidos”. Nessa situação é provável a formação de um poderoso bloco de grandes empresários e rentistas, que encontraria mais de um economista para declarar que a situação é claramente enferma. A pressão de todas essas forças, e em particular das grandes empresas, muito provavelmente induziria o Governo a retomar à política ortodoxa de corte do déficit orçamentário. Seguir-se-ia uma recessão, na qual a política governamental de despesa voltaria a seu sentido próprio.”

Estamos entrando em um novo mundo? Fukuyama errou!

Por José Blanco, via La Jornada

O fim da história e o último homem (1992) via a queda da URSS assim, em meio ao júbilo dos ocidentais (e orientais): terminariam as ideologias, o mundo seria governado pela economia globalizada, sob o marco da democracia liberal: o fim da história. A única coisa a ser feita seria esperar o avanço da ciência que nos traria benefícios sem fim, eternamente.

Por meio do tratado de Belavezha, firmado em 8 de dezembro de 1991 pelos presidentes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, dissolveu-se a maior república socialista que já existiu. As 15 repúblicas que formavam a URSS adquiriram independência, ainda que 78% dos cidadãos tenham votado a favor da conservação da URSS.

O que parece é que a posterior conformação da Comunidade de Estados Independentes conservou em boa parte o peso da Rússia perante a região. Os historiadores nos revelarão um dia como grupos políticos russos abriram caminho para realocar a Rússia e a mesma confederação como um ator independente e de grande influência e peso na cena internacional.

Apenas 23 anos depois, tendo como marco a crise da globalização neoliberal, os caminhos percorridos pela Rússia e a China nos levaram a um ponto próximo da formação de um novo mundo. Uwe Klussmann escreve no Spiegel online, publicação do semanário alemão Der Spiegel que Rússia e China “preparam-se para firmar um novo acordo de cooperação político-militar”, o qual daria a plataforma necessária para gerar um reequilíbrio das forças mundiais. Klusmann informa que Renmin Ribao, o órgão principal do Partido Comunista chinês, declarou recentemente em um documento que o caso da Ucrânia está revestido do espírito da Guerra Fria, de modo que “o enfoque estratégico da China e Rússia põem um ponto de estabilidade no mundo”.

O Global Times, periódico chinês publicado em inglês, assim intitulou um editorial recente: “Como fazemos novos amigos”, que conclui dizendo: “não podemos deixar assim a Rússia, se encontra-se em dificuldades a China deve ser um sócio estratégico confiável”. Estas posições foram saudadas por Putin na Duma (parlamento russo), agradecendo ao povo chinês. E uma surpresa: a página da Casa Branca publicou na semana passada que descendentes de antigos siberianos russos entregaram a Washington um documento com 30 mil assinaturas solicitando a reintegração do Alaska à Rússia. A mesma página informa que são necessárias 100 mil assinaturas para que esta passe a consideração do presidente.

Os Estados Unidos festejaram com júbilo a votação da ONU sobre o que o Ocidente denomina anexação e a Rússia reunificação, em relação a Crimeia: 100 votos a favor condenando a “ação russa”, 11 contra e 58 abstenções. A Rússia solicitou a Obama que preste um pouco de atenção as abstenções: China, Índia, Brasil, África do Sul (os BRICS). Também Argentina, Uruguai, Equador, Paraguai e El Salvador, e mais outros 49, não votaram com os EUA.

Os Estados Unidos e a União Europeia estavam há anos negociando um acordo de livre comércio, um instrumento bastante complexo que seria o maior acordo comercial do mundo, sem dúvida uma boa notícia para ambos. As negociações haviam entrado em ponto morto devido as descobertas de espionagem que afetam a vários países da Europa em torno das negociações. Na atual circunstância os EUA tinham decidido eliminar, de uma penada, os embargos as importações da União Europeia a partir do último dia 26. A EU procura afiançar uma coalizão internacional de grande poder. Só que esta coalizão vive um momento de grande fragilidade econômica e pode estar próxima de mais uma grande crise.

Do outro lado os mesmos acontecimentos impulsionam outra grande coalizão com os BRICS, que estão em vias de criar seu próprio “Banco Mundial” e “FMI”, sob suas próprias regras. Na semana passada a Rússia negociou um acordo para seus pagamentos em sua própria moeda, com a China e a Coreia do Norte. Se esta medida expande-se aos BRICA, não farão mais pagamentos em dólar pelo petróleo. A queda da demanda por dólares seria um duríssimo golpe a economia estadunidense.

Não somente outras coalizões internacionais estão a se formar, também os plebiscitos proliferam: a região italiana de Cerdeña segue a Véneto, outra região italiana que celebrou recentemente sua independência da Itália, segundo a edição digital do Nova Sardegna. O mesmo ocorre com a província autônoma italiana de Bolzano-Alto Adigio, mais conhecida como Tirol del Sur, que em 1919 formava o império Austro-Húngaro: busca se tornar independente da Itália. E mais: o governo da Escócia anunciou um referendo para o próximo setembro a fim de consultar a população sobre a independência do Reino Unido. A Catalunha, por sua vez, mesmo sob a negativa do governo espanhol, decide também em setembro em uma votação a opção de separar-se da Espanha. O país Székely – parte da Transilvânia, integrante da Romênia – está do mesmo jeito, e as regiões de Flandes querem separar-se de Valonia, o que faria desaparecer a Bélgica.

Estamos às portas de um novo mundo?

*- Resolvi incluir este pertinente comentário de Adriano Benayon, doutor em economia e ex-diplomata sobre os acontecimentos discutidos neste artigo:

É um artigo bastante informativo, que assinala fatos recentes, demonstrativos do que sempre deveu estar claro: que a estória de “fim da História”, do tal Francis Fukuyama, jamais mereceu crédito por parte de quem tem noções de História. Se tiver tempo, vou procurar algo que publiquei, logo que se começou a propagar a tal estória.

Sempre esteve claro, para os menos mal informados, que a grande voga de Fukuyama foi uma dessas que a maioria dos  meios acadêmicos e a grande mídia fomentam, no quadro de sua prestação de serviços à oligarquia cuja meta é o poder mundial totalitário.

É mais um dos inúmeros casos de famas criadas a respeito de personagens acadêmicas medíocres, promovidas por cumprirem à risca o que diz o ditado alemão:

Dessen Brot ich esse, wessen Lied ich singe. (Eu canto a canção de quem me dá o pão).

Tradução: Rennan Martins

Por que a mídia não está procurando Fabio Barbosa para falar da compra da refinaria de Pasadena?

Ninguém quer ouvir Barbosa (DCM/Reprodução)

 

 

Por Paulo Nogueira, via DCM

Queria entender uma coisa. Por que a mídia não entrevista o presidente da Abril, Fabio Barbosa, sobre o caso Petrobras?

Ele ocupava uma posição privilegiada quando a refinaria de Pasadena foi comprada. Era integrante do Conselho de Administração da empresa.

E é um executivo respeitado.

Isso não é suficiente para ouvi-lo?

Seria, se não fosse uma coisa: Barbosa está dizendo uma coisa que a mídia não quer publicar.

Disse Barbosa: “A proposta de compra de Pasadena submetida ao Conselho em fevereiro de 2006, do qual eu fazia parte, estava inteiramente alinhada com o plano estratégico vigente para a empresa, e o valor da operação estava dentro dos parâmetros do mercado, conforme atestou então um grande banco americano, contratado para esse fim. A operação foi aprovada naquela reunião nos termos do relatório executivo apresentado.”

Não repercutiu nada esta declaração na mídia tradicional. Ela apareceu no site da Veja. Provavelmente Barbosa recorreu aos filhos de Roberto Civita para que sua versão sobre a compra fosse publicada antes que a informação de que ele a chancelara ganhasse o noticiário em circunstâncias penosas para ele. Raras vezes, e isto é batata, como dizia Nelson Rodrigues, a Veja terá publicado algo tão contrariada.

Outra ausência notável entre os entrevistados na interminável cobertura do caso é a de Claudio Haddad, também ex-conselheiro da Petrobras. Aqui é ainda mais revelador, dado que Haddad é um dos economistas mais procurados pela mídia para falar de questões macroeconômicas.

Mas ninguém quer saber de seu testemunho sobre a Petrobras.

Bem, no mesmo texto do site da Veja em que Barbosa fala do negócio, Haddad lembrou que as negociações foram assessoradas pelo Citibank, que deu aval à compra.

“O Citibank apresentou um ‘fairness opinion’ (recomendação de uma instituição financeira) que comparava preços e mostrava que o investimento fazia sentido, além de estar em consonância com os objetivos estratégicos da Petrobras dadas as condições de mercado da época.”

Algum jornalista, a propósito, foi atrás do Citi?

Não. Porque a vontade, no caso, não é levar luz onde há sombra, como manda o bom jornalismo, mas o oposto: levar sombra à luz.

Pobres leitores.

Pobre interesse público.

Pobre Brasil.

Otan: Aliança militar e maior ameaça à paz completa 65 anos

Na reformulação constante do seu papel militarista e belicoso no mundo, a Otan lança o “Novo Conceito Estratégico”, em 1999 e 2010. (Otan/Reprodução)

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) completa 65 anos nesta sexta-feira (4). A aliança militar foi criada no contexto da Guerra Fria, mas sua manutenção pelo imperialismo se dá através de reformulações “estratégicas” que expandem a sua atuação no mundo e generalizam o seu papel de forma quase infinita. Em declaração ao Vermelho, Socorro Gomes, presidenta do Conselho Mundial da Paz, disse que a Otan é “um instrumento de agressão e dominação dos povos, a maior ameaça à paz no mundo”.

Lançada em 4 de abril de 1949, a partir da assinatura do Tratado do Atlântico Norte entre os EUA e seus aliados europeus, a Otan empenhou-se pela expansão para o Leste europeu após a dissolução da União Soviética, que apresentava como a sua inimiga a ser contida – o motivo da sua existência, durante a Guerra Fria.

Entretanto, com a mudança de cenário, ao invés de dissolvida, uma vez que representa mais riscos e ameaças do que a segurança, a aliança é ressuscitada sistematicamente pelo imperialismo.

“A Otan tem uma folha de crimes enorme contra a humanidade e a paz; os eventos criminosos são concretos: a guerra contra os Bálcãs, a Líbia e as suas tentativas, como na Síria, onde foram mais maliciosos e optaram pelo envio de mercenários estrangeiros para fazer o seu trabalho,” disse Socorro Gomes, que também é presidenta do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

Na reformulação constante do seu papel militarista e belicoso no mundo, a Otan lança o “Novo Conceito Estratégico”, em 1999 e 2010, onde a expansão generalizada das suas interpretações do que representa “ameaça à segurança” dos Estados membros é proposital.

Os “novos conceitos resumem-se na expansão do leque, em torná-lo infinito para a intervenção no mundo inteiro, contra os governos que não se submetem aos ditames da Europa e dos Estados Unidos,” enfatiza Socorro.

“Ameaçam-nos para impor seus modelos, como é o caso na Ucrânia.” Em março, a presidenta do Conselho Mundial da Paz (CMP) e do Cebrapaz discursou na Conferência Internacional “Paz Global vs. Intervencionismo e Imperialismo Global”, em Belgrado, na Sérvia, por ocasião dos 15 anos dos ataques aéreos da Otan contra a antiga Iugoslávia.

No evento, organizado pelo Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais, mais de 500 indivíduos e representantes de entidades de luta pela paz de todo o mundo denunciaram a agressão criminosa e a impunidade dos que tomaram parte, rechaçando a existência da Otan e exigindo a sua dissolução.

Neste sentido, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) – cuja presidenta, Ilda Figueiredo, também coordenadora regional do CMP para a Europa, discursou na conferência em Belgrado – participa na organização de um ato público, nesta sexta (4), em Lisboa, pela dissolução da Otan, com o mote “Pela Paz! Não à Otan!”.

Portugal faz parte da aliança, mas a expressão contrária a ela é significativa. Durante a Cimeira da Otan em Lisboa, em 2010, cerca de 30 mil pessoas e mais de 100 organizações foram às ruas contra a aliança e, em 2001, centenas reagiram às denúncias de uso de urânio empobrecido nos ataques à antiga Iugoslávia, nos Bálcãs.

Os movimentos mundiais pela paz enxergam na Otan a militarização das relações internacionais – seus membros são responsáveis por 75% dos gastos militares totais, de ligação estreita e direta ao chamado complexo industrial-militar, com a influência das grandes corporações do setor nas decisões de governo sobre a guerra.

São consequências disso o aumento da insegurança e da ameaça aos povos, através do aprofundamento do intervencionismo como princípio – em 1999, a campanha de 78 dias de ataques aéreos contra a antiga Iugoslávia, em que cerca de metade das quatro mil vítimas era de civis, foi denominada uma “guerra humanitária” – e a imposição de modelos de governo e econômicos que condigam com a agenda das grandes potências.

MARÉ TERÁ PROTOCOLO DE ATUAÇÃO DAS FORÇAS DE SEGURANÇA

Via Observatório de Favelas

A partir da esquerda: Osmar Camelo (Associação de Moradores do Morro do Timbau), André Santos (subprefeito da Zona Norte), Beltrame (Secretário de Segurança Pública), Átila Roque (Anistia Internacional) e Eliana Sousa Silva (Redes da Maré). Foto: Elisângela Leite.

A audiência pública sobre política de segurança no contexto de ocupação da Maré, realizada na manhã desta quinta-feira, (03/04) no Centro de Artes da Maré, com a participação do secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, e representantes de instituições locais, teve como principal resultado a aprovação de um Protocolo para a Ação das Forças de Segurança na Maré.

Beltrame assumiu o compromisso de implementar as propostas apresentadas. O protocolo foi construído pelas Instituições locais – Associações de Moradores das comunidades da Maré, desde o Conjunto Esperança até a Praia de Ramos, e Organizações da Sociedade Civil -, como forma de garantir os direitos da população.

PROTOCOLO PARA A AÇÃO DAS FORÇAS DE SEGURANÇA:

 1. A ação dos agentes de segurança deverá obedecer aos princípios da legalidade e da preservação da vida dos moradores da Maré e dos agentes do Estado, sendo obrigatória a identificação dos policiais e dos representantes das forças Armadas em qualquer ação.

2. A ação dos agentes de segurança pública deve seguir rigorosamente o uso de mandados judiciais individuais para o ingresso em domicílios particulares;

3. A intervenção dos agentes de segurança pública deverá priorizar ações de inteligência e de controle do uso de armas e munições para desarticular a presença das redes criminosas armadas;

4 . A ação de abordagem dos agentes de segurança pública não deve se orientar por práticas de discriminação racial e geracional e deve levar em consideração o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

5. A mediação de eventuais conflitos decorrentes da ação das forças de segurança deve ser encaminhada em articulação com as organizações locais, por meio de uma ouvidoria comunitária.

6. Serão realizadas reuniões semanais no primeiro mês, e quinzenais a partir do segundo mês, de monitoramento das ações, contando com a presença do comando das Forças Armadas e das forças estaduais de segurança e a participação dos moradores da Maré e das organizações locais.

Além da construção do protocolo, os participantes da audiência pública acertaram ainda a realização de um seminário com a presença de representantes da Prefeitura e do Governo do Estado do Rio, na sexta-feira, dia 11 de abril, às 14h, no Centro de Artes da Maré, na Nova Holanda. O objetivo é criar um projeto de segurança pública que incorpore o desenvolvimento de políticas sociais integradas na Maré.

 

 

A política externa de um Nobel da Paz

Editorial da edição 579 do Jornal Brasil de Fato

“Não temos interesse em ficar rodeando a Rússia. E não temos nenhum interesse na Ucrânia a não ser deixar o povo ucraniano tomar as próprias decisões sobre suas vidas”. Estas palavras do presidente dos Estados Unidos da América primam pela mentira e pela hipocrisia.

Mentira atestada por Jack F. Matlock Jr., ex-embaixador dos EUA na antiga União Soviética, de 1987 a 1991, nomeado pelo ultraconservador Ronald Reagan. Em recente artigo publicado em seu blog Matlock Jr. foi enfático ao afirmar que a entrada da Ucrânia à Otan era um objetivo declarado governo Bush-Cheney e não foi abandonado pela administração Obama. No mesmo artigo, o ex-embaixador desmascara a hipocrisia do presidente estadunidense quando afirma que a maioria dos ucranianos não quer a adesão à Otan.

Aparentar uma virtude, um sentimento que não se tem, é a essência da hipocrisia. E, se há algo que a política externa dos EUA não permite é deixar os povos, e entre eles o ucraniano, tomar as próprias decisões sobre suas vidas.

É do conhecimento de todos que Viktor Ianukovich, legitimamente eleito pela maioria dos ucranianos, foi deposto da presidência por se recusar a assinar um acordo de adesão à União Europeia. Para alcançar esse objetivo, o governo de Obama e a União Europeia – contando sempre com a conivência da mídia ocidental – não hesitou em incentivar e financiar meses de manifestações comandadas por grupos neonazistas.

O escritor paquistanês Tariq Ali lembra que os ultranacionalistas da Ucrânia, aliados às tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mataram 30 mil soldados russos e comunistas. Esses são os aliados de Obama na Ucrânia.

Enquanto presidente Ianukovich, ao recusar a adesão com a União Europeia, significava um entrave para a ofensiva imperialista de expandir a Otan ao leste, chegando à fronteira com a Rússia. Expansão que já era temida por Mikhail Gorbachev, último presidente da União Soviética, quando assinou o acordo de reunificação da Alemanha. O então Secretário de Estado dos EUA, James Baker, assegurou, na ocasião, que não haveria expansão da jurisdição da Otan nem uma polegada para o leste”. Bush e Obama colocaram suas palavras na lata do lixo.

A hipocrisia do presidente Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz, se acentua ainda mais ao não reconhecer o resultado do referendo em que 96,77% dos votos decidiu a favor da reunificação com a Rússia. O mesmo desprezo foi destinado ao parlamento da Crimeia que, seguindo a resultado do referendo, se declarou independente da Ucrânia e solicitou oficialmente a anexação da península à Rússia.

O resultado do referendo popular foi saudado por M. Gorbachev como a correção de um erro cometido em 1954 por Nikita Kruschev, presidente da URSS, quando cedeu a Crimeia, parte integrante da Rússia desde o século 18, à Ucrânia. Onde está o presidente Obama quando a população da Crimeia toma as próprias decisões sobre suas vidas?

Há que se fazer uma justiça com Barack Obama: a violência que comete contra os povos de todas as partes do planeta não é nenhuma novidade na política externa dos EUA, e muito menos uma marca singular do seu governo.

O escritor e jornalista Nicolas J.S. Davies produziu uma lista de 35 países em que o governo dos EUA promoveu golpes de Estado, derrubou governos legítimos, apoiou ditaduras ou participou de massacres e genocídios. O estudo refere-se apenas às intervenções entre pós-II Guerra Mundial até hoje. E certamente é uma lista incompleta.

Ainda de acordo com o escritor e jornalista, na Venezuela, tanto o ex- -presidente Hugo Chávez quanto seu sucessor, Nicolas Maduro, promovem políticas de unidade latino-americana que incomodam Washington.

Por isso, seriam, naturalmente, “autoritários”. E, tanto na Ucrânia quanto na Venezuela, os Estados Unidos têm interesse geopolítico claro na queda dos governantes e agiram – agem contra Nicolas Maduro – para provocá-la.

O argentino Atilio A. Boron faz a mesma leitura da contraofensiva sediciosa incentivada pela governo Obama contra a Venezuela Bolivariana.

Está sendo implementado “à concepção de novas estratégias para a “mudança de regime”, que apela para o chamado modo “não violento” de derrubar governos insubmissos aos ditames de Washington. Os casos da Líbia, Síria, Ucrânia e agora Venezuela ilustram didaticamente o que quer dizer a expressão “não violento” para os estrategistas e intelectuais do império.”

Os governos e os organismos internacionais, como a ONU, mostram-se relutantes e amedrontados, quando não totalmente submissos, à politica do big stick (grande porrete) atualizada para os tempos atuais pelo governo Obama. Resta aos povos reagir e lutar contra o poder do império.

O esforço da velha mídia para justificar o apoio à ditadura

Por Lúcio Centeno, via Escrevinhador

Justificar o injustificável. Esse é o esforço que parte da grande mídia tem feito ao nos aproximarmos do cinquentenário do Golpe civil-militar no Brasil. Aproveitando o marco dos 50 anos, o oligopólio das comunicações, ainda que envergonhadamente esboça uma tentativa de acerto de contas histórico com o povo brasileiro.

No entanto, cabe ressaltar que cada conglomerado da mídia nacional tem adotado uma tática distinta, para responder a mesma questão: como uma empresa de comunicação, que arrota aos quatro ventos o valor da democracia, justifica o apoio incontestável à uma ditadura em seu próprio país?

O Globo se antecipou aos demais e deu a largada de forma muito astuciosa. Um dia após o Levante Popular da Juventude denunciar o império midiático, jogando merda em suas sedes em vários estados, o jornal lançou um editorial reconhecendo o apoio do jornal ao Golpe, e classificando essa postura como um erro.

A tática do Globo foi a da delação premiada, assumiu a culpa de forma antecipada e delatou seus concorrentes: “O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns.” A confissão de culpa e a denúncia dos demais órgãos como cúmplices da ditadura, foi a estratégia encontrada para a atenuação do seu crime.

Ao realizar essa jogada, a Globo não tinha muito a perder. Depois de ser alvo preferencial nas manifestações de Junho (A Verdade é dura, a Rede Globo apoiou a Ditadura!), o reconhecimento público do apoio editorial ao golpe não poderia lhe render maiores prejuízos. No entanto, esse movimento colocou as demais empresas de comunicação numa situação constrangedora.  Como não se pronunciar após isso?

O Grupo RBS, através do jornal Zero Hora, diante desta sinuca, utilizou também uma tática bastante sofisticada. Em sua edição do dia 30 de Março, publicou um caderno especial, cujo eixo central é destacar o apoio civil ao Golpe Militar. Deste modo dedica cada página para um determinado segmento da sociedade civil, que deu sustentação política a ruptura da ordem democrática. Cita o papel de parcelas da intelectualidade, da Igreja, de empresários, políticos, setores estudantis eis que ao final do Caderno surge o papel da imprensa.

O raciocínio que a RBS tenta imprimir aos seus leitores é em certo sentido parecido com o que O Globo fez: Nós apoiamos, mas não o fizemos sozinhos. O diferencial é que o discurso do periódico gaúcho tenta “sociologizar” o apoio ao Golpe, ou seja, busca encontrar as condições sociais e políticas que levaram parcelas da sociedade, incluindo a imprensa, a se engajar contra a ordem democrática.

Curiosamente este apelo à complexidade da realidade, se dá neste caso em que ela é ré. Para todos os demais casos, é conveniente para a grande imprensa explicar a realidade com fórmulas simples (Manifestantes = Vândalos; Venezuela = Ditadura; estatal = ineficiente; mercado = eficiente; democratização da mídia = censura), pois assim é mais fácil produzir sentenças políticas.

No texto, ZH afirma que “praticamente todos os grandes jornais” revisaram sua posição após dezembro de 1968 – leia-se edição do AI-5 – quando o regime endureceu ainda mais. É falso, sobretudo, falso no que diz respeito ao diário da família Sirotsky. Alguém duvida?

Durante o ano de 68 o jornal publicou diversas capas divulgando apoios ao AI-5. No ano seguinte, ZH engajou-se na promoção do general Médici, o mais tirânico dos governantes ditatoriais. Em outubro de 1969, outro editorial sob o título “Nova Etapa” adianta que “o Terceiro Governo da Revolução não vem com planos demagógicos mas para dar sequência natural ao movimento de 64 institucionalizando-o definitivamente (…)”

A Folha de S. Paulo, no editorial de página inteira publicado também no dia 30 de março, monta uma argumentação semelhante a de ZH, mas é ainda mais explícita no seu objetivo de sustentar uma explicação relativista sobre o que levou a Folha a se engajar em favor do Golpe: ”Aos olhos de hoje, apoiar a ditadura militar foi um erro, mas as opções de então se deram em condições bem mais adversas que as atuais”. Ou seja, a responsabilidade não é inteiramente do jornal, mas das “condições bem mais adversas”.

Além de buscar a absolvição no relativismo histórico (“Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”, sim os nazistas também partiram dessa premissa), a Folha recorreu a outros recursos argumentativos: “Parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico. Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas, grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país.”

O editorial atribui em certa medida aos militantes de esquerda a “precipitação do regime”. Ou seja, às vítimas do regime, aqueles que lutaram contra a Ditadura, são em certa medida responsáveis por sua própria tragédia, e mais, pelo enrijecimento do regime. Para a Folha propor reformas de interesse popular dentro da ordem constitucional é forçar “os limites da legalidade”. Se isso é forçar “os limites da legalidade”, como classificaríamos o empréstimo ao aparelho repressivo de carros de distribuição do jornal Folha da Tarde, do próprio grupo Folha, para emboscar militantes políticos?

Por fim, temos o editorial do Estado de S. Paulo, que excetuando algumas frases e o tempo verbal, poderia ser extraído de alguma edição de 64. Nem o cinquentenário do Golpe, ou o distanciamento histórico permitiram ao Estadão assumir o erro do apoio editorial aos militares. Preferiu dar destaque para a “ameaça comunista”.

Como é difícil lidar com uma verdade dura. O oligopólio da comunicação brasileira tentou omiti-la, negá-la, as vezes justificá-la, as vezes flexibilizá-la, mas nós sabemos que a Verdade é dura, a imprensa apoiou a Ditadura!