A falta de resposta dos heterodoxos

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Por Gustavo Santos

Acho incrível como diante de tantas evidências a nosso favor, não conseguimos impor nossas ideias. Ao contrário, o argumento ortodoxo continua irrestível para grande parte de professores que se dizem heterodoxos. 

Sendo repetitivo, como eles podem dizer que Portugal é um sucesso? Queda de salário, explosão do desemprego, corte sociais, isso tudo é sucesso porque Portugal conseguiu voltar ao mercado? Os títulos públicos portugueses aumentaram e investidores ganharam dinheiro. Grande coisa. Mas, só pra lembrar também a valorização dos títulos públicos portugueses não se deve a austeridade fiscal, mas à forte injeção de liquidez do Banco Central Europeu, injeção virtualmente ilimitada. Essa valorização dos títulos, ao invés de ser uma evidência contrária ao keynesianismo, é uma evidência favorável. Aliás, segundo a teoria ortodoxa, a “consolidação fiscal” não aumenta o desemprego, porque existiria crowding out. Como explicar pela teoria ortodoxa, a manutenção por muito anos de taxas de desemprego de jovens de cerca 50%?

Mesmo com todo esse sucesso, o FMI espera que em 2019 a taxa de desemprego na Espanha seja 2,5 vezes maior do que antes da crise. Porque os heterodoxos têm tanto medo de enfrentar o mercado financeiro e dizer que o governo tem que governar para a melhora da qualidade de vida da população ao invés de indicadores do mercado financeiro? Acho que a explicação para isso é a ideia de que as políticas têm que ser sustentáveis economicamente. Mas, por falta de teoria consistente, economistas, mesmo heterodoxo, assumem que os indicadores do mercado financeiro seriam um sinal de que a economia está indo bem ou mal. Por diversos motivos não concordo com isso. E, mesmo que indicadores do mercado financeiro, possam refletir a saúde da economia, seguir conselhos do mercado financeiro é normalmente ruim para o desenvolvimento de longo prazo.

Os especuladores não têm o menor compromisso em sustentar governos que seguiram suas recomendações (vide caso do governo FHC, Menem e De la Rua e as diversas crises cambiais dos anos 90) ou de punir governos que fizeram o contrário do que pregavam (China e Malásia pós controle de capital). Claro que temos que preocupar com indicadores que mostram a sustentabilidade de longo prazo de determinadas políticas. E quais são eles? Participação da indústria de transformação no PIB, crescimento das exportações, saldo em conta corrente, nível de endividamento privado, preço de ativos (para verificar se há bolha). 

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