
Os EUA e sua postura hipócrita que somente procura aproveitar-se economicamente de outros países (Blog Chebola/Repropdução)
Por Josep Xercavins Valls*, via Other News
A afirmação que dá título a este texto de hoje poderia ser o título de um filme já muito visto e repetido: Mais um dos filmes de sempre!
Nos últimos meses, no entanto, estamos vivendo um dos exemplos mais claros, um dos filmes mais maldosos, de uma tendência, de uma realidade que piora dia a dia e em temas sempre muito importantes!
É evidente que os EUA estão muito próximos de não mais ser a primeira potência econômica mundial, por outro lado, é também certo que continuarão a ser, por bastante tempo, a primeira potência militar e, por conseguinte, política do mundo.
O protocolo de Kyoto é um símbolo da hipocrisia dos EUA no cenário internacional.
É bem sabido (lemos tantas vezes no contexto de um assunto cada vez “mais quente” hoje no mundo: o das mudanças climáticas) que os EUA participaram ativamente e firmaram positivamente, a princípio, o Protocolo de Kyoto para a redução das emissões de gás de efeito estufa. Porém, essa postura mudou depois, e apesar de algumas tentativas de aderir por parte da administração Clinton/Al Gore, acabaram por não ratificar o documento.
Esta dualidade contraditória: participo ativamente na elaboração e firmo um tratado multilateral, em seguida não o ratifico, e portanto, não contribuo para a entrada em vigor deste e, logicamente, não faço o mínimo para cumprir a parte que me corresponde – a que estive disposto a praticar -, é o pior favor que se pode prestar em um sistema político relativamente democrático, ainda mais levando-se em conta o multilateralismo que tenta ser praticado depois das duas guerras mundias do último século.
Peço perdão ao leitor por explicar desavenças pessoais, porém, creio que este caso é emblemático e evidencia de tal maneira a hipocrisia com que os EUA tratam estes temas, que não posso deixar de explicar-lhes. Estávamos em Johannesburgo, em 2002, na celebração da cúpula da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (conhecida atualmente como Rio+10).
O Protocolo de Kyoto ainda não havia entrado em vigor (foi aprovado em 1987) porque as condições de ratificação ainda não haviam sido cumpridas, o que é normal nestes casos. Os EUA eram um dos ratificadores que emperravam o processo. Pois bem, como é habitual nestas cúpulas, entre outras coisas muito mais importantes, os diferentes Estados-membros que participam tomam a palavra diante do plenário da cúpula durante os dias de duração do evento. No último dia pela manhã, discursava os EUA e, em seu nome, o fez o conhecido (por tantas coisas) secretário de Estado à época, Colin Powell. A surpresa veio quando Powell defendeu, em sua intervenção perante a plenária, o Protocolo de Kyoto, animando os países a ratificá-lo. A indignação foi tão grande que, espontaneamente houveram protestos que obrigaram Powell a abandonar a sala apressadamente, escoltado pela polícia da ONU, responsável pela segurança das reuniões.
Atualmente, os EUA não estão ratificando um acordo internacional que reformaria o FMI, esta reforma visa destravar pontos fundamentais da Governança Econômica Mundial.
Se só permitirem isto já estou tranquilo, pois, o FMI é uma das organizações internacionais responsáveis por muitos dos males socioeconômicos que o mundo sofre atualmente. Provavelmente estas reformas deveriam ser muito amplas, porém, não podemos depreciar uma proposta de reforma que mudaria substantivamente sua governança, e a princípio, de forma positiva.
Também é de conhecimento amplo que o sistema de tomada de decisões do FMI é do tipo acionário, ou seja, se dão em função das “ações-cotas” que tem um integrante, quanto mais dinheiro possuis no órgão, maior é sua influência em termo de votos.
Desde os anos 70 quem possui o controle absoluto do FMI é o G5 (EUA com 16,75% de votos, Japão com 6,23%, Alemanha com 5,81%, França com 4,29% e Reino Unido com 4,29%). A soma dos votos do G5 é de 37,37%, que se junta a um regulamento de votações que torna impossível que alguma outra soma de votos possa se sobrepôr a esta, e que ainda dá direito de veto aos norte-americanos, isto demonstra o poder absoluto do G5 sobre o FMI. A sigla G5 não é mais utilizada atualmente, mas temos ouvido falar ultimamente sobre o G7 (G5 mais Canadá e Itália) e G8 (G7 mais Rússia), tudo indica, no entanto, que tornará a ser chamado G7 pois a Rússia receberá um “castigo” por onta dos últimos acontecimentos na Crimeia. Em todo caso, esta reunião é de suma importância porque tem sustentado há muitos anos o poder econômico mundial via FMI e Banco Mundial, as instituições de Bretton Woods.
O FMI teve uma acentuada queda por volta de 2005. Se viu sem clientes. Os países em desenvolvimentos se livraram como puderam de sua influência sempre lembrando da dura época da globalização econômica neoliberal e, inclusive, falava-se que o melhor era extinguir a entidade.
A crise financeira iniciada em 2007, que em 2008 generaliza, faz com que em 2009, na reunião do G20 em Londres (então em plena efervescência) ocorra a maior injeção econômica já realizada na organização (1 trilhão de dólares), o que ressuscitou sua força. Esta foi uma proposta de Obama.
Agora os novos clientes do FMI são: Grécia, Portugal, Irlanda e muito provavelmente a Ucrânia… Agora é a Europa que é tocada pela varinha mágica e maldosa do neoliberalismo.
A crise econômico-financeira que estamos vivendo ocorre em paralelo com outra situação cada vez mais evidente: a importância das economias emergentes no cenário global, que não é só relativa, senão tem atuado como motor da economia mundial nos últimos anos.
Este é um dos pontos que explicam a criação do G20 que posteriormente passou a desinflar politicamente, como mais uma das bolhas que caracterizaram a última crise.
Antes de esvaziar-se, na reunião de Seoul em novembro de 2010, o G20 chegou a um pacote de acordos de reforma do FMI que, na prática, deixariam intactos o atual sistema de organizações internacionais, porém representariam um reequilíbrio relevante da Governança Econômica Mundial.
Na prática este acordo dava a China 6,4% de votos no FMI, que passaria a ser o segundo país de mais votos, o conjunto dos BRICS passaria a ter 12,9% da representação. É evidente que esta reforma faria que o G5 dividisse o poder de Governança da Economia Mundial com os BRICS. Outro importante aspecto da reforma é que os países europeus reduziriam sua presença no comitê executivo do FMI a só duas cadeiras (hoje possui 24), entende-se também que, depois da reforma, os membros do comitê executivo passariam a ser elegidos, atualmente os países do G5 nomeiam diretamente seus diretores.
Os Estados Unidos se negam a ratificar este novo e importante acordo internacional.
Ainda que não estejamos falando de um tratado internacional strictu sensu, a reforma é de tal magnitude e relevância que acordou-se que seria ratificado, no mínimo, pelos países mais envolvidos. Sobretudo pelos EUA.
Pois bem, Washington voltou a não aprovar o pacote de acordos de Seoul, é a segunda vez este ano: primeiro foi no congresso anterior do dia 13 de janeiro e agora, na terceira semana de março, tanto o congresso quanto o senado norte-americano voltaram a reiterar que não aprovavam o pacote. Tornou-se claro que este não é um problema de dinheiro e sim de poder.
Este constitui mais um exemplo bem recente e importante de algo que temos dito e repetimos hoje:
Participar ativamente na elaboração e firmamento de um tratado – um acordo – multilateral, mas depois não ratificá-lo é não contribuir para que o tratado – o acordo – entre em vigor e, logicamente, não fazê-lo para não ter de cumprir a parte correspondente – a que tinha concordado em cumprir – é o pior favor político que se pode prestar a um sistema que se pretende democrático, é ainda mais para o multilateralismo que tenta ser construído após as guerras mundiais do século passado. Isso é o que continua fazendo os EUA: o pior “amigo” do multilateralismo!
*Presidente da associação projeto Governança Democrática Mundial, apGDM, (Organização Catalã Associada ao Movimento Federalista Mundial, MFM-WFM). Professor da Universidade Politécnica da Catalunha, UPC, e coordenador do grupo de investigação em sustentabilidade, tecnologia e humanismo, STH.
Tradução: Rennan Martins
