
Edição por Rennan Martins
A crise econômica que a Argentina tem enfrentado é preocupante. A inflação não dá sinais de desaceleração, as estatísticas governamentais são questionadas e a perda de confiança mina o funcionamento pleno das atividades. Os preços de mais de 300 bens de consumo se encontram congelados.
Por outro lado, os grandes veículos de mídia, por interesses escusos, escondem que no ano passado o PIB argentino cresceu 3%, que eles possuem o maior salário mínimo da América Latina, ou seja, que suas políticas econômicas, por vezes hostis aos financistas, tem dado certo sob alguns parâmetros.
Sabendo do ataque midiático a economia argentina e dos reais problemas os quais o país passa, Bruno Galvão, doutor em economia e funcionário do BNDES, Gustavo Santos, de mesmos atributos e Eduardo Crespo, argentino, doutor em economia e professor da UFRJ travaram um rico debate no tocante as propostas de solução da inflação dos hermanos. Por conta da extensão do conteúdo e de sua complexidade, desmembrei os diálogos.
Confira o debate:
Bruno Galvão – O ataque ortodoxo tem sido feroz e não estou vendo resposta dos heterodoxos. Segundo o texto Colômbia, Peru, México e Chile e até Paraguai estão apresentando elevada taxa de crescimento econômico, enquanto Brasil, Venezuela e Argentina são um fracasso.
Qual seria a explicação? Os primeiros são liberais, aberta e ortodoxa, enquanto os outros seriam intervencionista.
Contudo, deve-se falar o seguinte:
1. Em primeiro lugar, o México tem apresentado taxas de crescimento econômico muito baixas. Entre as 15 maiores economias emergentes é a que menos cresceu nos últimos 20 anos (desde que o país entro no Nafta).
2. O sucesso colombiano é basicamente resultado do uso mais intensivo de suas reservas de petróleo (a não ser que se descubram grandes quantidade de petróleo, eles estão sacrificando o futuro do país). O valor exportado das exportações de combustíveis pela Colômbia se multiplicou por 10 nos últimos 10 anos.
3. Já há muito tempo, o crescimento do Chile não tem nada de brilhante.
4. O crescimento significativo do PIB no Peru e na Colômbia não tem nada de sustentável. A economia dos dois países é bem vulnerável ao preço das commodities e da alta de juros nos EUA. É certo que os próximos 10 anos eles crescerão menos e provavelmente terão uma crise cambial nesse período.
Eduardo Crespo – No caso da Argentina (e acho que a Venezuela é um caso parecido), o problema não é o liberalismo contra o estatismo, populismo, etc. Basicamente o governo fez várias besteiras na política financeira que impediram, por enquanto, que o país possa ter um moderado deficit de transações correntes sem que explodir o mercado cambiário. Mesmo antes de ter deficit (2013), o país já sofria una forte saída de capitais. Essa é a principal diferença como Peru, Chile, Colômbia, e mesmo o Brasil. Não tem nada no nível microeconômico, ou mesmo em um inexistente avanço no grau de industrialização dos primeiros, que explique o assunto. O tema é essencialmente macroeconômico. Agora subiram as taxas de juros e a corrida, por enquanto, parou. Sugiro a leitura dos textos de F. Amico, A. Fiorito e mesmo o meu no economista (http://www.eleconomista.com.ar/?p=6757) no qual tentamos explicar o assunto.
Gustavo Santos – Você está dizendo que a besteira do governo argentino foi a taxa de juros real negativa?
Minha solução para a Argentina é diferente:
1) ORTN (ou títulos públicos indexados em mercadorias);
2) câmbio múltiplo com 5 faixas;
Com essas 2 políticas acaba-se com a fuga de capitais, aumenta a competitividade da indústria e com juros reais muito baixos. Essas políticas sempre funcionaram.
Não sei porque a Argentina não teve ainda coragem de fazer essas políticas óbvias já que seus inimigos estão em um jogo de tudo ou nada e portanto não faz mais sentido nenhum pudor neoliberal como o Brasil ainda insiste porque ainda tem algo a perder: o crédito internacional.
A Argentina já não tem mais nada a perder, então pode fazer qualquer política Boa que desagrade o sistema bancário internacional. Aqui o PT ainda ser agarra naquela mal fadada carta ao povo brasileiro.
Eduardo Crespo – A lógica financeira que funciona na Argentina é similar à que funciona em qualquer lugar: se taxa de desvalorização esperada é maior que a taxa de juros (abstraindo riscos), tende a existir uma saída do peso para o dólar. Por quê? Porque nesse caso quem aposta ao dólar simplesmente ganha. Acho que se os títulos públicos indexados por mercadorias pagam mais que a desvalorização esperada vão a funcionar. Mas, se pagarem menos. Acho que não seria um bom remédio contra a fuga para o dólar.
Más a besteira principal do governo argentino foi o “cepo”, i.e., as restrições à venda de dólares. Com essa medida perdeu o controle sobre o mercado cambiário, já que com muita rapidez formou-se um mercado negro de dólares, acabou promovendo múltiplos mecanismos de fuga como a subfaturação de exportações e sobrefaturação de importações, e terminou com a entrada de capitais (IED, por exemplo). Sem dúvidas era preferível uma desvalorização controlada e não a terrível desvalorização que acabamos sofrendo de qualquer modo (60% em um ano). Por sua vez, com elevada inflação, taxas de juros reais negativas e a proibição de comprar dólares. O governo de fato transmitiu à classe média a ideia de que não tinha alternativa ao consumo. Ninguém pode ‘poupar’ em pesos, por exemplo, para comprar um imóvel. Em 2011 Cristina foi reeleita com o 54% dos votos e a economia crescia a 8% ao ano. Hoje o governo pode perder as próximas eleições e estamos muito perto de uma recessão. Os erros foram muito graves.
Gustavo Santos - Faz sentido. Porém, sua resposta é muito semelhante a que teria um ortodoxo conservador, que sei que você não é. A resposta é:
Aumente-se os juros.
Em alguma medida isso realmente funciona em situações de emergência.
Porém, a tentativa Argentina de seguir sem juros abusivamente altos desde o início do período Kirchner uma aposta muito mais progressista e bem-sucedida do que a aposta brasileira em alimentar os bancos com a gorda mesada dos juros.
Os brasileiros e mesmo os argentinos acham que Lula foi melhor do que a família Kirchner porque a imprensa buscou nos convencer disso, pois os Kirchner são muito mais hostis que o Lula aos interesses financeiros e imperiais. Mas em qualquer indicador social ou econômico a família Kirchnner ganha da família Lula.
A aposta argentina até agora foi fazer o possível para manter os juros baixos, e parece que só errou um pouco a mão recentemente.
Em termos de macroeconomia também não é tão simples o aumento dos juros. Em situações de ataque cambial muitas vezes é necessário subir os juros a mais de 40% ao ano para matar o ataque. Já vi isso acontecer algumas vezes.
E isso pode significar problemas sérios no setor bancário entre outros e também o a quebra do compromisso político que o governo tem com os setores que o apoiam. Poderia parecer uma mudança radical de linha ideológica.
Proibir a aquisição de dólares a priori não é uma medida que não funciona. Geralmente é uma boa medida. No Brasil sempre foi proibido e em larga medida ainda é. O problema da Argentina não é a proibição da compra de dólares e nem somente os juros muito baixos.
O problema é que o governo não tem crédito internacional porque é um governo realmente soberano e que não se curvou ao imperialismo.
E uma vez que não tem crédito internacional tem que gerar enorme saldo comercial e de conta-corrente no balanço de pagamentos. O que se tornou muito difícil recentemente em razão da queda das commodities e também do alto grau de sabotagem econômica que tem sofrido.
Aí a solução mais óbvia é a capitulação para o capital financeiro internacional. Mas isso seria o fim, porque o capital internacional não tem nenhuma gratidão (como podemos ver com o Lula e a Dilma). Quando fizerem uma aceno para o capital financeiro, os jornais todos exibirão o governo como um traidor aos que haviam confiado neles e o capital financeiro aproveitará a desconfiança geral para exigir coisas cada vez mais impossíveis.
A solução que eles estão buscando, a não capitulação para o império financeiro anglo-saxão, pode funcionar. Não é juros altos que os investidores argentinos em dólares estão pedindo, é reserva de valor. Querem um investimento seguro e não um investimento que promete muita rentabilidade.
Nesse caso, a melhor solução são títulos públicos indexados em mercadorias ou cestas de mercadorias, como por exemplo, os indexados e inflação. Isso por si só pode acabar com o ataque cambial caso houver bom superavit comercial e equilíbrio em conta-corrente do balanço de pagamentos com o exterior. No Brasil isso funcionou bem por uns 15 anos seguidos. Funcionou também na Alemanha por 2 vezes, nos anos 20 e nos anos 30.
Para gerar rapidamente, sem inflação, um supersaldo comercial e equilibrar a conta-corrente no balanço de pagamentos basta fazer um regime de câmbio múltiplo com umas 5 taxas de câmbio. No Brasil isso funcionou muito bem por uns 15 anos, também na Alemanha nos anos 30.
Com isso o governo consegue sair da crise rapidamente reduzindo a inflação e ainda sem aumentar os juros, ou aumentando um pouco, dependendo de como é feito.
