Diálogos Desenvolvimentistas: A crise econômica argentina e suas soluções | Parte 2

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Edição por Rennan Martins

No último dia 23, quarta-feira, iniciamos uma rodada de publicações de uma discussão em relação aos problemas econômicos que nossos vizinhos ao sul estão enfrentando. Consideramos que dada a necessidade de integração da América do Sul e das relações estratégicas de nosso país com a Argentina, a compreensão do que o que acontece por lá é relevante.

Aos que chegaram agora, sugiro a leitura da primeira parte para maior contextualização. O debate foi continuado entre Gustavo Santos, doutor em economia e funcionário do BNDES, e Eduardo Crespo, argentino, doutor em economia e professor da UFRJ.

Continue com eles:

Eduardo Crespo – Eu concordo que os governos do PT foram mais conservadores e que não aproveitaram os anos de bonança internacional para que o Brasil pudesse crescer a taxas altas. E com Brasil crescendo a taxas baixas a integração regional vira apenas uma ilusão.

Mas Argentina poderia ter evitado esta última crise. A negação do Central a vender dólares, com essas taxas e a absurda politica de desvalorizar em parcelas, foi um convite para a fuga de capitais. Mesmo com taxas muito mais reduzidas que as atuais (no final não teve jeito e tiveram de subir as taxas até 30%) poderiam ter evitado tantos problemas. A desvalorização gradual e os mecanismos ilegais de fuga foram um desastre. O governo perdeu o controle da taxa de câmbio, justamente o que queria evitar quando colocou os controles. Desde 2011 não conseguiu nenhum dos objetivos buscados. Foi um dos últimos países da AL em entrar em deficit de transações correntes (teve superavit até 2012) e foi o único com Venezuela a ter crise cambial. Alguma coisa indubitavelmente está mal. Seguramente o fato de estar excluída do mercado financeiro mundial foi o fator principal. Mas não esqueça que mesmo a Bolívia de Evo Morales colocou títulos que pagam 4% ao ano. Argentina nem teria precisado a entrada de capitais (especulativos ou IED) para sustentar sua situação externa. Se tivesse evitado a fuga desde 2007 (ou permitido fugas de proporções menores) hoje poderia ter deficit de conta-corrente sem grandes dificuldades. O problema central da macroeconomia argentina hoje é financeiro.

Gustavo Santos – Sim, como na Venezuela.

Como resolver a fuga de capitais então?

Aumentar a taxa de juros para 30% ao ano não vai resolver sozinho.

Já dei minhas sugestões.

Deixando de proibir a aquisição de dólares só aumenta a fuga e não o contrário.

Se o dólar negro explodir o problema ainda fica contornável e administrável, o problema é quando o dólar oficial explode, daí você estará a um passo da hiperinflação.

Abrir agora, simplesmente não funciona, só se perde mais divisas. a demanda por dólares por parte dos próprios argentinos é efetivamente infinita.

Eduardo Crespo – Depois da crise de janeiro-fevereiro as restrições foram relaxadas bastante e a fuga mesmo assim parou, mas com taxas nominais de 30% ao ano (a real continua a ser negativa porque a inflação é agora bem superior a 30%) e um dólar oficial fixado a 8. Isto é, a relação taxa nominal doméstica – taxa internacional – risco – expectativas de desvalorização, virou positiva, por enquanto, e o Banco Central voltou a acumular algumas reservas. A situação tranquilizou bastante.

Você diz que “Se o dólar negro explodir o problema ainda fica contornável e administrável” Isso era o que diziam muitos economistas vinculados ao governo: “é um mercado pequeno sem grandes incidências sobre a economia real” ( sugiro: http://www.urgente24.com/212129-%C2%BFa-quien-le-importa-el-dolar-libre-dijo-el-candidato-que-le-roba-alegrias-a-moreno).

Mas infelizmente não foi bem assim. O dólar oficial tendeu a gravitar na direção do dólar negro. Toda vez que o gap entre o oficial e o negro crescia, aumentava a demanda de dólares no oficial e se acelerava a queda de reservas. Muitos preços, aliás, se ajustavam diretamente pelo dólar negro. O mecanismo foi um completo fracasso. Concordo com você que a solução não é virar um puxa saco do sistema financeiro internacional, mas medidas pouco eficazes como o ‘cepo’ acabam favorecendo as politicas neoliberais e desprestigiando à heterodoxia. Agora todos os neoclássicos e conservadores da Argentina andam dizendo “Você viu? A politica de vocês é um desastre”. A medida acabou favorecendo um giro político para a direita (mesmo dentro do próprio governo). Nestes primeiros meses do ano 2014 em Argentina tivemos desvalorização + ajuste de tarifas de serviços públicos + ajuste fiscal. E o que é pior, os primeiros bancos que subiram as taxas ao público e suspenderam o crédito foram os bancos públicos. Dá para ver que esperam ordenar as contas externas mediante o efeito-renda, ou seja, com recessão.

2 ideias sobre “Diálogos Desenvolvimentistas: A crise econômica argentina e suas soluções | Parte 2

  1. Victor Ferreira

    Não entendo porquê os governos de Argentina, Brasil e Venezuela continuam com sua política populista de sobrevalorização monetária que vem lhes trazendo tão somente desindustrialização. Deixem as moedas desvalorizarem o máximo e o quanto antes, pois somente assim estabilizarão a balança comercial e voltarão a ser industrialmente competitivos, voltando a crescer. Isso causará alguma carestia no início, mas se zerarem os déficits orçamentários e as emissões de novos meios de pagamento, logo os preços se estabilizam novamente. Não adianta querer represar a inflação com artifícios do tipo subsídios, juros altos e sobrevalorização monetária. A única solução para a inflação é deixar de emitir novos meios de pagamento e para o crescimento é desvalorizar fortemente o câmbio.

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  2. Victor Ferreira

    A esquerda latino americana deveria seguir o modelo da China, que comprovadamente deu certo, com bancos estatizados (não restante da economia – a ser mantida predominantemente privada) e algumas empresas estratégicas (como a Petrobras), juros baixos, pesados investimentos estatais – sociais e produtivos, ausência de déficits orçamentários e, principalmente, forte desvalorização cambial promovendo a industrialização. Haveria alguma elevação moderada de preços internos no início (e certa queda de popularidade temporária), devido ao encarecimento do dólar (redução das importações e elevação das exportações), mas isso seria inteiramente compensado em pouco tempo pelo grande aumento da produtividade, reindustrialização e forte crescimento econômico, bem como por uma possível política mais agressiva de distribuição de rendas através de ampliação de bolsas família, etc. Isso é desenvolvimentismo viável, sem populismo e com distribuição de riquezas.

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